{"id":806,"date":"2004-09-29T17:31:00","date_gmt":"2004-09-29T20:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2004\/09\/29\/escolas-comercializam-seus-proprios-metodos-de-ensino\/"},"modified":"2004-09-29T17:31:00","modified_gmt":"2004-09-29T20:31:00","slug":"escolas-comercializam-seus-proprios-metodos-de-ensino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/escolas-comercializam-seus-proprios-metodos-de-ensino\/","title":{"rendered":"Escolas comercializam seus pr\u00f3prios m\u00e9todos de ensino"},"content":{"rendered":"<p>A efici\u00eancia com que os cursos preparat\u00f3rios, surgidos em sua grande maioria entre os anos 60 e 70, colocavam alunos nas principais universidades brasileiras fez com que suas marcas ganhassem a confian\u00e7a de pais e estudantes. De l\u00e1 pra c\u00e1, foi um passo para que expandissem seus m\u00e9todos a outros n\u00edveis de ensino e alcan\u00e7assem at\u00e9 mesmo col\u00e9gios tradicionais. Os sistemas de ensino est\u00e3o presentes em milhares de escolas, n\u00e3o s\u00f3 no pa\u00eds mas tamb\u00e9m no exterior. Comercializam material did\u00e1tico (apostilas, cadernos de exerc\u00edcios e CD-ROM, entre outros) e oferecem treinamento a professores e coordenadores pedag\u00f3gicos, al\u00e9m de servi\u00e7os como cursos e palestras. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Uma das mais recentes incurs\u00f5es nesse mercado \u00e9 a da cat\u00f3lica Rede Salesianas de Escolas, que tem mais de 120 anos no Brasil. Com cerca de 90 mil alunos espalhados por 110 escolas, a rede acabou de desenvolver material did\u00e1tico pr\u00f3prio: vai introduzi-lo em suas unidades e partir para a sua comercializa\u00e7\u00e3o no ano que vem. \u201cAs escolas religiosas t\u00eam perdido por ano cerca de 2% dos alunos. N\u00e3o costumamos ter muitas estrat\u00e9gias de marketing e acabamos ficando isolados. Chegou a hora de mudar isso\u201c, diz o padre Nivaldo Luiz Pessinatti, presidente da Confer\u00eancia dos Salesianos do Brasil. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Para coordenadores e diretores de institutos produtores desses sistemas, o objetivo \u00e9 disseminar um m\u00e9todo de ensino de qualidade que d\u00ea certo em sala de aula, mas n\u00e3o deixe de lado quest\u00f5es mercadol\u00f3gicas. \u201cToda escola \u00e9 uma empresa, e a concorr\u00eancia est\u00e1 cada vez mais agressiva. \u00c9 preciso trabalhar o aspecto financeiro ao lado do pedag\u00f3gico. Caso contr\u00e1rio, uma escola pode correr o risco de fechar\u201c, diz M\u00e1rcia Carvalinha, coordenadora pedag\u00f3gica do Sistema Objetivo. Como o Objetivo, que passou a oferecer \u00e0s escolas parceiras assessoria em marketing e gest\u00e3o empresarial, al\u00e9m de apoio pedag\u00f3gico, outros grupos t\u00eam seguido esse caminho. O motivo, segundo o superintendente do Sistema COC, Nilson Curti, \u00e9 que muitas escolas adotam uma administra\u00e7\u00e3o familiar ou s\u00e3o formadas por educadores sem vis\u00e3o de mercado. \u201cSugerimos estrat\u00e9gias para que a escola se solidifique pedag\u00f3gica e economicamente, consiga visibilidade e bons resultados; ela cresce, e o sistema tamb\u00e9m\u201c, diz Curti. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Esse crescimento foi sentido por Sonia de Carvalho Aleixo, do col\u00e9gio Jesus Maria Jos\u00e9, em Franca (400 km ao norte de S\u00e3o Paulo). Fundado h\u00e1 85 anos, o col\u00e9gio cat\u00f3lico come\u00e7ou a sentir a press\u00e3o da concorr\u00eancia. \u201cPrecis\u00e1vamos nos modernizar, est\u00e1vamos perdendo alunos\u201c, diz Sonia. Em 1996, o col\u00e9gio optou pelo Sistema Etapa na quinta s\u00e9rie do fundamental e no primeiro ano do ensino m\u00e9dio. Hoje, ele \u00e9 utilizado do ensino infantil ao pr\u00e9-vestibular. Da crise que levou o col\u00e9gio a ter pouco mais de 200 alunos, houve um salto: atualmente, tem mais de 800 estudantes. \u201cA op\u00e7\u00e3o por um novo sistema de ensino, aliada \u00e0 firmeza da dire\u00e7\u00e3o e ao time de professores, resultou em sucesso\u201c, conta. Esse resultado, para Sonia, pode ser medido tamb\u00e9m pelo ingresso dos alunos em universidades \u201cprestigiadas\u201c: em 2003, 80% dos que prestaram vestibular foram aprovados, segundo a diretora. \u201cO pai que coloca o filho no infantil j\u00e1 quer saber a aprova\u00e7\u00e3o que obtemos nos vestibulares. Isso conta muitos pontos\u201c, diz. