{"id":7350,"date":"2017-05-08T13:17:22","date_gmt":"2017-05-08T16:17:22","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/o-que-os-eua-podem-ensinar-ao-brasil-sobre-a-implantacao-da-base-curricular\/"},"modified":"2017-05-08T13:17:22","modified_gmt":"2017-05-08T16:17:22","slug":"o-que-os-eua-podem-ensinar-ao-brasil-sobre-a-implantacao-da-base-curricular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/o-que-os-eua-podem-ensinar-ao-brasil-sobre-a-implantacao-da-base-curricular\/","title":{"rendered":"O que os EUA podem ensinar ao Brasil sobre a implanta\u00e7\u00e3o da base curricular"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Reportagem mostra os desafios para a implanta\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o curricular \u00fanico. No Brasil, a normatiza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados por fase escolar pode vigorar a partir de 2019. Nos EUA, onde a iniciativa data de 2010, falta de treino de professores, inadequa\u00e7\u00e3o do material did\u00e1tico e disputas pol\u00edticas s\u00e3o os principais obst\u00e1culos.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O atual cen\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o brasileira lembra muito o dos Estados Unidos de 2010. Naquele ano, o ent\u00e3o presidente Barack Obama, o bilion\u00e1rio Bill Gates, governadores e sindicatos docentes apostavam que um padr\u00e3o curricular nacional rigoroso e in\u00e9dito colocaria os estudantes do pa\u00eds entre os melhores do mundo nas avalia\u00e7\u00f5es internacionais de aprendizagem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Obama investiria cerca de US$ 1 bilh\u00e3o na ideia, num dos maiores programas federais de ensino da hist\u00f3ria americana. O fundador da Microsoft distribuiria US$ 200 milh\u00f5es. Estados governados por democratas e republicanos incorporariam voluntariamente a pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Sete anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento, o sucesso imaginado ainda n\u00e3o se tornou realidade \u2013e h\u00e1 d\u00favidas se isso acontecer\u00e1 um dia. A situa\u00e7\u00e3o serve de alerta para o Brasil, que se prepara para adotar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em na\u00e7\u00f5es com popula\u00e7\u00e3o menor, como Austr\u00e1lia, Cingapura e Portugal, bases curriculares t\u00eam sido exitosas. Para muitos pesquisadores, contudo, \u00e9 mais adequado comparar o Brasil com os EUA. Ambos s\u00e3o pa\u00edses continentais e federados (Estados com autonomia) que convivem com desigualdades educacionais e regionais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O documento americano, chamado Common Core (n\u00facleo comum), estabelece o conjunto de habilidades que os alunos devem ter a cada s\u00e9rie, da pr\u00e9-escola ao ensino m\u00e9dio. Ao menos na teoria, uniformizar a educa\u00e7\u00e3o permite maior colabora\u00e7\u00e3o entre os Estados e facilita compara\u00e7\u00f5es entre eles.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">S\u00e3o objetivos parecidos com os do Brasil. No m\u00eas passado, o governo Michel Temer (PMDB) lan\u00e7ou sua base curricular, com amplo apoio de Estados, munic\u00edpios e funda\u00e7\u00f5es privadas. Na cerim\u00f4nia estavam presentes gestores da administra\u00e7\u00e3o Dilma Rousseff (PT), numa demonstra\u00e7\u00e3o de apoio suprapartid\u00e1rio \u00e0 iniciativa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Discutida desde 2014, ainda no governo petista, a proposta brasileira valer\u00e1 do ensino infantil ao ensino m\u00e9dio. Abranger\u00e1 col\u00e9gios p\u00fablicos e particulares, num universo de 40 milh\u00f5es de estudantes (nos EUA, s\u00e3o 55 milh\u00f5es).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao definir o que o estudante brasileiro deve saber a cada s\u00e9rie, o documento ser\u00e1 refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para os novos materiais did\u00e1ticos e para a forma\u00e7\u00e3o de professores. Estados e munic\u00edpios elaborar\u00e3o seus pr\u00f3prios planos (os curr\u00edculos em si) para ensinar o que a Base Nacional determina.