{"id":6307,"date":"2015-09-28T14:30:10","date_gmt":"2015-09-28T17:30:10","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/sucesso-da-base-curricular-depende-da-formacao-dos-professores\/"},"modified":"2015-09-28T14:30:10","modified_gmt":"2015-09-28T17:30:10","slug":"sucesso-da-base-curricular-depende-da-formacao-dos-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/sucesso-da-base-curricular-depende-da-formacao-dos-professores\/","title":{"rendered":"Sucesso da Base Curricular depende da forma\u00e7\u00e3o dos professores"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Professor em Stanford, onde comanda o Centro Lemann, think tank dedicado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, Paulo Blikstein tem uma contribui\u00e7\u00e3o importante a dar ao debate da Base Nacional Comum Curricular (BNC).<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"> Do seu ponto de vista privilegiado na universidade californiana, Blikstein tem acompanhado os erros e acertos na ado\u00e7\u00e3o do Common Core, a base comum dos Estados Unidos, restrita a Matem\u00e1tica e L\u00edngua Inglesa, adotada no in\u00edcio da d\u00e9cada. Blikstein revela ceticismo quanto \u00e0 capacidade de o Brasil implantar com sucesso o novo curr\u00edculo em todas as disciplinas de uma vez s\u00f3. \u201cEm nenhum lugar do mundo a discuss\u00e3o sobre curr\u00edculo \u00e9 uma discuss\u00e3o dif\u00edcil. Dif\u00edcil \u00e9 implement\u00e1-lo, at\u00e9 porque custa muito caro\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse ceticismo se estende aos conte\u00fados n\u00e3o-pedag\u00f3gicos, ou de desenvolvimento integral, que, para parte dos educadores, devem ter papel central na nova Base. Blikstein receia que as compet\u00eancias socioemocionais, por exemplo, sejam tratadas de forma rasa, fora de contexto, at\u00e9 pela falta de familiaridade dos professores com o repert\u00f3rio dos saberes para o s\u00e9culo 21. Mas o pesquisador admite que n\u00e3o se pode fugir do desafio de dar destaque a esses saberes na Base. \u201cSe n\u00e3o incluir na BNC coisas que estimulem o professor e a escola a buscar formas alternativas de ensinar, voc\u00ea vai ter mais do mesmo\u201d, diz. \u201cPrecisamos pensar no tipo de ensino que queremos ter nos pr\u00f3ximos 10, 20 anos.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 O senhor esteve no Brasil em fins de agosto, quando o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o colocou formalmente em consulta p\u00fablica o anteprojeto da Base Nacional Comum. O que o senhor acha importante levar em considera\u00e7\u00e3o nesse debate?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Paulo Blikstein \u2013 Falando mais genericamente da quest\u00e3o da Base, em qualquer lugar do mundo ela \u00e9 necess\u00e1ria, mas insuficiente. N\u00e3o \u00e9 uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. A gente tende a fazer isso o tempo todo na educa\u00e7\u00e3o, se agarrar a t\u00e1buas de salva\u00e7\u00e3o. A BNC \u00e9 uma delas; o trabalho com as compet\u00eancias socioemocionais \u00e9 uma minit\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, assim como a Khan Academy, os MOOCs (sigla em ing\u00eas para Cursos Abertos Massivos Online) e tudo mais. Minha teoria \u00e9 de que, quando voc\u00ea tem temas muito complexos, as pessoas querem acreditar na possibilidade de um milagre. Na \u00e9poca da infla\u00e7\u00e3o descontrolada, por exemplo, era mais f\u00e1cil ganhar cora\u00e7\u00f5es e mentes se voc\u00ea apresentasse solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas, como o congelamento de pre\u00e7os. Quando a infla\u00e7\u00e3o era um problema complexo, que exigia mudan\u00e7as na lei, na pol\u00edtica fiscal, em v\u00e1rias \u00e1reas, enfim.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 Como fazer a Base funcionar de fato?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 A Base s\u00f3 vai funcionar se voc\u00ea tiver os recursos para implementar as mudan\u00e7as que ela requer. Ent\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o vai adiantar nada se voc\u00ea implementar a Base e n\u00e3o tiver um investimento massivo na forma\u00e7\u00e3o dos professores que v\u00e3o colocar as mudan\u00e7as em pr\u00e1tica. Tamb\u00e9m n\u00e3o adiantar\u00e1 nada se voc\u00ea n\u00e3o tiver investimento massivo para criar os materiais did\u00e1ticos que ser\u00e3o necess\u00e1rios para ensinar com a BNC.