{"id":6463,"date":"2015-12-08T11:48:02","date_gmt":"2015-12-08T13:48:02","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-importancia-da-brincadeira-no-aprendizado-das-criancas\/"},"modified":"2015-12-08T11:48:02","modified_gmt":"2015-12-08T13:48:02","slug":"a-importancia-da-brincadeira-no-aprendizado-das-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-importancia-da-brincadeira-no-aprendizado-das-criancas\/","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia da brincadeira no aprendizado das crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As crian\u00e7as de hoje n\u00e3o t\u00eam tempo, espa\u00e7o e permiss\u00e3o para brincar livremente. Seus lugares s\u00e3o controlados, as horas escolares cresceram e a organiza\u00e7\u00e3o das cidades desfez la\u00e7os comunit\u00e1rios, tornando o espa\u00e7o p\u00fablico inacess\u00edvel e perigoso. Tudo isso tem profundos impactos no aprendizado e no desenvolvimento das pessoas.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"> Essa \u00e9 a opini\u00e3o do psic\u00f3logo evolucionista Peter Gray, autor do livro Free to Learn (Livres para aprender, em tradu\u00e7\u00e3o livre), que concedeu entrevista ao Portal Aprendiz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gray defende, em palestra no TEDx, que quanto mais desenvolvido o c\u00e9rebro de um mam\u00edfero, maior a quantidade de tempo que seus filhotes passam brincando. Pesquisas mostram que animais privados de contato social no desenvolvimento tornam-se arredios e assustados e n\u00e3o t\u00eam resposta para lidar com as amea\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Com as nossas crian\u00e7as, isso \u00e9 ainda mais acentuado. Para exemplificar seu ponto, Gray lembra de pesquisas de antrop\u00f3logos com etnias que ainda vivem de maneira pr\u00f3xima aos ca\u00e7adores-coletores. Nelas, as crian\u00e7as e adolescentes t\u00eam garantido o direito de brincar da manh\u00e3 at\u00e9 o anoitecer. Fazem isso livremente e contando com o apoio de in\u00fameros adultos, desenvolvendo habilidades e tra\u00e7os sociais importantes. Apresentam comportamentos cooperativos e uma sa\u00fade v\u00edvida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A publica\u00e7\u00e3o \u201cThe Case For Play\u201d (A Defesa Do Brincar, em tradu\u00e7\u00e3o livre), da ONG australiana Playground Ideas, trouxe uma compila\u00e7\u00e3o de dados sobre a import\u00e2ncia do brincar no aprendizado. Segundo o estudo, os benef\u00edcios econ\u00f4micos e sociais de uma abordagem amig\u00e1vel ao brincar em um programa de pr\u00e9-escola foram de 244,812 d\u00f3lares retornados ao longo de 40 anos para um investimento 15,166 d\u00f3lares por participante. Al\u00e9m disso, diversas pesquisas ilustram que os efeitos de brincar desde cedo ajudam a desenvolver alfabetiza\u00e7\u00e3o, leitura, familiaridade com n\u00fameros, criatividade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A cartilha continua citando estudos longitudinais \u2013 feitos ao longo de at\u00e9 quarenta anos -, para ilustrar a import\u00e2ncia do investimento em pol\u00edticas de primeira inf\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cO \u201cThe Jamaica Study\u201d, mostrou que crian\u00e7as que tiveram est\u00edmulo ao brincar desde cedo se desenvolvem melhor. O estudo acompanhou crian\u00e7as que sofriam de desnutri\u00e7\u00e3o e viviam em comunidades vulner\u00e1veis. Elas passaram a receber, por dois anos, duas visitas l\u00fadicas semanais. Vinte anos depois, os jovens que receberam esse cuidado tiveram sal\u00e1rios 42% maiores, desenvolvimento cognitivo superior, habilidades psicossociais desenvolvidas e menor ansiedade e depress\u00e3o. Outra pesquisa, feita em escolas prim\u00e1rias, mostrou que, quando uma metodologia l\u00fadica \u00e9 aplicada desde cedo, os adultos apresentam maior escolaridade \u2013 foi registrado um aumento de 44% no ensino m\u00e9dio e 17% no n\u00edvel universit\u00e1rio.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para desenvolver alguns destes temas, o Portal Aprendiz entrevistou, via Skype, o professor de psicologia evolutiva Peter Gray, do Boston College, que tamb\u00e9m mant\u00e9m um blog no Psychology Today, chamado Freedom to Learn, no qual ele compila diversos dados e artigos de opini\u00e3o sobre educa\u00e7\u00e3o, o direito ao brincar e direitos humanos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Portal Aprendiz: De que maneira as crian\u00e7as est\u00e3o naturalmente equipadas para aprender?