{"id":7136,"date":"2016-11-22T15:04:15","date_gmt":"2016-11-22T17:04:15","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/quais-os-desafios-para-a-reforma-do-ensino-medio\/"},"modified":"2016-11-22T15:04:15","modified_gmt":"2016-11-22T17:04:15","slug":"quais-os-desafios-para-a-reforma-do-ensino-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/quais-os-desafios-para-a-reforma-do-ensino-medio\/","title":{"rendered":"Quais os desafios para a reforma do ensino m\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em meio ao intenso debate sobre a reforma do ensino m\u00e9dio desencadeado pela Medida Provis\u00f3ria 746, que reestrutura este n\u00edvel de ensino no pa\u00eds, coloca-se um desafio na ordem do dia: como implementar a proposta.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Apresentada pelo governo como solu\u00e7\u00e3o para os problemas hist\u00f3ricos enfrentados pelo ensino secund\u00e1rio no Brasil, a reforma substitui um modelo no qual os estudantes cursam 13 disciplinas obrigat\u00f3rias por uma organiza\u00e7\u00e3o supostamente mais flex\u00edvel, na qual teriam a possibilidade de direcionar a forma\u00e7\u00e3o para suas \u00e1reas de interesse. Al\u00e9m disso, ter\u00e3o aumento progressivo das horas\/aula por ano, com a \u00eanfase na educa\u00e7\u00e3o em tempo integral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Embora esteja envolta numa aura de urg\u00eancia, diante da \u201ccrise\u201d, atestada pelos resultados do \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Ideb) de 2015, a reforma n\u00e3o dever\u00e1 chegar \u00e0s escolas antes de 2018 \u2013 isto supondo que a Medida Provis\u00f3ria (MP) seja aprovada no Congresso Nacional sem altera\u00e7\u00f5es, no prazo de 120 dias contados a partir do dia 22 de setembro, data de apresenta\u00e7\u00e3o da proposta ao Legislativo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Dos tr\u00eas n\u00edveis que comp\u00f5em a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, o ensino m\u00e9dio \u00e9 o que tem apresentado os piores resultados, com baixos n\u00edveis de aprendizagem, elevadas taxas de evas\u00e3o e um ritmo de melhoria da qualidade aqu\u00e9m do esperado, tomando como par\u00e2metro o \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Ideb). Em 2015, o Ideb do ensino m\u00e9dio no pa\u00eds foi 3,7 (ante uma meta de 4,3) e permanece com tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o desde 2011.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Frente ao que o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Mendon\u00e7a Filho, caracterizou como uma \u201ccat\u00e1strofe para a nossa juventude\u201d durante o an\u00fancio dos dados do Ideb 2015, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) publicou a MP 746, propondo uma nova estrutura curricular para o ensino m\u00e9dio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Apesar da urg\u00eancia e da gravidade do diagn\u00f3stico \u2013 o que justificaria, segundo o governo, a op\u00e7\u00e3o pelo recurso da Medida Provis\u00f3ria \u2013, para que a nova organiza\u00e7\u00e3o e o novo curr\u00edculo do ensino m\u00e9dio cheguem \u00e0s salas de aula, ser\u00e1 necess\u00e1rio um caminho que n\u00e3o ser\u00e1 simples, nem direto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">De acordo com o texto da MP (Artigo 4o), o novo modelo curricular dever\u00e1 ser implementado \u201cno segundo ano letivo subsequente \u00e0 data de publica\u00e7\u00e3o\u201d da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Esse prazo poder\u00e1 ser reduzido para o primeiro ano letivo ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o da BNCC, mas somente se esta for aprovada pelo menos 180 dias antes do in\u00edcio do ano letivo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em outras palavras, caso a Base seja aprovada no primeiro semestre de 2017, a reforma do ensino m\u00e9dio chegar\u00e1 \u00e0s escolas em 2018; sen\u00e3o, s\u00f3 em 2019. Assim, o fato de a implementa\u00e7\u00e3o da MP estar vinculada \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da BNCC a transforma num instrumento in\u00f3cuo sobre o curr\u00edculo do ensino m\u00e9dio at\u00e9 que as novas normas curriculares sejam efetivadas \u2013 apesar de ter for\u00e7a de lei e aplicabilidade imediata.