{"id":6249,"date":"2015-09-04T16:39:37","date_gmt":"2015-09-04T19:39:37","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/educar-para-a-ciencia\/"},"modified":"2015-09-04T16:39:37","modified_gmt":"2015-09-04T19:39:37","slug":"educar-para-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/educar-para-a-ciencia\/","title":{"rendered":"Educar para a Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Come\u00e7o com uma quest\u00e3o: como \u00e9 poss\u00edvel ensinar o pensamento cient\u00edfico nas escolas, uma vez que ela mesma distanciou e mistificou a figura dos cientistas? Quando se fala em Educa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica ou Alfabetiza\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica \u2013 express\u00f5es que est\u00e3o em voga nos meios acad\u00eamicos \u2013, \u00e9 necess\u00e1rio pensar na abordagem que a escola tem dado ao ensino de Ci\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Um dos aspectos a ser considerado est\u00e1 justamente na utiliza\u00e7\u00e3o do termo \u201cCi\u00eancia\u201d apenas para o conjunto de saberes que tratam do componente curricular de Ci\u00eancias Naturais (no Ensino Fundamental) ou \u00e0s disciplinas de F\u00edsica, Qu\u00edmica e Biologia (no Ensino M\u00e9dio). O termo \u201cCi\u00eancia\u201d \u00e9 muito mais abrangente e envolve todas as \u00e1reas, visto que formam o conjunto de conhecimentos cient\u00edficos j\u00e1 consolidados, que constituem os conte\u00fados da base nacional comum.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Outro fator determinante para o distanciamento entre a escola e a figura dos cientistas \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o did\u00e1tica dos conhecimentos cient\u00edficos, isto \u00e9, a forma como o conte\u00fado \u00e9 passado para o aluno. \u00c9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o dos saberes escolares com a realidade dos estudantes em quest\u00e3o. \u00c9 preciso ressaltar que realidade n\u00e3o se trata do contexto socioecon\u00f4mico, mas do cotidiano, das viv\u00eancias, do mundo que nos cerca. E como pensar na realidade de forma isolada, sem estabelecer conex\u00f5es entre as diversas \u00e1reas? Faz-se necess\u00e1rio ensinar os estudantes a pensar como cientistas. A tarefa \u00e9 complexa e requer m\u00e9todo e organiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">N\u00e3o podemos ensinar Ci\u00eancia hoje com metodologias utilizadas h\u00e1 20 anos. Os estudantes t\u00eam acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o de forma f\u00e1cil e r\u00e1pida, principalmente com o advento da internet. Al\u00e9m disso, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais papel do professor \u201cdar informa\u00e7\u00f5es\u201d ou \u201cpassar conte\u00fados\u201d, mas sim organizar, sistematizar e mediar informa\u00e7\u00f5es, garantindo que elas se transformem em conhecimento efetivo. N\u00f3s, profissionais da educa\u00e7\u00e3o, temos um papel fundamental, ainda nas s\u00e9ries iniciais: n\u00e3o destruir a curiosidade das crian\u00e7as. Instigar essa caracter\u00edstica, que \u00e9 inata, \u00e9 essencial. A motiva\u00e7\u00e3o que o professor promove nos ambientes escolares pode despertar voca\u00e7\u00f5es ou aniquilar a \u00e2nsia pelo saber.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os Quatro Pilares da Educa\u00e7\u00e3o para s\u00e9culo XXI (Unesco, 1999) &#8211; Aprender a Conhecer, Aprender a Fazer, Aprender a Viver com os Outros e Aprender a Ser \u2013 exigem a elabora\u00e7\u00e3o de did\u00e1ticas que v\u00e3o ao encontro do desenvolvimento de habilidades e compet\u00eancias que transcendem a resolu\u00e7\u00e3o de exerc\u00edcios de fixa\u00e7\u00e3o e question\u00e1rios decorados ap\u00f3s uma aula expositiva. Ao buscar situa\u00e7\u00f5es de aprendizagem que levam os estudantes a tomar postura de cientistas, podemos propor a resolu\u00e7\u00e3o de problemas como ponto de partida. A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se tratam de problemas matem\u00e1ticos, no qual j\u00e1 se espera uma resposta exata associada a um conceito de grandeza, e sim de problemas oriundos de observa\u00e7\u00f5es feitas por meio das viv\u00eancias dos estudantes em seu bairro, cidade, escola, fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Primeira etapa: identificar o problema<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Como professora de Metodologia Cient\u00edfica, trabalho o m\u00e9todo cient\u00edfico como tema transversal, buscando a investiga\u00e7\u00e3o como a\u00e7\u00e3o principal na busca da resolu\u00e7\u00e3o de problemas que os estudantes apresentam, e n\u00e3o a partir de um tema imposto. A princ\u00edpio, os estudantes trazem o problema e, na sequ\u00eancia, planejam o estudo, constituindo um documento escrito que resulta no projeto de pesquisa. Ap\u00f3s a discuss\u00e3o com os professores e an\u00e1lise da viabilidade de execu\u00e7\u00e3o do projeto, inicia-se a investiga\u00e7\u00e3o, com a orienta\u00e7\u00e3o de um ou mais professores da \u00e1rea do conhecimento em que o trabalho mais se aproxima.