{"id":7287,"date":"2017-03-30T13:07:06","date_gmt":"2017-03-30T16:07:06","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/se-fosse-brasileiro-estaria-indignado-com-a-situacao-da-educacao\/"},"modified":"2017-03-30T13:07:06","modified_gmt":"2017-03-30T16:07:06","slug":"se-fosse-brasileiro-estaria-indignado-com-a-situacao-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/se-fosse-brasileiro-estaria-indignado-com-a-situacao-da-educacao\/","title":{"rendered":"\u201cSe fosse brasileiro, estaria indignado com a situa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Muito discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 com essa cr\u00edtica que o portugu\u00eas Ant\u00f3nio N\u00f3voa, reitor honor\u00e1rio da Universidade de Lisboa e candidato \u00e0s \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de Portugal, resume sua vis\u00e3o sobre o cen\u00e1rio educacional no Brasil.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Professor convidado em Col\u00fambia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 (Fran\u00e7a), N\u00f3voa \u00e9 hoje uma das principais vozes na \u00e1rea pedag\u00f3gica e tornou-se uma refer\u00eancia em forma\u00e7\u00e3o docente ao propor modelos inovadores como uma esp\u00e9cie de resid\u00eancia m\u00e9dica para os professores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em S\u00e3o Paulo, onde palestrou no 12\u00aa Pr\u00eamio Ita\u00fa-Unicef, N\u00f3voa conversou com Carta Educa\u00e7\u00e3o sobre esse modelo, a necessidade de compreender a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica como compromisso social e criticou os equ\u00edvocos que sustentam a reforma curricular do Ensino M\u00e9dio brasileiro. \u201cO melhor da escola p\u00fablica est\u00e1 em contrariar destinos. Podemos ser amanh\u00e3 uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em oper\u00e1rio o filho do oper\u00e1rio, \u00e9 a pior escola do mundo\u201d, resume.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Carta Educa\u00e7\u00e3o: O senhor cobra uma maior participa\u00e7\u00e3o da sociedade na educa\u00e7\u00e3o tendo, inclusive, formulado o conceito de espa\u00e7o p\u00fablico da educa\u00e7\u00e3o. Como v\u00ea esse cen\u00e1rio de sinergia no Brasil?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Ant\u00f3nio N\u00f3voa:<\/strong> N\u00f3s temos um discurso muito gong\u00f3rico, excessivo sobre a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o, quando as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas n\u00e3o est\u00e3o sequer asseguradas. Portanto, a primeira coisa que a sociedade brasileira precisa fazer coletivamente, independentemente de partidos e pol\u00edticos, \u00e9 garantir essas condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de funcionamento para as escolas, que incluem as condi\u00e7\u00f5es para o exerc\u00edcio do trabalho dos professores. Se n\u00e3o fizer isso, todo o resto \u00e9 conversa, coisas para ilustrar a m\u00eddia, mas que n\u00e3o t\u00eam nenhum impacto. N\u00e3o conseguimos mudar a educa\u00e7\u00e3o se isso n\u00e3o for um des\u00edgnio coletivo da sociedade. N\u00e3o pode ser um problema dos professores ou dos pais ou dos pedagogos ou do partido A ou do partido B. No Brasil, vejo que h\u00e1 muita conversa, muito discurso, mas pouco compromisso concreto com a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira. H\u00e1 pouca indigna\u00e7\u00e3o e, se eu fosse brasileiro, estaria indignado com a situa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: Essa falta de indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 relacionada ao fato das classes mais abastadas no Brasil matricularem seus filhos na escola privada, isto \u00e9, da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica ser um \u201cproblema\u201d das classes mais pobres?