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Peter Gray: Eu venho da psicologia evolutiva e \u00e9 por isso que creio que, ao longo de mil\u00eanios de evolu\u00e7\u00e3o, nossas crian\u00e7as foram selecionadas por processos que garantiram sua sobreviv\u00eancia. E n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos sobrevivido sem a habilidade de aprender de forma natural. Veja bem, nem sempre os pais acreditaram que era sua fun\u00e7\u00e3o educar integralmente uma crian\u00e7a. Ent\u00e3o elas aprendiam brincando umas com as outras, simulando e jogando com suas realidades. N\u00f3s temos um instinto natural para o autodidatismo. O que eu tento descrever no meu livro \u00e9 que at\u00e9 hoje, nas sociedades modernas, esses instintos de aprendizado ainda est\u00e3o em funcionamento. Se n\u00f3s promovemos oportunidades de auto-aprendizado, socializa\u00e7\u00e3o e brincadeira, elas v\u00e3o ter um aprendizado significativo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Portal Aprendiz: Como a educa\u00e7\u00e3o tradicional lida com isso?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gray: O que n\u00f3s entendemos hoje como educa\u00e7\u00e3o tradicional surgiu quando o objetivo da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era o pensamento livre, o aprendizado, a forma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e criativa: o objetivo era treinamento de obedi\u00eancia, para que as pessoas obedecessem seus mestres e senhores sem questionar. Al\u00e9m disso, havia as escolas religiosas, que tinham como miss\u00e3o ensinar a doutrina b\u00edblica, ou seja, n\u00e3o era educa\u00e7\u00e3o, era doutrinamento. Acontece que ainda estamos presos a essas escolas. E elas operam suprimindo o desejo natural de aprendizagem, reprimindo a curiosidade, dizendo que n\u00e3o importam as quest\u00f5es que o indiv\u00edduo tem, apenas importam as quest\u00f5es trazidas pelo curr\u00edculo, uma educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o enxerga o brincar, o jogar e a socializa\u00e7\u00e3o como parte do aprendizado e que diz que as crian\u00e7as n\u00e3o devem agir de maneira independente. N\u00f3s tornamos aprender uma tarefa muito dif\u00edcil em nossas escolas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Portal Aprendiz: Voc\u00ea afirmou, em uma entrevista, que nunca foi t\u00e3o dif\u00edcil para as crian\u00e7as do mundo acharem tempo para brincar. E que estamos muito preocupados em torn\u00e1-las adultas, cheias de atividades e n\u00e3o existem espa\u00e7os de livre conviv\u00eancia e jogo. Por que isso \u00e9 importante?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gray: Ao longo da hist\u00f3ria, o brincar \u00e9 maneira pela qual as crian\u00e7as adquirem estrutura f\u00edsica, emocional, intelectual e social. Ao brincar, n\u00f3s simulamos um mundo no qual \u00e9 poss\u00edvel praticar as habilidades que ser\u00e3o necess\u00e1rias ao nos tornarmos adultos de fato. Hoje, as crian\u00e7as t\u00eam muito acesso aos computadores e telas, ent\u00e3o eles v\u00e3o ali buscar o brincar, eles sabem \u201cdesde os ossos\u201d que aquilo \u00e9 importante e v\u00e3o ali tentar brincar e entender o mundo que elas ter\u00e3o que enfrentar. Mas \u00e9 na brincadeira de risco, livre e ao ar livre que se consegue lidar com problemas complexos, por exemplo, \u00e9 subindo numa \u00e1rvore ou at\u00e9 brigando uns com os outros, que eles aprendem a lidar com raiva e medo sem se autodestru\u00edrem. As crian\u00e7as precisam de todo o tipo de brincadeira, at\u00e9 das mais arriscadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Portal Aprendiz: Em um artigo, voc\u00ea enfatiza que as crian\u00e7as precisam da sua comunidade para se desenvolverem integralmente. Voc\u00ea afirma isso baseado numa pesquisa sobre o povo Efe, que ainda mant\u00e9m um estilo de vida pr\u00f3ximo ao dos ca\u00e7adores-coletores, e dividem o cuidado com as crian\u00e7as. Isso lembra, na pr\u00e1tica, um velho ditado que diz que para educar uma crian\u00e7a voc\u00ea precisa de toda uma vila. Como n\u00f3s podemos traduzir esses ensinamentos em dire\u00e7\u00e3o a um cuidado mais comunit\u00e1rio de nossas crian\u00e7as?