{"id":7342,"date":"2017-05-04T15:45:27","date_gmt":"2017-05-04T18:45:27","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/arquivo-paulo-freire-nos-podemos-reinventar-o-mundo\/"},"modified":"2017-05-04T15:45:27","modified_gmt":"2017-05-04T18:45:27","slug":"arquivo-paulo-freire-nos-podemos-reinventar-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/arquivo-paulo-freire-nos-podemos-reinventar-o-mundo\/","title":{"rendered":"[Arquivo] Paulo Freire: &#8220;N\u00f3s podemos reinventar o mundo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esta semana marca os 20 anos da morte de Paulo Freire. Uma figura cujo trabalho at\u00e9 hoje \u00e9 refer\u00eancia para educadores do Brasil e do mundo. NOVA ESCOLA est\u00e1 produzindo um material especial sobre o educador, pedagogo e fil\u00f3sofo brasileiro, mas, como aperitivo, vamos republicar uma entrevista exclusiva que ele concedeu \u00e0 revista em 1993. Confira a reportagem na \u00edntegra:<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O educador Paulo Freire n\u00e3o gosta de dar entrevistas. Ele reclama que a imprensa deturpa suas declara\u00e7\u00f5es. Ao anunciar o projeto pedag\u00f3gico que pretendia implantar quando assumiu a secretaria Municipal da Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, em 1989, um grande jornal paulista anunciou em manchete no dia seguinte: &#8220;A partir de agora, escrever errada ser\u00e1 certo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para superar essa resist\u00eancia, Nova Escola teve uma ideia: que tal convidar o tamb\u00e9m educador Moacir Gadotti, amigo pessoal e chefe de gabinete do secret\u00e1rio Paulo Freire, para um bate-papo com ele? Isso traria a vantagem adicional de propiciar uma conversa mais aberta e mais rica, um di\u00e1logo entre dois educadores profundamente comprometidos com a transforma\u00e7\u00e3o da escola brasileira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Deu certo. E o resultado foi uma aula de vida, em que Paulo Freire coloca sua aguda intelig\u00eancia para refletir sobre sua experi\u00eancia como secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o, sobre os rumos do ensino p\u00fablico, sobre liberdade, sobre democracia, e sobretudo falar de sua esperan\u00e7a, que ele retrata no livro Pedagogia da Esperan\u00e7a &#8211; Um Reencontro cem a Pedagogia do Oprimido (Paz e Terra). A esperan\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel acabar com a opress\u00e3o, com a mis\u00e9ria, com a intoler\u00e2ncia e transformar o mundo num lugar mais gostoso e mais justo para se viver. &#8220;A esperan\u00e7a faz parte de mim como o ar que respiro&#8221;. define.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mais importante educador brasileiro, conhecido e respeitado em todo o mundo, Paulo Freire j\u00e1 escreveu mais de 30 livros, entre eles Pedagogia da Oprimido, de 1968, um marco na pedagogia brasileira e que influenciou educadores em todas as partes do mundo. Aos 72 anos, Freire continua produzindo num ritmo impressionante. Desde que deixou a Secretaria, em 1991, j\u00e1 escreveu quatro livros &#8211; Educa\u00e7\u00e3o na Cidade (Cortez), Professora Sim, Ta N\u00e3o &#8211; Cartas a Quem Ousa Ensinar (Olho D&#8217;\u00c1gua) e Pol\u00edtica e Educa\u00e7\u00e3o (Cortez), al\u00e9m de Pedagogia da Esperan\u00e7a. E est\u00e1 terminando o quinto, que se chamar\u00e1 Cartas a Cristina. Cristina \u00e9 uma sobrinha, tamb\u00e9m educadora, com quem se correspondia nos tempos de ex\u00edlio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por causa de sua pedagogia libertadora e sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica, Paulo Freire foi exilado ap\u00f3s o golpe militar de 1964. Retornou ao Brasil em 1980, ap\u00f3s a anistia. No ex\u00edlio, desenvolveu projetos em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, Europa e \u00c1frica, lecionou na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. A maior parte do tempo trabalhou para o Conselho Mundial de Igrejas, com sede em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nove anos depois do retorno, assumiu a Secretaria Municipal da Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, na gest\u00e3o da petista Lu\u00edza Erundina, cargo que ocupou por dois anos e meio. Acusa\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s que lhe foram dirigidas durante o regime militar ele sofre agora da atual administra\u00e7\u00e3o paulistana, chefiada por Paulo Maluf: a de desenvolver uma proposta pedag\u00f3gica politizada e ideol\u00f3gica. Paulo Freire se defende dessas acusa\u00e7\u00f5es nesse bate-papo com Moacir Gadotti, outro importante educador brasileiro, autor