{"id":5910,"date":"2015-03-05T19:27:36","date_gmt":"2015-03-05T22:27:36","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/escola-do-seculo-xix-nao-consegue-atrair-jovens\/"},"modified":"2015-03-05T19:27:36","modified_gmt":"2015-03-05T22:27:36","slug":"escola-do-seculo-xix-nao-consegue-atrair-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/escola-do-seculo-xix-nao-consegue-atrair-jovens\/","title":{"rendered":"Escola do s\u00e9culo XIX n\u00e3o consegue atrair jovens"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;A informa\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o est\u00e1 mais s\u00f3 com o professor. O aluno n\u00e3o vai mais aguentar algu\u00e9m s\u00f3 falando por uma, duas, tr\u00eas horas e s\u00f3 escutar&#8221;, afirma Mozart Neves Ramos, engenheiro qu\u00edmico pernambucano que se tornou especialista em Educa\u00e7\u00e3o e atualmente ocupa o cargo de diretor de articula\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o do Instituto Ayrton Senna.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O p\u00e9ssimo desempenho dos Alunos na prova de reda\u00e7\u00e3o do Enem, o desalento dos jovens chamados &#8220;nem-nem&#8221; (nem trabalham nem estudam) e os altos \u00edndices de evas\u00e3o Escolar no Ensino m\u00e9dio s\u00e3o exemplos de problemas atuais da Educa\u00e7\u00e3o do jovem brasileiro que t\u00eam origem em um mesmo gargalo: a incapacidade das Escolas em motivar, atrair e dialogar com os jovens. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 de Mozart Neves Ramos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;Temos uma Escola do s\u00e9culo XIX, um Professor do s\u00e9culo XX e um Aluno do s\u00e9culo XXI&#8221;, afirma. Doutor em qu\u00edmica pela Unicamp e reitor da Universidade Federal de Pernambuco entre 1996 e 2003, Mozart tem grande experi\u00eancia na \u00e1rea educacional. Foi secret\u00e1rio estadual da Educa\u00e7\u00e3o de Pernambuco e membro do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE), al\u00e9m de diretor-executivo do movimento Todos Pela Educa\u00e7\u00e3o e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Dirigentes das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior. Em uma de suas aulas, Mozart foi surpreendido quando um estudante usou o celular para acessar a internet e esclarecer ali uma d\u00favida que ele havia prometido responder apenas na aula seguinte, uma pr\u00e1tica bastante comum entre os Professores dos tempos pr\u00e9- Google. Com o epis\u00f3dio, diz ter aprendido uma li\u00e7\u00e3o que vale para todo Professor que quiser aprimorar o n\u00edvel de aprendizado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;A informa\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o est\u00e1 mais s\u00f3 com o Professor. O Aluno n\u00e3o vai mais aguentar algu\u00e9m s\u00f3 falando por uma, duas, tr\u00eas horas, s\u00f3 escutar.&#8221; Melhorar o Ensino m\u00e9dio com um curr\u00edculo mais atraente, e que prepare o estudante tanto para sua voca\u00e7\u00e3o quanto para cidadania e empreendedorismo, \u00e9 fundamental para um mercado de trabalho que, cada vez mais, exigir\u00e1 perfil criativo, inovador e produtivo. Mozart, que defende que todo dinheiro do pr\u00e9-sal seja usado para aumentar o sal\u00e1rio dos Professores, acha que falta mais press\u00e3o popular para que as metas do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o saiam do papel. &#8220;Vamos chegar ao pr\u00f3ximo ano sem ter cumprido nem a meta 1&#8221;, prev\u00ea. A seguir, os principais trechos da entrevista:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: No Enem 2014, ao todo, 529 mil Alunos tiraram zero na prova de reda\u00e7\u00e3o. O que explica desse desempenho t\u00e3o ruim?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mozart Neves Ramos: O problema do Ensino m\u00e9dio n\u00e3o come\u00e7a no Ensino m\u00e9dio. Come\u00e7a, principalmente, nas s\u00e9ries finais do Ensinofundamental.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: Como resolver?