{"id":6778,"date":"2016-06-27T15:15:38","date_gmt":"2016-06-27T18:15:38","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/maria-clara-di-pierro-perdemos-3-2-milhoes-de-matriculas-na-educacao-de-jovens-e-adultos\/"},"modified":"2016-06-27T15:15:38","modified_gmt":"2016-06-27T18:15:38","slug":"maria-clara-di-pierro-perdemos-3-2-milhoes-de-matriculas-na-educacao-de-jovens-e-adultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/maria-clara-di-pierro-perdemos-3-2-milhoes-de-matriculas-na-educacao-de-jovens-e-adultos\/","title":{"rendered":"Maria Clara Di Pierro: \u201cPerdemos 3,2 milh\u00f5es de matr\u00edculas na Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No Brasil, pessoas entre 4 e 17 anos s\u00e3o obrigadas por lei a estudar. Quem n\u00e3o se encaixa nessa faixa et\u00e1ria ou est\u00e1 numa idade muito defasada em rela\u00e7\u00e3o ao ano que deveria estar cursando \u2013 como um jovem de 16 anos que ainda est\u00e1 nos primeiros anos do fundamental \u2013 pode contar com a Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA).<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"> Hoje, a EJA \u00e9 a alternativa oferecida pelo Estado para dar educa\u00e7\u00e3o \u00e0queles que n\u00e3o tiveram acesso ou desistiram da escola. O sistema de educa\u00e7\u00e3o para adultos \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os, conscientes de seus deveres e direitos, e para a economia do pa\u00eds. Agregar educa\u00e7\u00e3o significa agregar produtividade. Essa \u00e9 uma \u00e1rea em crise no pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Segundo o Censo Escolar da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica de 2014, as matr\u00edculas em EJA v\u00eam caindo drasticamente nos \u00faltimos anos. Em 2006, mais de 8,3 milh\u00f5es de brasileiros acima dos 15 anos voltaram a frequentar a escola. Oito anos depois, foram registradas 3,2 milh\u00f5es de matr\u00edculas a menos na modalidade. \u201cEssa queda mostra uma regress\u00e3o. Vai na contram\u00e3o dos direitos educativos j\u00e1 consolidados na nossa legisla\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Maria Clara Di Pierro, professora da faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP e especialista em educa\u00e7\u00e3o de adultos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Segundo ela, \u201ca EJA \u00e9 uma ferramenta preciosa para o desenvolvimento de qualquer pa\u00eds.\u201d Especialmente do nosso, que tem cerca de 13 milh\u00f5es de analfabetos. Dados do IBGE de 2014 estimam que o n\u00famero represente 8,7% da popula\u00e7\u00e3o acima de 15 anos. Quando o crit\u00e9rio \u00e9 o analfabetismo funcional, os \u00edndices s\u00e3o ainda piores: 27% dos brasileiros s\u00e3o capazes de decodificar letras e n\u00fameros, mas n\u00e3o compreendem o que leem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em entrevista a \u00c9POCA, Maria Clara apresentou poss\u00edveis motivos para a queda da procura de adultos por instru\u00e7\u00e3o e comentou a import\u00e2ncia de se investir mais nesse tipo de ensino. \u201cA l\u00f3gica de investir nas novas gera\u00e7\u00f5es e esperar os mais velhos morrerem \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esperar as crian\u00e7as crescerem para o pa\u00eds se desenvolver.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; A que a senhora atribui a diminui\u00e7\u00e3o expressiva do n\u00famero de matr\u00edculas na EJA?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara Di Pierro &#8211; Desde 2007, essa diminui\u00e7\u00e3o vem se manifestando. \u00c9 uma queda cont\u00ednua, que atinge as redes p\u00fablica e privada, os ensinos fundamental e m\u00e9dio, as redes estadual e municipal. \u00c9 um fen\u00f4meno que aparece como paradoxo. Em 2007, durante o segundo mandato do Lula, Fernando Haddad, que era ministro da Educa\u00e7\u00e3o, inclui a EJA nos programas de assist\u00eancia estudantil do governo. Ela passa a ter um livro did\u00e1tico, direito \u00e0 merenda e ao transporte. Al\u00e9m disso, come\u00e7a a receber recursos do Fundeb (Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e de Valoriza\u00e7\u00e3o dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o). Com isso, em tese, aquelas condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias que passamos anos e anos denunciando estariam no caminho para serem superadas. No entanto, na contram\u00e3o das expectativas, foi a partir da\u00ed que a demanda passou a cair. Estamos pesquisando para compreender esse fen\u00f4meno, mas ainda n\u00e3o h\u00e1 uma resposta cabal para a sua pergunta. Apresento quatro hip\u00f3teses de ordens distintas, que, juntas, estariam operando pa<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">ra a queda do n\u00famero de matr\u00edculas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; Quais s\u00e3o essas hip\u00f3teses?