{"id":6865,"date":"2016-08-04T14:51:22","date_gmt":"2016-08-04T17:51:22","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/faltam-livros-nas-escolas-brasileiras\/"},"modified":"2016-08-04T14:51:22","modified_gmt":"2016-08-04T17:51:22","slug":"faltam-livros-nas-escolas-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/faltam-livros-nas-escolas-brasileiras\/","title":{"rendered":"Faltam livros nas escolas brasileiras"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O romance O menino do pijama listrado, de John Boyne, despertou a paix\u00e3o de Sidineia Chagas, de 25 anos, pela leitura, quando ela cursava, em 2007, o 1\u00ba ano do ensino m\u00e9dio na Escola Estadual Professora Renata Menezes dos Santos. Sidineia mora em Parelheiros, regi\u00e3o do extremo sul de S\u00e3o Paulo que lidera rankings de viol\u00eancia e de baixo desenvolvimento humano.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O encontro entre Sidineia e a hist\u00f3ria de Boyne ocorreu quando cada aluno de sua classe recebeu uma caixa com quatro livros. O mesmo encanto com os t\u00edtulos n\u00e3o aconteceu com boa parte de seus colegas. \u201cQuando a aula acabou, muita gente rasgou os livros\u201d, diz ela. Sidineia viu p\u00e1ginas virarem dobraduras ou muni\u00e7\u00e3o para guerra de bolinhas de papel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A atitude dos jovens foi um reflexo do descaso com que a pr\u00f3pria escola tratava a leitura. Sidineia afirma que as obras foram apresentadas aos alunos sem o respaldo de qualquer atividade pedag\u00f3gica que destacasse a relev\u00e2ncia delas. Al\u00e9m disso, a biblioteca do col\u00e9gio nunca atraiu frequentadores. Quase sempre fechado, o espa\u00e7o funcionava mais como um dep\u00f3sito de livros do que como um ambiente de incentivo ao h\u00e1bito de ler. O mesmo ocorria nas demais escolas da regi\u00e3o de Parelheiros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Essa realidade prec\u00e1ria inspirou Sidineia e outros 30 jovens a criar um espa\u00e7o de leitura que pudessem frequentar \u00e0 vontade. Nos fundos do Cemit\u00e9rio do Col\u00f4nia, uma pequena casa antes abandonada abriga a Biblioteca Comunit\u00e1ria Caminhos da Leitura, fundada em 2009, em parceria com uma ONG, o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunit\u00e1rio (Ibeac). \u201cO objetivo foi criar um lugar que, al\u00e9m de emprestar livros, fosse um ponto de encontro para a comunidade\u201d, diz Sidineia. Com a ajuda de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, hoje a biblioteca conta com um acervo de 4 mil exemplares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Iniciativas como a de Parelheiros surgem para tapar buracos deixados pelas pol\u00edticas educacionais do estado. Uma lei sancionada em 2010 determina que, at\u00e9 2020, todas as escolas do Brasil tenham uma biblioteca. Os n\u00fameros, por\u00e9m, mostram que a obrigatoriedade n\u00e3o ser\u00e1 cumprida dentro do prazo \u2013 se \u00e9 que ela ser\u00e1 cumprida algum dia. O Censo Escolar de 2015 mostra que somente 37% das escolas p\u00fablicas e privadas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica (entre a educa\u00e7\u00e3o infantil e o fim do ensino m\u00e9dio) t\u00eam biblioteca. Para que a meta seja alcan\u00e7ada, 84 bibliotecas teriam de ser abertas diariamente, a partir desta semana e pelos pr\u00f3ximos 1.389 dias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esses n\u00fameros mostram apenas um dos aspectos de como o incentivo \u00e0 leitura \u00e9 negligenciado na educa\u00e7\u00e3o brasileira. As poucas bibliotecas existentes na rede p\u00fablica costumam funcionar de forma muito deficiente. Entre 11 escolas escolhidas aleatoriamente na cidade de S\u00e3o Paulo, apenas duas bibliotecas funcionam em per\u00edodo integral e tr\u00eas ficam abertas eventualmente. Em seis escolas, alunos n\u00e3o t\u00eam livre acesso ao espa\u00e7o onde ficam os livros. \u201cA sala fica fechada. Os estudantes s\u00f3 podem entrar quando acompanhados por um professor\u201d, afirma o funcion\u00e1rio de uma das escolas, que n\u00e3o quis ser identificado. O motivo mais comum ao acesso restrito \u00e9 a falta de um supervisor no local.