{"id":7332,"date":"2017-05-02T17:37:41","date_gmt":"2017-05-02T20:37:41","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/custo-do-fracasso-escolar-para-os-alunos-e-o-pais\/"},"modified":"2017-05-02T17:37:41","modified_gmt":"2017-05-02T20:37:41","slug":"custo-do-fracasso-escolar-para-os-alunos-e-o-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/custo-do-fracasso-escolar-para-os-alunos-e-o-pais\/","title":{"rendered":"Custo do fracasso escolar para os alunos e o Pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao mesmo tempo que amarga as \u00faltimas coloca\u00e7\u00f5es no ranking de aprendizagem da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), quando o assunto \u00e9 reprova\u00e7\u00e3o o Brasil est\u00e1 nas primeiras posi\u00e7\u00f5es. Enquanto a m\u00e9dia mundial de reten\u00e7\u00f5es na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, segundo a organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 de 2,9%\/ano, nosso \u00edndice chega a 8,2% no ensino fundamental e alcan\u00e7a alarmantes 11,5% no ensino m\u00e9dio, de acordo com o Censo Escolar de 2015.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Embora esses \u00edndices estejam em tend\u00eancia de queda nos \u00faltimos anos, reprovar estudantes com aprendizagem abaixo do esperado ainda \u00e9 uma resposta comum, e preocupante, do nosso sistema educacional. Mesmo em compara\u00e7\u00e3o com nossos vizinhos da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, com quem compartilhamos uma hist\u00f3ria de desigualdades sociais e no acesso ao direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, somos os recordistas em reten\u00e7\u00f5es. Em 2010, entre os 41 pa\u00edses que comp\u00f5em a regi\u00e3o, o Brasil tinha a maior taxa de repet\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, de acordo com o relat\u00f3rio do Compromisso Educa\u00e7\u00e3o Para Todos, da Unesco. A julgar pelos resultados de avalia\u00e7\u00f5es externas, por\u00e9m, a estrat\u00e9gia de levar os alunos a refazer os anos letivos tem sido insuficiente para garantir a evolu\u00e7\u00e3o da aprendizagem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O problema, de fato, n\u00e3o \u00e9 de f\u00e1cil solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso considerar que, se por um lado a aprova\u00e7\u00e3o dos alunos com rendimento abaixo do esperado \u2013 sem pol\u00edticas espec\u00edficas de interven\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o garante que o direito \u00e0 aprendizagem se efetue, por outro a reprova\u00e7\u00e3o tende a conturbar ainda mais sua trajet\u00f3ria escolar. Nos casos mais graves, levados a refazer o ano escolar nas mesmas condi\u00e7\u00f5es que levaram a reprov\u00e1-los, os alunos acabam por abandonar a escola, o que tamb\u00e9m \u00e9 uma problema grave no Pa\u00eds. S\u00f3 na faixa et\u00e1ria ideal do ensino m\u00e9dio, de 15 a 17 anos, temos 1,3 milh\u00e3o de jovens que deixaram a escola sem concluir os estudos; destes, 52% n\u00e3o conclu\u00edram sequer o ensino fundamental. Os dados s\u00e3o de um estudo do Instituto Unibanco lan\u00e7ado em 2016.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Outro impacto negativo da reprova\u00e7\u00e3o e da evas\u00e3o, j\u00e1 muito estudado, s\u00e3o seus custos econ\u00f4micos. Dados preliminares de uma pesquisa realizada por Funda\u00e7\u00e3o Brava, Insper, Instituto Ayrton Senna e Instituto Unibanco apontam que os custos anuais de termos jovens de 15 a 17 anos fora da escola s\u00e3o quase equivalentes ao valor investido atualmente pelo Pa\u00eds em ensino m\u00e9dio. Somadas as perdas pessoais dessa popula\u00e7\u00e3o, que tem rendimento salarial menor, \u00e0s perdas sociais, que abarcam queda de arrecada\u00e7\u00e3o e aumento de gastos com sa\u00fade e seguran\u00e7a p\u00fablica, os preju\u00edzos chegariam a R$ 49 bilh\u00f5es\/ano. Atualmente, o valor investido pelo Pa\u00eds em ensino m\u00e9dio \u00e9 de R$ 50 bilh\u00f5es, segundo o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mas se h\u00e1 anos as pesquisas mostram que a reprova\u00e7\u00e3o tende a ter mais efeitos negativos que positivos, por que ainda reprovamos tanto no Brasil? Parte do problema est\u00e1 claramente relacionada \u00e0 falta de investimentos para garantir condi\u00e7\u00f5es adequadas de aprendizagem. Por outro lado, pesquisa