{"id":5820,"date":"2014-11-13T18:25:49","date_gmt":"2014-11-13T20:25:49","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-cidade-como-curriculo-pesquisador-espanhol-desafia-escola-a-olhar-a-rua\/"},"modified":"2014-11-13T18:25:49","modified_gmt":"2014-11-13T20:25:49","slug":"a-cidade-como-curriculo-pesquisador-espanhol-desafia-escola-a-olhar-a-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-cidade-como-curriculo-pesquisador-espanhol-desafia-escola-a-olhar-a-rua\/","title":{"rendered":"A cidade como curr\u00edculo: pesquisador espanhol desafia escola a olhar a rua"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Jaume Mart\u00ednez Bonaf\u00e9, docente na Universidade de Valencia, defende que \u00e9 preciso superar a concep\u00e7\u00e3o de uma escola articulada com seu entorno e adotar a cidade toda como curr\u00edculo.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A rua \u00e9 uma aula, uma lousa, um lugar onde se escreve. N\u00e3o \u00e9 apenas parte do caminho percorrido at\u00e9 o museu, o centro cultural ou a escola. A rua tamb\u00e9m ensina e precisamos aprender a ler as mensagens que ela emite. Essa \u00e9 a provoca\u00e7\u00e3o feita pelo pesquisador Jaume Mart\u00ednez Bonaf\u00e9 aos educadores brasileiros durante sua passagem por Belo Horizonte (MG). O espanhol, docente na Universidade de Valencia, defende que \u00e9 preciso superar a concep\u00e7\u00e3o de uma escola articulada com seu entorno e adotar a cidade toda como curr\u00edculo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cProponho que exploremos a ideia da cidade fazendo curr\u00edculo. H\u00e1 milhares de situa\u00e7\u00f5es construindo constantemente significados. Creio que a cidade junto aos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o elementos que est\u00e3o nos fazendo como sujeitos, nos moldando. Portanto, s\u00e3o curr\u00edculo e devem ser estudados como tal.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Segundo ele, para colocar em pr\u00e1tica essa vis\u00e3o, \u00e9 preciso admitir que h\u00e1 um curr\u00edculo fora da escola, que pode ser constru\u00eddo a partir das diferentes experi\u00eancias e pr\u00e1ticas culturais, e levando em conta as in\u00fameras formas de entender e vivenciar o mundo. \u201cSe nos ensinassem a ler a rua de outra maneira, muito provavelmente, ser\u00edamos cidad\u00e3os diferentes, saber\u00edamos valorizar as pra\u00e7as e as cidades a partir de um outro olhar.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Al\u00e9m de deslocar a aprendizagem para fora das institui\u00e7\u00f5es de ensino, a proposta de Bonaf\u00e9 convoca urbanistas, engenheiros, prefeitos, secret\u00e1rios, comunicadores, a sociedade como um todo, a refletir sobre quais mensagens as cidades que projetamos e vivemos passam para as crian\u00e7as desde a mais tenra idade. \u00c9 o chamado \u201ctexto da cidade\u201d que, em sua opini\u00e3o, urge ser transformado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201c\u00c9 necess\u00e1rio intervir nesse texto da cidade, a partir de uma outra pedagogia \u2013 que n\u00e3o cabe s\u00f3 aos educadores, mas tamb\u00e9m aos prefeitos, \u00e0s pessoas que t\u00eam responsabilidade na gest\u00e3o municipal.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para entender como a cidade pode ser tomada pela educa\u00e7\u00e3o enquanto curr\u00edculo, o Portal Aprendiz conversou com Bonaf\u00e9, ap\u00f3s sua palestra no I Semin\u00e1rio Internacional de Educa\u00e7\u00e3o Integral, realizado pelo Territ\u00f3rios, Educa\u00e7\u00e3o Integral e Cidadania (TEIA) da UFMG, entre 5 e 7 de novembro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Portal Aprendiz<\/strong>: <em>Como se d\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo na rua?