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> Com certeza. Para quem vem de fora e olha para o Brasil, esse continua a ser o problema maior, o da desigualdade. \u00c9 um racioc\u00ednio de vistas estreitas, de quem n\u00e3o percebe que n\u00e3o resolvemos nossos problemas se n\u00e3o resolvermos o problema dos outros. E as elites brasileiras s\u00e3o muito separadas do compromisso social. Fazem umas coisinhas filantr\u00f3picas para se justificarem, para fazerem de conta, mas n\u00e3o t\u00eam compromisso social nenhum. Enquanto n\u00e3o houver uma consci\u00eancia coletiva de que o problema \u00e9 de todos, o Brasil n\u00e3o avan\u00e7ar\u00e1 do ponto de vista da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Em Portugal, desde a revolu\u00e7\u00e3o de 74, houve uma esp\u00e9cie de compromisso do pa\u00eds com a escola p\u00fablica. Demorou 40 anos para isso acontecer, mas hoje estamos nos indicadores educacionais acima de pa\u00edses que investiram em educa\u00e7\u00e3o quando \u00e9ramos o \u00faltimo da Europa. Vejamos o Pisa, por exemplo, que \u00e9 um indicador que eu n\u00e3o gosto muito, mas que serve para ilustrar. O Pisa tem dois indicadores: um do qual se fala muito que \u00e9 classifica\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses, o ranking de qualidade, e outro do qual n\u00e3o se fala quase nada, que \u00e9 o indicador de equidade, isto \u00e9, os pa\u00edses que possuem menos desigualdades educacionais. Portugal vai bem no ranking da classifica\u00e7\u00e3o, mas, sobretudo, vai melhor no ranking da equidade. E \u00e9 isso que torna um pa\u00eds melhor. Enquanto continuar cada um tratando de si, da escola dos seus filhos, dos seus problemas, o Brasil estar\u00e1 caminhando para um precip\u00edcio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: O senhor diz que o papel do professor \u00e9 ajudar o aluno a transformar informa\u00e7\u00e3o em conhecimento e que o bom profissional \u00e9 aquele capaz de conseguir com que, no fim, o aluno goste daquilo que n\u00e3o gostava. Como formar o docente para esses pap\u00e9is?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> H\u00e1 um escritor portugu\u00eas, Gon\u00e7alo M. Tavares, um dos mais brilhantes da nova gera\u00e7\u00e3o, que utiliza uma met\u00e1fora muito interessante: \u201cn\u00f3s somos as imagens que temos\u201d. O que isso quer dizer? Tudo aquilo que vemos na vida comp\u00f5e o que somos. Vou explicar de outra maneira. Ontem, estava aqui em S\u00e3o Paulo e liguei a televis\u00e3o. Mudando de canais, vi aquelas imagens, m\u00fasicas, telejornais horr\u00edveis e pensei que ningu\u00e9m pode se educar se sua vida \u00e9 aquilo, aquele imagin\u00e1rio paup\u00e9rrimo. Os professores precisam alargar o seu repert\u00f3rio cultural, terem contato com mais realidades para serem capazes de passar isso para os seus alunos. Ningu\u00e9m pode gostar daquilo que n\u00e3o conhece. Se eu n\u00e3o fizer um esfor\u00e7o para conhecer as regras do xadrez, eu n\u00e3o posso gostar de xadrez. Uma pessoa que n\u00e3o l\u00ea muito, que para ler um texto fica quase a juntar as letras, dificilmente gostar\u00e1 de leitura. Enquanto as crian\u00e7as tiverem as imagens di\u00e1rias que t\u00eam ser\u00e1 muito dif\u00edcil subir o n\u00edvel da educa\u00e7\u00e3o. E isso \u00e9 verdade para professores e para crian\u00e7as. S\u00f3 se pode gostar depois de se conhecer muito. As crian\u00e7as fazem isso com os jogos de inform\u00e1tica: treinam muito at\u00e9 ganharem profici\u00eancia e, a partir desse momento, come\u00e7am a ter prazer. \u00c9 preciso fazer a mesma coisa com leitura, matem\u00e1tica, hist\u00f3ria e biologia. E esse \u00e9 o trabalho do professor. Agora, para que o professor fa\u00e7a esse trabalho, ele pr\u00f3prio precisa alargar o seu repert\u00f3rio de imagens.