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: \u00c9 preciso que haja um di\u00e1logo entre as s\u00e9ries finais e o Ensino m\u00e9dio, principalmente nas s\u00e9ries finais de Ensino fundamental. As s\u00e9ries iniciais s\u00e3o quase que inteiramente de responsabilidade dos munic\u00edpios, na larga maioria dos Estados brasileiros. No Ensino m\u00e9dio, \u00e9 exclusiva da esfera estadual. Mas as s\u00e9ries finais, que s\u00e3o estrat\u00e9gicas tamb\u00e9m para evitar esse desastre no Ensino m\u00e9dio, s\u00e3o compartilhadas: parte \u00e9 dada pela rede estadual, parte pela municipal. Se voc\u00ea n\u00e3o tiver um regime de colabora\u00e7\u00e3o entre Estado e munic\u00edpios para as s\u00e9ries finais de Ensino fundamental, voc\u00ea tem eventualmente dois curr\u00edculos, duas forma\u00e7\u00f5es que n\u00e3o dialogam. Hoje a gente n\u00e3o tem uma conex\u00e3o entre as s\u00e9ries finais, quando o Aluno termina o nono ano, e o primeiro do Ensino m\u00e9dio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: O sr. pode ilustrar essa desconex\u00e3o?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: A grande ess\u00eancia \u00e9 que nas s\u00e9ries iniciais o Aluno tem uma \u00fanica Professora. L\u00e1, o Professor sabe o nome do seu Aluno e isso influencia tanto a rela\u00e7\u00e3o, quanto a autoestima do Aluno. Quando a crian\u00e7a sai do quinto ano e passa para o sexto ano, ela come\u00e7a a ter um conjunto de disciplinas, cada uma com um Professor. E isso muda substancialmente n\u00e3o s\u00f3 a maneira de estudar, mas de se relacionar. Cada Professor agora n\u00e3o v\u00ea o Aluno individualmente, ele v\u00ea a turma que ele ensina. O Professor tem v\u00e1rias turmas e cada turma tem v\u00e1rios Professores. Essa mudan\u00e7a causa muitas vezes dificuldades pedag\u00f3gicas e dificuldade de aprendizagem por parte dos estudantes. Tem um caminho que algumas Escolas est\u00e3o fazendo \u00e9 o de criar o Aluno tutor. Aquele Aluno que j\u00e1 est\u00e1 na Escola em uma etapa mais adiantada, que estuda, que \u00e9 engajado, que \u00e9 uma lideran\u00e7a dentro da Escola, para acolher estes novos Alunos. O segundo grande problema que a gente tem nas s\u00e9ries finais, para poder alavancar \u00e9 um curr\u00edculo que seja atraente para este adolescente. Que trabalhe mais com experimenta\u00e7\u00e3o, com a quest\u00e3o de projetos, para que possa buscar a curiosidade, a criatividade com base naquilo que ele est\u00e1 estudando, para tornar a aula mais atrativa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: O que \u00e9 menos atraente no curr\u00edculo do Ensino m\u00e9dio brasileiro, em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: O curr\u00edculo tem um excesso de disciplinas. O que voc\u00ea v\u00ea em alguns pa\u00edses \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 aquilo que \u00e9 essencial que o jovem aprenda, tanto para que ele tenha sucesso no acesso \u00e0 universidade quanto no mundo do trabalho. O que eu defendo \u00e9 que o nono ano do Ensino fundamental e o primeiro do Ensino m\u00e9dio sejam o alicerce comum para todos os Alunos que est\u00e3o no Ensino m\u00e9dio. Digamos, voc\u00ea quer fazer hist\u00f3ria. Mas de qu\u00edmica, voc\u00ea tem que aprender o PH. Por que o PH \u00e9 importante? Porque se voc\u00ea falar de \u00e1gua mineral, chuva \u00e1cida, tem que entender o PH. Faz parte da vida. Agora, voc\u00ea estudar osmose reversa ou coisas altamente mais especializadas da qu\u00edmica, talvez n\u00e3o seja necess\u00e1rio para o Aluno que vai fazer humanidades, ou artes, ou sa\u00fade. O segundo e o terceiro ano do Ensino m\u00e9dio, sim, seriam em fun\u00e7\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o do Aluno. Ampliar mais e focar mais no que vai ser essencial para o futuro dele. E acrescentar tamb\u00e9m, nesse sentido, outras atividades &#8211; e n\u00e3o disciplinas &#8211; que poderiam ajudar o jovem. Por exemplo, eu defendo muito a cultura do voluntariado, para que ele seja um jovem cidad\u00e3o, que tenha sensibilidade. Defendo o empreendedorismo social para o jovem, porque ele come\u00e7a a ser protagonista de seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, mas que tenha uma vincula\u00e7\u00e3o de qualidade do ponto de vista social: incubadoras, startups, que s\u00e3o coisas que o jovem adora fazer e coloca o trabalho em equipe em evid\u00eancia. O curr\u00edculo do Ensino m\u00e9dio hoje n\u00e3o dialoga com esse mundo juvenil. 