de 15 livros, dos quais os dois \u00faltimos &#8211; Hist\u00f3ria das Id\u00e9ias Pedag\u00f3gicas (\u00c1tica) e Pedagogia da Pr\u00e1xis (Instituto Paulo Freire) &#8211; acabaram de ser lan\u00e7ados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Moacir Gadotti &#8211; O brasileiro \u00e9 um povo que vive de esperan\u00e7as,s\u00f3 que uma atr\u00e1s da outra v\u00e3o embora, e sempre vem a frustra\u00e7\u00e3o depois. Foi assim com as diretas j\u00e1, com a Constituinte, com o Collor&#8230; Hoje vivemos um momento de incertezas, parece que o ch\u00e3o que pisamos est\u00e1 se movendo, e n\u00f3s, no Brasil, n\u00e3o conseguimos enxergar a dia de amanh\u00e3. De onde vem essa esperan\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel transformar o mundo a que voc\u00ea se refere em Pedagogia da Esperan\u00e7a?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Paulo Freire &#8211;<\/strong> \u00c9 uma pergunta que exige uma reflex\u00e3o, mesmo que sucinta, em torno de n\u00f3s pr\u00f3prios. O que estamos sendo no mundo Jo\u00e3o, Maria, Carlos? E n\u00e3o importa a\u00ed a classe social, embora esta tenha uma influ\u00eancia fant\u00e1stica na forma como estamos sendo. Mas o que estamos sendo, por que estamos sendo, como estamos sendo, quem estamos sendo? Isso me permite fazer compara\u00e7\u00f5es. Por exemplo: olho agora o quintalzinho de minha casa e vejo outros seres tamb\u00e9m vivos, mas de ordem natural -uma jabuticabeira e o canil onde est\u00e1 o Jim, um pastor alem\u00e3o -, e j\u00e1 poderia estabelecer compara\u00e7\u00f5es entre como eu estou sendo, como a jabuticabeira est\u00e1 sendo e como o Jim est\u00e1 sendo. Sem ir muito longe, eu chego a uma primeira conclus\u00e3o, de que as rela\u00e7\u00f5es que h\u00e1 entre eu e as minhas jabuticabeiras e entre eu e Jim n\u00e3o s\u00e3o as mesmas que h\u00e1 entre eu e voc\u00ea. H\u00e1 uma qualidade diferente nessas rela\u00e7\u00f5es. Segundo, eu posso tomar como refer\u00eancia, para me distinguir dos outros dois seres (o Jim e a jabuticabeira), que, embora os tr\u00eas seres sejamos finitos, inacabados, incompletos, imperfeitos, somente eu entre os tr\u00eas sei que somos finitos, inacabados e incompletos. A jabuticabeira n\u00e3o sabe. Ela tem outro tipo de saber.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; \u00c9 isso que voc\u00ea quer dizer quando escreve no livro que &#8220;eu sou esperan\u00e7oso, por imperativo existencial&#8221;?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> \u00c9 isso tamb\u00e9m. Eu sou esperan\u00e7oso porque n\u00e3o posso deixar de ser esperan\u00e7oso como ser humano. Esse ser que \u00e9 finito e que se sabe finito, e porque \u00e9 inacabado sabendo que \u00e9 inacabado, necessariamente \u00e9 um ser que procura. N\u00e3o importa que a maioria esteja sem procurar. Estar sem procurar \u00e9 o resultado, \u00e9 o imobilismo imposto pelas circunst\u00e2ncias em que n\u00e3o pudemos procurar. Mas n\u00e3o \u00e9 a natureza do ser. \u00c9 por isso que quando as grandes massas sofridas est\u00e3o, como eu chamo em Pedagogia da Oprimido, mais imersas do que emersas na realidade social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica, est\u00e3o sendo proibidas de ser. Por isso \u00e9 que elas ficam ap\u00e1ticas. A esperan\u00e7a n\u00e3o floresce na apatia. Cabe ao pedagogo, ao fil\u00f3sofo, ao pol\u00edtico, aos que est\u00e3o compreendendo a raz\u00e3o de ser da apatia das massas &#8211; e \u00e0s vezes da apatia de si mesmos &#8211; a briga pela esperan\u00e7a. Eu n\u00e3o posso desistir da esperan\u00e7a porque eu sei, primeiro, que ela \u00e9 ontol\u00f3gica. Eu sei que n\u00e3o posso continuar sendo humano se eu fa\u00e7o desaparecer de mim a esperan\u00e7a e a briga por ela. A esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 uma doa\u00e7\u00e3o. Ela faz parte de mim como o ar que respiro. Se n\u00e3o houver ar, eu morro. Se n\u00e3o houver esperan\u00e7a, n\u00e3o tem por que continuar o hist\u00f3rico. A esperan\u00e7a \u00e9 a hist\u00f3ria, entende? No momento em que voc\u00ea definitivamente perde a esperan\u00e7a, voc\u00ea cai no imobilismo. E a\u00ed voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o jabuticabeira quanto a jabuticabeira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; A esperan\u00e7a \u00e9 uma marca, \u00e9 a express\u00e3o ontol\u00f3gica do ser humano?