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Isso n\u00e3o ocorreria se a lei fosse respeitada. As bibliotecas escolares devem contar com a presen\u00e7a de um bibliotec\u00e1rio preparado para organizar, abastecer e gerenciar o acervo. Na contram\u00e3o do que diz a lei, a rede estadual de ensino de S\u00e3o Paulo passou a substituir, em 2009, a instala\u00e7\u00e3o de bibliotecas por salas de leitura. Diferentemente das bibliotecas, essas salas s\u00e3o espa\u00e7os informais, com acervo diminuto, sem preocupa\u00e7\u00e3o com ilumina\u00e7\u00e3o ou organiza\u00e7\u00e3o apropriada para atividades relacionadas ao estudo e \u00e0 leitura. Outra diferen\u00e7a fundamental da sala de leitura \u00e9 que ela dispensa a presen\u00e7a de um profissional preparado para receber os alunos. \u201cUm dos pap\u00e9is do bibliotec\u00e1rio \u00e9 sugerir a\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas que tornem a biblioteca um espa\u00e7o convidativo para os alunos\u201d, diz Maria Aparecida Lamas, educadora especializada em forma\u00e7\u00e3o de leitores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em 2012, 13% das escolas estaduais paulistas tinham bibliotecas. Salas de leitura estavam presentes em 75,4% delas. Em 2015, o n\u00famero de escolas com bibliotecas caiu para 7,4%, enquanto o de salas de leitura aumentou para 78%. Nesse mesmo per\u00edodo, n\u00e3o houve expans\u00e3o da rede de bibliotecas entre as escolas municipais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Educadores ouvidos por \u00c9POCA afirmam que S\u00e3o Paulo freou a implanta\u00e7\u00e3o de bibliotecas para economizar dinheiro, tese endossada pelo sindicato dos bibliotec\u00e1rios. \u201cO governo usa a m\u00e1scara da sala de leitura para extinguir o cargo de bibliotec\u00e1rio em suas escolas\u201d, diz Vera Stefanov, presidente do Sindicato dos Bibliotec\u00e1rios de S\u00e3o Paulo. Questionado, o governo paulista s\u00f3 mencionou a expans\u00e3o de salas de leitura. S\u00e3o Paulo \u00e9 o quarto estado com o pior \u00edndice de bibliotecas escolares, seguido por Acre (19,3%), Par\u00e1 (18%) e Maranh\u00e3o (15%). (Confira o gr\u00e1fico abaixo)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A lei que torna obrigat\u00f3ria a exist\u00eancia de bibliotecas baseia-se em evid\u00eancias pedag\u00f3gicas e cient\u00edficas sobre os benef\u00edcios da leitura para o c\u00e9rebro da crian\u00e7a e seu desenvolvimento \u2013 como estudante e como cidad\u00e3o. Um estudo da Universidade York, do Canad\u00e1, constatou que crian\u00e7as expostas a livros t\u00eam mais facilidade em lidar com opini\u00f5es e sentimentos alheios. Quando mediada por familiares, aponta pesquisa da Faculdade de Medicina de Nova York, a leitura contribui para estreitar v\u00ednculos afetivos e estimular o di\u00e1logo. Entre seus benef\u00edcios, destacam-se tamb\u00e9m a expans\u00e3o do vocabul\u00e1rio e o desenvolvimento da mem\u00f3ria. A exposi\u00e7\u00e3o constante \u00e0 literatura \u00e9 a forma mais eficiente para combater o analfabetismo funcional, do qual 27% da popula\u00e7\u00e3o brasileira padece. \u201cA dificuldade em interpretar o que leem ocorre basicamente porque as pessoas ainda n\u00e3o automatizaram a decodifica\u00e7\u00e3o das palavras. Isso ocorre somente com o h\u00e1bito da leitura\u201d, disse a \u00c9POCA Stanislas Dehaene, neurocientista franc\u00eas que pesquisa dis<\/span><br \/><span style=\"font-size: 12pt;\">tor\u00e7\u00f5es cognitivas no aprendizado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Bibliotecas s\u00e3o espa\u00e7os f\u00e9rteis para atividades que estimulam a leitura, a narra\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e a criatividade. Sidineia e seus colegas da biblioteca j\u00e1 se acostumaram a tirar as hist\u00f3rias das prateleiras e transform\u00e1-las numa infinidade de atividades que envolvem toda a comunidade. Poemas de Drummond embalam melodias de bai\u00e3o. Versos de Manoel de Barros inspiram encena\u00e7\u00f5es teatrais. Textos de Simone de Beauvoir iniciam discuss\u00f5es sobre viol\u00eancia contra a mulher. \u201cA vizinhan\u00e7a se envolve em discuss\u00f5es sobre pol\u00edtica e direitos humanos\u201d, diz Sidineia. Em cinco anos, o P\u00edlulas de Leitura, projeto dessa biblioteca, alcan\u00e7ou 12 mil crian\u00e7as de Parelheiros. Em um pa\u00eds com 13 milh\u00f5es de analfabetos, iniciativas como essas s\u00e3o a melhor resposta da popula\u00e7\u00e3o para um exemplo de descaso do poder p\u00fablico com a educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance O menino do pijama listrado, de John Boyne, despertou a paix\u00e3o de Sidineia Chagas, de 25 anos, pela leitura, quando ela cursava, em 2007, o 1\u00ba ano do ensino m\u00e9dio na Escola Estadual Professora Renata Menezes dos Santos. 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