40% dos que evadem o fazem por total desmotiva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: H\u00e1 na Educa\u00e7\u00e3o, atualmente, algum passo no sentido de dialogar com o jovem?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Um dos objetivos do Enem \u00e9 provocar a interdisciplinaridade no Ensino m\u00e9dio, n\u00e3o tanto a decoreba. O Enem procura, de alguma forma, tentar induzir essas mudan\u00e7as a que estou me referindo. Mas a universidade tamb\u00e9m deveria mudar a forma como recebe o Aluno. Porque se eu mudei o vestibular e agora uso o Enem com essas novas caracter\u00edsticas, o outro lado da ponte para quem fizer essa travessia deveria ser uma outra formata\u00e7\u00e3o de oferta de disciplinas. Porque hoje a universidade recebe o Aluno do Enem da mesma forma que recebia o do vestibular tradicional, da decoreba, do aplicar f\u00f3rmulas, sem desenvolver o esp\u00edrito cr\u00edtico ou buscar solu\u00e7\u00f5es em equipe, que \u00e9 t\u00e3o importante para o mundo atual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: A internet e as redes sociais mudaram a rela\u00e7\u00e3o do Aluno com a Escola?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Na minha opini\u00e3o, completamente. Eu costumo dizer que a gente ainda tem uma Escola do s\u00e9culo XIX, porque a larga maioria das Escolas n\u00e3o tem banda larga, laborat\u00f3rios tecnol\u00f3gicos. Ent\u00e3o temos uma Escola do s\u00e9culo XIX, um Professor do s\u00e9culo XX e um Aluno do s\u00e9culo XXI. Quando eu era estudante, eu tinha dois eixos para buscar a informa\u00e7\u00e3o: o Professor ou a biblioteca. Hoje n\u00e3o, s\u00f3 com o meu celular eu posso obter informa\u00e7\u00f5es que levaria uma semana para saber. Vou dar um exemplo: eu estava dando aula na Federal de Pernambuco, como Professor, e deduzi uma equa\u00e7\u00e3o chamada equa\u00e7\u00e3o de Kirchhoff, que mede a capacidade dos corpos com a temperatura. A\u00ed um Aluno me pergunta: Mozart, esse Kirchhoff \u00e9 o mesmo da f\u00edsica, que mede a corrente dos circuitos el\u00e9tricos? E eu disse olha, eu n\u00e3o sei te responder, mas na pr\u00f3xima aula eu trago a resposta. Na mesma hora um Aluno diz: Mozart, posso entrar na internet pra ver? E pegou o celular, deu um Google e respondeu o que eu demoraria uma semana para responder. A informa\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o est\u00e1 mais s\u00f3 com o Professor. O Professor hoje tem que ser muito mais um papel de tutor, que vai qualificar esse conte\u00fado que est\u00e1 na rede, ajudar o Aluno nessa caminhada. O Aluno n\u00e3o vai mais aguentar algu\u00e9m s\u00f3 falando por uma, duas, tr\u00eas horas, s\u00f3 escutar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: O fen\u00f4meno dos jovens &#8216;nem-nem&#8217; t\u00eam a ver com esse atraso das Escolas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Certamente. Hoje temos 10 milh\u00f5es de 15 a 29 anos de jovens &#8216;nem-nem&#8217;. \u00c9 uma bomba social de efeito retardado grav\u00edssimo. 10 milh\u00f5es de jovens em um pa\u00eds que ainda est\u00e1 vivendo seu b\u00f4nus demogr\u00e1fico, mas logo ter\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o mais velha superando a mais nova. E a\u00ed a gente vai precisar que esses jovens venham preparados para sustentar a base econ\u00f4mica e social do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: Qual deve ser o objetivo do Ensino m\u00e9dio brasileiro?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: O Ensino m\u00e9dio tem dois grandes objetivos: ou preparar o jovem para o mundo do Ensino superior, ou preparar para o mundo do trabalho. Seja por cursos tecnol\u00f3gicos, profissionais superiores, ou mesmo de ele j\u00e1 sair com uma forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica que permita a esse jovem ingressar no mundo do trabalho. O Ensino m\u00e9dio \u00e9 uma grande ponte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: Melhorar o Ensino m\u00e9dio elevaria a produtividade do trabalhador, considerada gargalo brasileiro?