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Sem a defini\u00e7\u00e3o da BNCC do ensino m\u00e9dio, a MP n\u00e3o realiza aquilo que promete. \u201cAprovar algo que ainda n\u00e3o foi definido completamente cria uma incerteza que impede uma altera\u00e7\u00e3o nos projetos pedag\u00f3gicos, os quais dever\u00e3o ser adequados ao novo marco legal\u201d, analisa Carlos Artexes Sim\u00f5es, ex-diretor de Concep\u00e7\u00f5es e Orienta\u00e7\u00f5es Curriculares da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O protagonismo dos estados<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m do tempo necess\u00e1rio para que o arcabou\u00e7o legal envolvido na reforma do ensino m\u00e9dio se consolide, a implementa\u00e7\u00e3o propriamente dita perpassa uma s\u00e9rie de desafios \u2013 desde a defini\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo, \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o da infraestrutura das escolas para a amplia\u00e7\u00e3o da oferta de jornada em tempo integral, passando pela prepara\u00e7\u00e3o dos professores e demais integrantes das equipes escolares, a fim de que as escolas funcionem como previsto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A reforma possui dois pilares: a implementa\u00e7\u00e3o progressiva da jornada em tempo integral no ensino m\u00e9dio, totalizando 1.400 horas\/ano em lugar das atuais 800 horas anuais, e a organiza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo de modo a contemplar cinco \u00eanfases ou itiner\u00e1rios formativos: linguagem, matem\u00e1tica, ci\u00eancias da natureza, ci\u00eancias humanas e forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissionalizante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Assim, durante o ensino m\u00e9dio, o estudante ter\u00e1 um n\u00facleo de conte\u00fados obrigat\u00f3rios, vinculados \u00e0 BNCC, totalizando 1.200 horas. Entre esses, l\u00edngua portuguesa, matem\u00e1tica e ingl\u00eas devem ser ofertados durante os tr\u00eas anos. O ensino de arte e educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica passa a ser facultativo. O restante das horas ser\u00e1 dedicado ao itiner\u00e1rio formativo escolhido pelo estudante, segundo a MP.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nesse novo arranjo, os governos estaduais, respons\u00e1veis legais pela oferta do ensino m\u00e9dio, desempenhar\u00e3o um papel fundamental, pois, de acordo com a MP, caber\u00e1 a eles a defini\u00e7\u00e3o dos itiner\u00e1rios formativos espec\u00edficos nas cinco \u00e1reas. Tamb\u00e9m caber\u00e1 aos estados organizar as compet\u00eancias, habilidades e expectativas de aprendizagem definidas na BNCC.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse dispositivo \u201cimplica profunda quebra de paradigmas\u201d, analisa Maria Beatriz Mandelert Padovani, presidente da C\u00e2mara de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o do Par\u00e1 e relatora de um estudo sobre a MP elaborado pela entidade. Primeiro, por causa do protagonismo conferido aos sistemas de ensino na implementa\u00e7\u00e3o da reforma do ensino m\u00e9dio pela MP, sem que se fa\u00e7a qualquer refer\u00eancia ao \u201clivre-arb\u00edtrio da escola\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em segundo lugar, o documento ressalta a complexidade envolvida na implementa\u00e7\u00e3o da reforma, o que \u201cdemandar\u00e1 profundos estudos por parte de todos os envolvidos\u201d \u2013 as redes de educa\u00e7\u00e3o, os conselhos estaduais de educa\u00e7\u00e3o \u2013, j\u00e1 que cada \u00eanfase deve atender aos interesses dos alunos que optarem por elas, diz a an\u00e1lise realizada pelo conselho paraense, apresentada e discutida no F\u00f3rum Nacional de Conselhos Estaduais de Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Assim, embora a MP atribua aos sistemas de ensino a responsabilidade pela defini\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo e dos itiner\u00e1rios formativos que ser\u00e3o oferecidos, o documento defende que as escolas deveriam ter sido inclu\u00eddas nesse processo, j\u00e1 que n\u00e3o seria adequado exigir que todas elas oferecessem todas as \u00eanfases regulamentadas num sistema de ensino.