{"id":5882,"date":"2015-02-02T18:22:37","date_gmt":"2015-02-02T20:22:37","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/educacao-no-campo-sofre-com-politicas-fragmentadas\/"},"modified":"2015-02-02T18:22:37","modified_gmt":"2015-02-02T20:22:37","slug":"educacao-no-campo-sofre-com-politicas-fragmentadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/educacao-no-campo-sofre-com-politicas-fragmentadas\/","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o no campo sofre com pol\u00edticas fragmentadas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em um universo de 76.229 mil escolas rurais no pa\u00eds, 508 \u2013 a maioria delas no Norte e Nordeste \u2013 ainda sofrem com falta de energia e saneamento, segundo o levantamento Escolas Esquecidas, divulgado no ano passado pelo Instituto CNA. H\u00e1 tamb\u00e9m problemas quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos professores: 30% dos profissionais que atuam no campo n\u00e3o t\u00eam Ensino Superior, informa o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC).<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Filha de agricultores da pequena S\u00e3o Gabriel, cidade de 19 mil habitantes localizada no sert\u00e3o baiano, Eliene Novaes Rocha se inspirou na pr\u00f3pria inf\u00e2ncia para decidir os rumos da carreira. Formada em pedagogia na Universidade Estadual de Feira de Santana, especializou-se em educa\u00e7\u00e3o do campo. H\u00e1 20 anos, debru\u00e7a-se sobre pesquisas e projetos que colocam em pauta o fortalecimento da educa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea rural em todos os aspectos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c0 luz do novo lema do Governo Federal, \u201cBrasil, P\u00e1tria Educadora\u201d, a professora da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) acredita que o slogan pode ser um incentivo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do campo. Ela prefere, por\u00e9m, o conceito de \u201cNa\u00e7\u00e3o Educadora\u201d, no sentido de alcan\u00e7ar escolas com realidades diferentes, que requerem, portanto, olhares distintos e pol\u00edticas espec\u00edficas, centradas nos mais de 6 milh\u00f5es de alunos atendidos no campo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cMais do que do que um slogan, \u00e9 preciso a gente construir na sociedade um compromisso profundo para que a educa\u00e7\u00e3o seja, de fato, um instrumento de mudan\u00e7a e de transforma\u00e7\u00e3o social\u201d, observa, citando recentes avan\u00e7os na quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o rural, entre eles o Programa Nacional do Campo (Pronacampo), projeto do MEC criado em 2012.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na entrevista a seguir, Eliene esmi\u00fa\u00e7a os principais temas ligados ao saber no campo. Confira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">A escola como espa\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cTemos o desafio de superar a ideia de que a escola n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9, sim, um espa\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o e precisa ter uma valoriza\u00e7\u00e3o muito maior do que historicamente tem. N\u00e3o \u00e9 um desafio s\u00f3 do governo federal. Quando analisamos a educa\u00e7\u00e3o do campo, vemos que a ideia de \u201cP\u00e1tria Educadora\u201d pode ser um grande incentivo para que se defina, por meio dos estados e dos munic\u00edpios, qual o papel desses entes na constru\u00e7\u00e3o de uma escola do campo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Perspectivas para o campo<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cH\u00e1 o desafio de se construir um grande movimento em torno da educa\u00e7\u00e3o no campo. Eu sou muito simp\u00e1tica \u00e0 ideia de Na\u00e7\u00e3o. Talvez uma \u201cNa\u00e7\u00e3o Educadora\u201d, porque a palavra Na\u00e7\u00e3o d\u00e1 uma ideia de identidade do povo brasileiro. Na educa\u00e7\u00e3o do campo, n\u00f3s, pesquisadores, temos adotado um discurso de que \u00e9 necess\u00e1rio reafirmar tudo aquilo que se tem conquistado historicamente, mas \u00e9 preciso ampliar os direitos. Na escola do campo, n\u00e3o se nega apenas uma escola de qualidade \u2013 s\u00e3o negados muitos outros direitos.