{"id":5833,"date":"2014-11-27T13:31:55","date_gmt":"2014-11-27T15:31:55","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/formacao-do-professor-leitor-e-o-primeiro-desafio-de-politicas-de-incentivo-a-leitura-nas-escolas\/"},"modified":"2014-11-27T13:31:55","modified_gmt":"2014-11-27T15:31:55","slug":"formacao-do-professor-leitor-e-o-primeiro-desafio-de-politicas-de-incentivo-a-leitura-nas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/formacao-do-professor-leitor-e-o-primeiro-desafio-de-politicas-de-incentivo-a-leitura-nas-escolas\/","title":{"rendered":"Forma\u00e7\u00e3o do professor leitor \u00e9 o primeiro desafio de pol\u00edticas de incentivo \u00e0 leitura nas escolas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Para ensinar seus alunos a gostar de ler, um professor precisa do qu\u00ea? Material de leitura apropriado para a faixa et\u00e1ria da sua turma, por certo. Uma estrat\u00e9gia para apresentar esse material aos alunos de forma atraente e significativa, tamb\u00e9m. Mas antes de tudo isso, o professor precisa ler. O problema \u00e9 que esse personagem, o professor leitor, n\u00e3o \u00e9 facilmente encontrado nas escolas brasileiras. As pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o de leitores devem atentar para essa quest\u00e3o, para poder garantir, assim, mais finais felizes.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Como os brasileiros em geral, os educadores demonstram dificuldades para adquirir e manter o h\u00e1bito da leitura. `Mesmo os professores de literatura e da \u00e1rea da l\u00edngua portuguesa nem sempre s\u00e3o leitores bastante frequentes`, diz Regina Zilberman, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora nas \u00e1reas de literatura infantojuvenil e forma\u00e7\u00e3o de leitores. `Eles t\u00eam uma intermit\u00eancia de leituras por v\u00e1rias raz\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o irrelevantes: falta de tempo, falta de oportunidade, uma m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o como leitor.`<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">O perfil docente \u00e9 muito semelhante ao do leitor brasileiro, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pr\u00f3-Livro. Gerente-executiva de Projetos do instituto, Zoara Failla conta que a an\u00e1lise em separado das respostas dadas pelos participantes que se identificaram como educadores confirma a impress\u00e3o de que nossos professores s\u00e3o n\u00e3o leitores. `S\u00f3 30% deles dizem que gostam de ler`, diz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Embora a amostra espec\u00edfica de educadores na pesquisa seja pequena, o que impede generaliza\u00e7\u00f5es, o esbo\u00e7o revelado por esta an\u00e1lise particular \u00e9 preocupante. Inclusive porque o pr\u00f3prio estudo, realizado em 2011, mostrou que o docente \u00e9 o principal influenciador dos h\u00e1bitos de leitura. `O professor sempre foi uma figura influente, ao lado da fam\u00edlia, mas na \u00faltima pesquisa, ele foi mais citado por aqueles que gostam de ler, ultrapassando a m\u00e3e como influenciadora do h\u00e1bito`, relata Zoara. Para a soci\u00f3loga, esse resultado \u00e9 bastante compreens\u00edvel considerando o perfil brasileiro. `\u00c9 uma fam\u00edlia n\u00e3o leitora, de baixa escolaridade, que n\u00e3o tem livros na sua casa, que trabalha o dia todo e n\u00e3o tem tempo para o lazer e a leitura, o que acaba refor\u00e7ando o papel da escola na forma\u00e7\u00e3o de leitores.`<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">`Se o professor n\u00e3o \u00e9 leitor, ele n\u00e3o vai formar leitores`, afirma Regina Zilberman. `Um professor de artes n\u00e3o precisa ser um artista, mas deve apreciar arte. O mesmo vale para o professor da \u00e1rea de l\u00ednguas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura de obras liter\u00e1rias.