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; A primeira delas tem a ver com o mercado de trabalho. Durante o per\u00edodo em que a economia e as taxas de emprego cresceram, o mercado absorveu m\u00e3o de obra mesmo com baixa qualifica\u00e7\u00e3o, segundo dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios). Ou seja, a press\u00e3o no mercado de trabalho n\u00e3o estaria operando em favor das pessoas retomarem o estudo. Se for essa a l\u00f3gica, deveremos verificar um aumento da procura por matr\u00edculas nos pr\u00f3ximos anos, j\u00e1 que o mercado de trabalho est\u00e1 mais seletivo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A segunda hip\u00f3tese \u00e9 que ainda n\u00e3o constru\u00edmos uma cultura do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ao longo da vida. O mesmo n\u00e3o acontece com a cultura do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia, que vem sendo constru\u00edda desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Hoje, \u00e9 inaceit\u00e1vel que uma crian\u00e7a esteja fora da escola na chamada idade escolar. Uma m\u00e3e analfabeta, com muito baixa escolaridade, vai brigar pelo direito do filho a ter uma vaga na escola. Mas provavelmente n\u00e3o brigar\u00e1 pelo dela. Ela n\u00e3o se v\u00ea como algu\u00e9m que tem direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; O que poderia ser feito para construir a cultura do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ao longo da vida?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; Falta atitude convocat\u00f3ria do poder p\u00fablico. Mobilizar adultos para estudar \u00e9 dif\u00edcil em v\u00e1rios pa\u00edses. Nessa etapa da vida, a educa\u00e7\u00e3o vai competir com outras esferas priorit\u00e1rias da vida: trabalho, fam\u00edlia, atua\u00e7\u00e3o social e pr\u00e1tica religiosa, por exemplo. Pol\u00edticas de EJA demandam comunica\u00e7\u00e3o, convoca\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o, motiva\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o acontece no Brasil \u2013 apesar de a Lei de Diretrizes e Bases dizer que o governo tem de fazer chamada p\u00fablica. Com os meios de comunica\u00e7\u00e3o que temos hoje, isso poderia ser feito por mensagem de celular, r\u00e1dio, televis\u00e3o e internet. O governo, no entanto, apenas publica no di\u00e1rio oficial que as matr\u00edculas da EJA est\u00e3o abertas. Obviamente, a repercuss\u00e3o \u00e9 muito baixa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; Qual \u00e9 a terceira hip\u00f3tese?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; A inadequa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica, a come\u00e7ar pelo financiamento insuficiente. Apesar de a EJA estar inclu\u00edda no Fundeb, ela tem o mais baixo fator de pondera\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e9 a que menos recebe recursos do financiamento. Uma matr\u00edcula em EJA vale 80% do que vale a matr\u00edcula de um aluno na primeira fase do ensino fundamental urbano, que tem o maior fator de pondera\u00e7\u00e3o. Isso incentiva muito pouco o dirigente de ensino a investir nessa modalidade educacional, j\u00e1 que o adulto estudante custa a mesma coisa ou mais que uma crian\u00e7a ou um adolescente. Outro fator \u00e9 o padr\u00e3o de colabora\u00e7\u00e3o intergovernamental inadequado. Qual a l\u00f3gica do MEC (Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o)? Ele cria programas, como o Brasil Alfabetizado ou o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino T\u00e9cnico e Emprego), e os governos estaduais e municipais optam ou n\u00e3o por aderir a eles. Aqueles que quiserem receber recurso Federal para implantar uma iniciativa t\u00eam de aderir ao programa completo. Esse \u00e9 um problema, a meu ver. O pacote intei<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">ro pode n\u00e3o ser adequado ao contexto daquela regi\u00e3o, daquele munic\u00edpio. Cada um desses programas tem um formato, uma l\u00f3gica e requer uma burocracia de gest\u00e3o. Alguns munic\u00edpios pequenos, com sistemas de administra\u00e7\u00e3o prec\u00e1rios, muitas vezes n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de cumprir a burocracia exigida. Isso ocorre com o Brasil Alfabetizado. Uma bolsa para o alfabetizador que pode ser atrativa no Piau\u00ed, n\u00e3o \u00e9 em S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; Qual seria a sa\u00edda para tornar os programas mais acess\u00edveis?