{"id":8270,"date":"2018-03-23T15:05:20","date_gmt":"2018-03-23T18:05:20","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/eu-achava-que-todos-sao-iguais-mas-entendi-que-diferenca-nao-e-um-problema\/"},"modified":"2018-03-23T15:05:20","modified_gmt":"2018-03-23T18:05:20","slug":"eu-achava-que-todos-sao-iguais-mas-entendi-que-diferenca-nao-e-um-problema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/eu-achava-que-todos-sao-iguais-mas-entendi-que-diferenca-nao-e-um-problema\/","title":{"rendered":"\u201cEu achava que todos s\u00e3o iguais, mas entendi que diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um problema\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nilda F\u00e1tima Moraes de Oliveira Silva \u00e9 diretora da Escola Estadual C\u00e2ndido Mariano, em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul. Nilda, ali\u00e1s, estudou nessa mesma escola. Quando se formou, escolheu ser professora l\u00e1, depois coordenadora, e agora atua na dire\u00e7\u00e3o h\u00e1 tr\u00eas anos. \u201cEu amo aquela escola, \u00e9 a minha comunidade\u201d, diz. \u201cE eu queria fazer algo para melhorar a nossa autoestima\u201d.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A baixa valoriza\u00e7\u00e3o da comunidade acontece porque trata-se de um bairro pobre, de popula\u00e7\u00e3o ribeirinha e com v\u00e1rias aldeias ind\u00edgenas ao redor. Isso n\u00e3o impede que eles tenham o maior Ideb n\u00e3o apenas da cidade, mas de todo o Mato Grosso do Sul. Ainda assim, a autoimagem precisa de uma massagem. \u201cSe voc\u00ea chega na conversa falando que \u00e9 do Baixad\u00e3o, a coisa fica feia. Mas eu me sinto orgulhosa de ser de l\u00e1\u201d, conta Nilda.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A quest\u00e3o principal que Nilda gostaria de trabalhar com os alunos \u00e9 do pertencimento \u00e0 escola e ao povo ribeirinho. Atividades de teatro, dan\u00e7a e iconografia foram fundamentais para trabalhar a autoestima dos alunos e dos moradores do entorno. \u201cA comunidade \u00e9 valorizada, representada pelas iconografias Teren\u00e3, dos ind\u00edgenas, e afro-brasileira, e os alunos aprenderam a cuidar melhor de si e de seus estudos atrav\u00e9s do teatro e da dan\u00e7a, quando se sentiram parte de um todo\u201d, orgulha-se a diretora. \u201cA pessoa que se ama e se respeita, busca melhorar. Como eles v\u00e3o procurar estudar, fazer tarefas, coisas que para n\u00f3s s\u00e3o naturais, se eles n\u00e3o se sentem parte da escola? Hoje eles j\u00e1 chegam falando que s\u00e3o do Baixad\u00e3o e que s\u00e3o ind\u00edgenas. Antes, diziam apenas que eram bolivianos\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em 1998, ainda como professora, Nilda lan\u00e7ou o trabalho pela primeira vez com o t\u00edtulo \u201cSomos todos iguais\u201d. \u201cEu achei que estava abafando com o projeto, e convidei Ana Maria Sena, ativista do movimento negro de Campo Grande, para assistir\u201d, conta. Ao final da apresenta\u00e7\u00e3o, Ana relatou seu inc\u00f4modo com a frase. \u201cAs apresenta\u00e7\u00f5es dos alunos foram porretas, mas essa frase&#8230; n\u00e3o caiu bem\u201d. A not\u00edcia foi indigesta para Nilda. Ana explicou: \u201cNilda, o que voc\u00ea pretendia dizer com essa frase?\u201d \u201cQue n\u00f3s merecemos ter os mesmos direitos que todas as pessoas t\u00eam\u201d. \u201cMas olha o que voc\u00ea escreveu: \u2018Somos todos iguais\u2019\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Aquela provoca\u00e7\u00e3o ficou martelando na cabe\u00e7a de Nilda, que passou os sete anos seguintes pesquisando sobre tem\u00e1ticas ind\u00edgenas e afro-brasileiras juntamente com sua comunidade ribeirinha. Com base nos estudos e nas forma\u00e7\u00f5es oferecidas pela rede estadual, Nilda percebeu que a beleza est\u00e1 justamente na diferen\u00e7a entre as experi\u00eancias de vida e de hist\u00f3ria de cada povo. E tenta, desde ent\u00e3o, passar isso aos seus alunos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em 2005, o nome do projeto mudou para \u201cA diferen\u00e7a \u00e9 o tempero da vida\u201d, e segue assim at\u00e9 hoje na E.E. C\u00e2ndido Mariano. Agora, as palavras \u201crespeito\u201d e \u201cequidade\u201d s\u00e3o pontos centrais da escola. E Nilda foi al\u00e7ar voos maiores para o projeto, na Ger\u00eancia de Educa\u00e7\u00e3o da rede. Foi quando sentiu a resist\u00eancia de seus colegas em aprender a trabalhar valores na escola. \u201c\u00c0s vezes, a gente fala que o professor n\u00e3o aprendeu isso na escola, que no tempo dele foi s\u00f3 aprender a ler, escrever e fazer as quatro opera\u00e7\u00f5es. Mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o aprendi. S\u00f3 fui ver isso em um semin\u00e1rio internacional, depois que eu havia me formado na faculdade. Ent\u00e3o todo dia \u00e9 dia de aprender\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ela percebe uma mudan\u00e7a nas escolas depois da aprova\u00e7\u00e3o da lei 10.639, que determina a obrigatoriedade do ensino de hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira no ciclo b\u00e1sico. \u201cAlguns lugares passaram a trabalhar esses conte\u00fados, mas outros n\u00e3o. Esperam somente para falar no Dia da Consci\u00eancia Negra, 20 de novembro, ou no Dia do \u00cdndio, 19 de abril. S\u00e3o coisas muito estanque\u201d, critica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nilda reconhece que trabalhar a inclus\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo dif\u00edcil. \u201cTrabalhar com crian\u00e7a \u00e9 muito f\u00e1cil. Dif\u00edcil \u00e9 trabalhar com a gente mesmo e com os nossos colegas. Mas eu consegui algo importante: a comunidade. Talvez eu tenha facilidade por ser de l\u00e1, mas eu acredito que \u00e9 poss\u00edvel engajar quando um projeto n\u00e3o surge da nossa cabe\u00e7a, e sim de um problema real\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Entre avan\u00e7os e retrocessos, Nilda segue na luta, conversando desde cedo com os mais novos sobre a import\u00e2ncia de reconhecer e aceitar as diferen\u00e7as. \u201cTenho o h\u00e1bito de usar o exemplo das m\u00e3os quando converso com meus pixotinhos das s\u00e9ries iniciais. Eu falo \u2018Gente, quais dedos s\u00e3o iguais na nossa m\u00e3o?\u2019 Eles respondem \u2018Nenhum\u2019. \u2018E qual dedo \u00e9 mais ou menos importante?\u2019 \u2018Todos s\u00e3o importantes, professora\u2019. Ent\u00e3o t\u00e1 a\u00ed. Que bom que n\u00f3s, assim como nossos dedos, n\u00e3o somos iguais. Mas merecemos, sim, direitos iguais\u201d.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nilda F\u00e1tima Moraes de Oliveira Silva \u00e9 diretora da Escola Estadual C\u00e2ndido Mariano, em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul. Nilda, ali\u00e1s, estudou nessa mesma escola. 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