{"id":6362,"date":"2015-10-21T12:36:17","date_gmt":"2015-10-21T14:36:17","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/ensino-de-historia-no-brasil-em-xeque\/"},"modified":"2015-10-21T12:36:17","modified_gmt":"2015-10-21T14:36:17","slug":"ensino-de-historia-no-brasil-em-xeque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/ensino-de-historia-no-brasil-em-xeque\/","title":{"rendered":"Ensino de hist\u00f3ria no Brasil em xeque"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O ensino de Hist\u00f3ria no Brasil est\u00e1 na berlinda. As pol\u00eamicas em torno do conte\u00fado descrito na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que at\u00e9 dezembro est\u00e1 em fase de consulta p\u00fablica, levaram historiadores a se mobilizarem para tentar melhorar o documento, que j\u00e1 foi inclusive criticado pelo ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Aloizio Mercadante, e pelo antecessor, Renato Janine Ribeiro.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"> O ponto principal da disc\u00f3rdia \u00e9 a \u201celimina\u00e7\u00e3o\u201d de t\u00f3picos de hist\u00f3ria Antiga, Medieval e Moderna, para priorizar a hist\u00f3ria do Brasil, das Am\u00e9ricas e da \u00c1frica. Al\u00e9m disso, a periodiza\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica d\u00e1 lugar a temas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A BNCC foi apresentada pelo MEC em 16 de setembro e foi formulada por uma equipe de 116 especialistas. Ela prop\u00f5e ser uma \u201ccartilha\u201d para nortear e padronizar o ensino b\u00e1sico no Brasil. De acordo com o secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do minist\u00e9rio, Manuel Pal\u00e1cios, a base contempla cerca de 60% do conte\u00fado escolar. O restante seria definido localmente, levando em conta o contexto regional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As cr\u00edticas ao documento come\u00e7am a\u00ed: \u201cComo quantificar o que ser\u00e1 conte\u00fado comum e livre?\u201d, questiona Joseli Mendon\u00e7a, professora da UFPR. Em rela\u00e7\u00e3o ao ensino de fatos hist\u00f3ricos, h\u00e1 outros questionamentos. A Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria (Anpuh) est\u00e1 promovendo discuss\u00f5es entre seus grupos de trabalho para formular um documento \u00fanico a ser enviado ao MEC. \u201cQueremos fazer algumas propostas e envolver mais os professores da rede b\u00e1sica. At\u00e9 agora a discuss\u00e3o ficou centrada em pesquisadores e professores de universidades\u201d, declarou Circe Bittencourt, que preside a se\u00e7\u00e3o paulista da Anpuh.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ente os pontos de diverg\u00eancia est\u00e1 a composi\u00e7\u00e3o da comiss\u00e3o respons\u00e1vel pela BNCC. N\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o oficial sobre quem s\u00e3o os integrantes, tampouco o MEC informou os nomes. Segundo o minist\u00e9rio, o documento com as bases da proposta de mudan\u00e7as no ensino est\u00e1 em consulta p\u00fablica e pode sofrer altera\u00e7\u00f5es. Para Joseli, por\u00e9m, as opini\u00f5es devem ser consideradas conforme a forma\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia de cada um. \u201cColocam como um debate p\u00fablico, mas precisa ser qualificado. Todo mundo deve dar sugest\u00e3o, mas \u00e9 preciso identificar, saber quais s\u00e3o dos especialistas na \u00e1rea. N\u00e3o est\u00e1 mobilizando as pessoas que est\u00e3o pensando nisso h\u00e1 muito tempo\u201d, avalia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00cdndios e africanos<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">H\u00e1 muitos problemas a serem corrigidos, mas a proposta da base \u00e9 muito boa nesse aspecto quando introduz \u00eanfase na popula\u00e7\u00e3o brasileira e amer\u00edndia\u201d, diz Joseli, que est\u00e1 coordenando o mestrado profissional de Ensino de Hist\u00f3ria, a ser ofertado a partir de 2016. \u201cN\u00e3o precisamos nos centrar a partir de uma perspectiva europeia. Mas devemos dar \u00eanfase \u00e0 nossa hist\u00f3ria sem negar a hist\u00f3ria europeia\u201d, comenta Maria Auxiliadora Schmidt, professora de Metodologia e Pr\u00e1tica de Ensino de Hist\u00f3ria, da UFPR.