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Sem d\u00favida. O Brasil vai precisar ter, at\u00e9 o in\u00edcio de 2016, cerca de 7 milh\u00f5es de jovens preparados para atender \u00e0s demandas da ind\u00fastria. E n\u00e3o falo de postos quaisquer, mas de postos de trabalhos vinculados a esse novo mundo da tecnologia. Quando passamos a crise de 2008, n\u00e3o estava faltando emprego. Estava faltando gente preparada para os postos de trabalho. O problema do desemprego ali se acentuou porque a gente n\u00e3o tinha, e ainda n\u00e3o tem, jovens preparados para o mercado de trabalho. \u00c9 preciso que a Escola se reinvente do ponto de vista de prepara\u00e7\u00e3o do jovem para o mercado. N\u00e3o \u00e9 simplesmente mais aquele jovem que vai apertar o bot\u00e3o. \u00c9 o jovem criativo, inovador, que vai fazer com que o processo industrial seja repensado de forma mais eficiente, ter conhecimento de novas tecnologias. Um dos caminhos que o Brasil deveria levar \u00e0 discuss\u00e3o \u00e9 ter, como op\u00e7\u00e3o, fazer o Ensino t\u00e9cnico nos tr\u00eas anos. Alguns pa\u00edses fazem isso. A Alemanha tem esse caminho e est\u00e1 sempre no topo da competitividade, da produtividade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: O Pronatec \u00e9 um bom caminho?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: O Pronatec tem uma parte de cursos que s\u00e3o interessantes, mas a maioria dos cursos, na minha vis\u00e3o, n\u00e3o dialoga com a cadeia local. O grave problema que eu vejo \u00e9 o desalinhamento da oferta com a demanda. Para ser mais produtivo deveria ter uma matriz de oferta e demanda verificando onde tem a maior demanda e preparar o jovem para ela. Eu visitei a formatura de agentes comunit\u00e1rios no interior de Sergipe, v\u00e1rias turmas. Eu fiquei pensando, quando esses meninos terminarem, onde eles v\u00e3o ter emprego? Na prefeitura? As prefeituras n\u00e3o t\u00eam nem dinheiro. Ele fez, foi de gra\u00e7a o curso, mas certamente vai ter dificuldade para conseguir uma posi\u00e7\u00e3o no mercado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: No caso de portugu\u00eas e matem\u00e1tica, quais s\u00e3o os principais entraves \u00e0 melhora do Ensino e como reverter?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Em primeiro lugar, ter Professores bem formados. E as universidades, em geral, est\u00e3o muito distantes da realidade do ch\u00e3o de Escola. \u00c9 preciso que a universidade entenda melhor o papel da Escola p\u00fablica. 80% das matr\u00edculas est\u00e3o no Ensino p\u00fablico. E com isso formam Professores que n\u00e3o est\u00e3o preparados para esta realidade. Falta mais pr\u00e1tica em sala de aula, falta, em portugu\u00eas, promover mais a leitura, a reda\u00e7\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o. Em matem\u00e1tica faltam Professores que possam ensinar de forma prazerosa. O grande problema da matem\u00e1tica \u00e9 que o lado abstrato \u00e9 muito fortalecido, quando a gente poderia ter uma matem\u00e1tica que dialogasse muito mais com esse mundo do adolescente, do jovem. Poderiam ter games, brincadeiras. A gente n\u00e3o exercita a inova\u00e7\u00e3o no Ensino de matem\u00e1tica, isso acaba deixando a disciplina com cara de chata.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: Existe a perspectiva de mais recursos para a Educa\u00e7\u00e3o. Qual deve ser o foco do dinheiro?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Eu n\u00e3o tenho a menor d\u00favida. Para mim n\u00e3o existe futuro para nenhum pa\u00eds sem bons Professores. E o Brasil \u00e9 um pa\u00eds onde n\u00e3o temos o despertar da vontade do jovem em seguir a carreira do magist\u00e9rio. Somente 2% dos jovens que terminam o Ensino m\u00e9dio querem seguir a carreira do magist\u00e9rio, e em geral s\u00e3o os jovens de baixa renda, que veem nas licenciaturas o caminho mais f\u00e1cil de ingressar no Ensino superior, j\u00e1 que as notas de acesso \u00e0s licenciaturas s\u00e3o bem inferiores aos cursos mais procurados no mercado de trabalho. Eu colocaria esses recursos previstos no Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o essencialmente na atratividade da carreira do magist\u00e9rio. Atrair jovens, o que significa: ter um sal\u00e1rio compat\u00edvel com o de outras \u00e1reas. Em m\u00e9dia, no Brasil, um Professor ganha 40% menos que profissionais com a mesma titula\u00e7\u00e3o. Por isso que eu colocaria essencialmente o dinheiro do petr\u00f3leo nas metas 17 e 18 do PNE, que tratam do sal\u00e1rio e da carreira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: Como estamos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s metas do PNE?