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Essa ampla reorganiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era o que os EUA esperavam com o Common Core a partir de 2010. Hoje, por\u00e9m, o otimismo transformou-se em ceticismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Dos 45 Estados que adotaram o Common Core, 9 desistiram. A aprova\u00e7\u00e3o popular \u00e0 medida, que chegou a 90% em 2012, agora \u00e9 de 50%. Entre professores, o apoio caiu de 80% para cerca de 40% no mesmo per\u00edodo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>OBST\u00c1CULOS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O que aconteceu entre 2010 e 2017?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Erros na implementa\u00e7\u00e3o e disputas pol\u00edticas foram as respostas mais ouvidas nos \u00faltimos sete meses pela reportagem, que visitou escolas e consultou estudos acad\u00eamicos, pesquisadores, autoridades, diretores e professores em diferentes Estados americanos, como Nova York, Kentucky, Washington, Calif\u00f3rnia e Nova Jersey.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;O Common Core foi bem desenhado. \u00c9 compat\u00edvel com as melhores bases curriculares do mundo, mas isso n\u00e3o basta. Ele deve ser visto pelos brasileiros como um forte sinal de alerta&#8221;, afirmou \u00e0 Folha o alem\u00e3o Andreas Schleicher, diretor do Pisa, principal avalia\u00e7\u00e3o internacional de estudantes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na coordena\u00e7\u00e3o dessa prova desde seu in\u00edcio, h\u00e1 20 anos, Schleicher \u00e9 um dos maiores conhecedores de sistemas educacionais do mundo. &#8220;Sem uma boa implementa\u00e7\u00e3o, uma boa base curricular pode virar s\u00f3 palavras num papel.&#8221; Implementa\u00e7\u00e3o \u00e9 a etapa que o Brasil est\u00e1 prestes a enfrentar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os EUA n\u00e3o melhoraram na \u00faltima prova do Pisa, aplicada em 2015. Alguns Estados usavam o Common Core havia dois ou tr\u00eas anos, mas os alunos americanos continuaram abaixo da m\u00e9dia dos pa\u00edses desenvolvidos em matem\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Moradora de Long Island, regi\u00e3o de classe m\u00e9dia de Nova York, Jeanette Deutermann, 43, lembra-se das fases iniciais do Common Core. Em 2012, seu filho come\u00e7ou a sentir dores de est\u00f4mago. Chorava para ir \u00e0 escola, que \u00e9 p\u00fablica. Um m\u00e9dico disse que poderia ser estresse. &#8220;Como assim? Estresse em um menino de oito anos?&#8221;, recorda-se a m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ainda sem pistas do que estava acontecendo, a dona de casa conversou com educadores. Descobriu que o curr\u00edculo havia mudado por causa do n\u00facleo comum. O jeito de ensinar era diferente. O garoto n\u00e3o entendia as aulas, e a m\u00e3e n\u00e3o conseguia mais ajud\u00e1-lo, pois ela n\u00e3o conhecia o novo m\u00e9todo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m disso, os alunos eram submetidos a um novo teste, cujos resultados pesavam na avalia\u00e7\u00e3o dos professores. &#8220;A escola se voltou para o que cairia nessas provas&#8221;, disse Jeannette. Havia at\u00e9 aulas espec\u00edficas de prepara\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Avaliar professores e escolas tinha um prop\u00f3sito espec\u00edfico: tentar garantir que o novo curr\u00edculo fosse de fato adotado nas salas de aula.