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: Esse parece ser um caminho individual de aperfei\u00e7oamento. Mas no campo da qualifica\u00e7\u00e3o formal, o que as universidades poderiam fazer? O senhor j\u00e1 prop\u00f4s um esquema semelhante \u00e0 resid\u00eancia m\u00e9dica para que os docentes aprendessem a ensinar com outros mais experientes.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> Primeiramente, \u00e9 preciso ter um lugar para formar os professores nas universidades de forma unificada. Estou a dar apoio ao reitor da UFRJ, no Rio de Janeiro, para tentar construir uma coisa que ele designa de \u201ccomplexo de forma\u00e7\u00e3o de professores\u201d, um lugar onde o professor ter\u00e1 sua forma\u00e7\u00e3o completa. Sobre o esquema de resid\u00eancia, na forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica na Universidade de Harvard, por exemplo, nos primeiros dias do curso, h\u00e1 uma cerim\u00f4nia na qual os m\u00e9dicos dos hospitais trazem jalecos e vestem os jovens estudantes de medicina. Quando fazem isso est\u00e3o a dizer \u201ca tua forma\u00e7\u00e3o agora \u00e9 de nossa responsabilidade, n\u00f3s agora vamos te conduzir pelos caminhos da profiss\u00e3o\u201d. E isso vai ajudando a criar uma rotina, um saber profissional que n\u00e3o \u00e9 apenas da pr\u00e1tica, \u00e9 um conhecimento que vai sendo constru\u00eddo na rela\u00e7\u00e3o entre profissionais mais experientes e jovens estudantes. \u00c9 isso que \u00e9 preciso na forma\u00e7\u00e3o do professor, que os jovens das licenciaturas tenham contato com os professores mais antigos, mais experientes, com professores das faculdades, das universidades. O ideal seria que quando acabassem a licenciatura fossem para as escolas acompanhados, em uma esp\u00e9cie de resid\u00eancia docente para que, progressivamente, fossem adquirindo a autonomia profissional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: Qual sua opini\u00e3o sobre a reforma curricular que foi feita no Ensino M\u00e9dio no Brasil que inclui o agrupamento por \u00e1reas do conhecimento, maior foco no ensino t\u00e9cnico, permiss\u00e3o para que pessoas com \u201cnot\u00f3rio saber\u201d possam dar aulas, entre outros pontos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> O mundo inteiro \u00e9 um cemit\u00e9rio de reformas; reformas curriculares ent\u00e3o nem se fala. \u00c9 muito f\u00e1cil faz\u00ea-las, o mais dif\u00edcil \u00e9 aquilo que falamos no princ\u00edpio: dar as coisas b\u00e1sicas e simples, as condi\u00e7\u00f5es de funcionamento para escolas, professores. Isso dito, o Ensino M\u00e9dio foi um problema no mundo todo 20 anos atr\u00e1s, per\u00edodo em que os pa\u00edses passaram a educa\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para o final da etapa. Nesse sentido, o Brasil est\u00e1 bastante defasado. No que diz respeito \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo, sou sens\u00edvel ao argumento. Acho que as escolas t\u00eam muitas coisas para ensinar. Desde o s\u00e9culo XIX, ningu\u00e9m tirou nada da escola, s\u00f3 meteu mais conte\u00fado. Sou tamb\u00e9m sens\u00edvel a um segundo ponto que est\u00e1 na ret\u00f3rica da reforma que \u00e9 a ideia dos percursos formativos. S\u00e3o argumentos importantes no sentido de tornar mais coerente o curr\u00edculo e, por outro lado, permitir uma certa diferencia\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria de cada. O problema dessas duas ret\u00f3ricas \u00e9 que elas conduzem para tr\u00eas coisas que n\u00e3o estou de acordo e que, para mim, s\u00e3o as coisas que est\u00e3o a acontecer no Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: Quais s\u00e3o elas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> A primeira coisa \u00e9 que quando se