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A professora M\u00e1rcia Elisa Tet\u00e9 Ramos, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Ensino de Hist\u00f3ria da UEL, pondera que, na pr\u00e1tica, as mudan\u00e7as s\u00e3o dif\u00edceis de serem implantadas. \u201cExiste uma \u2018tradi\u00e7\u00e3o\u2019 e tamb\u00e9m algo meio \u00f3bvio: estudar Hist\u00f3ria \u00e9 estudar o passado, e o passado geralmente \u00e9 entendido desde a era das cavernas, como consta nos livros did\u00e1ticos. Os vestibulares s\u00e3o elaborados, geralmente, por professores universit\u00e1rios que incluem Hist\u00f3ria Antiga, Idade M\u00e9dia e Modernidade. Ser\u00e1 necess\u00e1rio mudar todos os livros? Vai ter que mudar todos os vestibulares?\u201d, questiona.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Historiadores criticam tentativa de ideologizar conte\u00fado<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As declara\u00e7\u00f5es do ex-ministro Renato Janine Ribeiro e do soci\u00f3logo Dem\u00e9trio Magnoli, autor de um artigo na Gazeta do Povo criticando a Base Nacional Curricular Comum (BNCC), foram contestadas pelas historiadoras ouvidas pela reportagem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cN\u00e3o h\u00e1 nada neste curr\u00edculo que indique uma ideologia ou doutrina\u00e7\u00e3o. O ensino de Hist\u00f3ria deve n\u00e3o apenas estudar as diferen\u00e7as mas compreender para respeitar. O curr\u00edculo apenas contempla os objetivos do ensino de hist\u00f3ria que s\u00e3o respeito \u00e0 diversidade, pluralidades \u00e9tnico-raciais, religiosa, de g\u00eanero, etc\u201d, afirma M\u00e1rcia Elisa Tet\u00e9 Ramos, da UEL. Maria Auxiliadora Schmidt afirma que as opini\u00f5es de ambos foram \u201cinfelizes\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na opini\u00e3o de Joseli Mendon\u00e7a, \u201ctodo curr\u00edculo \u00e9 ideol\u00f3gico\u201d, no sentido de que n\u00e3o existe neutralidade. Ela diz que o ensino por meio da periodiza\u00e7\u00e3o convencional (antiguidade, idade m\u00e9dia, moderna e contempor\u00e2nea) tamb\u00e9m \u00e9 uma escolha ideol\u00f3gica. \u201cN\u00e3o se pode dizer que quando d\u00e1 \u00eanfase \u00e0 hist\u00f3ria de afrodescendentes e ind\u00edgenas \u00e9 ideol\u00f3gica e quando \u00e9 sobre a hist\u00f3ria europeia n\u00e3o \u00e9.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Did\u00e1tica por temas \u00e9 defendida por pesquisadores<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O novo curr\u00edculo de Hist\u00f3ria deve passar a abordar os t\u00f3picos agrupados em temas, e n\u00e3o mais de forma cronol\u00f3gica. O sistema \u00e9 defendido por pesquisadores e tamb\u00e9m \u00e9 praticado em outros pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Segundo a professora M\u00e1rcia Elisa Tet\u00e9 Ramos, da UEL, \u00e9 poss\u00edvel trabalhar v\u00e1rias tem\u00e1ticas e abordar os tempos hist\u00f3ricos, como a Antiguidade, a Idade M\u00e9dia, a Modernidade. \u201cPosso pegar uma tem\u00e1tica como a quest\u00e3o da mulher, percorrer o passado dizendo como era a situa\u00e7\u00e3o da mulher antes, no Brasil, no mundo, falar sobre as lutas que fizeram com que as mulheres tivessem direito ao voto, como \u00e9 hoje a situa\u00e7\u00e3o da mulher indiana, etc. Isso faz com que o aluno perceba que nem sempre a situa\u00e7\u00e3o da mulher foi assim como hoje se