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A preocupa\u00e7\u00e3o fazia sentido. Em 1979, Larry Cuban, hoje professor em\u00e9rito da Escola de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Stanford, j\u00e1 comparava reformas de curr\u00edculos \u00e0 passagem de um fura\u00e7\u00e3o no oceano: h\u00e1 enorme agita\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie, mas as \u00e1guas profundas permanecem quase inalteradas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para Cuban, pol\u00edticos, especialistas e autoridades ficam na superf\u00edcie, enquanto as salas de aula est\u00e3o submersas. Implantar o Common Core de forma en\u00e9rgica e depressa, aproveitando a empolga\u00e7\u00e3o inicial, poderia sacudir o fundo do mar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">John King, comiss\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o em Nova York durante a implementa\u00e7\u00e3o do Common Core, sustentava que os testes tamb\u00e9m eram importantes para revelar avan\u00e7os e dificuldades da rede.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>BOICOTE<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Jeannette, m\u00e3e do menino que sofria de estresse, discordava da autoridade. Ainda em 2012, come\u00e7ou a compartilhar cr\u00edticas ao Common Core e a defender o boicote aos exames. O movimento cresceu. Em sua regi\u00e3o, 65% dos alunos deixaram de fazer os testes em 2016. No Estado de Nova York como um todo, foram cerca de 20%.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O governador democrata Andrew Cuomo, sentindo que a press\u00e3o aumentava, montou um grupo para analisar o processo. Em 2015, a comiss\u00e3o concluiu: &#8220;Ainda que com motiva\u00e7\u00e3o nobre, o novo curr\u00edculo foi implementado de forma apressada e inapropriada&#8221;. O relat\u00f3rio afirmou que os professores demoraram a receber instru\u00e7\u00f5es adequadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os testes eram a face mais vis\u00edvel das reclama\u00e7\u00f5es, mas o conte\u00fado em si do Common Core tamb\u00e9m causava controv\u00e9rsias. O n\u00facleo comum n\u00e3o s\u00f3 transferiu conte\u00fados de uma s\u00e9rie para a outra, de modo a uniformizar a progress\u00e3o escolar entre os Estados, mas tamb\u00e9m mudou a pr\u00f3pria maneira de ensinar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na matem\u00e1tica, os professores esperavam mais que respostas corretas. Queriam que os alunos explicassem como chegaram ao resultado e incentivavam a busca de solu\u00e7\u00f5es diferentes para o problema.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O objetivo era desenvolver o racioc\u00ednio, e n\u00e3o a decoreba. O m\u00e9todo, em tese, proporciona maior capacidade de lidar com quest\u00f5es complexas ao longo da vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A novidade pedag\u00f3gica, contudo, demandava mais tempo de aula para os problemas, o que diminu\u00eda a carga de conte\u00fados novos. O intuito era trocar quantidade por qualidade, numa rea\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem dos curr\u00edculos americanos em meios acad\u00eamicos: um lago de um quil\u00f4metro de extens\u00e3o e um cent\u00edmetro de profundidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Se a mudan\u00e7a era grande, a resist\u00eancia n\u00e3o fez por menos. Pais diziam que os alunos perdiam tempo com discuss\u00f5es in\u00fateis e que a escola dificultava opera\u00e7\u00f5es simples.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em maio de 2014, em entrevista a David Letterman, apresentador de um dos programas mais prestigiosos da TV americana, o comediante Louis C.K. ironizou a li\u00e7\u00e3o de casa de suas filhas. &#8220;\u00c9 algo assim: Bill tinha tr\u00eas peixes. Comprou mais dois. Quantos cachorros existem em Londres?&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>TUDO NOVO<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em ingl\u00eas, a base americana aumentou a carga de textos de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o (reportagens, discursos) e reduziu a de fic\u00e7\u00e3o (poesia, romances). Os professores elaboravam quest\u00f5es complexas, que demandavam pesquisa e reflex\u00e3o. Seria um jeito de preparar os estudantes para lidar com o grande volume de informa\u00e7\u00e3o na internet.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Kentucky foi o primeiro Estado a adotar os novos padr\u00f5es curriculares, ainda em 2009, antes do lan\u00e7amento oficial da medida nos EUA.