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; Seria o caso de mudar a l\u00f3gica, de n\u00e3o ter mais programas pr\u00e9-formatados. Seria bom se os munic\u00edpios pudessem aderir a um projeto e format\u00e1-lo com um pouco mais de liberdade, de acordo com o seu contexto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ep\u00f3ca &#8211; Essa din\u00e2mica mais flex\u00edvel tem riscos? Ao dar mais liberdade aos estados e munic\u00edpios, n\u00e3o fica mais dif\u00edcil fiscalizar e acompanhar a efic\u00e1cia do programa?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; Como o Governo Federal faz a regula\u00e7\u00e3o dos recursos dele? Atrav\u00e9s de um sistema centralizado chamado Simec (Sistema Integrado de Monitoramento Execu\u00e7\u00e3o e Controle).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Desde que o ministro Haddad lan\u00e7ou, em 2007, o Plano de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o (PDE), o modelo \u00e9 o seguinte: o munic\u00edpio ou o estado adere ao PDE e faz um Plano de A\u00e7\u00f5es Articuladas (PAR). Depois, ele p\u00f5e esse Plano de A\u00e7\u00f5es Articuladas l\u00e1 no Sismec e pede, por exemplo: \u201cPara eu conseguir ampliar educa\u00e7\u00e3o na zona rural, preciso comprar um \u00f4nibus.\u201d A\u00ed ele recebe o recurso e tem que prestar contas. Al\u00e9m disso, os alunos da rede p\u00fablica s\u00e3o sujeitos a uma avalia\u00e7\u00e3o que indica o Ideb (\u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica) da rede onde estudam. \u00c9 outra forma de regular a efici\u00eancia do ensino.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse \u00e9, basicamente, o sistema de regula\u00e7\u00e3o que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o criou. Ele vale para a educa\u00e7\u00e3o infantil, o ensino fundamental e o ensino m\u00e9dio, mas n\u00e3o para EJA. Ela est\u00e1 fora desse sistema de fiscaliza\u00e7\u00e3o, seus alunos n\u00e3o s\u00e3o sujeitos a avalia\u00e7\u00f5es. Os munic\u00edpios, por exemplo, quando assumem o compromisso de aderir ao Plano de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o (PDE), a \u00fanica coisa com que se comprometem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 EJA \u00e9 manter um programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos. \u00c9 pouco. Deveriam assumir o compromisso de lhes garantir educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e forma\u00e7\u00e3o profissional. Assinam isso e sequer s\u00e3o monitorados. Se n\u00e3o cumprem esse compromisso, n\u00e3o s\u00e3o punidos e continuam recebendo os recursos. Que fique claro: n\u00e3o estou dizendo que os alunos devam fazer a mesma prova que as crian\u00e7as fazem. Estou dizendo que a fiscaliza\u00e7\u00e3o e o est\u00edmulo do Governo Federal \u00e0 EJA deveriam ser mais efetivos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; A senhora poderia citar um exemplo de estado ou munic\u00edpio que n\u00e3o tem uma atua\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria em Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA)?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; Conhe\u00e7o alguns que n\u00e3o t\u00eam programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o punidos. O governo do estado de S\u00e3o Paulo, por exemplo. Ele n\u00e3o faz nada para superar o analfabetismo desde 1996. Empurrou a responsabilidade para os munic\u00edpios. \u00c9 claro que munic\u00edpios maiores, como Ribeir\u00e3o Preto, Campinas e Santos, n\u00e3o precisam dessa ajuda do governo do estado. Mas h\u00e1 munic\u00edpios pequenos com \u00edndices de analfabetismo nordestinos. Falta uma indu\u00e7\u00e3o mais efetiva dessa colabora\u00e7\u00e3o entre governos. Enfim, \u00e9 preciso remunerar melhor e cobrar mais as atua\u00e7\u00f5es em EJA.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; E qual \u00e9 a \u00faltima hip\u00f3tese?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; O quarto grande eixo de hip\u00f3tese tem a ver com a qualidade da EJA. Numa cidade como S\u00e3o Paulo, que tem uma escola em cada esquina, porque adultos n\u00e3o estudam? Eles t\u00eam dificuldade em compatibilizar trabalho e escola. Ainda mais onde se perde muito tempo com deslocamentos. Al\u00e9m disso, quais as ofertas de estudo dispon\u00edveis? Escolas somente noturnas, com carga hor\u00e1ria rigorosa e curr\u00edculo escolar. O curr\u00edculo dialoga muito pouco com a cultura e com a necessidade de forma\u00e7\u00e3o desse perfil de estudante. Enquanto algu\u00e9m quer terminar os estudos para fazer um curso t\u00e9cnico, outro quer estudar para acompanhar melhor o desenvolvimento dos filhos na escola ou para ler a b\u00edblia. Um modelo de oferta de educa\u00e7\u00e3o que reproduz a escola da crian\u00e7a e do adolescente n\u00e3o os atrai.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; Por que n\u00e3o os atrai?