fala em diminui\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo n\u00e3o pode ser sin\u00f4nimo da velha ideologia do back to basics, isto \u00e9, de voltar aos fundamentos, dar s\u00f3 matem\u00e1tica e portugu\u00eas. Tornar os curr\u00edculos mais simples trata-se de conseguir que, em cada uma das mat\u00e9rias, se valorize a dimens\u00e3o das linguagens e n\u00e3o a dimens\u00e3o dos conte\u00fados. Isto \u00e9, que n\u00f3s tenhamos os instrumentos para ascender ao conhecimento. Os conte\u00fados est\u00e3o todos dispon\u00edveis na internet, em todo lado, logo, o que \u00e9 preciso adquirir \u00e9 a linguagem matem\u00e1tica, cient\u00edfica, da escrita, art\u00edstica, corporal. Ora, o que est\u00e1 a acontecer no Brasil agora \u00e9 o back to basics. H\u00e1 um livro agora muito famoso no Brasil chamado Sapiens, do israelense Yuval Harari, no qual ele diz que hoje temos m\u00e1quinas de aprendizagem que podem fazer coisas muito mais inteligentes que os humanos. Ent\u00e3o, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a intelig\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 do lado dos humanos. Logo, qual \u00e9 a \u00faltima fronteira da humanidade? \u00c9 a consci\u00eancia, algo que n\u00e3o pode ser substitu\u00eddo por nenhuma m\u00e1quina. E a dimens\u00e3o da consci\u00eancia precisa estar presente no curr\u00edculo, por isso, n\u00e3o podemos esquecer da hist\u00f3ria, da sociologia, da filosofia, tudo que nos d\u00e1 essa outra dimens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Minha segunda cr\u00edtica \u00e9 a ideia da forma\u00e7\u00e3o profissional. H\u00e1 20 anos tamb\u00e9m se falava muito sobre isso e deixou-se de falar por v\u00e1rias raz\u00f5es, mas h\u00e1 algumas \u00f3bvias. A expectativa de vida das pessoas est\u00e1 a aumentar exponencialmente. Hoje, estamos a aprender a conviver com quatro gera\u00e7\u00f5es ocupando o mesmo espa\u00e7o \u2013 bisav\u00f3s, av\u00f3s, pais e filhos. Isso tem de significante que a entrada na vida adulta vai ser cada vez mais tardia. H\u00e1 um s\u00e9culo, a expectativa m\u00e9dia de vida era 40 anos, logo, a entrada na vida do trabalho tinha que ser aos 14, 15. Hoje, a m\u00e9dia \u00e9 80 anos, ent\u00e3o a entrada na vida adulta se faz mais tarde, inevitavelmente. Portanto, falar de uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ou tentar que, hoje, uma pessoa com 14 anos tenha uma rela\u00e7\u00e3o com o mundo do trabalho n\u00e3o faz nenhum sentido. N\u00e3o \u00e9 essa a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade: n\u00f3s queremos pessoas que saibam pensar. Que saibam trabalhar tamb\u00e9m, com certeza, mas n\u00e3o \u00e9 aquela vis\u00e3o que t\u00ednhamos antigamente da forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, do oper\u00e1rio. Nos pr\u00f3ximos 20 anos, cerca de 30%, 40% dos trabalhos v\u00e3o ser feitos pela tecnologia. Portanto, manter hoje essa forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 uma ideia de discrimina\u00e7\u00e3o social sobre os pobres. Os percursos formativos, na pr\u00e1tica, mant\u00eam a tradi\u00e7\u00e3o de que os pobres servem para ser oper\u00e1rios e os ricos, doutores. \u00c9 o que chamamos de novo vocacionalismo. Agora o melhor da escola p\u00fablica est\u00e1 em contrariar destinos. Podemos ser amanh\u00e3 uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em oper\u00e1rio o filho do oper\u00e1rio, \u00e9 a pior escola do mundo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: E qual sua opini\u00e3o sobre a ado\u00e7\u00e3o do \u201cnot\u00f3rio saber\u201c?