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> N\u00e3o \u00e0 toa, uma das formas de publicidade mais utilizadas \u00e9 usar como exemplo alunos que conseguiram uma vaga na USP ou Unicamp. \u201cN\u00e3o h\u00e1 como negar que nossa efici\u00eancia em preparar os estudantes para os maiores vestibulares \u00e9 um ponto muito forte\u201c, diz Leila Rensi, supervisora pedag\u00f3gica do Sistema Anglo. M\u00e1rcia, do Objetivo, completa: \u201cEles querem o respaldo da marca\u201c. \u201cSe a classe m\u00e9dia s\u00f3 quer saber se o filho vai entrar na faculdade, por que as escolas t\u00eam de pensar diferente? A fam\u00edlia compra um produto, e a escola oferece um. Ganhar dinheiro com educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pecado mortal\u201c, diz a educadora Guiomar Namo de Mello, diretora-executiva da Funda\u00e7\u00e3o Vitor Civita, que apoia e realiza projetos educacionais. Por tr\u00e1s dessa rela\u00e7\u00e3o de compra e venda est\u00e3o quest\u00f5es delicadas, acredita a soci\u00f3loga e educadora Elo\u00edsa Mattos H\u00f6fling, do N\u00facleo de Pesquisa em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Educa\u00e7\u00e3o da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Unicamp. \u201cAcho que existe um risco muito grande nesse esquema, que funciona quase como um franchising\u201c, diz Elo\u00edsa, para quem o processo educacional envolve rela\u00e7\u00f5es particulares e diferenciadas. \u201cO material uniformizado pode levar a uma rela\u00e7\u00e3o tecnicista com a educa\u00e7\u00e3o\u201c, critica. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> De outro lado, o economista Cl\u00e1udio de Moura e Castro, ex-diretor da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o do Banco Interamericano de Desenvolvimento e consultor pedag\u00f3gico no Sistema Pit\u00e1goras, \u00e9 um defensor dessa expans\u00e3o. Para ele, os sistemas privados de ensino est\u00e3o fazendo o que as secretarias de Educa\u00e7\u00e3o deveriam fazer, mas n\u00e3o fazem, ou seja, cuidar do planejamento minucioso da educa\u00e7\u00e3o que vai ser oferecida &#8211; desde as aulas at\u00e9 o material did\u00e1tico. \u201cO sucesso dessas redes privadas deve-se ao fato de elas terem um projeto pedag\u00f3gico eficiente, prestarem assessoria de qualidade e darem apoio para as escolas crescerem\u201c, sustenta o economista. Algumas prefeituras j\u00e1 adotaram essa id\u00e9ia: as cidades de Vinhedo e Brotas, no interior de S\u00e3o Paulo, passaram a utilizar sistemas privados em escolas da rede municipal. Desde que sigam par\u00e2metros e diretrizes estabelecidos pelo MEC, t\u00eam autonomia para decidir o m\u00e9todo de ensino. Paulo Renato Souza, ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o (1995-2002) e atual diretor da consultoria educacional que leva seu nome, faz uma pondera\u00e7\u00e3o sobre os sistemas privados: \u201cO risco existe com rela\u00e7\u00e3o aos objetivos do ensino b\u00e1sico. Nessa fase, \u00e9 preciso desenvolver a capacidade de pensar, de raciocinar &#8211; em oposi\u00e7\u00e3o a um m\u00e9todo que prioriza a memoriza\u00e7\u00e3o\u201c. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Foi essa a preocupa\u00e7\u00e3o de La\u00eds Vieira Medina. Com o que economizou em mais de 25 anos como professora e diretora de escolas p\u00fablicas, decidiu, depois de se aposentar, abrir a primeira escola particular de Cravinhos (294 km ao norte de S\u00e3o Paulo). Como seu objetivo era come\u00e7ar com os ensinos infantil e fundamental, ela diz n\u00e3o ter se preocupado com os \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o dos alunos nos vestibulares. \u201cQueria um sistema que estivesse de acordo com a minha filosofia, com meu modo de pensar a educa\u00e7\u00e3o\u201c, conta La\u00eds, que em 1999 abriu o Sevime, em parceira com o Sistema