recente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o, Cultura e A\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria (Cenpec), realizada com uma amostra de 5.500 professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, joga luz em outro aspecto da quest\u00e3o, este de cunho cultural, ou seja, relacionado ao conjunto de cren\u00e7as sobre reprova\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e avalia\u00e7\u00e3o que circulam em nossa sociedade e tamb\u00e9m influenciam nossos professores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Um dos principais achados \u00e9 que, embora 77,8% dos participantes n\u00e3o tenham posi\u00e7\u00e3o clara sobre o tema, a ades\u00e3o \u00e0 cren\u00e7a na reprova\u00e7\u00e3o tende a ser acompanhada por forte ades\u00e3o a uma concep\u00e7\u00e3o meritocr\u00e1tica de justi\u00e7a educativa. Nesse conjunto de cren\u00e7as, os fatores sociais que influenciam o aprendizado \u2013 amplamente demonstrados pela pesquisa cient\u00edfica \u2013 n\u00e3o s\u00e3o considerados como geradores de diferen\u00e7as de desempenho escolar. Assim, o acesso ao conhecimento \u00e9 visto unicamente como fruto do talento e, especialmente, apenas do esfor\u00e7o individual. Por isso, para os professores que aderem \u00e0 vis\u00e3o meritocr\u00e1tica, a avalia\u00e7\u00e3o tende a ser uma forma de exercer poder disciplinar; consequentemente, a reprova\u00e7\u00e3o acaba por assumir uma natureza moral \u2013 \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201ccastigo\u201d \u2013 e, assim, quanto mais cedo ela ocorra, mais precocemente levaria o aluno a entender que se deve esfor\u00e7ar mais para aprender.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por outro lado, os professores que consideram os impactos da origem social, do capital cultural e de desigualdades de g\u00eanero e ra\u00e7a no processo de aprendizagem tendem a assumir uma vis\u00e3o corretiva de justi\u00e7a e a ver a avalia\u00e7\u00e3o como um processo formativo. Os docentes mais pr\u00f3ximos a essas cren\u00e7as tendem a ser menos favor\u00e1veis \u00e0 reten\u00e7\u00e3o, especialmente se estiverem bem informados sobre pesquisas cient\u00edficas a respeito dos efeitos da reprova\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em suma, essa associa\u00e7\u00e3o inadequada entre reprova\u00e7\u00e3o e melhoria do aprendizado se deve a uma cultura incorporada no cotidiano escolar e no imagin\u00e1rio social. Uma mudan\u00e7a efetiva dessa cultura depender\u00e1 de mais investimentos em forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada de professores e gestores e em condi\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas, como a redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de alunos por turma, para que a comunidade escolar n\u00e3o s\u00f3 tenha acesso a evid\u00eancias cient\u00edficas sobre os malef\u00edcios da reprova\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m tenha condi\u00e7\u00f5es de dar apoio aos alunos com diferentes ritmos de aprendizagem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O acesso a pesquisas e a informa\u00e7\u00f5es qualificadas tamb\u00e9m \u00e9 fundamental para que a sociedade como um todo possa olhar mais criticamente para os resultados de avalia\u00e7\u00f5es externas como o Pisa e a Prova Brasil, cobrar a amplia\u00e7\u00e3o e a melhoria na gest\u00e3o dos investimentos na educa\u00e7\u00e3o e entender que, numa sociedade como a nossa, a justi\u00e7a n\u00e3o reside na igualdade de tratamento entre desiguais, mas na corre\u00e7\u00e3o das disparidades. Somente assim ser\u00e1 poss\u00edvel avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de uma escola mais inclusiva, em que nenhuma crian\u00e7a ou nenhum jovem fique para tr\u00e1s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">* MARIA ALICE SETUBAL \u00c9 SOCI\u00d3LOGA, EDUCADORA E DOUTORA EM PSICOLOGIA DA EDUCA\u00c7\u00c3O, PRESIDE OS CONSELHOS DO CENPEC E DA FUNDA\u00c7\u00c3O TIDE SETUBAL<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao mesmo tempo que amarga as \u00faltimas coloca\u00e7\u00f5es no ranking de aprendizagem da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), quando o assunto \u00e9 reprova\u00e7\u00e3o o Brasil est\u00e1 nas primeiras posi\u00e7\u00f5es. 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