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para mim, a Base \u00e9 quase um pretexto para voc\u00ea fazer esses investimentos t\u00e3o necess\u00e1rios. Como aborda todos os aspectos da educa\u00e7\u00e3o, o curr\u00edculo, o jeito de ensinar, ela \u00e9 um pretexto para voc\u00ea come\u00e7ar de novo \u2013 n\u00e3o do zero, mas treinando outra vez os professores, criando novos materiais pedag\u00f3gicos \u2013 e se livrar um pouco do que a gente chama de legado, tudo aquilo que permaneceu no sistema educacional por in\u00e9rcia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Infelizmente, a Base, que para sua implanta\u00e7\u00e3o precisa de muito recurso, est\u00e1 sendo discutida numa \u00e9poca em que o Brasil est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o financeira dif\u00edcil. O grande risco \u00e9 o de que ela seja aprovada e coisa e tal, mas sem essas medidas necess\u00e1rias, que s\u00e3o na verdade a parte mais importante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 Por que o senhor considera essas outras medidas mais importantes do que a Base?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 Porque, apesar de n\u00e3o existir formalmente uma BNC, n\u00e3o \u00e9 que a gente n\u00e3o tenha um curr\u00edculo. Os livros did\u00e1ticos s\u00e3o muito uniformes, t\u00eam quase todos o mesmo conte\u00fado, a gente tamb\u00e9m tem os Par\u00e2metros Curriculares Nacionais (PCNs)\u2026 Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o em que cada um faz o que bem entender. Cerca de 90% dos alunos do Brasil usam livros did\u00e1ticos que s\u00e3o mais ou menos padronizados. Ent\u00e3o j\u00e1 existe uma certa uniformidade de conte\u00fados e n\u00e3o vai ser simplesmente uma outra uniformidade trazida pela BNC que, por si s\u00f3, resolver\u00e1 alguma coisa. A Base vai, isto sim, facilitar um monte de outras coisas que a gente precisa fazer depois da sua aprova\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 O que a experi\u00eancia americana do Common Core pode ajudar no debate brasileiro?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 Um exemplo: o Common Core \u00e9 s\u00f3 de uma parte do curr\u00edculo, pega Matem\u00e1tica e L\u00edngua lnglesa. No Brasil, querem pegar tudo. Acho que seria mais prudente adotar uma BNC em algumas disciplinas, como um projeto-piloto, e depois ir adicionando outras. Pegar, por exemplo, Matem\u00e1tica e Portugu\u00eas, ver como a BNC est\u00e1 impactando o sistema de ensino e s\u00f3 ent\u00e3o decidir o que ser\u00e1 feito depois. Nos Estados Unidos, com apenas duas disciplinas, o governo teve de gastar rios de d\u00f3lares, imagine o custo aqui para adotar uma BNC com dezenas de disciplinas. A estrutura para treinamento de professores, para fazer a revis\u00e3o do material did\u00e1tico, \u00e9 uma tarefa herc\u00falea, uma coisa brutal. Seria melhor se fosse gradual, num horizonte de cinco a dez anos, porque da\u00ed voc\u00ea vai aprendendo \u00e0 medida que faz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 O que o senhor acha do papel dos saberes para o s\u00e9culo 21 no contexto da base?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 Como a BNC em geral, eles tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o um milagre. Funcionam dentro de um contexto no qual apare\u00e7am com autenticidade. Por exemplo, se voc\u00ea tem um curr\u00edculo no qual periodicamente elogia os alunos, diz a eles que podem ir mais longe, t\u00eam intelig\u00eancia male\u00e1vel, ou mesmo um curr\u00edculo baseado todo no desenvolvimento da persist\u00eancia: se todo o resto n\u00e3o funcionar, o curr\u00edculo n\u00e3o far\u00e1 milagres por si s\u00f3. Imagine que voc\u00ea quer ensinar persist\u00eancia e d\u00e1 problemas muito dif\u00edceis para o aluno resolver. Se o material pedag\u00f3gico n\u00e3o for de boa qualidade, se o professor n\u00e3o for capaz de indicar para o estudante qual o pr\u00f3ximo passo, se o problema n\u00e3o tiver sido bem concebido, de nada vai adiantar voc\u00ea s\u00f3 falar para o aluno: \u2018Vai persistindo a\u00ed por uma duas horas que voc\u00ea acaba aprendendo.\u2019<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As compet\u00eancias socioemocionais funcionam no contexto de um curr\u00edculo bem montado, com bom material did\u00e1tico, bons professores, que fa\u00e7am elas serem trabalhadas de forma natural. N\u00e3o \u00e9 um truque, n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea decorar cinco frases e ficar repetindo durante a aula (\u2018a\u00ed, pessoal, n\u00e3o desistam, voc\u00eas conseguem\u2019 etc e tal). O professor tem que saber dizer: \u2018Sei que voc\u00eas est\u00e3o enfrentando dificuldades na solu\u00e7\u00e3o deste problema, ent\u00e3o tentem fazer este procedimento aqui.