Positivo. \u201cO m\u00e9todo me d\u00e1 muito apoio, me fornece diretrizes, e eu encaixo meu modo de pensar dentro disso\u201c. A fazendeira M\u00e1rcia Regina Motta Minohara, 33, tem tr\u00eas filhos no Sevime. A mais nova, Ana J\u00falia, tem seis anos e entrou na escola com tr\u00eas. \u201cA apostila prop\u00f5e atividades que fa\u00e7am a crian\u00e7a adquirir autonomia e senso de responsabilidade\u201c, conta M\u00e1rcia, para quem o fato de a escola manter um mesmo m\u00e9todo do maternal ao ensino m\u00e9dio d\u00e1 estabilidade. \u201cMeus filhos ter\u00e3o ensino de qualidade durante todo o processo educacional, o que me d\u00e1 seguran\u00e7a.\u201c \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Manter a autonomia tamb\u00e9m foi o aspecto que pesou na hora de a escola Crescimento, de S\u00e3o Luiz (MA), adotar o Sistema Pueri Domus. \u201cN\u00e3o foi f\u00e1cil achar um parceiro que estivesse aliado \u00e0 nossa proposta pedag\u00f3gica. Quer\u00edamos fazer parte de uma rede que nos proporcionasse atualiza\u00e7\u00e3o constante sem mudar nossas caracter\u00edsticas essenciais\u201c, diz Adriane Bacelar de Castro, vice-diretora pedag\u00f3gica do col\u00e9gio. Tereza Vieira de Carvalho, do Centro Educacional Etip, de Santo Andr\u00e9 (na Grande S\u00e3o Paulo), escola que trabalha com o Dom Bosco, de Curitiba, concorda: \u201cConclu\u00edmos que o sistema pode ser um impulso, mas o modo como o professor trabalha com ele \u00e9 mais importante\u201c. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Como o professor se encaixa nesses sistemas \u00e9 um ponto nevr\u00e1lgico da quest\u00e3o. Nenhum dos docentes ouvidos pelo Sinapse que discordam dos sistemas de ensino com que trabalham quis se identificar. Mas, quase em un\u00edssono, criticam a limita\u00e7\u00e3o do trabalho em sala de aula. \u201cFoi um choque. O professor acaba trabalhando de maneira informativa, e n\u00e3o formativa, e n\u00e3o existe liberdade de planejamento. Tudo j\u00e1 vem pronto, o professor s\u00f3 executa\u201c, diz Francisco (nome fict\u00edcio), professor de geografia em um col\u00e9gio de S\u00e3o Paulo que, h\u00e1 tr\u00eas anos, adotou um sistema de ensino. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Jo\u00e3o Batista Ara\u00fajo e Oliveira, diretor da consultoria em educa\u00e7\u00e3o JM Associados, acredita que, quando toda a orienta\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica \u00e9 predefinida e r\u00edgida, a liberdade do professor pode ser restringida. \u201cO sistema pode reduzir a capacidade de atua\u00e7\u00e3o do professor se impuser um cronograma a ser cumprido. Cabe ao docente encontrar brechas e ser criativo.\u201c Pais de alunos tamb\u00e9m parecem concordar que \u00e9 o professor que faz a diferen\u00e7a em sala de aula. No final de 2003, Regina Negreiros Negrini, 26, pesquisadora na \u00e1rea de literatura, mudou-se de S\u00e3o Paulo para o litoral do Estado com Pedro, 8, seu filho. O menino teve de deixar o tradicional col\u00e9gio Dante Alighieri para cursar a segunda s\u00e9rie do ensino fundamental em uma escola que adota o Sistema Positivo. Ap\u00f3s um semestre, a m\u00e3e analisa os pr\u00f3s e contras. \u201cEles prop\u00f5em muitas atividades via internet, o que eu acho v\u00e1lido. Mas acredito nos livros como as grandes fontes de conhecimento.\u201c Regina tamb\u00e9m se incomoda um pouco com o fato de seu filho j\u00e1 ter um professor para cada disciplina: \u201cSinto falta da professora que \u00e9 chamada de  tia  e est\u00e1 mais pr\u00f3xima dos alunos\u201c. Mas ela acredita que \u201ca efic\u00e1cia do sistema depende muito do professor, que \u00e9 tanto melhor quanto mais atividades e materiais diferenciados ele prop\u00f5e, n\u00e3o ficando apenas na apostila\u201c.\u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A efici\u00eancia com que os cursos preparat\u00f3rios, surgidos em sua grande maioria entre os anos 60 e 70, colocavam alunos nas principais universidades brasileiras fez com que suas marcas ganhassem a confian\u00e7a de pais e estudantes. 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