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Jaume Mart\u00ednez Bonaf\u00e9<\/strong>: Minha hip\u00f3tese de trabalho \u00e9 que agora estamos pensando o curr\u00edculo apenas dentro da escola. O curr\u00edculo \u00e9 o conjunto de significados que a escola articula, dentro de seus objetivos espec\u00edficos, para dizer \u2018isto \u00e9 o que voc\u00ea tem que aprender, assim voc\u00ea vai ser uma pessoa \u00fatil\u2019. Este \u00e9 um pouco o seu discurso institucional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Eu creio que tamb\u00e9m h\u00e1 um curr\u00edculo fora dela. H\u00e1 uma pr\u00e1tica cultural que gera significados, formas de subjetiva\u00e7\u00e3o e formas de entender o mundo e de compreender-se nele que t\u00eam a ver com as experi\u00eancias vividas na cidade. Minha proposta de trabalho parte da cidade como curr\u00edculo. Portanto, ter\u00edamos que analis\u00e1-la como formadora de pr\u00e1ticas, experi\u00eancias, rela\u00e7\u00f5es e materialidades que v\u00e3o articulando uma forma de entender a cultura e de se entender como parte dela.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A quest\u00e3o \u00e9: quem escreve o texto na cidade? Minha hip\u00f3tese \u00e9 que hoje o texto da cidade \u00e9 a pedagogia do capitalismo, mas h\u00e1 tamb\u00e9m outras linguagens, outros significados, outras pr\u00e1ticas sociais que t\u00eam a ver com os movimentos sociais e com um curr\u00edculo contra-hegem\u00f4nico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Aprendiz<\/strong>: <em>E como cr\u00ea que a escola pode dialogar com estes elementos?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Bonaf\u00e9<\/strong>: S\u00e3o coisas diferentes. Na minha confer\u00eancia, eu quis diferenciar de uma proposta pedag\u00f3gica bastante antiga e vinculada aos projetos de inova\u00e7\u00e3o, que diz que a escola tem que sair para o entorno, pesquis\u00e1-lo, explor\u00e1-lo. Portanto, suas matem\u00e1ticas, hist\u00f3rias e geografias devem contemplar o entorno no trabalho pedag\u00f3gico, mas eu n\u00e3o falo disso. Acho que, com isso, a escola n\u00e3o rompe com o curr\u00edculo tradicional. O que faz \u00e9 oxigen\u00e1-lo, n\u00e3o para discutir a rua, e sim para que as matem\u00e1ticas, hist\u00f3rias e geografias possam se fazer mais pr\u00f3ximas ao sujeito, aproximando-as da rua.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O que eu digo \u00e9 que o curr\u00edculo est\u00e1 na rua e devemos investig\u00e1-lo. Vamos entender o que significam as grandes avenidas, os centros comerciais e as pra\u00e7as; qual o significado para as crian\u00e7as ou para as pessoas mais velhas, para os homens ou mulheres, para negros e para os brancos. Vamos ver quais significados se constroem na cidade e nos dar conta de que em uma cidade h\u00e1 muitas cidades, interpretadas segundo o mundo de cada um.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Proponho que exploremos a ideia da cidade fazendo curr\u00edculo. H\u00e1 milhares de situa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o construindo constantemente significado. Creio que a cidade junto aos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o elementos que est\u00e3o nos fazendo como sujeitos, nos moldando. Portanto, s\u00e3o curr\u00edculo e devem ser estudados como tal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Aprendiz<\/strong>: <em>Na Espanha, alguma experi\u00eancia segue esse caminho?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Bonaf\u00e9<\/strong>: Este \u00e9 um conceito novo. H\u00e1 algumas experi\u00eancias, como na minha faculdade, onde trabalho com meus estudantes, mas o tema ainda \u00e9 muito incipiente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Aprendiz<\/strong>: <em>Como as pol\u00edticas p\u00fablicas podem dialogar com isso?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Bonaf\u00e9<\/strong>: \u00c9 preciso que haja tamanho comprometimento de uma prefeitura com a pedagogia pol\u00edtica, p\u00fablica e social que isso possa influenciar em sua gest\u00e3o. Uma possibilidade, por exemplo, seria intervir sobre o modo por meio dos quais os cidad\u00e3os se convertem em machistas. Isso n\u00e3o pode depender s\u00f3 da vontade do com\u00e9rcio que vende a roupa ou do publicit\u00e1rio, entende? \u00c9 preciso um debate pol\u00edtico e pedag\u00f3gico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 necess\u00e1rio intervir nesse texto da cidade, a partir de uma outra pedagogia \u2013 que n\u00e3o cabe s\u00f3 aos educadores, mas tamb\u00e9m aos prefeitos, \u00e0s pessoas que t\u00eam responsabilidade na gest\u00e3o municipal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por exemplo, eu sei que uma cidade necessita da circula\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de