`<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Forma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">O desafio imposto \u00e0s redes de ensino que assumem para si a tarefa de fazer da escola um lugar de forma\u00e7\u00e3o de leitores \u00e9, primeiro, fazer com que os professores passem \u00e0 categoria de leitores. De certa forma, as estrat\u00e9gias n\u00e3o diferem muito das que devem ser adotadas entre os estudantes: \u00e9 preciso oferecer livros e criar momentos para que a leitura seja praticada de forma prazerosa e significativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Para Regina, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio sequer muito investimento, considerando que, hoje, j\u00e1 existem pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de livros para as escolas, como o Plano Nacional Biblioteca da Escola e o pr\u00f3prio Plano Nacional do Livro Did\u00e1tico. Trata-se de racionalizar iniciativas de forma a aproveitar aquilo que a escola j\u00e1 pode oferecer para os alunos e para os professores. A pesquisadora da UFRGS d\u00e1 um exemplo simples: os docentes podem ser inclu\u00eddos como p\u00fablico-alvo das atividades que s\u00e3o, originalmente, pensadas para os alunos, como, por exemplo, a visita de um escritor \u00e0 escola. `O professor \u00e9, ao mesmo tempo, interessado, parceiro e benefici\u00e1rio dessas atividades`, diz ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 preciso tamb\u00e9m abrir espa\u00e7o nas rotinas escolares para que ele tenha oportunidade de expressar suas dificuldades com a leitura e expor suas necessidades. `Pode ser penosa a declara\u00e7\u00e3o `eu tenho de dar aula de literatura, mas odeio esse neg\u00f3cio`, mas tem de ser feito`, afirma Regina. Este \u00e9 um primeiro passo para desmistificar a leitura liter\u00e1ria tamb\u00e9m entre os professores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Um dos mitos a serem superados \u00e9 o da dificuldade de ler o c\u00e2none. O professor, como qualquer outro leitor, n\u00e3o \u00e9 obrigado a achar f\u00e1cil ler Machado de Assis ou Guimar\u00e3es Rosa, mas reconhecer essa dificuldade permite que ele procure maneiras de lidar com suas limita\u00e7\u00f5es. Outro \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o da linha imagin\u00e1ria que separa a literatura infantojuvenil da literatura para adultos. Para al\u00e9m de simplesmente conhecer os textos que est\u00e1 dando para os alunos lerem, o professor precisa ler e gostar daquilo que est\u00e1 apresentando. Como lembra Regina, livro bom \u00e9 para todo mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Trajet\u00f3rias de leitura<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">As experi\u00eancias exitosas mostram que tamb\u00e9m a forma\u00e7\u00e3o dos professores como mediadores de leitura precisa partir, justamente, do despertar dele para a import\u00e2ncia da leitura na sua pr\u00f3pria vida. E as estrat\u00e9gias para isso s\u00e3o, como apontou Regina, simples e semelhantes ao que \u00e9 realizado com os alunos. Em Mogeiro, na Para\u00edba, foi montado um grupo permanente de forma\u00e7\u00e3o de mediadores de leitura, chamado Doutores da Educa\u00e7\u00e3o. As forma\u00e7\u00f5es, previstas no Plano Municipal do Livro e da Leitura, s\u00e3o realizadas a cada tr\u00eas meses com todos os professores da rede municipal e incluem momentos para que os professores relatem suas experi\u00eancias de leitura. `Eles contam que, a partir do momento em que come\u00e7aram a ler para incentivar os alunos, eles tamb\u00e9m foram criando o gosto pela leitura`, lembra a secret\u00e1ria municipal de Educa\u00e7\u00e3o, Maria de F\u00e1tima Silveira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">A metodologia foi, em parte, herdada do projeto Ler: Prazer e Saber, realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o, Cultura e A\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria (Cenpec) em parceria com os institutos Camargo Corr\u00eaa e Alpargatas. Mogeiro participou do projeto, cujo objetivo era a forma\u00e7\u00e3o de professores para atuarem como mediadores e agentes multiplicadores de a\u00e7\u00f5es de incentivo ao h\u00e1bito da leitura. Grupos de educadores participaram de diferentes ciclos de forma\u00e7\u00e3o ao longo de dois anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Segundo Maria Cec\u00edlia F\u00e9lix Godoy, pesquisadora do Cenpec, o grande desafio do projeto \u00e9 motivar e incentivar o professor para que ele pr\u00f3prio `se encante pela leitura`. `Se ele n\u00e3o for um leitor, n\u00e3o vai ser um bom mediador de leitura`, diz. A primeira a\u00e7\u00e3o deve ser, justamente, retomar a trajet\u00f3ria de leitura desses professores, para que eles percebam como o livro e a literatura fazem parte da sua vida. `Muitos relatam que gostavam de ler e, de repente, passaram a n\u00e3o ler mais.