{"id":6630,"date":"2016-03-18T19:34:39","date_gmt":"2016-03-18T22:34:39","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/eduardo-gianetti-economista-e-escritor-fala-sobre-atitude-passiva-de-jovens-brasileiros-diante-do-conhecimento\/"},"modified":"2016-03-18T19:34:39","modified_gmt":"2016-03-18T22:34:39","slug":"eduardo-gianetti-economista-e-escritor-fala-sobre-atitude-passiva-de-jovens-brasileiros-diante-do-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/eduardo-gianetti-economista-e-escritor-fala-sobre-atitude-passiva-de-jovens-brasileiros-diante-do-conhecimento\/","title":{"rendered":"Eduardo Gianetti: economista e escritor fala sobre atitude &#8220;passiva&#8221; de jovens brasileiros diante do conhecimento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A educa\u00e7\u00e3o plena est\u00e1 relacionada ao empenho dos alunos em estudar para al\u00e9m da sala de aula, \u00e0 garantia de condi\u00e7\u00f5es sociais b\u00e1sicas para o desenvolvimento cognitivo e ao apoio familiar para o aprendizado. Esses s\u00e3o os principais pontos defendidos pelo economista Eduardo Giannetti da Fonseca em entrevista para a Educa\u00e7\u00e3o, concedida em S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Graduado em ci\u00eancias sociais e em economia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o escritor mineiro fez doutorado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, onde lecionou entre 1984 e 1987. Tamb\u00e9m deu aulas de disciplinas ligadas \u00e0 hist\u00f3ria do pensamento econ\u00f4mico na Faculdade de Economia, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade (FEA) da USP, entre 1988 e 2000, e no Insper entre 2001 e 2014. Atualmente, est\u00e1 escrevendo um novo livro a ser lan\u00e7ado ainda este ano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na entrevista a seguir, Giannetti faz uma an\u00e1lise do que julga ser uma atitude &#8220;passiva&#8221; dos estudantes brasileiros frente ao ensino em todos os n\u00edveis, aborda as consequ\u00eancias da &#8220;desigualdade de condi\u00e7\u00f5es iniciais&#8221; para o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e fala sobre os desafios para o aumento do financiamento educacional no longo prazo frente aos percal\u00e7os enfrentados em meio \u00e0 atual crise econ\u00f4mica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Como observa a rela\u00e7\u00e3o dos jovens brasileiros com a educa\u00e7\u00e3o?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os jovens brasileiros, infelizmente &#8211; e isso vem da fam\u00edlia, da distor\u00e7\u00e3o da nossa forma\u00e7\u00e3o -, t\u00eam uma vis\u00e3o muito &#8220;credencialista&#8221; da educa\u00e7\u00e3o. O que a pessoa quer \u00e9 o certificado, o diploma que d\u00e1 a ela uma condi\u00e7\u00e3o de ascens\u00e3o profissional. Essa \u00e9 uma desfigura\u00e7\u00e3o do sentido da educa\u00e7\u00e3o. Isso, \u00e0s vezes, se d\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o de escolas que se prestam a entregar um peda\u00e7o de papel sem o lastro da forma\u00e7\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o que devia estar por tr\u00e1s disso. Estamos passando por uma infla\u00e7\u00e3o de certificados educacionais sem lastro no Brasil. \u00c9 um equ\u00edvoco para o jovem, e \u00e9 uma falha muito grave do sistema educacional quando ele se presta a atender a essa demanda esp\u00faria, superficial, por um certificado que n\u00e3o tem uma realidade por tr\u00e1s. Uma boa educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assistir displicentemente a algumas aulas, repetir na prova o que professor falou em sala e pagar a mensalidade no fim do m\u00eas. Isso n\u00e3o tem nada a ver com a educa\u00e7\u00e3o. O jovem estudante deveria ser alertado para o seguinte: se ele est\u00e1 demandando efetivamente educa\u00e7<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00e3o, isso implica trabalho, compromisso, dedica\u00e7\u00e3o. Mas, por vezes, prevalece a lei do menor esfor\u00e7o dos dois lados: uns fingem que ensinam e os outros fingem que aprendem e tudo termina em diploma. Esse \u00e9 o pior dos mundos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">O que explica esse tipo de rela\u00e7\u00e3o?