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;Quando o Common Core come\u00e7ou, a sensa\u00e7\u00e3o era: o que \u00e9 isso? Est\u00e1 tudo diferente&#8221;, afirmou a professora Jessica Doughty, 36, que d\u00e1 aulas para alunos da terceira s\u00e9rie (faixa et\u00e1ria de oito anos) na rede p\u00fablica em Daviess, regi\u00e3o no oeste de Kentucky. O condado (divis\u00e3o administrativa que abrange mais de uma cidade) possui desempenho pr\u00f3ximo \u00e0 m\u00e9dia estadual, que por sua vez ocupa posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria no pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Naquele momento inicial, os materiais did\u00e1ticos n\u00e3o ajudavam os professores. Apesar de virem com o carimbo &#8220;alinhado com o Common Core&#8221;, repetiam em grande parte o conte\u00fado antigo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">S\u00f3 em 2016 a professora Jessica recebeu livros adequados. Antes disso, ela participou de treinamentos sobre os novos padr\u00f5es, mas a maior parte de seu aprendizado veio de estudos por conta pr\u00f3pria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A reportagem acompanhou sua aula numa manh\u00e3 do \u00faltimo inverno americano, em uma sala com controle de temperatura, mobili\u00e1rio novo, projetor e sistema de v\u00eddeo. Os 29 alunos foram divididos em sete grupos naquele dia. Alguns ocuparam mesas e cadeiras, outros ficaram sentados ou deitados no carpete, outros se acomodaram em grandes bolas de borracha.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os grupos precisavam responder \u00e0 mesma pergunta: &#8220;Por que os homens exploram o mar?&#8221;. Cada uma das equipes pegou uma obra, que poderia ser prosa (como a hist\u00f3ria do explorador Jacques Cousteau) ou poesia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As crian\u00e7as tinham de preencher um question\u00e1rio com tr\u00eas campos: um para a resposta, um para evid\u00eancias que sustentassem a resposta e outro para frases que confirmassem a argumenta\u00e7\u00e3o escolhida. Tudo segundo a obra lida. Nada de &#8220;qual a sua opini\u00e3o?&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A corre\u00e7\u00e3o seria feita depois, porque chegava a hora da matem\u00e1tica. Em uma das tarefas, os estudantes completavam duas colunas. Uma ia do 2 ao 20, de 2 em 2 (2, 4, 6, 8), e outra do 4 ao 40, de 4 em 4. Tinham de fazer isso em tr\u00eas minutos. Um cron\u00f4metro ficava projetado na lousa. Controlar o tempo \u00e9 importante para a programa\u00e7\u00e3o, a professora explicou mais tarde.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao lado de cada n\u00famero, os alunos deveriam indicar multiplica\u00e7\u00f5es que tivessem aquele resultado. Ao lado de um 4, por exemplo, escreviam 2 x 2. Ent\u00e3o tinham de ligar n\u00fameros iguais nas duas colunas. Assim, aprendiam que 2 x 2 \u00e9 igual a 4 e que 4 x 1 tamb\u00e9m \u00e9 igual a 4. Assim, 2 x 2 = 4 x 1.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Finalizado o exerc\u00edcio, instantes para relaxar. A professora colocou uma m\u00fasica com batida empolgante para os estudantes, que dan\u00e7avam e cantavam. Nada de perder o foco, por\u00e9m: &#8220;Six Times Table Song&#8221; (m\u00fasica da tabuada do seis) tem como refr\u00e3o &#8220;Oh, acho que achei uma forma de contar de seis em seis \/ 12, 18, 24, 30 e 36&#8230;&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ouvia-se m\u00fasica na sala ao lado. Quase que em sincronia, as duas classes tinham a mesma aula. &#8220;Antes do Common Core, provavelmente as aulas teriam conte\u00fados diferentes nas duas salas. Hoje, troco ideias com colegas, montamos as aulas juntas&#8221;, afirmou a professora.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>DIVERG\u00caNCIAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ainda \u00e9 incerto se a metodologia est\u00e1 funcionando no Estado. Logo ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o curricular, os resultados na avalia\u00e7\u00e3o estadual pioraram. O percentual de alunos considerados proficientes em leitura caiu de 70% para 47%, em 2012.