{"id":7209,"date":"2016-12-12T13:00:07","date_gmt":"2016-12-12T15:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/o-jeito-errado-de-avaliar-a-educacao\/"},"modified":"2016-12-12T13:00:07","modified_gmt":"2016-12-12T15:00:07","slug":"o-jeito-errado-de-avaliar-a-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/o-jeito-errado-de-avaliar-a-educacao\/","title":{"rendered":"O jeito errado de avaliar a educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">N\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade que a educa\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 uma l\u00e1stima. A maior prova disso vem a cada tr\u00eas anos, quando costumam ser divulgados os resultados do Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Estudantes, ou Pisa, a prova da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) que compara, em 72 na\u00e7\u00f5es, alunos na faixa dos 15 anos, cujos conhecimentos s\u00e3o avaliados em tr\u00eas \u00e1reas: leitura, ci\u00eancias e matem\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"> N\u00e3o necessariamente pelos n\u00fameros \u2013 em geral n\u00e3o h\u00e1 surpresa: o Brasil piora ou fica na mesma. Mas, pela profus\u00e3o de reportagens e artigos que veem neles aquilo que n\u00e3o dizem, consideram-nos um retrato fiel do ensino no pa\u00eds e acreditam que, para sanar os problemas da nossa educa\u00e7\u00e3o, basta melhorar a nota em avalia\u00e7\u00f5es do tipo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Trag\u00e9dia das trag\u00e9dias: em matem\u00e1tica, nossa m\u00e9dia caiu de 389 para 377, depois de subir desde 2003 (era 356). Na pr\u00e1tica, isso nada significa. Tanto faz tirar 3,6, 3,8 ou 3,9 na prova \u2013 \u00e9 pau do mesmo jeito (a m\u00e9dia foi 490). Quer dizer que os alunos brasileiros sabem hoje menos matem\u00e1tica que h\u00e1 tr\u00eas anos? De jeito nenhum. A estat\u00edstica n\u00e3o permite dizer isso. Provavelmente sabem tanto quanto sabiam \u2013 muito pouco. Nas demais \u00e1reas, o quadro \u00e9 semelhante: nota 401 em ci\u00eancias (11 a mais que em 2006) e 407 em leitura (11 a mais que em 2000). A trag\u00e9dia \u00e9 igual, embora a chiadeira tenha sido menor. O maior problema nem est\u00e1 no desconhecimento de estat\u00edstica de quem l\u00ea os n\u00fameros. Est\u00e1 em lhes atribuir o poder sobrenatural de medir a qualidade do ensino. O ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Mendon\u00e7a Filho, afirmou que o Pisa revela nossa \u201ctrag\u00e9dia\u201d, nosso \u201cfracasso retumbante\u201d. \u00c9 verdade que, desde a primeira edi\u00e7\u00e3o, em 2000, estamos entre os 10% piores. Mas que significa isso? De novo, muito pouco.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">H\u00e1 tempos os crit\u00e9rios do Pisa v\u00eam sendo torpedeados. Dois anos atr\u00e1s, um grupo de especialistas em educa\u00e7\u00e3o enviou um protesto formal \u00e0 OCDE. O ranking do Pisa, dizem, \u00e9 extremamente sens\u00edvel a pequenas varia\u00e7\u00f5es nas quest\u00f5es ou na amostragem dos alunos. Pa\u00edses como Su\u00ed\u00e7a e Finl\u00e2ndia pulam para cima e para baixo sem mudan\u00e7a em suas escolas. Estat\u00edsticos contestam que a prova reflita de modo fiel os conhecimentos avaliados \u2013 pois tirar a mesma nota jamais significou saber tanto quanto. Ainda que refletissem, a metodologia usada no Pisa n\u00e3o permite inferir dos n\u00fameros a qualidade do ensino nos v\u00e1rios pa\u00edses, muito menos compar\u00e1-los. Finalmente, o Pisa mede compet\u00eancias importantes, mas n\u00e3o as mais necess\u00e1rias no mundo contempor\u00e2neo. \u201cExames como o Pisa avaliam habilidades cognitivas\u201d, diz o educador chin\u00eas Yong Zhao em Who\u2019s afraid of the big bad dragon? (Quem tem medo do drag\u00e3o mau?). Mas as qualidades mais necess\u00e1rias na economia moderna, como criatividade e empreendedorismo, \u201ct\u00eam mais a ver com habilidades <\/span><br \/><span style=\"font-size: 12pt;\">n\u00e3o cognitivas: confian\u00e7a, resili\u00eancia, determina\u00e7\u00e3o, mentalidade, tra\u00e7os de personalidade, traquejo social e motiva\u00e7\u00e3o\u201d. Nada disso \u00e9 mensur\u00e1vel numa prova.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Radicado nos Estados Unidos, Yong faz em seu livro uma cr\u00edtica veemente, precisa e bem informada ao ensino em sua terra natal e noutros pa\u00edses asi\u00e1ticos que transformaram a educa\u00e7\u00e3o numa batalha por notas em testes. Ele afirma que um tra\u00e7o comum une China, Coreia do Sul, Vietn\u00e3 e Cingapura (campe\u00e3 do Pisa neste ano): o autoritarismo, que imp\u00f5e aos alunos uma disciplina f\u00e9rrea e lhes subtrai o gosto pelo aprendizado. Yong descreve escolas chinesas que se tornaram f\u00e1bricas de notas, onde os alunos s\u00e3o adestrados como c\u00e3es, qualquer desvio das normas \u00e9 punido severamente \u2013 e a trapa\u00e7a \u00e9 end\u00eamica. \u201cA educa\u00e7\u00e3o chinesa sufoca a criatividade, asfixia a curiosidade, suprime a individualidade e arru\u00edna a sa\u00fade das crian\u00e7as. Angustia alunos e pais, corrompe professores e l\u00edderes. Perpetua injusti\u00e7a social e desigualdade\u201d, afirma. \u201cAquilo que deu \u00e0 China seu desempenho deslumbrante no Pisa lhe custou car\u00edssimo.\u201d Yong mostra como os milhares de fraudes na ci\u00eancia e na ind\u00fastria chinesa em tempos recentes derivam dessa cu<\/span><br \/><span style=\"font-size: 12pt;\">ltura. \u00c9 essa a educa\u00e7\u00e3o modelo para o mundo?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A dissemina\u00e7\u00e3o dos testes como o Pisa conferiu \u00e0 educa\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter aparentemente objetivo, tentador para os empres\u00e1rios brasileiros, acostumados a avaliar seus neg\u00f3cios por meio de indicadores num\u00e9ricos. Mas a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se resumir a isso. Alunos podem tirar 10 na prova, mas deixar a desejar na caracter\u00edstica mais importante para os neg\u00f3cios desses mesmos empres\u00e1rios \u2013 inova\u00e7\u00e3o. \u201cEles ficam bons para resolver problemas previs\u00edveis, mas n\u00e3o em descobrir solu\u00e7\u00f5es novas radicais ou em inventar novos problemas a resolver\u201d, diz Yong. Como disse Mill\u00f4r Fernandes sobre o xadrez, a prova do Pisa \u00e9 uma \u00f3tima ferramenta para avaliar a capacidade de fazer a prova do Pisa. Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa \u2013 bem mais dif\u00edcil que apenas tirar uma boa nota.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade que a educa\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 uma l\u00e1stima. 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