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Eu acho que se n\u00e3o houver uma press\u00e3o social e uma responsabiliza\u00e7\u00e3o maior, de definir respons\u00e1veis pelo atingimento dessas metas, podemos correr o risco de chegar 2024 e&#8230; se n\u00e3o alcan\u00e7armos as metas, quem vai pagar o pato, quem responde por isso? Precisamos dar responsabiliza\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria meta 1, a primeira meta. Algumas metas do PNE s\u00e3o para 2016 por uma quest\u00e3o constitucional. Em 2009 quando a gente retirou a Educa\u00e7\u00e3o da Desvincula\u00e7\u00e3o de Receitas da Uni\u00e3o (DRU), colocou R$ 9 bilh\u00f5es a mais na Educa\u00e7\u00e3o. A contrapartida \u00e9 que os Estados e Munic\u00edpios usassem o dinheiro para universalizar a oferta de 4 a 17 anos at\u00e9 2016. Se a gente olhar hoje o Brasil est\u00e1 com taxa de matr\u00edcula na pr\u00e9-Escola de 82%. Ou seja, n\u00f3s n\u00e3o vamos universalizar e nem chegar ao pr\u00f3ximo ano com a meta 1 cumprida. Eu entendo que o problema \u00e9 press\u00e3o social, de definir quem \u00e9 o respons\u00e1vel pelo cumprimento dessas metas. Para que n\u00e3o vire uma carta de inten\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: O que \u00e9 preciso priorizar na Educa\u00e7\u00e3o em 2015?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: O plano foi homologado em 2014. 2015 \u00e9 o ano em que precisamos botar energia para que o plano saia do papel em plano nacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: E ainda \u00e9 um ano de ajuste fiscal&#8230;.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: \u00c9 um ano horr\u00edvel, em todos os aspectos. \u00c9 um ano em que vamos precisar colocar de fato o PNE nos trilhos, fazer com que Estados e Munic\u00edpios at\u00e9 junho de 2015, que \u00e9 quando completa um ano previsto no PNE, tenham ou os seus novos planos ou as adequa\u00e7\u00f5es dos atuais ao novo Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: O sr. v\u00ea alguma movimenta\u00e7\u00e3o acontecendo?<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Sinto que houve uma paralisa\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o est\u00e1 vendo mais tanta mobiliza\u00e7\u00e3o em torno do tema do PNE, talvez porque o pr\u00f3prio governo j\u00e1 vendo o desastre de n\u00e3o atingir as metas, talvez n\u00e3o esteja mobilizando tanto quanto deveria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Valor: A presidente Dilma come\u00e7ou o novo mandato com o lema &#8216;Brasil, P\u00e1tria Educadora&#8217;&#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ramos: Para mim, ser P\u00e1tria Educadora \u00e9 colocar a Educa\u00e7\u00e3o como prioridade. Deixar como legado um pa\u00eds sem corrup\u00e7\u00e3o, justo, e de mesmas oportunidades independentemente se o jovem mora no Norte ou no Sul do Brasil, seja filho de fam\u00edlia rica ou de baixa renda, branco ou negro. \u00c9 uma p\u00e1tria que d\u00e1 oportunidades iguais a partir de uma boa Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A informa\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o est\u00e1 mais s\u00f3 com o professor. O aluno n\u00e3o vai mais aguentar algu\u00e9m s\u00f3 falando por uma, duas, tr\u00eas horas e s\u00f3 escutar&#8221;, afirma Mozart Neves Ramos, engenheiro qu\u00edmico pernambucano que se tornou especialista em Educa\u00e7\u00e3o e atualmente ocupa o cargo de diretor de articula\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o do Instituto Ayrton Senna.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-5910","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5910\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}