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Houve uma certa acomoda\u00e7\u00e3o da sociedade em ter uma vis\u00e3o ritual\u00edstica do que \u00e9 educa\u00e7\u00e3o. O sistema educacional brasileiro \u00e9 muito ritualizado. O aluno acha que se reproduzir bem na prova o que foi dado em aula est\u00e1 tudo resolvido, mas, assim, nada est\u00e1 resolvido. Uma resposta memorizada n\u00e3o tem valor nenhum, mesmo correta. Como professor, o que me importa \u00e9 saber se o estudante adquiriu a capacidade de pensar, de fazer uma pergunta, elaborar uma d\u00favida pertinente, de levantar uma hip\u00f3tese. E o aluno brasileiro n\u00e3o aprende a fazer isso, \u00e9 totalmente acomodado. Mas n\u00e3o \u00e9 culpa dele. Ele aprende a fazer isso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Como reverter essa l\u00f3gica?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Richard Feynman, grande f\u00edsico americano que ganhou o Pr\u00eamio Nobel [em 1965], veio dar aula no Brasil na d\u00e9cada de 1950 na ent\u00e3o Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele escreveu mem\u00f3rias contando como havia sido essa experi\u00eancia, e disse basicamente o seguinte: se voc\u00ea pedir ao aluno brasileiro o que est\u00e1 no livro, no texto, ele \u00e9 um dos melhores estudantes do mundo. Mas se voc\u00ea pedir em uma prova alguma coisa que seja um pouco diferente do que est\u00e1 no livro, ele \u00e9 um dos piores alunos do mundo, porque n\u00e3o sabe pensar. Ele colocou o dedo em um problema b\u00e1sico da educa\u00e7\u00e3o brasileira: \u00e9 uma atitude passiva diante do conhecimento. Isso a\u00ed \u00e9, no fundo, um conluio entre o professor e o aluno, facilita para os dois: \u00e9 c\u00f4modo para o professor ficar estritamente no que est\u00e1 l\u00e1 no texto e \u00e9 muito c\u00f4modo para o aluno saber que se reproduzir o que est\u00e1 no texto estar\u00e1 bom, obter\u00e1 o diploma que ele quer. \u00c9 preciso romper esse pacto. Precisamos ter algum sistema de recupera\u00e7\u00e3o do l<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">astro dos certificados educacionais. O que quero dizer com isso? O Brasil teve uma infla\u00e7\u00e3o de credenciais educacionais, tem milh\u00f5es de crian\u00e7as que supostamente terminaram o ensino fundamental, mas n\u00e3o aprenderam ou n\u00e3o constitu\u00edram as compet\u00eancias e as habilidades associadas a esse grau. A mesma coisa no ensino m\u00e9dio e a mesma coisa no ensino superior. \u00c9 uma infla\u00e7\u00e3o de credenciais sem lastro. Deveria ser criada alguma exig\u00eancia para o aluno mostrar que adquiriu de fato o que se espera de algu\u00e9m que fez um determinado ciclo e terminou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">O Enem n\u00e3o cumpre essa fun\u00e7\u00e3o?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">N\u00e3o est\u00e1 funcionando assim. Pode at\u00e9 caminhar para isso, mas o Enem n\u00e3o confere o grau, ele d\u00e1 uma vantagem no acesso ao ensino superior. Uma pessoa que vai muito mal em um exame desse tipo n\u00e3o tem de ganhar o certificado de grau correspondente, porque, caso ganhe, aquilo ali n\u00e3o tem realidade. E n\u00e3o \u00e9 bom para aquele jovem achar que tem o que n\u00e3o tem. \u00c9 preciso recuperar o valor, o lastro das credenciais educacionais e, paralelamente, \u00e9 preciso formar os professores para que isso de fato aconte\u00e7a. Essa \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o que algumas pessoas relutam muito em aceitar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Como garantir amplo acesso \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e qualidade de ensino?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os Estados Unidos universalizaram o ensino fundamental no final do s\u00e9culo 19. O Brasil universalizou o acesso ao ensino fundamental no final do s\u00e9culo 20, com um s\u00e9culo de atraso [com rela\u00e7\u00e3o aos EUA], durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas muito do que se passa como ensino fundamental no Brasil infelizmente n\u00e3o condiz com as compet\u00eancias, as habilidades e os conhecimentos correspondentes ao que deveria ser o ensino fundamental. Preciso dizer isso de maneira bem concreta: tem muita gente que termina o ensino fundamental, e mesmo o ensino m\u00e9dio, e n\u00e3o est\u00e1 plenamente alfabetizada, s\u00e3o analfabetos funcionais. Isso \u00e9 uma tremenda injusti\u00e7a com as crian\u00e7as e jovens. Nessa etapa da forma\u00e7\u00e3o educacional, eles precisam receber aquilo a que t\u00eam direito, que \u00e9 uma alfabetiza\u00e7\u00e3o plena; t\u00eam de saber ler um texto e interpretar, fazer