{"id":6772,"date":"2016-06-23T15:27:34","date_gmt":"2016-06-23T18:27:34","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-educacao-alem-das-provas\/"},"modified":"2016-06-23T15:27:34","modified_gmt":"2016-06-23T18:27:34","slug":"a-educacao-alem-das-provas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-educacao-alem-das-provas\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o al\u00e9m das provas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na cobertura da educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 natural que um rep\u00f3rter d\u00ea especial aten\u00e7\u00e3o aos indicadores relacionados ao que acontece na escola. Desde 1995, quando o MEC come\u00e7ou a divulgar resultados de avalia\u00e7\u00e3o de aprendizagem, o desempenho de alunos em testes de portugu\u00eas e matem\u00e1tica passou a ser um dos principais focos (talvez o principal) da cobertura da imprensa no setor.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">A an\u00e1lise desses indicadores \u00e9 importante, pois eles v\u00eam mostrando o quanto ainda precisamos avan\u00e7ar para garantir o direito a uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade para todas as crian\u00e7as. Apenas para ficar num n\u00famero (o pior deles): somente 9% dos jovens brasileiros que concluem o ensino m\u00e9dio t\u00eam aprendizado considerado adequado em matem\u00e1tica. Isso sem falar que muitos outros ficam pelo caminho e sequer chegam a essa etapa final da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Entender o que significam esses n\u00fameros (e tamb\u00e9m tudo o que eles deixam de captar) \u00e9 essencial para um rep\u00f3rter de educa\u00e7\u00e3o. Mas o risco \u00e9 reduzir o efeito da educa\u00e7\u00e3o apenas a isso: resultados medidos em testes de aprendizagem em portugu\u00eas e matem\u00e1tica. Al\u00e9m de haver dimens\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o mensur\u00e1veis por nenhum instrumento, no Brasil e no mundo, n\u00e3o faltam evid\u00eancias do impacto da educa\u00e7\u00e3o em in\u00fameras vari\u00e1veis cujos efeitos s\u00e3o verificados no longo prazo e j\u00e1 bem longe da sala de aula.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Mais renda<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">O efeito mais f\u00e1cil de ser verificado \u00e9 o impacto da escolaridade na renda. A baixa qualidade de nossa educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das causas de um problema s\u00e9rio de baixa produtividade do trabalhador, indicador em que estamos estagnados desde a d\u00e9cada de 80. \u00c9 ruim, portanto, para a economia como um todo. Mas essa mesma educa\u00e7\u00e3o de qualidade insatisfat\u00f3ria continua gerando muitos ganhos individuais para aqueles que conseguem ir mais longe no sistema educacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios, do IBGE, mostra que em 2014 a m\u00e9dia salarial de trabalhadores com mestrado ou doutorado era mais do que o dobro da verificada entre aqueles que tinham somente o ensino superior completo. Estes que conclu\u00edram apenas um curso de gradua\u00e7\u00e3o, por sua vez, tamb\u00e9m recebiam, em m\u00e9dia, mais que o dobro em compara\u00e7\u00e3o com os que tinham s\u00f3 diploma de ensino m\u00e9dio. E quem completou o antigo segundo grau tamb\u00e9m apresentava m\u00e9dias maiores em rela\u00e7\u00e3o aos que pararam no ensino fundamental.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Apesar da baixa qualidade de nossa educa\u00e7\u00e3o, o Brasil ainda \u00e9 um dos pa\u00edses onde o diploma universit\u00e1rio faz mais diferen\u00e7a no mercado de trabalho, conforme revela o relat\u00f3rio Education at a Glance, publicado anualmente pela OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico). Isso n\u00e3o significa que nosso ensino superior seja de alta qualidade. O dado revela na verdade como ainda \u00e9 alta nossa desigualdade. Como poucos conseguem acessar o ensino superior em compara\u00e7\u00e3o com o verificado em na\u00e7\u00f5es ricas, conseguir um diploma num desses n\u00edveis diferencia o trabalhador dos demais, dando a ele ganhos expressivos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Menos filhos e mais sa\u00fade<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Dinheiro n\u00e3o \u00e9 tudo. Por causa da correla\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte entre renda e escolaridade, \u00e9 dif\u00edcil isolar o efeito de cada uma dessas vari\u00e1veis. Mas um indicativo de que ter mais escolaridade tem impacto na vida de uma pessoa mesmo em situa\u00e7\u00e3o de pobreza aparece num estudo dos dem\u00f3grafos Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi, da Escola Nacional de Ci\u00eancias Estat\u00edsticas do IBGE. Eles compararam no censo demogr\u00e1fico de 2000 o n\u00famero m\u00e9dio de filhos por mulher em favelas do Rio e nas demais \u00e1reas da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">O n\u00famero de filhos, n\u00e3o \u00e9 novidade, est\u00e1 muito relacionado \u00e0 escolaridade da mulher. Quanto mais instru\u00e7\u00e3o, menos filhos. O que Alves e Cavenaghi conseguiram identificar, no entanto, foi que mesmo entre mulheres residentes em \u00e1reas mais pobres, aquelas com mais anos de estudo apresentavam um padr\u00e3o de fecundidade diferente. A conclus\u00e3o dos autores foi que, quando a mulher havia ao menos iniciado o ensino m\u00e9dio, a taxa de fecundidade era de apenas 1,6 filho por mulher, n\u00e3o importando se ela morava em favela ou n\u00e3o. Ou seja, mesmo em favelas, mulheres com mais instru\u00e7\u00e3o tinham padr\u00e3o de fecundidade igual ao das que viviam fora dessas \u00e1reas mais pobres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m do impacto no n\u00famero m\u00e9dio de filhos por mulher, \u00e9 sabido tamb\u00e9m que mais estudo est\u00e1 altamente correlacionado a maiores taxas de realiza\u00e7\u00e3o de consultas pr\u00e9-natais, menores taxas de mortalidade infantil e materna, e tamb\u00e9m a uma menor probabilidade de gravidez na adolesc\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Ter avan\u00e7ado mais nos estudos tamb\u00e9m est\u00e1 correlacionado com melhores indicadores de sa\u00fade. Um estudo do Hospital do C\u00e2ncer de S\u00e3o Paulo feito com 2.741 pacientes mostrou, em 2004, que a baixa escolaridade diminu\u00eda a probabilidade de uma pessoa se curar do c\u00e2ncer. Um dos motivos que explicam isso \u00e9 que pacientes com menos anos de estudo tendem a detectar a doen\u00e7a quando ela est\u00e1 em fase mais avan\u00e7ada. A baixa escolaridade, portanto, est\u00e1 associada a uma maior dificuldade de acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade e \u00e0 menor probabilidade de informa\u00e7\u00e3o sobre fatores de risco e preven\u00e7\u00e3o. Na mesma linha, outros estudos mostram que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o clara em mais educa\u00e7\u00e3o e h\u00e1bitos mais saud\u00e1veis que levam a uma maior expectativa de vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Menos homic\u00eddios<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Outra evid\u00eancia no Brasil dos efeitos da educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos verificados em sala de aula veio de uma pesquisa divulgada em 2016 pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada). O estudo mostrou que um aumento percentual de 1% no n\u00famero de jovens entre 15 a 17 anos na escola representa uma diminui\u00e7\u00e3o de 2% na taxa de assassinatos de um munic\u00edpio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Para o autor da pesquisa, Daniel Cerqueira, os dados mostram que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das melhores pol\u00edticas p\u00fablicas sociais para reduzir assassinatos, pois manter os jovens na escola reduz significativamente a probabilidade de envolvimento com crime.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse \u00e9 um dado a ser sempre considerado na an\u00e1lise, por exemplo, de uma pol\u00edtica de expans\u00e3o do hor\u00e1rio da escola, uma estrat\u00e9gia que consta do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 justo que a sociedade espere que essa a\u00e7\u00e3o resulte em melhoria no desempenho dos estudantes, pois trata-se de um investimento alto do poder p\u00fablico. Mas passar mais tempo na escola pode reduzir, por exemplo, a chance de um aluno se envolver em atividades criminosas ou ter impacto positivo na renda das fam\u00edlias, especialmente das mulheres, as mais sobrecarregadas com os afazeres dom\u00e9sticos. Ao entrevistar especialistas ou fazer uma reportagem numa \u00e1rea que passou a ter escolas de tempo integral, portanto, essas