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> A esperan\u00e7a \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do ser humano que hoje faz parte da nossa natureza que se vem constituindo hist\u00f3rica e socialmente. Ou seja, a esperan\u00e7a \u00e9 um projeto do ser humano e \u00e9 tamb\u00e9m a viabiliza\u00e7\u00e3o do projeto. Por isso \u00e9 que os ditadores, tanto quanto podem, aniquilam a esperan\u00e7a das massas. Ora sob o susto, o medo, o pavor. Ora sob o assistencialismo. Eu n\u00e3o sou contra a assist\u00eancia, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel voc\u00ea ver um homem morrendo e dizer que n\u00e3o d\u00e1 p\u00e3o porque \u00e9 assistencial. Isso est\u00e1 errado, \u00e9 um crime. O que n\u00e3o podemos ser \u00e9 assistencialistas, quer dizer, transformar a assist\u00eancia em uma estrat\u00e9gia. Mas como t\u00e1tica \u00e9 absolutamente v\u00e1lida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; O que h\u00e1 de novo no novo livro e o que permanece de Pedagogia do Oprimido?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Permanece um monte de coisas. Al\u00e9m da cren\u00e7a, da esperan\u00e7a, permanece o respeito e a convic\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do papel da subjetividade. Quando os marxistas &#8211; e tamb\u00e9m os n\u00e3o-marxistas &#8211; de natureza de pensar puramente mecanicista me criticavam nos anos 70, me acusavam de ser idealista, kantiano, na melhor das hip\u00f3teses de neo-hegeliano, por causa de minhas propostas de conscientiza\u00e7\u00e3o que entravam em choque com aquelas id\u00e9ias de que a superestrutura condiciona a consci\u00eancia. Hoje estamos vendo emergir a cr\u00edtica segura e s\u00e9ria a esse mecanismo de origem marxista, que n\u00e3o foi competente para explicar o pr\u00f3prio papel de sua luta contra o projeto capitalista &#8211; luta na qual anulou a presen\u00e7a do indiv\u00edduo, o gosto do indiv\u00edduo, o medo do indiv\u00edduo, o prazer do indiv\u00edduo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Ent\u00e3o voc\u00ea continua criticando esse mecanicismo que sustenta a tese da inexorabilidade do homem e de que h\u00e1 uma sucess\u00e3o na hist\u00f3ria que inevitavelmente levar\u00e1 ao socialismo?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Claro. Veja como h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o enorme nessa inexorabilidade: brigava-se pela inexorabilidade. Se a coisa vem de qualquer maneira amanh\u00e3, por que eu vou morrer hoje lutando por ela? Vou esperar. Esse mecanicismo deveria inclusive conduzir \u00e0 apatia. E est\u00e1 provado que n\u00e3o \u00e9 assim.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Veja que coisa engra\u00e7ada: voc\u00ea diz na Pedagogia da Esperan\u00e7a que &#8220;a luta de classes n\u00e3o \u00e9 o matar da hist\u00f3ria, mas certamente \u00e9 um deles&#8221;. Voc\u00ea, que foi criticado na Pedagogia do Oprimido por n\u00e3o usar a express\u00e3o luta de classes, sabe que agora vai ser criticado porque est\u00e1 usando?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Isso \u00e9 interessante. Sabe um dos riscos que a gente vai enfrentar no come\u00e7o do mil\u00e9nio &#8211; e j\u00e1 est\u00e1 enfrentando hoje? E que muita gente de esquerda ficou de tal maneira inquietada com a queda do Muro de Berlim, que perdeu par\u00e2metros e se sente imobilizada. Essas pessoas est\u00e3o aturdidas diante da hist\u00f3ria precisamente porque pensavam que o amanh\u00e3 era inexor\u00e1vel, e n\u00e3o tiveram tempo de se reconstruir e de se repensar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Mas quais s\u00e3o esses riscos ?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Primeiro, de uma minoria dessas pessoas conseguir chegar ao poder e reativar em si, odientamente, o gosto stalinista. O segundo risco \u00e9 de alguns desses que est\u00e3o impactados ca\u00edrem num imobilismo tal que passem a acreditar no discurso neoliberal de que a luta entre as classes sociais se acabou, de que a ideologia se acabou, de que a hist\u00f3ria se acabou. Esse segundo grupo constitui um perigo enorme para a pr\u00f3pria progressividade, termina por dar for\u00e7a \u00e0 maioria de direita e \u00e0 minoria de esquerda que pretende reativar o stalinismo. Um terceiro risco que estamos correndo no come\u00e7o do mil\u00eanio em face de todo esse desarranjo hist\u00f3rico \u00e9 exatamente o poder do neofascismo, que se assanha sobretudo na Europa, mas tamb\u00e9m no Terceiro Mundo (seja o surto de neonazismo em S\u00e3o Paulo, essas amea\u00e7as de fuzilar nordestinos, esse racismo de direita). \u00c9 uma amea\u00e7a assustadora, que \u00e9 de natureza material mas sobretudo espiritual, ideol\u00f3gica &#8211; o que n\u00e3o se via anteriormente. O educador n\u00e3o pode estar distante dessa preocupa\u00e7\u00e3o. Isso tem que estar sendo discutido nas classes prim\u00e1rias, com linguagem de menino.