`<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Feito isso, a forma\u00e7\u00e3o aposta na apresenta\u00e7\u00e3o de diversos g\u00eaneros aos educadores, tanto os que eles ir\u00e3o trabalhar com seus alunos, como aqueles ditos para adultos. O `medo dos autores dif\u00edceis` \u00e9 uma das barreiras a serem quebradas. Para isso, os formadores do Cenpec selecionam os textos considerando o perfil dos participantes, de forma que eles se identifiquem com o tema ou os personagens da obra. Outra atividade \u00e9 uma roda de empr\u00e9stimo e aprecia\u00e7\u00e3o: os participantes das oficinas de forma\u00e7\u00e3o levam um livro que foi importante para eles e o apresentam aos demais. `Isso pode motivar outros professores a ler e tamb\u00e9m facilita o problema da aquisi\u00e7\u00e3o de obras`, comenta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Dif\u00edcil acesso<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">A dificuldade de acesso ao livro \u00e9 para os professores, como para muitos brasileiros, uma quest\u00e3o permanente. As caracter\u00edsticas do mercado livreiro, marcado pelas dificuldades de distribui\u00e7\u00e3o &#8211; como a falta de livrarias em muitos munic\u00edpios &#8211; e o pre\u00e7o relativamente alto do livro, somam-se aos baixos sal\u00e1rios docentes para colaborar com a multiplica\u00e7\u00e3o do professor n\u00e3o leitor. Zoara, do Instituto Pr\u00f3-Livro, acredita que seria poss\u00edvel pensar em pol\u00edticas para superar esta barreira, como um Vale-Livro, semelhante ao Vale-Cultura, criado pelo Minist\u00e9rio da Cultura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Em Mogeiro, a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 apostando na amplia\u00e7\u00e3o do acervo das bibliotecas p\u00fablicas e escolares, tentando incluir a\u00ed tamb\u00e9m obras de interesse dos professores. Maria de F\u00e1tima explica que, como o munic\u00edpio \u00e9 essencialmente rural, muitas das escolas est\u00e3o distantes do centro e, portanto, da Biblioteca Municipal. H\u00e1 tamb\u00e9m planos para que sejam montadas bibliotecas para os professores em cada escola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Rodas de leitura<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m disso, outra estrat\u00e9gia simples foi adotada pela rede: o Hor\u00e1rio de Trabalho Compartilhado conta com uma roda de leitura. `As supervisoras t\u00eam um levantamento de tudo que chega para as escolas, v\u00e1rios tipos de revista, material dos projetos do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o&#8230; Perceb\u00edamos que eles chegavam e ficavam num cantinho, s\u00f3 de enfeite`, diz Maria de F\u00e1tima. `Nossa equipe t\u00e9cnica pensou: vamos bolar uma estrat\u00e9gia para mudar isso. E a\u00ed surgiu a ideia de, em cada Hor\u00e1rio de Trabalho Compartilhado, um professor ou um grupo ficar respons\u00e1vel por ler aquele material e compartilhar aquela experi\u00eancia &#8211; seja revista ou livro de hist\u00f3ria.`<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Essa permanente circula\u00e7\u00e3o de livros e outros materiais de leitura seduz os professores que, por sua vez, passam o prazer de ler adiante. Hoje, as rodas de leitura j\u00e1 s\u00e3o pr\u00e1tica permanente em todas as escolas e algumas atividades ultrapassam os limites das salas de aula. Conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria em pra\u00e7as e a\u00e7\u00f5es envolvendo as fam\u00edlias tamb\u00e9m j\u00e1 s\u00e3o comuns. As rodas de leitura, ali\u00e1s, s\u00e3o t\u00e3o frequentes em Mogeiro que a secretaria incluiu no Plano Municipal do Livro e da Leitura um `Pr\u00eamio ao Professor Leitor`, um reconhecimento aos educadores que mais promoverem atividades de incentivo \u00e0 leitura. E, assim, a roda maior da leitura segue girando, com professores que aprendem a gostar de ler para ensinar a gostar de ler.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para ensinar seus alunos a gostar de ler, um professor precisa do qu\u00ea? Material de leitura apropriado para a faixa et\u00e1ria da sua turma, por certo. Uma estrat\u00e9gia para apresentar esse material aos alunos de forma atraente e significativa, tamb\u00e9m. Mas antes de tudo isso, o professor precisa ler. 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