autom\u00f3veis, mas penso que quem desenha os entornos do urbanismo social deveria se dar conta de que com isso nos passam a seguinte mensagem: \u201cvoc\u00ea vive em um mundo de pressas e, al\u00e9m disso, \u00e9 insignificante ao lado dos carros, posto que at\u00e9 os sem\u00e1foros s\u00e3o todos pensados para eles\u201d. Isso \u00e9 um texto pedag\u00f3gico. Est\u00e3o nos dizendo, desde pequenos, que nas cidades em que vivemos a pressa \u00e9 fundamental. Acredito que os urbanistas tamb\u00e9m t\u00eam a responsabilidade de propor que o desenho dos entornos urbanos contemple uma outra maneira de entender os sujeitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">De modo geral, n\u00f3s n\u00e3o fomos formados para as rela\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o com os espa\u00e7os. Tampouco a escola nos ajuda a nos pensar neles, pois tamb\u00e9m est\u00e1 distanciada do tempo e do espa\u00e7o real, por estar concentrada em seus pr\u00f3prios arranjos de tempo e espa\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Aprendiz<\/strong>: <em>A rua \u00e9 ent\u00e3o um espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Bonaf\u00e9<\/strong>: A rua \u00e9 uma aula, uma lousa, um lugar onde se escreve. \u00c9 o melhor lugar onde se dita as mensagens, \u00e9 um texto pedag\u00f3gico. \u00c9 muito interessante analis\u00e1-la a partir da pedagogia que se prop\u00f5e. Se nos ensinassem a ler a rua de outra maneira, muito provavelmente, ser\u00edamos cidad\u00e3os diferentes, saber\u00edamos valorizar as pra\u00e7as e as cidades a partir de um outro olhar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por exemplo, me contaram de uma cidade em que na regi\u00e3o onde os edif\u00edcios s\u00e3o mais altos, viviam as pessoas mais ricas. Pra mim, isso mostra o qu\u00e3o analfabetos podem ser os ricos, posto que sempre ser\u00e1 mais c\u00f4modo, mais habit\u00e1vel, viver em um lugar mais horizontal, com pouca densidade habitacional, do que em um pr\u00e9dio de 30 andares. Se isso \u00e9 valorizado como melhor, pior para os ricos, n\u00e3o? Tudo isso s\u00e3o mensagens culturais. \u00c9 melhor viver num pr\u00e9dio de 30 andares? Pra mim, n\u00e3o. Eu quero ter um jardim, cultivar uma horta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Aprendiz<\/strong>: <em>Algumas cidades s\u00e3o reconhecidas como cidades educadoras. O que pensa sobre elas?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Bonaf\u00e9<\/strong>: \u00c9 um conceito interessante, mas tampouco \u00e9 o que estou falando. A cidade \u00e9 um ve\u00edculo. Precisamos colocar os dispositivos culturais dela nas m\u00e3os dos projetos educativos das escolas, faz\u00ea-la educadora nesse sentido. A cidade passa a contemplar a ideia de que suas institui\u00e7\u00f5es, sobretudo culturais, cumpram seus objetivos. Que os museus tenham material did\u00e1tico; que os hospitais tenham um projeto pedag\u00f3gico tamb\u00e9m para as crian\u00e7as que se hospitalizam ou para as pessoas, etc. Isso me parece bom, mas o que eu proponho \u00e9 ir al\u00e9m dessa quest\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Aprendiz<\/strong>: <em>Ent\u00e3o, n\u00e3o basta ter o equipamento sem uma inten\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Bonaf\u00e9<\/strong>: Claro. A cidade educadora n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o museu, o teatro. A rua tamb\u00e9m educa. E este espa\u00e7o \u00e9, digamos, \u201cdesproblematizado\u201d do ponto de vista pedag\u00f3gico. Mas, veja, \u00e9 ele que o professor utiliza para conduzir a crian\u00e7a at\u00e9 o museu. Ou seja, \u00e9 t\u00e3o educativo quanto, mas passa uma outra educa\u00e7\u00e3o, outro discurso, outra pedagogia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jaume Mart\u00ednez Bonaf\u00e9, docente na Universidade de Valencia, defende que \u00e9 preciso superar a concep\u00e7\u00e3o de uma escola articulada com seu entorno e adotar a cidade toda como curr\u00edculo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-5820","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5820","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5820"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5820\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}