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O documento sugere, ent\u00e3o, que os sistemas de ensino fa\u00e7am a regulamenta\u00e7\u00e3o geral do curr\u00edculo e as escolas tenham um papel ativo na defini\u00e7\u00e3o das \u00eanfases e itiner\u00e1rios a serem ofertados, conforme suas realidades, caracter\u00edsticas, voca\u00e7\u00e3o e op\u00e7\u00f5es dos alunos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A flexibilidade em quest\u00e3o<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cCada estado pode fazer um arranjo diferente\u201d, explica J\u00falio Greg\u00f3rio, secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o do Distrito Federal e presidente da comiss\u00e3o do Conselho Nacional de Secret\u00e1rios Estaduais de Educa\u00e7\u00e3o (Consed), que discute a reforma. \u201cNo limite, a lei permite at\u00e9 que um estado continue a ofertar 13 disciplinas obrigat\u00f3rias, como \u00e9 hoje\u201d, complementa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Segundo Greg\u00f3rio, a Base Nacional Comum Curricular vai definir as mat\u00e9rias obrigat\u00f3rias para todos e, a partir de ent\u00e3o, as redes estaduais podem tra\u00e7ar seus caminhos. \u201cOs componentes da Base podem at\u00e9 ser cursados paralelamente \u00e0 op\u00e7\u00e3o do aluno durante os tr\u00eas anos do ensino m\u00e9dio. Os estados t\u00eam de cumprir as 1.200 horas, mas nada especifica que elas devem ser concentradas em um ano e meio.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mas, para os cr\u00edticos da reforma, \u00e9 justamente essa possibilidade que pode trazer consequ\u00eancias negativas ao ensino m\u00e9dio. \u201cVai gerar uma confus\u00e3o organizacional e um maior acirramento entre gestores, educadores e estudantes\u201d, prev\u00ea Artexes Sim\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m disso, na percep\u00e7\u00e3o dele, o novo ordenamento, ao inv\u00e9s de ampliar as op\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o aos estudantes, poder\u00e1 reduzir a liberdade das escolas e dos professores, assim como dos projetos pedag\u00f3gicos, ao definir as cinco \u00eanfases \u2013 ou itiner\u00e1rios \u2013 como refer\u00eancias para os sistemas de ensino estruturarem o curr\u00edculo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cA proposta de reforma do ensino m\u00e9dio n\u00e3o altera em nada a flexibilidade curricular atualmente em vigor. Pelo contr\u00e1rio, inibe outras formas de organiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a escolha de \u00eanfases das \u00e1reas do conhecimento e profissionaliza\u00e7\u00e3o. Promove uma obrigatoriedade na diferencia\u00e7\u00e3o curricular no ensino m\u00e9dio. Inflexibiliza a flexibilidade da lei vigente\u201d, analisa o ex-diretor do MEC.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Seu argumento se sustenta na pr\u00f3pria Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDB), que \u00e9 bastante aberta e flex\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o ao ensino m\u00e9dio: a lei obriga que as escolas ofere\u00e7am v\u00e1rios conte\u00fados curriculares, mas permite que elas os organizem livremente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ou seja, a LDB n\u00e3o define carga hor\u00e1ria para os componentes curriculares, nem modelos de organiza\u00e7\u00e3o curricular, o que, em tese, assegura liberdade \u00e0s institui\u00e7\u00f5es educacionais e aos sistemas de ensino para se organizarem da forma que julgarem melhor \u2013 a organiza\u00e7\u00e3o pode ser em s\u00e9ries ou em ciclos; os componentes curriculares podem ser disciplinas ou assumirem outro formato e n\u00e3o h\u00e1 carga hor\u00e1ria semanal definida para eles.