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em um ano, havia mudado n\u00e3o s\u00f3 o curr\u00edculo mas tamb\u00e9m o pr\u00f3prio teste. Antes de serem divulgados os dados de 2012, a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 fazia campanha preparando a sociedade para a queda nos indicadores. Os resultados at\u00e9 melhoraram depois e chegaram a 55% em 2015, mas ainda abaixo do n\u00edvel anterior ao Common Core.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Diversos pesquisadores procuram descobrir se os novos curr\u00edculos t\u00eam dado certo nos Estados Unidos. Em janeiro, Morgan Polikoff, da Universidade do Sul da Calif\u00f3rnia, disse ser essa uma &#8220;pergunta de US$ 1 milh\u00e3o&#8221;. Ap\u00f3s rever os trabalhos acad\u00eamicos dispon\u00edveis, n\u00e3o chegou a uma conclus\u00e3o. Outras pesquisas s\u00e3o necess\u00e1rias, escreveu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Se considerados apenas os resultados de testes padronizados, o panorama \u00e9 negativo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Tom Loveless, ex-professor da Universidade Harvard e agora no Instituto Brookings, comparou Estados que logo implementaram o Common Core com os que demoraram a faz\u00ea-lo e com os que n\u00e3o o adotaram. Nenhum grupo se destacou. Na m\u00e9dia, houve queda em matem\u00e1tica em todos. Em leitura, todos tiveram leve aumento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os idealizadores do padr\u00e3o curricular afirmam ser esperada a dificuldade inicial, pois n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil se adaptar \u00e0s muitas mudan\u00e7as. Entretanto, n\u00e3o arriscam previs\u00e3o para o in\u00edcio dos resultados positivos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na aus\u00eancia de estudos definitivos, as opini\u00f5es divergem mesmo dentro dos Estados. Em Kentucky, onde professores elogiaram a nova base, o governador republicano Matt Bevin se elegeu em 2015 dizendo que abandonaria o programa \u2013promessa ainda n\u00e3o cumprida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por outro lado, em Nova York, um dos Estados com comunidade escolar mais resistente ao padr\u00e3o curricular, a reportagem visitou col\u00e9gios cujas equipes defendem o Common Core. Um deles foi a Cornerstone Academy, escola p\u00fablica no Bronx. Em uma das regi\u00f5es mais pobres da cidade, ela \u00e9 uma das que mais t\u00eam apresentado evolu\u00e7\u00e3o positiva na rede.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ali, o Common Core \u00e9 visto como ferramenta importante. O professor de matem\u00e1tica Tareq Zohny, 40, diz que a sequ\u00eancia de conte\u00fados ficou bem definida, o que facilita a troca de informa\u00e7\u00f5es entre os professores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Neste ano, ele aumentou a carga de fra\u00e7\u00f5es e propor\u00e7\u00f5es na sexta s\u00e9rie porque a professora da s\u00e9tima disse que os alunos t\u00eam chegado com dificuldades nesses conte\u00fados. Para compensar, os dois educadores reduziram a carga de estat\u00edstica na sexta s\u00e9rie e passaram a recuper\u00e1-la na fase seguinte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ex-contador e professor h\u00e1 nove anos, Tareq afirma que deve conseguir cumprir apenas 35 dos 42 conte\u00fados previstos para o ano. &#8220;Muitos alunos chegam [\u00e0 sexta s\u00e9rie] com conhecimento de terceira s\u00e9rie, preciso recuperar isso. O bom \u00e9 que, com a nova organiza\u00e7\u00e3o, sei exatamente onde come\u00e7ou o problema. Fica mais f\u00e1cil corrigir.