{"id":6351,"date":"2015-10-15T16:40:27","date_gmt":"2015-10-15T19:40:27","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/imposicao-do-brasil-ou-lingua-do-futuro-acordo-ortografico-divide-portugal\/"},"modified":"2015-10-15T16:40:27","modified_gmt":"2015-10-15T19:40:27","slug":"imposicao-do-brasil-ou-lingua-do-futuro-acordo-ortografico-divide-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/imposicao-do-brasil-ou-lingua-do-futuro-acordo-ortografico-divide-portugal\/","title":{"rendered":"Imposi\u00e7\u00e3o do Brasil ou l\u00edngua do futuro? Acordo ortogr\u00e1fico divide Portugal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Portugal n\u00e3o se entende sobre o Acordo Ortogr\u00e1fico. Criado com o objetivo de aproximar as diferentes variantes do idioma, o instrumento \u00e9 encarado por parte dos portugueses como uma imposi\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o brasileira da l\u00edngua e uma amea\u00e7a real a um dos s\u00edmbolos de maior orgulho do pa\u00eds europeu.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Diversas raz\u00f5es s\u00e3o apontadas para justificar essa sensa\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio brasileiro sobre a nova ortografia. Entre as principais, est\u00e1 a retirada das consoantes mudas da escrita lusa, alterando a grafia de palavras como `\u00f3ptimo` e `acto` para a maneira adotada no Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Segundo o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o brasileiro, o Acordo Ortogr\u00e1fico altera 1,3% dos voc\u00e1bulos portugueses e 0,8% dos brasileiros. Ratificado em 2008, ser\u00e1 obrigat\u00f3rio no Brasil a partir de 1\u00ba de janeiro de 2016, enquanto isso ocorreu em Portugal em maio passado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Os nossos governantes impuseram-nos um modelo que nada tem a ver conosco. E n\u00e3o \u00e9 porque o Brasil fala assim que v\u00e3o nos obrigar a faz\u00ea-lo`, diz \u00e0 BBC Brasil a professora de filosofia e escritora Maria Saraiva de Menezes, que faz parte de um crescente movimento contr\u00e1rio ao acordo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`A l\u00edngua evoluiu naturalmente no Brasil para essas altera\u00e7\u00f5es. Aqui em Portugal, n\u00e3o. Portanto, a imposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem fundamento.`<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Referendo popular<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nos \u00faltimos meses, Maria de Menezes e outras centenas de portugueses &#8211; entre eles pol\u00edticos, acad\u00eamicos e artistas &#8211; t\u00eam sa\u00eddo \u00e0s ruas para recolher assinaturas com a esperan\u00e7a de conseguir um referendo popular que discuta o Acordo Ortogr\u00e1fico. Os manifestantes cobram o direito de debater abertamente o tema, que teria sido tratado apenas na esfera pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi ouvida quando o acordo foi firmado ou implantado, e temos certeza de que a maioria de n\u00f3s, portugueses, \u00e9 contr\u00e1ria a ele. Temos o direito de debater abertamente sobre um assunto t\u00e3o importante, que tem influ\u00eancia direta no nosso pa\u00eds`, argumenta o jurista Ivo Miguel Barroso, administrador do grupo virtual `Cidad\u00e3os Contra o Acordo Ortogr\u00e1fico de 1990`, que re\u00fane quase 30 mil pessoas no Facebook.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Defensor da unifica\u00e7\u00e3o das grafias, o escritor e ex-eurodeputado por Portugal Rui Tavares acredita que, por tr\u00e1s da vis\u00e3o `extremada` de parte de seus compatriotas, estaria uma esp\u00e9cie de `complexo de inferioridade` despertado por problemas que o pa\u00eds europeu enfrentou nos \u00faltimos anos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`A vis\u00e3o extremada sobre o acordo \u00e9 uma mera proje\u00e7\u00e3o dos portugueses em rela\u00e7\u00e3o a suas pr\u00f3prias fraquezas. O pa\u00eds atravessa por um momento de crise e isso acaba por fazer com que muita gente interprete qualquer coisa como um sinal de vulnerabilidade`, diz Tavares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Para mim, \u00e9 um mist\u00e9rio o fato de algumas pessoas considerarem o acordo algo at\u00e9 humilhante. Isso revela uma vis\u00e3o complexada.`<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Outro not\u00f3rio `acordista`, o professor catedr\u00e1tico Carlos Reis, coordenador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, argumenta que apenas uma parcela \u00ednfima dos portugueses resiste \u00e0s novas regras, por n\u00e3o aceitar que Portugal, nos \u00faltimos 40 anos, tenha deixado de ser o `propriet\u00e1rio` do idioma para ser mais um `cond\u00f4mino`, junto com outras sete na\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Conv\u00e9m n\u00e3o confundir a agressividade de algumas pessoas &#8211; e de um determinado jornal, em particular, que \u00e9 das poucas exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra &#8211; com a realidade das coisas. Outras exce\u00e7\u00f5es acontecem por ignor\u00e2ncia e falta de prepara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por vontade de contrariar o Acordo Ortogr\u00e1fico`, afirma Reis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Interesse da m\u00eddia<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Desde que a nova ortografia passou a ser obrigat\u00f3ria, a