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As \u00fanicas exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o, justamente, filosofia e sociologia que, atualmente, s\u00e3o obrigat\u00f3rias em todos os anos do ensino m\u00e9dio (mas que poderiam ser ofertadas em outro formato, que n\u00e3o o disciplinar), e que se tornaram alvo de pol\u00eamica ao serem exclu\u00eddas do rol de con\u00acte\u00fados obrigat\u00f3rios na MP.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cAs propostas da MP n\u00e3o trazem novidade do ponto de vista legal. Essas medidas j\u00e1 poderiam ter sido implementadas desde a d\u00e9cada de 1990\u201d, afirma o consultor e ex-integrante do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE) Francisco Aparecido Cord\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m disso, para Cord\u00e3o, que foi relator das diretrizes curriculares para a educa\u00e7\u00e3o profissional, a MP n\u00e3o altera o status nem o papel da escola, que continua tendo autonomia para organizar o curr\u00edculo em conformidade com seu projeto pol\u00edtico-pedag\u00f3gico, j\u00e1 que os artigos da LDB que abordam esse tema (n\u00fameros 12 e 13) n\u00e3o foram modificados pela MP e continuam em vigor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Financiamento e condi\u00e7\u00f5es de oferta<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Se do ponto de vista legal a MP n\u00e3o representa exatamente uma novidade em termos das possiblidades de organiza\u00e7\u00e3o curricular do ensino m\u00e9dio, sua implementa\u00e7\u00e3o aporta o desafio de equacionar as atuais condi\u00e7\u00f5es de oferta e de financiamento com as metas de qualidade, previstas em indicadores de qualidade (como o Ideb) ou no pr\u00f3prio Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A preocupa\u00e7\u00e3o com o financiamento \u00e9 dupla: de um lado, muitos estados est\u00e3o atravessando dificuldades financeiras, a ponto de suspender o pagamento dos sal\u00e1rios de servidores (como no caso do Rio de Janeiro, entre outros) e renegociando suas d\u00edvidas com o governo federal. De outro, est\u00e1 a PEC 241 que, se aprovada, fixar\u00e1 um teto m\u00e1ximo para as despesas do governo, inclusive com educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O MEC descarta que a PEC 241 possa afetar negativamente os investimentos em educa\u00e7\u00e3o, alegando que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais investe proporcionalmente em educa\u00e7\u00e3o entre os membros da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE). Al\u00e9m disso, o ministro Mendon\u00e7a Filho defende um realocamento dos recursos dispon\u00edveis, ampliando o volume destinado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em detrimento da educa\u00e7\u00e3o superior.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O governo promete, ainda, destinar R$ 2 mil\/ano, durante quatro anos, por aluno para a implementa\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o em tempo integral nos estados que aderirem \u00e0 proposta. Inicialmente, no m\u00ednimo 8 e no m\u00e1ximo 30 escolas (ou 14 mil matr\u00edculas) por estado poder\u00e3o ser contempladas com essa verba.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201c\u00c9 muito prov\u00e1vel que os estados selecionem escolas com mais potencial para a oferta de educa\u00e7\u00e3o em tempo integral. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro como ser\u00e1 feita a gest\u00e3o desses recursos, se as escolas poder\u00e3o utiliz\u00e1-los de acordo com as aspira\u00e7\u00f5es dos jovens ou se ser\u00e1 usado em atividades que reproduzem o formato escolar tradicional\u201d, analisa o cientista social Lu\u00eds Serr\u00e3o, da ONG A\u00e7\u00e3o Educativa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Embora enxergue aspectos positivos na medida provis\u00f3ria por \u201cdar um chacoalh\u00e3o\u201d, Francisco Cord\u00e3o, ex-conselheiro do CNE, cr\u00ea que a mudan\u00e7a do mecanismo de c\u00e1lculo dos recursos para a educa\u00e7\u00e3o proposta pela PEC 241 dever\u00e1 impactar negativamente a reforma do ensino m\u00e9dio. \u201c\u00c9 