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Voc\u00ea tamb\u00e9m tem se preocupado bastante com o sectarismo, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Em Pedagogia da Esperan\u00e7a, eu retomo e avan\u00e7o um pouco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Pedagogia da Opress\u00e3o, em que eu j\u00e1 havia feito a cr\u00edtica do sectarismo. L\u00e1, eu era radical e n\u00e3o sect\u00e1rio. Hoje eu me acho mais radical &#8211; e mais longe ainda da sectariza\u00e7\u00e3o. Foi a experi\u00eancia hist\u00f3rica, e portanto pol\u00edtica e social, me ensinando que eu teria de me convencer de n\u00e3o estar mais t\u00e3o certo de minhas certezas. Essa certeza da incerteza, da busca da incerteza, em vez de matar em mim a aventura da esperan\u00e7a, me levou mais para a aventura da esperan\u00e7a. Quer dizer, no momento em que eu descubro que n\u00e3o posso estar mais t\u00e3o certo de minhas certezas, tenho a esperan\u00e7a de descobrir um pouco de luz na incerteza. Ent\u00e3o, eu fico mais curioso, mais indagador, mais competente. E isso me levou necessariamente a ficar mais n\u00e3o-conciliador; de compreender o diferente, e n\u00e3o de neg\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; O que significa respeitar a diferen\u00e7a? \u00c9 simplesmente, tomo diz a ideologia burguesa, respeitar o pobre, respeitar o negro&#8230;?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Trata-se de entrar na pele dele e aprender tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; No livro A Filosofia Mesti\u00e7a (Nova Fronteira), que \u00e9 fant\u00e1stico, o educador franc\u00eas Michel Serres afirma que todos n\u00f3s somos mesti\u00e7os e que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma educa\u00e7\u00e3o se n\u00e3o conseguir compreender &#8211; mais que compreender, assimilar &#8211; uma outra cultura que n\u00e3o a sua. Voc\u00ea concorda?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> A posi\u00e7\u00e3o que eu chamo substantivamente democr\u00e1tica parte pare compreender a necessidade. N\u00e3o \u00e9 como um favor. Eu tenho a necessidade de compreender um diferente de mim, se eu quiser crescer. Portanto, a minha radicalidade fenece no agora, Gadotti, momento em que eu me nego a compreender o diferente de mim. Segundo, quando eu compreendo o diferente descubro que h\u00e1 um diferente diferente, que h\u00e1 um diferente que \u00e9 antag\u00f4nico. Ou seja, ele \u00e9 t\u00e3o diferente de mim que n\u00e3o d\u00e1 para dialogar comigo em termos profundos. Mas ao descobrir a possibilidade da exist\u00eancia do antag\u00f4nico, que \u00e9 o diferente mais radical, eu descubro tamb\u00e9m que at\u00e9 com o antag\u00f4nico eu aprendo. E que, portanto, n\u00e3o posso me fechar sectariamente. No fundo, a minha briga n\u00e3o \u00e9 contra contra os outros; \u00e9 contra mim mesmo, no sentido de n\u00e3o me permitir cair na sectariza\u00e7\u00e3o. E a sectariza\u00e7\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do outro, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do contr\u00e1rio, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do diferente, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do mundo, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da vida. Quer dizer, ningu\u00e9m pode continuar vivo se sectariza. Veja como o stalinismo era a antivida, como o nazismo \u00e9 antivida. E a democracia s\u00f3 se autentica quando \u00e9 vida. E esta s\u00f3 \u00e9 vida quando \u00e9 m\u00f3vel, quando tem medo. \u00c9 preciso se abrir ao m\u00e1ximo, \u00e0s emo\u00e7\u00f5es, ao riso, aos desejos, inclusive a essa antivida que \u00e9 o cientificismo. O cientificismo \u00e9 uma antivida porque esse sonho de uma rigorosidade absoluta contra a n\u00e3o-rigorosidade do saber \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da vida tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Na Pedagogia da Esperan\u00e7a voc\u00ea aborda a quest\u00e3o da mulher, da armadilha que a linguagem nos coloca, por exemplo, quando afirmamos que os homens fazem a hist\u00f3ria, ou quando, para nos defender diante de certas perguntas que as mulheres nos fazem sobre o uso da linguagem, n\u00f3s afirmamos que, quando falo em homem, a mulher necessariamente esta inclu\u00edda. Como sair dessa armadilha?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Em primeiro lugar, a gente tem de reconhecer que a linguagem \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o social, com uma presen\u00e7a individual nessa produ\u00e7\u00e3o social. Segundo, \u00e9 precisamente por isso que a linguagem \u00e9 corpo ideol\u00f3gico. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar em linguagem sem ideologia e sem poder. Terceiro, a pr\u00f3pria gram\u00e1tica nasce historicamente como uma regulamenta\u00e7\u00e3o do poderoso, de quem tem poder. Nas culturas machistas, evidentemente que a linguagem se amolda a esse machismo. Numa perspectiva progressista, \u00e9 absolutamente fundamental que se reinvente tamb\u00e9m a linguagem, por que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel voc\u00ea democratizar uma sociedade deixando de lado um dos aspectos fundamentais do que fazer da sociedade, que \u00e9 a linguagem humana. Num tempo de busca de igualdade, de supera\u00e7\u00e3o das ideologias restritivas, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel permanecerem sintaxes proibitivas da mulher. Certa vez, falando a um audit\u00f3rio onde havia 1500 mulheres, de repente olho e vejo a cara de um homem e digo: &#8220;Todos voc\u00eas&#8221;. Isso n\u00e3o \u00e9 gram\u00e1tica. Isso \u00e9 ideologia. Eu tenho que dizer &#8220;todas voc\u00eas&#8221; mesmo. Eu falo nesse livro que \u00e9 poss\u00edvel que algu\u00e9m diga que a inven\u00e7\u00e3o da linguagem, antes da inven\u00e7\u00e3o das estruturas sociais, era puro idealismo. N\u00e3o \u00e9. No momento em que voc\u00ea n\u00e3o pensa a hist\u00f3ria como determinismo, mas como possibilidade, a reinven\u00e7\u00e3o da linguagem faz parte da reinven\u00e7\u00e3o do mundo. Ent\u00e3o, voc\u00ea pode at\u00e9 come\u00e7ar pela briga da reinven\u00e7\u00e3o da linguagem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Nos Estados Unidos, j\u00e1 \u00e9 comum referir-se aos negros n\u00e3o como nigger, mas como african american. \u00c9 uma forma de come\u00e7ar a falar politicamente correto, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Concordo. Mas o que voc\u00ea enfrenta de obst\u00e1culos quando faz isso&#8230; E sabe qual \u00e9 a minha resposta? Prefiro enfeiar o meu discurso a faz\u00ea-lo mais bonito mas inaut\u00eantico do ponto de vista pol\u00edtico. E acho mesmo que o feio a\u00ed vira esteticamente bonito, porque iluminado pelo acerto pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Essa quest\u00e3o se liga a uma outra armadilha de linguagem, que voc\u00ea trata no livro Professora Sim, Tia N\u00e3o. Voc\u00ea diz na p\u00e1gina 25: &#8220;A tentativa de reduzir a professora \u00e0 consi\u00e7\u00e3o de tia \u00e9 uma ?inocente? armadilha ideol\u00f3gica em que, tentando se dar a ilus\u00e3o de adocicar a vida da professara, o que se tenta \u00e9 amaciar a sua capacidade de luta ou entret\u00ea-la no exerc\u00edcio de tarefas fundamentais &#8220;. O que quer dizer com isso?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Que n\u00e3o se deve tirar da professora o dever de ela ser professora, o dever de querer bem, de amar n\u00e3o apenas o menino, mas o pr\u00f3prio processo de que ela faz parte como um dos sujeitos, que \u00e9 ensinar, que \u00e9 formar. O que \u00e9 preciso \u00e9 que ela saiba que, quando a chamam de tia, no miolo desse tia o que existe, nem sempre lucidamente para a diretora da escola, \u00e9 o seguinte: tia n\u00e3o pode fazer greve. Quanto mais voc\u00ea reduz a profissionaliza\u00e7\u00e3o a uma amorosidade parental, tanto menos a professora ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de brigar. Pelo menos \u00e9 o que a ideologia espera. Digo tamb\u00e9m que ela pode gostar de ser tia e pode preferir continuar a ser chamada de tia. Nada contra isso. Mas \u00e9 preciso que saiba o que h\u00e1 de manha ideol\u00f3gica quando chamam voc\u00ea de tia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Outro preocupa\u00e7\u00e3o manifestada no livro \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade cultural das crian\u00e7as, que a escola ignora. Diante desse sistema que coloca uma \u00fanica id\u00e9ia de cultura, um curr\u00edculo monocultural, o que pode fazer um professor em sala de aula para transformar essa escola e esse curr\u00edculo?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Um grande n\u00famero de professoras e professores se sente absolutamente manietado dentro de uma administra\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria. Esse tipo de administra\u00e7\u00e3o estimula as professoras a virar tias, o conceito pelo qual elas explicam ou se acomodam ao imobilismo que o autoritarismo espera delas. Mas acho que \u00e9 poss\u00edvel fazer educa\u00e7\u00e3o popular na escola. Claro que uma coisa \u00e9 voc\u00ea nadar a favor da correnteza e outra \u00e9 nadar contra. Se voc\u00ea tem uma administra\u00e7\u00e3o aberta, democr\u00e1tica, voc\u00ea nada a favor da corrente quando defende uma s\u00e9rie de posturas pol\u00edtico-pedag\u00f3gicas abertas. E nada contra o corrente, quando o conceito de participar \u00e9 proibido, \u00e9 um pecado. Ent\u00e3o fica dif\u00edcil voc\u00ea defender a participa\u00e7\u00e3o e sobretudo viver a participa\u00e7\u00e3o. Mas que \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; O que voc\u00ea faria, como professor, na sala de aula?