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Dentro do governo Donald Trump tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 consenso. O presidente afirma que vai &#8220;se livrar&#8221; do Common Core. Diz que a escolha sobre o que ensinar precisa ser feita regionalmente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O n\u00facleo comum nasceu por iniciativa dos Estados, mas se atrelou \u00e0 gest\u00e3o Obama depois que ele usou recursos federais para impulsion\u00e1-lo. Quando a personaliza\u00e7\u00e3o ficou evidente e as cr\u00edticas cresceram, parte dos republicanos retirou apoio \u00e0 medida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse \u00e9 o caso de Indiana, do ent\u00e3o governador e hoje vice-presidente dos EUA, Mike Pence. Trata-se do primeiro Estado a desistir do novo curr\u00edculo, em 2014. Uma parcela dos sindicatos docentes tamb\u00e9m abandonou o barco, reclamando da implementa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na administra\u00e7\u00e3o Trump, por\u00e9m, tamb\u00e9m est\u00e1 Rex Tillerson, secret\u00e1rio de Estado. Em 2013, ent\u00e3o como executivo da gigante petroleira ExxonMobil, ele amea\u00e7ou tirar seus neg\u00f3cios de Estados que n\u00e3o adotassem o Common Core.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Como Bill Gates, Tillerson considera o padr\u00e3o curricular uma ferramenta importante para melhorar a qualidade da m\u00e3o de obra e dos calouros universit\u00e1rios. Os dois empres\u00e1rios ressaltam a necessidade de haver uma forma clara de medir avan\u00e7os entre os Estados e evidenciar seus problemas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Trump n\u00e3o pode, sozinho, acabar com o Common Core. Mas pode incentivar que as redes estaduais desenvolvam suas pr\u00f3prias expectativas de aprendizagem. At\u00e9 o momento, n\u00e3o foi divulgado o plano presidencial para o tema.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;Essa instabilidade faz com que muitos professores deixem a nova base de lado&#8221;, afirmou Jana Slibeck Francis, superintendente assistente de Educa\u00e7\u00e3o de Daviess (Kentucky). &#8220;Com esses ru\u00eddos, muitos acham que \u00e9 mais uma reforma que n\u00e3o vai dar em nada.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>BRASIL<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O americano David Plank, docente da Escola de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Stanford, viveu na Bahia, onde foi professor visitante na universidade federal nos anos 1990. Fala portugu\u00eas e conhece o sistema educacional brasileiro. Em fevereiro de 2016, apresentou estudo chamado &#8220;Implementa\u00e7\u00e3o da Base Nacional Curricular: Li\u00e7\u00f5es do Common Core&#8221;. Uma de suas sugest\u00f5es \u00e9 implementar a BNCC de forma paulatina. Nada da correria de Nova York.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A inspira\u00e7\u00e3o para o Brasil, diz Plank, pode ser a Calif\u00f3rnia, que suspendeu por tr\u00eas anos os sistemas de avalia\u00e7\u00e3o para dar tempo de o novo curr\u00edculo ser implantado. O Estado alocou US$ 4 bilh\u00f5es para desenvolver materiais e treinar professores, entre outras medidas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O professor afirma que o Brasil, em ao menos um aspecto, enfrentar\u00e1 mais dificuldades que os EUA. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 o dinheiro que o Common Core teve. As autoridades educacionais brasileiras parecem saber o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer, mas, sem tantos recursos, fica dif\u00edcil.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nos EUA, as verbas foram empregadas para desenvolver testes alinhados ao novo curr\u00edculo, comprar materiais, preparar professores ou realizar experi\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mesmo com a ajuda dos cofres federais e privados, apenas 39% dos docentes se disseram totalmente prontos para ensinar os novos conte\u00fados seis anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento do Common Core. Al\u00e9m disso, 80% disseram n\u00e3o ter recebido treinamento de qualidade, e fatia equivalente declarou n\u00e3o contar com materiais satisfat\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Outras caracter\u00edsticas do Brasil, no