c\u00e1lculos. N\u00e3o adianta terminar o ensino m\u00e9dio e achar que est\u00e1 tudo bonitinho porque se formou. \u00c9 muito doloroso saber que, embora tenhamos nominalmente universalizad<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">o o acesso ao ensino fundamental, na realidade isso n\u00e3o aconteceu ainda. Teremos universalizado o ensino fundamental quando todos os alunos que passaram por ele tiverem tido uma alfabetiza\u00e7\u00e3o plena, terminarem o ciclo sabendo calcular, fazer fra\u00e7\u00e3o, fazer o m\u00ednimo do curr\u00edculo essencial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">O que faltou para reverter esse quadro nas demais gest\u00f5es pol\u00edticas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">N\u00e3o preparamos os nossos professores para tornar a sala de aula um lugar de efetiva forma\u00e7\u00e3o humana e de aprendizado b\u00e1sico. Outro dia, eu estava em Minas Gerais, onde vou escrever os meus livros, e comecei a conversar com um menino que estava saindo da escola. Perguntei a ele: &#8220;quanto \u00e9 tr\u00eas vezes cinco?&#8221;. Ele pensou um minutinho e falou &#8220;quinze&#8221;. Pensei: &#8220;que legal, ele aprendeu mesmo&#8221;, e era aluno de uma escola p\u00fablica no interior de Minas. Da\u00ed falei &#8220;vou te fazer outra pergunta: quanto \u00e9 cinco vezes tr\u00eas?&#8221;, e ele disse &#8220;n\u00e3o sei, porque a professora n\u00e3o chegou l\u00e1 [na tabuada do cinco] ainda&#8221;. No fim, ele me disse que aprende tabuada com a professora recitando e eles, os alunos, repetindo. Ou seja, aprendeu o som da tabuada, e n\u00e3o a opera\u00e7\u00e3o da tabuada. Isso n\u00e3o \u00e9 educa\u00e7\u00e3o. O que quero dizer com isso? Falta uma melhor forma\u00e7\u00e3o docente e uma mudan\u00e7a na forma de forma\u00e7\u00e3o dos professores. Falta entender que a sala de aula n\u00e3o \u00e9 lugar para um ritual vazio. O professor brasileiro costuma dar aula de costas para&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">o aluno, escrevendo na lousa. N\u00e3o vira para os estudantes e pergunta algo que provoque o pensamento deles.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Na primeira maior crise da \u00faltima d\u00e9cada, a educa\u00e7\u00e3o foi a \u00e1rea com cortes mais significativos no Brasil. Nesse cen\u00e1rio, a meta de 10% do PIB para a \u00e1rea at\u00e9 2024 \u00e9 realista?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">N\u00e3o acho a meta realista e estranho que o Plano Nacional da Educa\u00e7\u00e3o se preocupe tanto com o gasto e t\u00e3o pouco com a qualidade. Parece um pleito de reivindica\u00e7\u00f5es e n\u00e3o um compromisso com o acesso a uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade para o universo dos jovens e crian\u00e7as brasileiras. As finan\u00e7as p\u00fablicas no Brasil, neste momento, n\u00e3o permitem isso, infelizmente. Logicamente, acho que temos de gastar mais com a educa\u00e7\u00e3o. Quanto mais pudermos fazer nessa dire\u00e7\u00e3o, melhor. Mas, para isso, \u00e9 preciso haver uma contrapartida efetiva de resultado educacional. A coisa mais f\u00e1cil do mundo \u00e9 gastar mais, sem compromisso nenhum com o resultado educacional. E o Brasil est\u00e1 fazendo isso h\u00e1 muito tempo. Com o gasto, tem de vir uma cobran\u00e7a, a melhoria da qualidade. E o momento certo de fazer essa cobran\u00e7a \u00e9 quando se aumenta a verba para a \u00e1rea.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Qual a import\u00e2ncia da fam\u00edlia, enquanto n\u00facleo, na forma\u00e7\u00e3o plena dos sujeitos?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Quando vou a Minas Gerais, tenho acesso a grupos sociais com os quais n\u00e3o convivo no meu dia a dia em S\u00e3o Paulo. Uma vez, vi uma situa\u00e7\u00e3o l\u00e1 em Minas de uma crian\u00e7a do ensino fundamental que copia tudo da lousa em sala de aula, e quando vai para casa encontra um ambiente completamente alheio \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal. Essa crian\u00e7a n\u00e3o tem nenhuma mesinha para fazer o dever de casa. Chega em seu lar, liga a televis\u00e3o e fica completamente dispersa. Assim, ela est\u00e1 sendo prejudicada para o resto da vida devido \u00e0 falta de uma estrutura m\u00ednima com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com os seus estudos. E, muitas vezes, os pais dessas crian\u00e7as d\u00e3o um duro danado, trabalham o dia inteiro, nunca souberam a import\u00e2ncia que t\u00eam para um filho o cuidado, o acompanhamento e o interesse pela forma\u00e7\u00e3o. Infelizmente, essa crian\u00e7a sofreu um infort\u00fanio ao nascer numa situa\u00e7\u00e3o dessas. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um problema s\u00e9rio que persiste desde o per\u00edodo colonial: a falta da figura paterna na vida familiar brasileira. Isso significa que alguma coisa se perd<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">e. N\u00e3o estou falando isso em um tom moralista; temos de entender que crian\u00e7as que nascem em fam\u00edlias completamente desestruturadas, muito desatentas \u00e0 import\u00e2ncia de uma certa dedica\u00e7\u00e3o desde cedo ao aprendizado e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o, t\u00eam um dano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Mesmo nessas condi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 meios de resgatar essa crian\u00e7a?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Temos de pegar essa crian\u00e7a em uma pr\u00e9-escola o mais cedo poss\u00edvel, faz\u00ea-la aprender a se concentrar; aprender que se n\u00e3o fizer certas coisas na idade certa vai ficar prejudicada para o resto da vida, que \u00e9 o que acontece. No caso da desorganiza\u00e7\u00e3o familiar, outras figuras, que n\u00e3o o pr\u00f3prio pai, podem substituir a figura paterna, a av\u00f3, o tio, um primo. Dada essa dificuldade da presen\u00e7a de pais respons\u00e1veis, as mulheres est\u00e3o buscando alternativas, arranjos inovadores para ter um filho. Mas \u00e9 importante fazer isso de uma maneira minimamente planejada, porque colocar uma crian\u00e7a no mundo sem nenhuma condi\u00e7\u00e3o de proteger e de atender requisitos para uma boa educa\u00e7\u00e3o constr\u00f3i um adulto com dificuldades.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">A condi\u00e7\u00e3o social determina as possibilidades de acesso ao ensino e continuidade dos estudos?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No Brasil, a condi\u00e7\u00e3o social da fam\u00edlia de uma pessoa \u00e9 tremendamente determinante da trajet\u00f3ria socioecon\u00f4mica dela. Esse \u00e9 o sinal mais eloquente da nossa desigualdade. Uma sociedade equ\u00e2nime e equitativa seria uma sociedade em que a condi\u00e7\u00e3o social da fam\u00edlia n\u00e3o tivesse esse peso determinante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">E como podemos chegar a isso?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Com saneamento b\u00e1sico, transporte p\u00fablico e ensino fundamental de qualidade; com condi\u00e7\u00f5es que permitam a cada pessoa desenvolver o seu potencial e, naturalmente, diferenciar-se. \u00c9 horr\u00edvel estar em uma sociedade igualit\u00e1ria no sentido de que o resultado de todos \u00e9 o mesmo sempre. As pessoas s\u00e3o diferentes e, felizmente, n\u00e3o d\u00e3o o mesmo valor para o sucesso econ\u00f4mico. Tem gente que est\u00e1 disposta a sacrificar muito da sua vida para ganhar dinheiro, tem gente que n\u00e3o. H\u00e1 pessoas que preferem ser artistas, cientistas, bo\u00eamias. Essas possibilidades tamb\u00e9m s\u00e3o um direito, mas todos os jovens e crian\u00e7as deveriam ter a oportunidade de escolher uma trajet\u00f3ria considerando a plenitude do que podem chegar a ser como sujeitos. O Brasil est\u00e1 muito longe de garantir isso, e, assim, a condi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia acaba sendo determinante. H\u00e1 jovens que nascem com a vida j\u00e1 resolvida quase que independentemente do que venham a fazer, e h\u00e1 outros que nascem com a vida perdida independentemente do que aconte\u00e7a tamb\u00e9m. O que me agride&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">como cidad\u00e3o \u00e9 a desigualdade de condi\u00e7\u00f5es iniciais. As crian\u00e7as brasileiras de fam\u00edlias que moram onde n\u00e3o h\u00e1 coleta de esgoto podem pegar doen\u00e7as na primeira inf\u00e2ncia que ir\u00e3o prejudicar a forma\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro para um aprendizado adequado na juventude.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A educa\u00e7\u00e3o plena est\u00e1 relacionada ao empenho dos alunos em estudar para al\u00e9m da sala de aula, \u00e0 garantia de condi\u00e7\u00f5es sociais b\u00e1sicas para o desenvolvimento cognitivo e ao apoio familiar para o aprendizado. 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