apresenta\u201d, explica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O aprendizado fica muito mais interessante, diz Joseli Mendon\u00e7a, da UFPR, a partir de problematiza\u00e7\u00f5es, que devem estar ancoradas no presente. \u201cCidadania se ensina apresentando a Gr\u00e9cia, por exemplo, discutindo a situa\u00e7\u00e3o atual, mas buscando no passado elementos de compara\u00e7\u00e3o para identificar perman\u00eancias e transforma\u00e7\u00f5es\u201d, afirma. Ela ressalta que a cronologia faz parte, mas o ensino de Hist\u00f3ria n\u00e3o deve se resumir a isso, nem \u00e0 uma sucess\u00e3o de conhecimentos informativos sobre eventos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Pelo mundo<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A Gazeta do Povo comparou o conte\u00fado de Hist\u00f3ria aplicado na Austr\u00e1lia, pa\u00eds do hemisf\u00e9rio sul que tamb\u00e9m passou por processo de coloniza\u00e7\u00e3o europeia e por massacre da popula\u00e7\u00e3o nativa:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 1- Presente e passado da vida familiar: entender como a estrutura familiar mudou ao longo do tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 2- O passado no presente: explorar e apreciar a hist\u00f3ria local examinando reminisc\u00eancias e considerando porque deveriam ser preservados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 3 &#8211; Comunidade e lembran\u00e7as: estudar a identidade e diversidade dos primeiros povos australianos e demais povos por meio de s\u00edmbolos, celebra\u00e7\u00f5es e comemora\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 4 &#8211; Primeiros contatos: come\u00e7ando com a hist\u00f3ria dos abor\u00edgenes, estudar a explora\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, o impacto em outras sociedades, o impacto dos migrantes nas novas terras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 5 &#8211; Col\u00f4nias australianas: funda\u00e7\u00e3o das primeiras col\u00f4nias em 1800, eventos e pessoas significativas para o per\u00edodo, etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 6 &#8211; Austr\u00e1lia como na\u00e7\u00e3o: estudantes exploram os fatos a partir de 1900 que levaram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma federa\u00e7\u00e3o e as experi\u00eancias de democracia e cidadania ao longo do tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 7 &#8211; O mundo antigo: abrangendo o per\u00edodo de 60 a.C at\u00e9 650 d.C, abordando as descobertas (os fatos conhecidos) e os mist\u00e9rios (o que n\u00e3o se sabe sobre esse per\u00edodo) acerca das sociedades eg\u00edpcia ou grega ou romana; chinesa ou indiana; e australiana.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 8 &#8211; Do antigo para o mundo moderno: o per\u00edodo de 650 d.C at\u00e9 1750, quando as civiliza\u00e7\u00f5es entraram em contato uma com outra e os desafios sociais, religiosos, econ\u00f4micos e pol\u00edticos, estudando em profundidade um evento do continente europeu, um do continente asi\u00e1tico e um terceiro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 9 &#8211; O mundo moderno &#8211; making of: abordagem da industrializa\u00e7\u00e3o, do imperialismo e o nacionalismo no per\u00edodo que vai de 1750 a 1918. A coloniza\u00e7\u00e3o da Austr\u00e1lia como parte da expans\u00e3o europeia. O per\u00edodo culminando com a Primeira Guerra Mundial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ano 10 &#8211; O mundo moderno e a Austr\u00e1lia: Abordar de 1918 (incluindo a Segunda Guerra Mundial) at\u00e9 a presente data, com \u00eanfase na situa\u00e7\u00e3o em que se encontra a Austr\u00e1lia dentro do contexto global.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ensino de Hist\u00f3ria no Brasil est\u00e1 na berlinda. 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