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gray: Eu acho que, com o tempo, n\u00f3s come\u00e7amos cada vez mais a viver em fam\u00edlias nucleares isoladas. As crian\u00e7as v\u00e3o encontrar outras pessoas n\u00e3o em comunidade, mas s\u00f3 na escola. Elas est\u00e3o virtualmente isoladas de outros adultos e elas precisam deles. Elas precisam sentir que existem diversos adultos que se importam com elas. Elas n\u00e3o s\u00e3o desenhadas para aprender apenas com seus pais porque, honestamente, muitas vezes, eles n\u00e3o s\u00e3o as melhores pessoas (risos). Elas precisam de diferentes modelos de vida para poder escolher qual melhor serve \u00e0s suas necessidades individuais, ao que elas querem ser.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Eu acho que as escolas que seguem a metodologia Sudbury conseguem proporcionar esse tipo de vida comunit\u00e1ria, as crian\u00e7as sentem que pertencem a este lugar, fazem as regras de comportamento junto com adultos, podem se dirigir a qualquer adulto e procurar, por conta pr\u00f3pria, o que lhes interessa aprender. Acho que isso \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o de formar uma comunidade ca\u00e7adora-coletora na sociedade moderna. N\u00e3o \u00e9 exatamente isso, \u00e9 claro, mas \u00e9 uma comunidade onde as pessoas se sentem cuidadas e queridas. E isso \u00e9 muito valioso. N\u00f3s precisamos desenhar mais formas para que as crian\u00e7as, em nossas culturas, possam experimentar comunidades de verdade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Portal Aprendiz: Neste sentido, voc\u00ea considera que abrir as cidades para nossas crian\u00e7as, e transform\u00e1-las em cidade educadora, em um ambiente de aprendizagem, poderia contribuir para o desenvolvimento das crian\u00e7as?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gray: Sim, \u00e9 claro. Existem in\u00fameras oportunidades de aprendizado no ambiente urbano, talvez mais acess\u00edveis aos adolescentes que \u00e0s crian\u00e7as, que precisam ser cuidadosamente introduzidas a estes lugares, fazendo uso de museus, zool\u00f3gicos, playgrounds. Meu filho, quando estava em uma escola Sudbury, passava dias letivos inteiros sozinho no centro de Boston. Ele pegava o \u00f4nibus saindo do sub\u00farbio e explorava coisas que o interessavam no centro, indo em museus, livrarias etc. Acho que voc\u00ea sempre est\u00e1 aprendendo como aprender e quando voc\u00ea \u00e9 livre para buscar seus interesses, para pesquisar o que te motiva, a\u00ed sim que seu desenvolvimento pode decolar. A educa\u00e7\u00e3o precisa ser aut\u00f4noma, n\u00e3o podemos mais decidir por um grupo inteiro de crian\u00e7as, exigir que todas elas se interessem pela mesma coisa ao mesmo tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Portal Aprendiz: Uma vez, durante uma entrevista, perguntei \u00e0 fundadora da Riverside School, na \u00cdndia, que se assemelha muito ao que voc\u00ea descreve, sobre educa\u00e7\u00e3o alternativa. Ela me respondeu que a educa\u00e7\u00e3o tradicional \u00e9 que era alternativa \u2013 alternativa ao aprendizado. Por mais que essa educa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea descreve seja repelida como \u201cut\u00f3pica\u201d, voc\u00ea acha que \u00e9 poss\u00edvel imaginar a educa\u00e7\u00e3o evoluindo para isso?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gray: \u00c9 dif\u00edcil imaginar uma escola p\u00fablica indo at\u00e9 esse grau de liberdade, porque elas t\u00eam que responder a uma s\u00e9rie de normas, regula\u00e7\u00f5es e regras, ou seja, quando h\u00e1 dinheiro p\u00fablico, o governo define o que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o. Ainda assim, eu visitei uma escola no estado do Colorado que consegue fazer muito, mesmo recebendo financiamento p\u00fablico. Acredito que existam muitas outras escolas pelo mundo que incentivem a criatividade e a curiosidade, o pensamento cr\u00edtico e a liberdade. E, se voc\u00ea parar para observar o mundo de hoje, \u00e9 exatamente isso que ele est\u00e1 pedindo: criatividade, curiosidade e a alegria de aprender nunca foram t\u00e3o importantes. Ent\u00e3o, por mais que muitas vezes as pol\u00edticas p\u00fablicas demorem a alcan\u00e7ar o que \u00e9 preciso, eu creio que haver\u00e1 mudan\u00e7as e as escolas ser\u00e3o centros de aprendizagem.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as de hoje n\u00e3o t\u00eam tempo, espa\u00e7o e permiss\u00e3o para brincar livremente. Seus lugares s\u00e3o controlados, as horas escolares cresceram e a organiza\u00e7\u00e3o das cidades desfez la\u00e7os comunit\u00e1rios, tornando o espa\u00e7o p\u00fablico inacess\u00edvel e perigoso. 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