\u2019 S\u00f3 que isso exige professores muito bem preparados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 Mas n\u00e3o d\u00e1 para a gente pensar em incluir na Base a obrigatoriedade de a escola desenvolver projetos multidisciplinares pelo menos duas vezes por ano, como na Finl\u00e2ndia? Imagine um projeto que fa\u00e7a estudantes sa\u00edrem pelo entorno da escola colhendo depoimentos de pessoas da comunidade, de gente que de alguma forma superou adversidades para chegar aonde chegou, cuja trajet\u00f3ria sirva de modelo para os jovens. Para isso s\u00f3 precisa de smartphone e tempo, disposi\u00e7\u00e3o. Depois de editados em algum programinha simples de computador, gratuito, os v\u00eddeos seriam exibidos e os pr\u00f3prios colegas escolheriam os melhores (ou at\u00e9 mesmo os pais de estudantes ou todos eles juntos) e dali sairia a atribui\u00e7\u00e3o de notas. Esse \u00e9 um jeito de colocar os saberes do s\u00e9culo 21 em pauta na BNC sem precisar de uma requalifica\u00e7\u00e3o mais aprofundada do professor, n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 Esse \u00e9 um bom exemplo de aplica\u00e7\u00e3o de compet\u00eancia socioemocional num contexto que faz sentido para o aluno. O professor pode entrar ajudando a conectar o trabalho a algum conte\u00fado pedag\u00f3gico, algo que os alunos ter\u00e3o necessariamente de aprender. Talvez o professor possa ligar um dos personagens dos v\u00eddeos a um conte\u00fado hist\u00f3rico, a alguma passagem da 2\u00aa Guerra Mundial, digamos. Essa \u00e9 uma das coisas nas quais o professor pode ser extremamente \u00fatil: quando os alunos n\u00e3o conseguem resolver um problema ou n\u00e3o exploram alguma coisa porque n\u00e3o sabem como relacion\u00e1-la a alguma passagem da disciplina \u2013 nesse caso, da Hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 E d\u00e1 para fazer coisas escal\u00e1veis com propostas como esta, n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 Insisto na quest\u00e3o de que as compet\u00eancias socioemocionais n\u00e3o s\u00e3o a panaceia para os problemas da educa\u00e7\u00e3o e precisam fazer parte de projetos interessantes. Mas, ao mesmo tempo, se n\u00e3o incluir na BNC coisas que estimulem o professor e a escola a buscarem formas alternativas de ensinar, voc\u00ea vai ter mais do mesmo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Uma experi\u00eancia que est\u00e1 dando muito certo nos Estados Unidos \u00e9 a do Next Generation Science Standards (algo como Padr\u00f5es Cient\u00edficos para a Nova Gera\u00e7\u00e3o), uma esp\u00e9cie de Common Core das Ci\u00eancias. O foco \u00e9 muito em cima da experimenta\u00e7\u00e3o e da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edficas. N\u00e3o \u00e9 deixar o aluno na sala de aula decorando f\u00f3rmulas, mas ficar descobrindo f\u00f3rmulas atrav\u00e9s de experimentos. A NGTS trabalha a necessidade de voc\u00ea criar hip\u00f3teses e depois validar essas hip\u00f3teses.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Isso \u00e9 importante de a gente discutir neste momento de debate da BNC porque precisamos pensar no tipo de ensino que queremos ter nos pr\u00f3ximos 10, 20 anos. E a NGTS \u00e9 um tipo de educa\u00e7\u00e3o baseada no ensino por projetos, com uma pegada hands on (m\u00e3o na massa), de experimenta\u00e7\u00e3o, na qual os alunos criam o conhecimento, desenvolvendo suas hip\u00f3teses e as validando.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 preciso colocar essas coisas na Base, coisas que obriguem a escola a sair do padr\u00e3o normal de aula expositiva mais prova. Em suma, \u00e9 preciso colocar na Base coisas que fazem parte dos m\u00e9todos de ensino e da educa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo 21. Esse \u00e9 um processo em desenvolvimento e est\u00e1 cada vez mais veloz. Esses m\u00e9todos hoje s\u00e3o muito mais conhecidos e pesquisados do que h\u00e1, digamos, tr\u00eas anos. E os materiais s\u00e3o cada vez mais baratos. Tipo: um laborat\u00f3rio de Ci\u00eancias custava h\u00e1 30 anos uma fortuna; hoje, com uma placa de um sistema como o Ardu\u00edno voc\u00ea tem um laborat\u00f3rio com capacidade de fazer experimentos com sensores qu\u00edmicos e f\u00edsicos. No smartphone voc\u00ea tem apps gratuitos como o Video Physics, que te permite lan\u00e7ar um proj\u00e9til e depois analisar o movimento quadro a quadro para entender a trajet\u00f3ria dele.