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> O programa Teachers For America, do George Bush, que recrutava pessoas de not\u00f3rio saber para serem professores foi um desastre porque, obviamente, ser professor n\u00e3o \u00e9 ter not\u00f3rio saber em uma mat\u00e9ria, \u00e9 muito mais complexo que isso. Tem uma dimens\u00e3o social, pedag\u00f3gica, cultural muito mais ampla. Ali\u00e1s, h\u00e1 um equ\u00edvoco enorme que \u00e9 o de achar que a miss\u00e3o de um professor de matem\u00e1tica \u00e9 ensinar matem\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9. A miss\u00e3o de um professor de matem\u00e1tica \u00e9 formar uma crian\u00e7a atrav\u00e9s da matem\u00e1tica, o que \u00e9 completamente diferente. Porque n\u00e3o se pode ser cidad\u00e3o sem saber matem\u00e1tica. A cidadania implica saber matem\u00e1tica, portugu\u00eas, hist\u00f3ria. Ora, n\u00e3o \u00e9 por termos not\u00f3rio saber em qu\u00edmica que seremos bons professores dessas disciplinas. Isso \u00e9 acabar com a alma, com a identidade da profiss\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: O senhor foi candidato independente \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais de Portugal de 2016. Como foi a experi\u00eancia?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> Foi uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria porque eu n\u00e3o tinha vida pol\u00edtica, nunca pertenci a nenhum partido, mas sempre estive envolvido em causas sociais. Militei quando era estudante contra a ditadura e sempre estive do lado da liberdade de pensamento, de cr\u00edtica, de discordar dos outros. Por volta de 2013, Portugal vivia um momento horr\u00edvel, com pol\u00edticas de austeridade absurdas e um neoliberalismo cego que colocaram o pa\u00eds em uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. A essa altura, era preciso dar um murro na mesa, dizer um basta. Como participei de grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra a austeridade e tinha acabado de ser reitor da universidade, isso me deu uma grande visibilidade. Como dizia Martin Luther King sobre o car\u00e1ter das pessoas n\u00e3o se mostrar nos tempos f\u00e1ceis, mas nos tempos dif\u00edceis, entendi que precisava tomar uma posi\u00e7\u00e3o. E concorrer foi uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria pela mobiliza\u00e7\u00e3o que trouxe das pessoas e pelo resultado. Estive a 1% ou 2% de passar ao segundo turno e se passasse acho que ganhava. Foi a primeira vez que um candidato independente teve uma candidatura com envergadura e isso para a pol\u00edtica de Portugal foi muito positivo e trouxe uma renova\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 a acontecer em Portugal agora \u00e9 boa parte do que defendi em minha candidatura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>CE: O senhor cogitaria concorrer mais uma vez?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>AN:<\/strong> Se o pa\u00eds continuar tal como est\u00e1, n\u00e3o tenho nenhuma vontade porque acho que est\u00e1 muito bom. Nesse momento, apoio o trabalho do atual presidente da rep\u00fablica [Marcelo Rebelo de Sousa]. Mas se o pa\u00eds entrar em uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil novamente, voltamos ao Martin Luther King e eu, como um homem de car\u00e1ter, preciso me apresentar. Os portugueses sabem que podem contar comigo que eu estarei l\u00e1 de novo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 com essa cr\u00edtica que o portugu\u00eas Ant\u00f3nio N\u00f3voa, reitor honor\u00e1rio da Universidade de Lisboa e candidato \u00e0s \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de Portugal, resume sua vis\u00e3o sobre o cen\u00e1rio educacional no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-7287","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>\u201cSe fosse brasileiro, estaria indignado com a situa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o\u201d &raquo; 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