entanto, podem ajudar. Uma lei federal determina a ado\u00e7\u00e3o da base, ainda que n\u00e3o exista puni\u00e7\u00e3o expl\u00edcita para a quem desobedecer \u00e0 norma. Nos EUA, o processo \u00e9 optativo. Os governadores decidem tanto se adotam ou n\u00e3o a padroniza\u00e7\u00e3o quanto a forma como os conte\u00fados devem ser ensinados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A mudan\u00e7a ousada que o Common Core imp\u00f5e \u00e0s pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas americanas n\u00e3o se repete no caso brasileiro. Nesse aspecto, a BNCC pode ser considerada menos ambiciosa e mais realista.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Shannon Glynn, diretora da entidade que lidera a organiza\u00e7\u00e3o do Common Core nos EUA, d\u00e1 uma dica: &#8220;Pela nossa experi\u00eancia, sugiro que os professores brasileiros sejam envolvidos o m\u00e1ximo poss\u00edvel no processo&#8221;. Para educadores e sindicatos americanos, os docentes n\u00e3o participaram o suficiente, o que suscitou parte da resist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No Brasil, os professores puderam participar da consulta p\u00fablica, que teve 12 milh\u00f5es de contribui\u00e7\u00f5es, feita antes da defini\u00e7\u00e3o final do documento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1 claro, por\u00e9m, o papel que ter\u00e3o de agora em diante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>OTIMISMO<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ex-secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o do Rio, ex-diretora de educa\u00e7\u00e3o do Banco Mundial e atual diretora do Centro de Excel\u00eancia e Inova\u00e7\u00e3o em Pol\u00edticas Educacionais na FGV-RJ, Claudia Costin, colunista da Folha, mostra-se otimista. A animosidade pol\u00edtica que o Common Core enfrentou n\u00e3o deve se reproduzir no Brasil, diz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;H\u00e1 um consenso razo\u00e1vel sobre a necessidade da base, pessoas de diferentes posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas concordam, \u00e9 uma exig\u00eancia da lei. Mesmo assim, certamente haver\u00e1 dificuldades para alinhar materiais did\u00e1ticos, mudar a forma\u00e7\u00e3o de professores. S\u00e3o desafios que temos h\u00e1 anos&#8221;, disse.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a planejar a implementa\u00e7\u00e3o. Anunciou um grupo para estudar altera\u00e7\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o de professores e afirmou que oferecer\u00e1 apoio t\u00e9cnico para Estados e munic\u00edpios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A expectativa \u00e9 que a base curricular esteja implementada em at\u00e9 dois anos ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o final do documento pelo ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Mendon\u00e7a Filho. Antes disso, o Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o chamar\u00e1 audi\u00eancias p\u00fablicas e dever\u00e1 apresentar sugest\u00f5es at\u00e9 dezembro. Esse cronograma vale para os ensinos infantil e fundamental. O m\u00e9dio demorar\u00e1 mais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mesmo que tudo d\u00ea certo e a base para as duas etapas esteja implementada em 2019, os resultados positivos devem demorar a aparecer. Na cerim\u00f4nia de apresenta\u00e7\u00e3o do documento, a secret\u00e1ria-executiva do minist\u00e9rio, Maria Helena Guimar\u00e3es, disse: &#8220;Educa\u00e7\u00e3o precisa de tempo. Resultados v\u00eam no m\u00e9dio e longo prazo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nos Estados Unidos, sete anos ainda n\u00e3o foram suficientes.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reportagem mostra os desafios para a implanta\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o curricular \u00fanico. No Brasil, a normatiza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados por fase escolar pode vigorar a partir de 2019. 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