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 E se a gente adotasse uma Base que fosse dividida em quatro grandes \u00e1reas, mais ou menos nos moldes do Enem: Matem\u00e1tica, Linguagem, Ci\u00eancias e Sociedade?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 \u00c9 uma ideia interessante, at\u00e9 porque acho que n\u00e3o temos no Brasil gente suficiente para treinar professores em 17, 18 disciplinas no espa\u00e7o de um, dois anos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Porvir \u2013 Mas a gente pode usar o online como recurso para trabalhar a forma\u00e7\u00e3o de pessoal, n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Blikstein \u2013 Mesmo o online precisa de gente para criar os cursos, n\u00e3o \u00e9 uma coisa trivial. Veja, tem toda uma quest\u00e3o \u00f3bvia da necessidade de formar professores, que existe desde sempre, mas ela \u00e9 diferente da forma\u00e7\u00e3o para voc\u00ea implementar uma Base Nacional Comum. Quando se fala em reformas na educa\u00e7\u00e3o, qualquer reforma do governo tem de atingir a milh\u00f5es de professores. Quando se fala da forma\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, se n\u00e3o der certo o mundo n\u00e3o vai cair: a educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 ruim e continuar\u00e1 assim. J\u00e1 colocar em pr\u00e1tica uma BNC sem ter todos os componentes alinhados vai provocar um desastre muito maior. Da\u00ed a preocupa\u00e7\u00e3o com a praticidade do cronograma de implanta\u00e7\u00e3o, de fazer isso a curto prazo em 16, 17 disciplinas em um pa\u00eds continental como o Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O David Plank, pesquisador americano, tem uma an\u00e1lise que pode ser interessante para o caso brasileiro. O Estado de Nova York, que est\u00e1 longe de ser um Estado pobre, tentou implantar o Common Core a toque de caixa, na linha de \u2018se os professores n\u00e3o quiserem, vamos fazer o projeto descer goela abaixo\u2019. O governo criou at\u00e9 uma pol\u00edtica de b\u00f4nus para atenuar resist\u00eancias. Mas a ado\u00e7\u00e3o do Common Core em Nova York foi um grande fracasso e o motivo principal foi a falta de ades\u00e3o dos professores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">J\u00e1 a Calif\u00f3rnia teve melhores resultados optando por um processo muito mais demorado, negociado com os professores. Para voc\u00ea ter uma ideia, eles precisaram suspender todas as provas estaduais durante dois anos, at\u00e9 que tivessem montado uma avalia\u00e7\u00e3o coerente com o Common Core. Foi necess\u00e1rio um aparato log\u00edstico e at\u00e9 legal para colocar em pr\u00e1tica o projeto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A Calif\u00f3rnia teve de aprovar leis proibindo a compara\u00e7\u00e3o de notas de escolas e alunos pr\u00e9 e p\u00f3s-Common Core. Imagine uma escola em que os alunos tinham m\u00e9dia 7 na avalia\u00e7\u00e3o pr\u00e9-Common Core e 6 na p\u00f3s. Isto n\u00e3o quer dizer nada, porque voc\u00ea est\u00e1 falando de escalas diferentes. S\u00f3 que a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 essa, \u00e9 de que a escola piorou. Da mesma forma, universidades usam as notas dos estudantes nos seus processos de sele\u00e7\u00e3o e alunos poderiam ser prejudicados na compara\u00e7\u00e3o com concorrentes mais velhos. Ali\u00e1s, nos Estados Unidos essa quest\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o influencia at\u00e9 no mercado imobili\u00e1rio \u2013 o valor das casas \u00e9 muito determinado pela qualidade das escolas do entorno. Ent\u00e3o, o que aconteceu na Calif\u00f3rnia foi o equivalente a suspender o Enem durante dois anos. Esta \u00e9 a envergadura do que foi feito l\u00e1.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor em Stanford, onde comanda o Centro Lemann, think tank dedicado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, Paulo Blikstein tem uma contribui\u00e7\u00e3o importante a dar ao debate da Base Nacional Comum Curricular (BNC).<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-6307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6307\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}