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Problemas a serem enfrentados<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cN\u00e3o d\u00e1 para olhar a escola do campo e enxergar um \u00fanico problema. Por isso, os movimentos sociais t\u00eam defendido uma pol\u00edtica nacional de educa\u00e7\u00e3o do campo. H\u00e1 uma afirma\u00e7\u00e3o forte de que \u00e9 importante ter infraestrutura. Claro que sim, mas \u00e9 importante ter escolas de fato. Percebemos que, cada vez mais, a escola do campo est\u00e1 sendo renegada \u00e0 \u2018n\u00e3o-necessariedade\u2019 na sociedade. S\u00e3o 76 mil escolas pa\u00eds afora, muitas delas n\u00e3o t\u00eam infraestrutura, muitas delas n\u00e3o t\u00eam energia el\u00e9trica\u2026 Dados do Pronacampo mostram isso. H\u00e1 um conjunto grande de aus\u00eancias. Nenhuma pol\u00edtica pode ter um olhar \u00fanico sobre a escola do campo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Trabalho em rede<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cS\u00e3o necess\u00e1rias infraestrutura, proposta pol\u00edtico-pedag\u00f3gica, produ\u00e7\u00e3o de material para a escola do campo, como tem sido o PNLD Campo [Programa Nacional do Livro Did\u00e1tico], do MEC. H\u00e1 uma s\u00e9rie de pol\u00edticas que precisam estar organizadas para se pensar essa escola \u2013 sen\u00e3o, cria-se a ilus\u00e3o de que basta ter uma boa escola, com infraestrutura, e tudo est\u00e1 resolvido. Na verdade, existem \u00f3timas escolas, com infraestrutura superadequada ao campo, mas com propostas que n\u00e3o dialogam com a realidade e o contexto da regi\u00e3o. O principal problema ainda \u00e9 uma ideia fragmentada de pol\u00edtica da escola do campo. Cada um acha que resolve o problema investindo em um elemento s\u00f3. Na verdade, \u00e9 preciso pensar na escola do campo como uma rede, como um sistema articulado. H\u00e1 propostas e demandas diferentes.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Trabalho infantil e evas\u00e3o escolar<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cO debate sobre o trabalho infantil \u00e9 algo muito preocupante. V\u00e1rias coisas precisam ser levadas em considera\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 o trabalho infantil no campo? Hoje, h\u00e1 diferentes percep\u00e7\u00f5es. O trabalho que explora, que \u2018contrata\u2019 a crian\u00e7a para quebrar pedra, arrancar sisal, trabalhar nas carvoarias\u2026 Esse trabalho est\u00e1 entre as piores formas. E no campo existe uma situa\u00e7\u00e3o mais delicada. Al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do trabalho infantil, existe, tamb\u00e9m, por parte das fam\u00edlias, uma compreens\u00e3o de que o trabalho \u00e9 fundamental para a forma\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. Uma linha t\u00eanue entre o trabalho formativo e um trabalho explorador. A din\u00e2mica do campo \u00e9 diferente da din\u00e2mica da cidade. No campo, a fam\u00edlia produz o sustento. Como se d\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com isso? Eu n\u00e3o estou falando do trabalho das carvoarias, mas, sim, da sutilidade do cotidiano da vida no campo, da agricultura familiar. At\u00e9 onde isso vai? Qual o limite?\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Discursos equivocados<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cAinda existe a ideia de que o trabalho para a crian\u00e7a e para o adolescente \u00e9 um elemento de dignifica\u00e7\u00e3o, enobrece. Isso est\u00e1 muito arraigado nas fam\u00edlias, nos gestores p\u00fablicos, na m\u00eddia\u2026 Por que a classe m\u00e9dia alta n\u00e3o entende que seus filhos precisam trabalhar para serem dignos? Isso \u00e9 um discurso de classe, segmentado. Na verdade, \u00e9 dito para o pobre que ele precisa trabalhar para ser digno. N\u00e3o \u00e9 dito para o rico. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o de classes. Mas o filho da classe m\u00e9dia vai para escola, para o karat\u00ea. A\u00ed, entra o desafio: a gente discutir o trabalho infantil n\u00e3o como causa, mas como consequ\u00eancia. Na verdade, o espa\u00e7o que sobra e leva a crian\u00e7a para o trabalho infantil no campo \u00e9 o da aus\u00eancia de pol\u00edtica p\u00fablica, de oportunidade, da falta de lazer, de espa\u00e7os de cultura e de forma\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Classes multisseriadas<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201c\u00c9 um debate fervoroso. Temos educadores e organiza\u00e7\u00f5es que contestam as classes multisseriadas, consideram que n\u00e3o deveriam existir, pois s\u00e3o sin\u00f4nimo da precariza\u00e7\u00e3o da escola do campo. Outra parte dos educadores, inclusive do campo, entende a escola multisseriada n\u00e3o como sa\u00edda, mas como um tipo de organiza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de ser trabalhado. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o pela pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o que a escola do campo traz, um espa\u00e7o demogr\u00e1fico onde n\u00e3o h\u00e1 turmas que se formariam s\u00e9rie a s\u00e9rie, pois n\u00e3o teria condi\u00e7\u00e3o de contar com um professor para cada pequeno grupo de alunos. H\u00e1 uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es que levam a essa organiza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Escolas da cidade x escolas do campo<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cAs escolas da cidade, seriadas, t\u00eam tantos problemas de aprendizagem quanto t\u00eam os alunos das escolas do campo. N\u00e3o se pode dizer que \u00e9 prec\u00e1rio por ser multisseriado. \u00c9 prec\u00e1rio porque existe uma s\u00e9rie de aus\u00eancias, inclusive a aus\u00eancia de uma proposta pedag\u00f3gica para trabalhar com essas escolas. H\u00e1 grupos discutindo que a escola multisseriada \u00e9 uma estrat\u00e9gia poss\u00edvel de ser trabalhada \u2013 ela \u00e9 uma realidade. Para as escolas no campo, ainda \u00e9 preciso garantir que elas sejam organizadas, porque, se n\u00e3o fosse assim, muitas j\u00e1 teriam fechado e o problema seria ainda maior.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Bons exemplos<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cH\u00e1 v\u00e1rios pa\u00edses que trabalham com escolas multisseriadas e parte delas opta pela escola chamada \u201cmultigrado\u201d. Na minha pesquisa de doutorado, acompanhei a experi\u00eancia da comunidade aut\u00f4noma da Catalunha [Espanha]. Por l\u00e1, todas as escolas rurais, do 1\u00ba ao 5\u00ba ano, s\u00e3o organizadas em multiss\u00e9ries, com crian\u00e7as em diferentes graus de aprendizado no mesmo espa\u00e7o. Eles t\u00eam cinco professores que se revezam no acompanhamento da turma \u2013 profissionais que, em determinados momentos, est\u00e3o com todos os alunos e em outras etapas est\u00e3o trabalhando com grupos divididos. Na verdade, a multiss\u00e9rie, como conhecemos no Brasil, pode soar como precariza\u00e7\u00e3o, porque parece ser o lugar da aus\u00eancia dos professores, da aus\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o adequada, da aus\u00eancia do material did\u00e1tico. Mas existe em outros pa\u00edses como alternativa.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Investimento em forma\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cParte dos professores n\u00e3o tem n\u00edvel superior e outra grande parte tem n\u00edvel superior, mas n\u00e3o uma forma\u00e7\u00e3o adequada para atuar na escola do campo. Muitas vezes se associa a gradua\u00e7\u00e3o \u00e0 compreens\u00e3o da escola do campo. Quando eu entrei na universidade, durante o curso inteiro, n\u00e3o conheci nem sequer uma escola rural. Hoje, as universidades discutem muito mais a escola do campo. Alguns programas t\u00eam se consolidado nessa dire\u00e7\u00e3o. No Pronacampo, h\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o chamada Procampo, um programa de apoio \u00e0s licenciaturas em educa\u00e7\u00e3o do campo que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o mant\u00e9m com as universidades federais. Existem 42 projetos de licenciatura em educa\u00e7\u00e3o do campo com mais de 90 turmas em andamento. \u00c9 uma nova conjuntura, h\u00e1 muitos projetos de pesquisa pelo Brasil e produ\u00e7\u00e3o de material did\u00e1tico. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a forma\u00e7\u00e3o que vai dar conta: \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de material, \u00e9 a estrutura\u00e7\u00e3o da escola, o acesso, \u00e9 a pr\u00f3pria escola.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 12pt;\">Tecnologia como aliada<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cA tecnologia na escola, mais do que uma estrat\u00e9gia, precisa ser percebida como um direito. As pessoas do campo n\u00e3o se tornam menos camponesas por terem acesso \u00e0 tecnologia. \u00c9 uma ferramenta fundamental para toda a educa\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 capaz de proporcionar uma diversidade de possibilidades pedag\u00f3gicas, de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, aos dados. \u00c9 imprescind\u00edvel nas escolas. A informa\u00e7\u00e3o que circula no campo ainda \u00e9 muito restrita. Trata-se de uma ferramenta educativa fundamental.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um universo de 76.229 mil escolas rurais no pa\u00eds, 508 \u2013 a maioria delas no Norte e Nordeste \u2013 ainda sofrem com falta de energia e saneamento, segundo o levantamento Escolas Esquecidas, divulgado no ano passado pelo Instituto CNA. 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