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Uma das coisas que a professora deveria fazer, por exemplo, para compreender a cultura multiculturalmente. \u00e9 comentar com os alunos as diferen\u00e7as e dizer que, quando voc\u00ea discute tal coisa do conte\u00fado do programa, essa coisa n\u00e3o \u00e9 universal, ela tem suas dimens\u00f5es regionais, at\u00e9 de fam\u00edlia, e entra a\u00ed o problema de classe. A cultura de classe existe. A linguagem de classe existe. H\u00e1 uma sintaxe que \u00e9 da classe trabalhadora e outra que n\u00e3o \u00e9. \u00c9 preciso saber como voc\u00ea reinventa a linguagem, compreendendo a diversidade dessas sintaxes, como consegue recriar a linguagem de forma correta. E como professor voc\u00ea pode testemunhar diariamente a sua postura e a\u00ed compreender muito bem a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre t\u00e1tica e estrat\u00e9gia. Quer dizer, voc\u00ea tem o sonho estrat\u00e9gico, que \u00e9 o da multiculturalidade, mas tem que ter t\u00e1ticas para falar dele, porque voc\u00ea pode cair nos exageros do discurso &#8211; que s\u00e3o idealistas, voluntaristas &#8211; e voc\u00ea pode perder o emprego. E a quest\u00e3o sua n\u00e3o \u00e9 perder o seu emprego; \u00e9 manter o emprego e ajudar o seu sonho. Acho que n\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmulas para isso. Voc\u00ea tem que recriar todo dia as suas t\u00e1ticas para superar o exclusivismo de uma compreens\u00e3o cultural estreita.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; A experi\u00eancia vivida na Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o te deu ma impulso danado para escrever. Quais s\u00e3o seus planos para os pr\u00f3ximos 50 anos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Freire &#8211; Quem me dera esses 50 anos&#8230; No momento estou escrevendo um livro de que gosto muito, que est\u00e1 cheio de afetividades, que vai se chamar Cartas a Cristina. \u00c9 uma sobrinha que se correspondia comigo desde que era crian\u00e7a e eu estava no ex\u00edlio. Um dia, recebi uma carta em que ela me dizia: &#8220;At\u00e9 hoje conheci tio Paulo atrav\u00e9s de minha m\u00e3e, meu pai e minha av\u00f3. E agora que cheguei \u00e0 universidade comecei a conhecer um outro Paulo, atrav\u00e9s de refer\u00eancias um pouco assustadas (est\u00e1vamos ainda no Estado militar), n\u00e3o mais do tio Paulo, mas do professor Paulo Freire. E estou t\u00e3o curiosa de saber sobre o Paulo Freire tio dos outros todos, e n\u00e3o s\u00f3 o meu, que queria pedir um favor: fa\u00e7a cartas para mim sobre sua vida, sobre sua inf\u00e2ncia&#8221;. Achei fant\u00e1stico e respondi que ia fazer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; E depois desse livro?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Tenho um sonho de fazer um ensaio sobre Am\u00edlcar Cabral (l\u00edder revolucion\u00e1rio que fundou o movimento de liberta\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9-Bissau e Cabo Verde, na \u00c1frica). Acho muito oportuno trabalhar um pouco isso. Num momento em que se pensa que nunca mais vai haver revolu\u00e7\u00e3o, eu, pelo contr\u00e1rio, acho que vai haver. N\u00e3o depois de amanh\u00e3 e n\u00e3o igual \u00e0s que j\u00e1 houve. A gente precisa compreender que a hist\u00f3ria n\u00e3o se acabou. O que est\u00e1 acabando \u00e9 uma maneira de fazer hist\u00f3ria. Hoje a gente est\u00e1 come\u00e7ando a viver uma nova maneira de ser hist\u00f3ricos, que \u00e9 preciso que a gente perceba. Tudo que a gente puder fazer para esclarecer isso \u00e9 dever fazer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Falando em esclarecer, o que voc\u00ea diz das cr\u00edticas que o atual secret\u00e1rio municipal da Educa\u00e7\u00e3o, Solon Borges dos Reis, tem feito \u00e0 administra\u00e7\u00e3o anterior, da qual fizemos parte? Ele anunciou a desativa\u00e7\u00e3o da Mova (Movimenta de Alfabetiza\u00e7\u00e3o de Adultas) porque tinha objetivos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos. Ele tamb\u00e9m pretende trabalhar mais com a profissionaliza\u00e7\u00e3o, ao contrario de n\u00f3s, que trabalhamos mais com a autonomia da escola e com participa\u00e7\u00e3o &#8211; segundo o professor Solon, palavras associadas \u00e0 pedagogia libertadora de Paulo Freire. Ele diz que vai enfatizar a pedagogia para a responsabilidade.