{"id":5074,"date":"2012-07-10T20:04:20","date_gmt":"2012-07-10T23:04:20","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2012\/07\/10\/a-leitura-para-alem-da-festa\/"},"modified":"2012-07-10T20:04:20","modified_gmt":"2012-07-10T23:04:20","slug":"a-leitura-para-alem-da-festa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-leitura-para-alem-da-festa\/","title":{"rendered":"A leitura para al\u00e9m da festa"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">S\u00e3o quase dez minutos de barco, outros dez de carro e um choque cultural para o cai\u00e7ara Almir T\u00e3 sair da Ilha do Ara\u00fajo e chegar ao Centro Hist\u00f3rico. T\u00e3 participa da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty, a Flip, lan\u00e7ando seu primeiro livro, escrito nos anos 1970. <\/span><\/span><\/p>\n<p> <span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\" \/><span style=\"font-size: 10pt;\" \/>  <\/p>\n<p><span><span>\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Sua hist\u00f3ria, a de um pescador, artes\u00e3o e l\u00edder comunit\u00e1rio de 54 anos, se mistura com a da festa a partir do momento em que a Flip consegue levar literatura \u00e0queles que s\u00e3o mais afetados pelo evento: os moradores de Paraty. \u00c9 um movimento que passa por educa\u00e7\u00e3o, cidadania, cultura e, sobretudo, pelo incentivo \u00e0 leitura numa cidade de apenas 35 mil habitantes.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Enquanto T\u00e3 percorre esse trajeto para chegar a Paraty, a Casa Azul, associa\u00e7\u00e3o que promove a Flip, faz o caminho inverso: durante todo o ano, seus monitores visitam escolas e pra\u00e7as da cidade para viabilizar o acesso aos livros por crian\u00e7as e adolescentes. A Flip assumiu, ainda, o compromisso de implementar bibliotecas nessas localidades, e, hoje, cada uma das 32 escolas municipais da regi\u00e3o tem seu espa\u00e7o de leitura. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>S\u00e3o por a\u00e7\u00f5es como essas que os dez anos de Flip v\u00e3o al\u00e9m do festival cultural e tur\u00edstico que traz autores internacionais e milhares de visitantes para a cidade. Trata-se de um evento de integra\u00e7\u00e3o, um claro avan\u00e7o para Paraty. A festa, por\u00e9m, tamb\u00e9m \u00e9 criticada por moradores da cidade. Para alguns paratienses, a Flip, mesmo com todo o prest\u00edgio, n\u00e3o se inteira das demandas de educa\u00e7\u00e3o e cultura da popula\u00e7\u00e3o &#8211; como a falta de bibliotecas em col\u00e9gios de comunidades vizinhas. E cabe a eles, os moradores de Paraty, a tarefa de avaliar a festa. <\/span><\/span><\/p>\n<p><strong><span><span>A festa n\u00e3o \u00e9 para todos<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span><span>Faxineiro da Flip h\u00e1 quatro edi\u00e7\u00f5es, pescador de 48 anos n\u00e3o sabe ler nem escrever <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Apesar da tentativa de transformar a realidade por meio da literatura, a pr\u00f3pria Flip revela uma contradi\u00e7\u00e3o na sua ess\u00eancia: a pessoa que limpa os banheiros na festa de celebra\u00e7\u00e3o da leitura n\u00e3o sabe ler nem escrever. H\u00e1 quatro edi\u00e7\u00f5es, o pescador Sirlei Ara\u00fajo de Souza, de 48 anos, \u00e9 contratado para fazer a manuten\u00e7\u00e3o dos banheiros e \u00e1reas comuns do evento.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Todos os dias, Sirlei sai de casa, em Barra do Corumb\u00ea, comunidade a sete quil\u00f4metros de Paraty, pega um \u00f4nibus e bate ponto na tenda da Flip \u00e0s 8h. At\u00e9 as 17h, pode ser visto &#8211; embora normalmente seja ignorado &#8211; para cima e para baixo com suas vassouras. Mais velho de nove irm\u00e3os, teve de trabalhar desde crian\u00e7a para ajudar a m\u00e3e em casa. Nunca entrou numa escola. Os livros, para ele, s\u00e3o apenas objetos coloridos. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>&#8211; N\u00e3o tenho estudo, mas sou inteligente &#8211; orgulha-se Sirlei, em conversa r\u00e1pida durante seu hor\u00e1rio de almo\u00e7o. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Al\u00e9m de pescador (esta \u00e9 a melhor \u00e9poca para comer camar\u00e3o em Paraty, ensina) e faxineiro da Flip, Sirlei \u00e9 ex\u00edmio maratonista. Na juventude, come\u00e7ou a correr incentivado por um primo militar. Tomou gosto pelo esporte. Desde ent\u00e3o, treina religiosamente tr\u00eas vezes por semana, &#8220;at\u00e9 quando chove&#8221;, diz ele. O esfor\u00e7o \u00e9 recompensado: coleciona 22 medalhas de maratonas realizadas no estado. Faz quest\u00e3o de mostrar as fotos de todas elas no celular: <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>&#8211; Correr \u00e9 o que mais gosto de fazer na vida. Esque\u00e7o de tudo quando estou correndo &#8211; conta ele, um sujeito esguio e com a pele curtida pelo sol. <br \/>Sirlei domina o manuseio do aparelho e usa os \u00edcones para mostrar outras imagens registradas nos \u00faltimos dias, como as de sua m\u00e3e, do rec\u00e9m-inaugurado restaurante do irm\u00e3o (o Bistr\u00f4 Amigo), da montagem das tendas da Flip e do seu cavalo, Teimoso. No ano passado, ele realizou o sonho de correr a S\u00e3o Silvestre. Eram 30 mil participantes, e Sirlei chegou entre os cinco mil primeiros. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>&#8211; Nunca tive patroc\u00ednio. Quando tem alguma maratona, meus amigos ajudam. Um deles d\u00e1 R$5, o outro d\u00e1 R$10, e foi assim que eu cheguei at\u00e9 S\u00e3o Paulo &#8211; conta Sirlei, que n\u00e3o tem medo de se perder no caminho por n\u00e3o saber ler. &#8211; Quem tem boca vai a Roma. E eu vou para aonde eu quiser. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span><strong>A import\u00e2ncia da leitura<\/strong> <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Cai\u00e7ara lan\u00e7a livro e cria biblioteca para sua comunidade<\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Longe das quest\u00f5es pol\u00edticas, entre os admiradores e os levemente descontentes, h\u00e1 tamb\u00e9m em Paraty uma terceira categoria de moradores que, mesmo antes da Flip, j\u00e1 batalhavam para facilitar o acesso \u00e0 leitura no munic\u00edpio e acabaram se juntando \u00e0 festa. Almir T\u00e3 \u00e9 um desses. O cai\u00e7ara lan\u00e7ou ontem, numa mesa da Flipinha, seu primeiro livro, intitulado &#8220;Cultura cai\u00e7ara&#8221; (editora Linha D&#8221;\u00e1gua). A obra foi escrita \u00e0 m\u00e3o num caderno h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. Desde ent\u00e3o, T\u00e3 procura incentivar a leitura em sua comunidade, a Ilha do Ara\u00fajo, onde vivem somente 500 pessoas. Para isso, criou uma biblioteca em sua casa, reunindo livros doados por amigos ou turistas. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>Aos poucos, o acervo foi crescendo, at\u00e9 que T\u00e3 recebeu ajuda de colaboradores, entre eles a Flip, e transformou outra casa da ilha numa biblioteca equipada com tr\u00eas mil obras. L\u00e1, h\u00e1 desde cole\u00e7\u00f5es inteiras da Enciclop\u00e9dia Mirador at\u00e9 romances de nomes como o turco Orhan Pamuk e o mo\u00e7ambicano Mia Couto, j\u00e1 convidados da festa liter\u00e1ria. O espa\u00e7o fica aberto das 14h \u00e0s 20h, e serve para as crian\u00e7as da ilha terem acesso \u00e0 leitura. <br \/>T\u00e3 tamb\u00e9m est\u00e1 sempre por l\u00e1. Mas seu projeto com os livros esconde uma curiosidade: o escritor, agora com uma obra editada, nunca leu um livro. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span><span>&#8211; Eu sou semianalfabeto. N\u00e3o sou bom de leitura. Come\u00e7o, mas n\u00e3o consigo ir muito longe &#8211; diz. &#8211; Mas sei a import\u00e2ncia da leitura para os jovens. E \u00e9 isso o que a Flip ajuda a proporcionar. Ela traz um poder de conhecimento e de educa\u00e7\u00e3o muito grande.<\/span><\/span><\/p>\n<p> <\/span><\/span> <\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o quase dez minutos de barco, outros dez de carro e um choque cultural para o cai\u00e7ara Almir T\u00e3 sair da Ilha do Ara\u00fajo e chegar ao Centro Hist\u00f3rico. 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