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao longo da investiga\u00e7\u00e3o, os estudantes esclarecem suas d\u00favidas em sala de aula e por meio das redes sociais, utilizando ferramentas de tecnologia digital para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. Dependendo do objeto de estudo do trabalho, visitam empresas e universidades, conversam com profissionais de diferentes ramos, coletam informa\u00e7\u00f5es, buscam materiais e estabelecem uma forma cooperativa de aprender. Al\u00e9m disso, os estudantes aprendem a utilizar o editor de textos e se apropriam das normas da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Normas T\u00e9cnicas (ABNT), viabilizando o ensino das quest\u00f5es \u00e9ticas, bem como a forma adequada de referir-se a conhecimentos de outros nas produ\u00e7\u00f5es escritas, respeitando as propriedades intelectuais. Ao compilar textos e registros que resultam nas refer\u00eancias que subsidiam a parte te\u00f3rica dos trabalhos e que se relacionam com os saberes aprendidos na escola, compreendem as informa\u00e7\u00f5es e obt\u00eam as respostas para os fen\u00f4menos que se apresentam ao passo que a pesquisa avan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Quando os estudantes chegam a um resultado, devem analis\u00e1-lo e explic\u00e1-lo, de acordo com os pressupostos dos saberes que embasam a teoria que envolve a investiga\u00e7\u00e3o. E assim compreendem que a investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o resulta em uma verdade absoluta, podendo ser retomado e remodelado, levando a novos questionamentos e a novas investiga\u00e7\u00f5es, como a Ci\u00eancia procede de fato.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para apresentar os resultados, eles escrevem relat\u00f3rios de pesquisa, dentro de padr\u00f5es e crit\u00e9rios espec\u00edficos, e confeccionam os pain\u00e9is que servir\u00e3o de base para apresenta\u00e7\u00e3o oral em uma mostra de trabalhos da escola. Ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da mostra, os relat\u00f3rios devem ser transformados em artigos cient\u00edficos, agrupados nos anais do evento, que ficam dispon\u00edveis na biblioteca da escola.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Estudantes como protagonistas<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No contexto geral, professores e estudantes praticam a teoria da a\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica de Paulo Freire, protagonizando intera\u00e7\u00e3o, observa\u00e7\u00e3o, experimenta\u00e7\u00e3o, registro, compara\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o, comprometimento e responsabilidade, cumprindo com os pressupostos dos quatro pilares da educa\u00e7\u00e3o. Ao longo do processo investigativo, automaticamente, os estudantes aproximam seu modo de pensar e enxergar o mundo ao pensamento cient\u00edfico. Trabalhando dessa maneira, \u00e9 poss\u00edvel que os estudantes sejam protagonistas no processo de ensino\/aprendizagem e, de acordo com suas capacidades cognitivas, elaborem e estabele\u00e7am rela\u00e7\u00f5es entre os saberes aprendidos na escola e em sua vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Vencedora do Pr\u00eamio Jovem Cientista deste ano, na categoria Ensino M\u00e9dio, a estudante Joana Meneguzzo Pasquali vivenciou essa sequ\u00eancia did\u00e1tica durante tr\u00eas anos, apresentando diferentes problemas de pesquisa em cada uma das s\u00e9ries. O problema apresentado no 3\u00ba ano do Ensino M\u00e9dio foi a adultera\u00e7\u00e3o no leite UHT, divulgada em diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Pelo fato de residir no Rio Grande do Sul, Estado onde as fraudes foram descobertas, a quest\u00e3o se apresentou como um problema social, de sa\u00fade p\u00fablica e de neglig\u00eancia, que necessitava de uma solu\u00e7\u00e3o para os consumidores identificarem se o produto contido na embalagem corresponde ao descrito no r\u00f3tulo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Joana realizou todo o processo de investiga\u00e7\u00e3o e apresentou o resultado na 3\u00aa mostra da escola. Como o conte\u00fado do trabalho estava diretamente ligado ao tema da 28\u00aa edi\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio, \u201cSeguran\u00e7a Alimentar e Nutricional\u201d, inscrevemos o trabalho na categoria Ensino M\u00e9dio. A alegria e a emo\u00e7\u00e3o de ter o trabalho premiado foram indescrit\u00edveis. Mais do que a premia\u00e7\u00e3o e o reconhecimento de um trabalho que envolve muitas pessoas, \u00e9 o maior indicador de que estamos no caminho certo, promovendo a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, levando os estudantes a desenvolver o pensamento cient\u00edfico, por meio da resolu\u00e7\u00e3o de problemas identificados na sociedade, despertando o esp\u00edrito de cidadania e autonomia na constru\u00e7\u00e3o do saber.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Educar para a Ci\u00eancia \u00e9 formar pessoas buscando um estreitamento das rela\u00e7\u00f5es entre o universo dos centros acad\u00eamicos e da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Penso que este seja um dos motes para que a Educa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica seja mais efetiva. Desse modo, os estudantes estar\u00e3o aptos a ingressar no Ensino Superior dotados de conhecimentos pr\u00e9vios fundamentais para que seus estudos contribuam com pesquisas e processos que melhorem a sociedade e o mundo em que vivemos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">por Andr\u00e9ia Michelon Gobbi<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o com uma quest\u00e3o: como \u00e9 poss\u00edvel ensinar o pensamento cient\u00edfico nas escolas, uma vez que ela mesma distanciou e mistificou a figura dos cientistas? 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