maior parte da m\u00eddia local optou por adot\u00e1-la, mesmo com a oposi\u00e7\u00e3o de parte de seus funcion\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`A verdade \u00e9 que, entre jornalistas e escritores portugueses, praticamente ningu\u00e9m \u00e9 a favor desse acordo. Mas, como s\u00e3o profissionais, acabam aceitando-o, por lhes ser imposto por seus empregadores`, afirma o jornalista Nuno Pacheco, fundador do jornal P\u00fablico, a principal voz contra o Acordo Ortogr\u00e1fico na imprensa lusa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Justificativas n\u00e3o faltam para que a maioria dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o portugueses abrace o acordo, mesmo supostamente contrariando a vontade dos seus jornalistas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Geograficamente limitados a uma popula\u00e7\u00e3o de pouco mais de 10 milh\u00f5es de pessoas, a oportunidade de se aproximar de um mercado como o brasileiro, mesmo que este passe por um momento de instabilidade econ\u00f4mica, \u00e9 considerada importante demais para ser menosprezada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`A exist\u00eancia de um espa\u00e7o comum para a l\u00edngua portuguesa \u00e9 absolutamente chave para a otimiza\u00e7\u00e3o das oportunidades e o aproveitamento cultural, social e econ\u00f4mico possibilitados por uma l\u00edngua moderna, culta, viva e falada por quase 300 milh\u00f5es de pessoas, das quais mais de 200 milh\u00f5es est\u00e3o no Brasil`, explica o executivo Miguel Gil, membro do conselho de administra\u00e7\u00e3o do grupo Media Capital, um dos mais importantes do pa\u00eds europeu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Obviamente Portugal \u00e9 o primeiro pa\u00eds interessado nisto, e o Brasil \u00e9 o principal pa\u00eds para a natural expans\u00e3o e crescimento das atividades das empresas de m\u00eddia portuguesas.`<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O desejo de expandir os neg\u00f3cios para o Brasil fica mais evidente quando explicado por n\u00fameros. No fim de 2013, cerca de 90 milh\u00f5es de brasileiros j\u00e1 eram utilizadores da internet, enquanto os internautas portugueses chegavam a somente 5,7 milh\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse abismo tamb\u00e9m \u00e9 constatado no investimento em publicidade na m\u00eddia, que no mercado brasileiro gerou um volume de R$ 121 bilh\u00f5es em 2014, enquanto em Portugal somou apenas R$ 1,64 bilh\u00e3o no mesmo per\u00edodo. Para Nuno Pacheco, por\u00e9m, n\u00e3o ser\u00e1 o Acordo Ortogr\u00e1fico o respons\u00e1vel por escancarar as portas do mercado brasileiro \u00e0s empresas de m\u00eddia portuguesas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Esta \u00e9 uma ilus\u00e3o que foi criada para justificar as mudan\u00e7as. O portugu\u00eas do Brasil e o de Portugal seguiram caminhos distintos, tanto no vocabul\u00e1rio quanto na constru\u00e7\u00e3o verbal, e o acordo n\u00e3o muda isso`, diz Pacheco.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`O que dever\u00edamos fazer \u00e9 investir em dicion\u00e1rios unificados, que expliquem os diferentes termos e a qual variante da l\u00edngua eles pertencem. Isso faria com que nos entend\u00eassemos de verdade, e sem abrir m\u00e3o das particularidades que o idioma tem em cada local onde \u00e9 falado.`<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Idioma na contram\u00e3o<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os avessos \u00e0 ortografia unificada alegam ainda que a mudan\u00e7a faz com que o portugu\u00eas ande na contram\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o dos idiomas, contrariando uma tend\u00eancia universal de multiculturalidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Estamos caminhando no sentido contr\u00e1rio ao restante do mundo. A diversifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica valorizada por todos os idiomas. N\u00e3o faz sentido que caminhemos na dire\u00e7\u00e3o oposta`, diz Pacheco.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Se o ingl\u00eas tem 54 vers\u00f5es da l\u00edngua, respeitando as diferen\u00e7as culturais onde \u00e9 falado, mas mantendo a matriz para a qual \u00e9 sempre poss\u00edvel remeter em caso de filia\u00e7\u00e3o, por que raz\u00e3o o portugu\u00eas querer\u00e1 meter num caldeir\u00e3o a l\u00edngua falada em v\u00e1rios continentes e dizer que \u00e9 tudo igual, quando na realidade n\u00e3o \u00e9?`, questiona Maria de Menezes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Rui Tavares discorda dessa vis\u00e3o e acredita que, em vez de arrastar o portugu\u00eas para o passado, a nova ortografia abre caminho para um importante desenvolvimento da l\u00edngua no futuro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Ficamos muito tempo agarrados a discuss\u00f5es extremadas. Agora que temos um acordo aplicado, temos de ultrapassar as pol\u00eamicas e trabalhar em conjunto para divulgar o portugu\u00eas no cen\u00e1rio internacional, faz\u00ea-lo ganhar for\u00e7a em organismos pol\u00edticos mundiais como a ONU. Todos temos muito a ganhar com isso, especialmente os portugueses, apesar de alguns ainda n\u00e3o se darem conta disso.`<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal n\u00e3o se entende sobre o Acordo Ortogr\u00e1fico. 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