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; Apesar de n\u00e3o terem escolaridade completa, os jovens e adultos tem uma bagagem cultural, uma viv\u00eancia maior. Desenvolveram estrat\u00e9gias de resolu\u00e7\u00e3o de problemas, t\u00eam experi\u00eancia profissional, constru\u00edram uma fam\u00edlia. O curr\u00edculo para eles tem que ser mais flex\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; Qual seria um modelo de ensino adequado \u00e0s necessidades desse perfil de estudante?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; O modelo da escola p\u00fablica espanhola La Verneda, de Barcelona, \u00e9 um exemplo. Ela oferece aulas para adultos num sistema em que voc\u00ea pode acumular cr\u00e9ditos numa \u00e1rea de conhecimento que mais lhe interessa, em ritmos variados. Isso n\u00e3o viola o marco curricular da educa\u00e7\u00e3o geral e da educa\u00e7\u00e3o de adultos. A escola fica aberta de manh\u00e3, \u00e0 tarde e \u00e0 noite, e tem m\u00f3dulos interdisciplinares com dura\u00e7\u00e3o de 3 a 4 meses. Assim, fica mais f\u00e1cil adequar os estudos de acordo com seus interesses e possibilidades. Se voc\u00ea tem uma escola exclusiva para a Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos, fica mais f\u00e1cil adequar a l\u00f3gica da organiza\u00e7\u00e3o escolar \u00e0s necessidades dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; O sistema educacional brasileiro tem estrutura para implantar um modelo como esse?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; A quest\u00e3o \u00e9 que estamos muito presos a esse modelo do ensino supletivo. At\u00e9 porque a regulamenta\u00e7\u00e3o de ensino \u00e9 bastante r\u00edgida. Se voc\u00ea observar ao seu redor os adultos com baixa escolaridade que poderiam se matricular no EJA, fica obvio que os percursos e os curr\u00edculos que lhes interessariam seriam muito diversificados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; Pensando especificamente no EJA, como a senhora enxerga a possibilidade de se estudar a dist\u00e2ncia?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; Acho que devemos usar os recursos tecnol\u00f3gicos como meios auxiliares e complementares de ensino, mas tenho muitas restri\u00e7\u00f5es a esse sistema. Estudos mostram que autodidatismo \u00e9 um conjunto de habilidades e compet\u00eancias pouco comum entre pessoas com baixa escolaridade. Elas t\u00eam baixos n\u00edveis de letramento, pouca viv\u00eancia escolar e, portanto, n\u00e3o exercitaram m\u00e9todo de estudo independente. Mesmo no ensino superior, a educa\u00e7\u00e3o a distancia tem taxas de abandono alt\u00edssimas. \u00c9 dif\u00edcil ter disciplina de autoaprendizagem Fora que em videoaulas n\u00e3o h\u00e1 intera\u00e7\u00e3o. Acho que todo mundo precisa de intera\u00e7\u00e3o para se desenvolver.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9POCA &#8211; Qual a import\u00e2ncia de se investir em Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA)?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Maria Clara &#8211; A import\u00e2ncia da EJA vai al\u00e9m da l\u00f3gica do mercado. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para qualificar m\u00e3o de obra para acelerar o desenvolvimento do pa\u00eds. \u00c9 especialmente importante para a forma\u00e7\u00e3o da cidadania. A educa\u00e7\u00e3o estimula a participa\u00e7\u00e3o efetiva das pessoas na vida pol\u00edtica e cultural, incentiva a rela\u00e7\u00e3o positiva entre as gera\u00e7\u00f5es. S\u00e3o os jovens e adultos que votam e educam as crian\u00e7as. A l\u00f3gica de investir nas novas gera\u00e7\u00f5es e esperar os mais velhos morrerem \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esperar as crian\u00e7as crescerem para o pa\u00eds se desenvolver.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, pessoas entre 4 e 17 anos s\u00e3o obrigadas por lei a estudar. Quem n\u00e3o se encaixa nessa faixa et\u00e1ria ou est\u00e1 numa idade muito defasada em rela\u00e7\u00e3o ao ano que deveria estar cursando \u2013 como um jovem de 16 anos que ainda est\u00e1 nos primeiros anos do fundamental \u2013 pode contar com a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-6778","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Maria Clara Di Pierro: \u201cPerdemos 3,2 milh\u00f5es de matr\u00edculas na Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos\u201d &raquo; Abrelivros<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/maria-clara-di-pierro-perdemos-3-2-milhoes-de-matriculas-na-educacao-de-jovens-e-adultos\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Maria Clara Di Pierro: \u201cPerdemos 3,2 milh\u00f5es de matr\u00edculas na Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos\u201d &raquo; Abrelivros\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"No Brasil, pessoas entre 4 e 17 anos s\u00e3o obrigadas por lei a estudar. 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