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Devo sublinhar, em primeiro lugar, que o professor Solon tem o dever de procurar afirmar sua gest\u00e3o de secret\u00e1rio na posi\u00e7\u00e3o e na op\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica que ele tem, que o governo de que ele faz parte tem. Nesse sentido, ele \u00e9 t\u00e3o pol\u00edtico quanto n\u00f3s. N\u00e3o existe neutralidade a que ele faz refer\u00eancia. Ele n\u00e3o \u00e9 neutro. Ele est\u00e1 procurando canalizar a sua administra\u00e7\u00e3o numa perspectiva n\u00e3o apenas pedag\u00f3gica, mas numa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica que diverge da nossa, que \u00e9 oposta \u00e0 nossa. E \u00e9 um direito que ele tem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Ali\u00e1s ele confessa isso quando diz que &#8220;os valores da administra\u00e7\u00e3o do PT n\u00e3o s\u00e3o os valores que n\u00f3s queremos para a educa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Exato. No livro Pol\u00edtica e Educa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um texto sobre educa\u00e7\u00e3o e responsabilidade, em que eu discuto a compreens\u00e3o de responsabilidade associada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e enfatizo essa quest\u00e3o da op\u00e7\u00e3o da op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, do respons\u00e1vel pela responsabilidade pedag\u00f3gica. Defendo o direito de o professor Solon defender sua op\u00e7\u00e3o. Por isso eu tamb\u00e9m digo nesse texto que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, rigorosamente, uma continuidade administrativa, quando acontece de uma administra\u00e7\u00e3o conservadora seguir-se a uma administra\u00e7\u00e3o progressista. Como \u00e9 que eu, um educador que me considero progressista, posso continuar uma obra reacion\u00e1ria? E como \u00e9 que um reacion\u00e1rio, um conservador, pode continuar uma obra progressista? Os aspectos puramente administrativos s\u00e3o pouqu\u00edssimos. Todo problema administrativo est\u00e1 iluminando e fundando uma quest\u00e3o pol\u00edtica. Por exemplo, as prioridades s\u00e3o pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Esse fato n\u00e3o refor\u00e7aria a id\u00e9ia de que mais importante no fundo \u00e9 fortalecer as propostas pol\u00edtico-pedag\u00f3gicas das pr\u00f3prias escolas, para que elas resistam um pouco mais \u00e0 descontinuidade administrativa?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Freire &#8211; Acho que sim, mas isso tamb\u00e9m bate no poder pol\u00edtico de quem tem a administra\u00e7\u00e3o central. Por exemplo, como pode uma administra\u00e7\u00e3o conservadora aceitar, primeiro, a pr\u00f3pria id\u00e9ia de autonomia da escola? N\u00e3o pode, porque uma das caracter\u00edsticas do conservantismo \u00e9 exatamente a centraliza\u00e7\u00e3o do poder. Quando voc\u00ea pergunta o que \u00e9 que significa a pr\u00f3pria autonomia da escola, a resposta tem um ponto de partida pol\u00edtico e ideol\u00f3gico. N\u00e3o \u00e9 uma pergunta puramente da ci\u00eancia da administra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma pergunta cuja resposta dependa da pedagogia. A pr\u00e1tica educativa vai refletir um sonho pol\u00edtico-ideol\u00f3gico de quem define a autonomia. Outra coisa: \u00e9 absolutamente errada a id\u00e9ia de que n\u00f3s n\u00e3o faz\u00edamos uma educa\u00e7\u00e3o para a responsabilidade ou educa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel. S\u00f3 que a nossa responsabilidade se fundava noutros valores. A nossa responsabilidade tinha que ver, sobretudo, com a ontologia, com a qualidade de ser do ser humano. Quer dizer, eu sou respons\u00e1vel como educador com rela\u00e7\u00e3o a esse n\u00facleo b\u00e1sico que nos marca, que nos caracteriza &#8211; e que se constituiu hist\u00f3rica e socialmente e n\u00e3o a priori da hist\u00f3ria -, que \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o de ser mais. A minha responsabilidade \u00e9 com isso. Por isso falo em ontologia. Eu sou respons\u00e1vel na minha pr\u00e1tica educativa no sentido de ajudar-me e ajudar os outros a ser mais. E n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser mais sem liberta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a pedagogia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 profundamente respons\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre a pedagogia da liberta\u00e7\u00e3o e essa que est\u00e1 senda posto em pr\u00e1tica?