s\u00e3o perguntas que devem constar do repert\u00f3rio de um jornalista que cobre educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">O mesmo racioc\u00ednio se aplica na avalia\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de expans\u00e3o de creches. O simples fato de a crian\u00e7a ter acesso \u00e0 escola pode ter impactos positivos tamb\u00e9m na fam\u00edlia. Talvez o caso mais evidente disso sejam as pesquisas que associam maior acesso a creches a uma melhoria na renda da mulher. A raz\u00e3o \u00e9 simples: tendo algu\u00e9m para cuidar de seus filhos, sobra mais tempo para procurar emprego ou trabalhar. Como um aumento na renda familiar ajuda a reduzir priva\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da extrema pobreza, pode haver tamb\u00e9m um ganho futuro para a crian\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Isso n\u00e3o significa que um rep\u00f3rter de educa\u00e7\u00e3o deva deixar de investigar se a creche tem ou n\u00e3o qualidade. Uma educa\u00e7\u00e3o infantil de m\u00e1 qualidade pode ter at\u00e9 efeitos negativos no aprendizado futuro, como demonstram estudos. O ponto aqui \u00e9 que, na an\u00e1lise dessa pol\u00edtica p\u00fablica, \u00e9 preciso considerar tanto os efeitos dela na crian\u00e7a quanto nas fam\u00edlias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">No longo prazo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Outro ponto que um rep\u00f3rter de educa\u00e7\u00e3o precisa considerar ao fazer uma reportagem avaliando uma pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9 que muitos dos investimentos no setor tendem a ter efeitos apenas no longo prazo e nem sempre s\u00e3o verificados em testes de aprendizagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Um estudo mundialmente conhecido e que mostra isso foi conduzido pela equipe do pr\u00eamio Nobel de economia James Heckman, professor da Universidade de Chicago. Heckman e sua equipe acompanharam por d\u00e9cadas a trajet\u00f3ria de crian\u00e7as pobres que tiveram acesso na d\u00e9cada de 60 a um programa na educa\u00e7\u00e3o infantil chamado Perry Pre-School Project.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Diante do alto investimento por aluno, os primeiros resultados, em termos de desempenho em testes dos alunos no ensino fundamental, foram frustrantes. No entanto, ao continuar acompanhando o grupo de crian\u00e7as at\u00e9 completarem 40 anos, o estudo identificou que aqueles que foram beneficiados pelo programa apresentavam menores taxas de gravidez na adolesc\u00eancia, desemprego e envolvimento em crimes, al\u00e9m de terem taxas maiores de conclus\u00e3o no ensino superior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">A conclus\u00e3o de Heckman e sua equipe foi que aquela interven\u00e7\u00e3o ajudou as crian\u00e7as a desenvolverem outras habilidades que n\u00e3o s\u00e3o mensur\u00e1veis por testes, como a capacidade de lidar melhor com situa\u00e7\u00f5es de estresse e a persist\u00eancia na busca de objetivos de longo prazo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Conclus\u00e3o<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao fim, diante de todas essas evid\u00eancias, uma li\u00e7\u00e3o importante a ser considerada por qualquer jornalista que estiver avaliando o impacto de pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais \u00e9 n\u00e3o ficar restrito apenas aos indicadores que dizem respeito ao que se passa na escola. Isso n\u00e3o significa que seja desimportante olhar para resultados de aprendizagem medidos em exames oficiais. Eles s\u00e3o importantes instrumentos para verificar o direito de aprendizagem de todas as crian\u00e7as. Apenas \u00e9 preciso estar atento para entender que os resultados da educa\u00e7\u00e3o v\u00e3o muito al\u00e9m do verificado em testes aplicados a milh\u00f5es de estudantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">*Ant\u00f4nio Gois \u00e9 colunista de educa\u00e7\u00e3o do jornal O Globo, consultor do Canal Futura e comentarista da CBN-Rio<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na cobertura da educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 natural que um rep\u00f3rter d\u00ea especial aten\u00e7\u00e3o aos indicadores relacionados ao que acontece na escola. 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