preciso mais dinheiro, mas tamb\u00e9m h\u00e1 bastante desperd\u00edcio. O Brasil aplica um volume razo\u00e1vel de recursos em educa\u00e7\u00e3o, mas o dinheiro n\u00e3o chega at\u00e9 a sala de aula\u201d, pondera Cord\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gest\u00e3o, ponto cr\u00edtico<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A gest\u00e3o \u00e9 justamente o principal desafio para colocar a reforma do ensino m\u00e9dio em pr\u00e1tica, na vis\u00e3o de Greg\u00f3rio, do Consed. \u201cEsse \u00e9 o ponto que mais nos preocupa\u201d, admite ele, especialmente no que diz respeito \u00e0 adequa\u00e7\u00e3o da infraestrutura das escolas e eventuais disparidades que possam ocorrer dentro de uma mesma rede de ensino, visando assegurar um leque adequado de op\u00e7\u00f5es aos estudantes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Apesar de ser otimista com rela\u00e7\u00e3o aos efeitos da reforma, ele prev\u00ea que os munic\u00edpios menores estar\u00e3o em desvantagem quanto \u00e0s possibilidades de oferta de itiner\u00e1rios de forma\u00e7\u00e3o. Segundo ele, com o tempo, nas grandes cidades, a tend\u00eancia \u00e9 que algumas escolas se especializem em determinados itiner\u00e1rios. \u201cUma escola com bons laborat\u00f3rios, naturalmente, ser\u00e1 preferida pelos estudantes que se interessam por ci\u00eancias, tecnologia. Uma escola com um bom anfiteatro ser\u00e1 procurada por professores e alunos que querem trabalhar com artes ou m\u00fasica\u201d, acredita.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Essa configura\u00e7\u00e3o seria uma forma de melhorar a qualidade e otimizar recursos num cen\u00e1rio em que muitas escolas carecem de infraestrutura e equipamentos adequados. \u201cAt\u00e9 hoje n\u00f3s n\u00e3o conseguimos equipar todas as escolas com bons laborat\u00f3rios, porque isso custa muito caro\u201d, reconhece.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">J\u00e1 nas cidades pequenas, h\u00e1, de fato, o risco de que os estudantes tenham suas op\u00e7\u00f5es limitadas. Ainda assim, defende o representante do Consed, seria poss\u00edvel construir um sistema melhor do que o atual. \u201cO estudante tem o direito de abdicar de estudar n\u00fameros complexos de matem\u00e1tica, para ter mais aulas de hist\u00f3ria. Esses arranjos s\u00e3o poss\u00edveis. Alguma op\u00e7\u00e3o \u00e9 melhor do que nenhuma\u201d, defende.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O professor da Universidade Federal Fluminense Paulo Carrano enxerga na proposta o risco de ampliar a desigualdade entre escolas de uma mesma rede de ensino, al\u00e9m de n\u00e3o oferecer op\u00e7\u00f5es reais aos estudantes. \u201cNa verdade, da maneira como est\u00e1 feito, n\u00e3o s\u00e3o os jovens que escolher\u00e3o os itiner\u00e1rios. Os estados \u00e9 que v\u00e3o oferecer dentro das suas conveni\u00eancias e capacidades e os estudantes ter\u00e3o de se adequar\u201d, afirma Carrano, que tamb\u00e9m \u00e9 coordenador do Observat\u00f3rio Jovem da UFF.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m disso, ele acredita que, dentro de um sistema, apenas algumas escolas ter\u00e3o condi\u00e7\u00e3o de oferecer um amplo leque de op\u00e7\u00f5es. \u201cNo lugar de transformar o ensino m\u00e9dio de fato, o governo construiu um arranjo pol\u00edtico-institucional para consolidar a desigualdade que j\u00e1 existe. Tanto a desigualdade dentro das redes, como a desigualdade de acesso ao conhecimento\u201d, prev\u00ea o professor, lembrando que as escolas mais bem estruturadas tendem a atrair os melhores alunos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio ao intenso debate sobre a reforma do ensino m\u00e9dio desencadeado pela Medida Provis\u00f3ria 746, que reestrutura este n\u00edvel de ensino no pa\u00eds, coloca-se um desafio na ordem do dia: como implementar a proposta.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-7136","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Quais os desafios para a reforma do ensino m\u00e9dio &raquo; 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