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> A diferen\u00e7a entre ela e a outra que se diz respons\u00e1vel &#8211; e que \u00e9 t\u00e3o respons\u00e1vel quanto n\u00f3s &#8211; \u00e9 que a conservadora \u00e9 respons\u00e1vel diante dos interesses dos dominantes. Agora, dizer que a que \u00e9 respons\u00e1vel diante dos interesses dos dominantes \u00e9 a \u00fanica respons\u00e1vel \u00e9 um absurdo. Como eu tamb\u00e9m n\u00e3o posso dizer que somos os \u00fanicos respons\u00e1veis. Mas eu tenho que distinguir em que ponto eu sou respons\u00e1vel. A minha utopia n\u00e3o \u00e9 a utopia do conservador. O conservador quer conservar, por isso \u00e9 reacion\u00e1rio &#8211; porque n\u00e3o \u00e9 preciso conservar o que \u00e9 leg\u00edtimo luta-se para consevar o que \u00e9 ileg\u00edtimo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Que balan\u00e7o voc\u00ea faria hoje do que foi feito na sua administra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> N\u00e3o tenho um balan\u00e7o, mas se voc\u00ea perguntar se eu estaria arrependido de alguma coisa, eu te diria que, apesar da legitimidade do arrependimento, eu n\u00e3o tenho nenhum. Eu faria de nova a mesma coisa. Quando nos juntamos para administrar a Secretaria, n\u00e3o pensamos que \u00e9ramos os maiores educadores do Estado. Segundo, nenhum de n\u00f3s pensou que por isso mesmo somente n\u00f3s ser\u00edamas capazes de fazer alguma coisa positiva. Terceiro, nenhum de n\u00f3s pensou que est\u00e1vamos ali escolhidos por Deus para salvar a educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo e depois a brasileira. O que sab\u00edamos era que \u00e9ramos capazes de fazer uma coisa s\u00e9ria e apost\u00e1vamos, sem nenhuma falsa mod\u00e9stia, que \u00e9ramos capazes. E t\u00ednhamos op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Sab\u00edamos, por exemplo, que defend\u00edamos uma escola que, sendo p\u00fablica, deveria tornar-se uma escola popular. E voc\u00ea. Gadotti, acrescentava que era preciso esclarecer o que \u00e9 o popular: quando queremos que a escola p\u00fablica se torne popular, eficaz, democr\u00e1tica, n\u00e3o estamos pensando em fazer uma escola ruim para os meninos que nasceram ricos. Est\u00e1vamos convencidos de que dev\u00edamos fazer uma escola que, tendo o gosto, o cheiro do popular, n\u00e3o tivesse nojo da burguesia. A gente queria que essa escola tivesse a cara brasileira, portanto uma escola aberta, feliz, cr\u00edtica, que provocasse a criatividade dos meninos e n\u00e3o o medo. Para isso, precis\u00e1vamos de uma administra\u00e7\u00e3o que fosse assim tamb\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar no sonho democr\u00e1tico da escola tendo uma administra\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Por isso voc\u00ea promoveu mudan\u00e7a, nos estruturas de poder da Secretaria?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Fizemos uma mudan\u00e7a estrutural. na qual o secret\u00e1rio perdeu possivelmente 60% do puder arbitr\u00e1rio que tinha. Eu n\u00e3o podia mais nomear nem uma secret\u00e1ria de escola. Vinham as indica\u00e7\u00f5es das bases. Se n\u00e3o se arrebentar com aquele gosto colonial de administrar &#8211; em que cabia ao secret\u00e1rio dispensar at\u00e9 a professora que perdeu aula no m\u00eas de setembro do ano anterior -, n\u00e3o se pode falar na autonomia da escola. Procuramos os Conselhos de Escola, criados por M\u00e1rio Covas em 1985 e arquivados por J\u00e2nio Quadros. Os Conselhos de Escola foram um salto extraordin\u00e1rio no servido da inger\u00eancia dos pais, dos alunos e das professoras frente ao poder central do diretor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Gadotti &#8211; Voc\u00ea acha que esse gosto peta liberdade, pela autonimia, pela participa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma marca deixada pela sua administra\u00e7\u00e3o e que vai ficar?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Freire &#8211;<\/strong> Eu acredito nisso. Mesmo que esse gosto sofra momentos de abafamento, em que sente que n\u00e3o pode se expressar. Porque, afinal de contas, o gosto de vir a ser faz parte da ontologia do ser. Ningu\u00e9m pode decretar que os homens e mulheres deixem de sonhar. Isso \u00e9 neg\u00f3cio de ditador.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana marca os 20 anos da morte de Paulo Freire. Uma figura cujo trabalho at\u00e9 hoje \u00e9 refer\u00eancia para educadores do Brasil e do mundo. NOVA ESCOLA est\u00e1 produzindo um material especial sobre o educador, pedagogo e fil\u00f3sofo brasileiro, mas, como aperitivo, vamos republicar uma entrevista exclusiva que ele concedeu \u00e0 revista em 1993. 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