{"id":4335,"date":"2013-04-30T19:59:10","date_gmt":"2013-04-30T22:59:10","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2013\/04\/30\/no-rumo-das-trevas-2\/"},"modified":"2013-04-30T19:59:10","modified_gmt":"2013-04-30T22:59:10","slug":"no-rumo-das-trevas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/no-rumo-das-trevas-2\/","title":{"rendered":"No rumo das trevas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">O pai empenhado na educa\u00e7\u00e3o do filho pequeno chega trazendo tr\u00eas grossos livros. Coloca-os sobre a cadeira e o garoto senta-se em cima deles, ficando na altura adequada para acessar o computador que est\u00e1 sobre a mesa. \u00c9 o criativo gimmick que um g\u00eanio publicit\u00e1rio imaginou para dar brilho a um comercial de TV de 30 segundos amplamente veiculado em hor\u00e1rio nobre. Pausa. Quem n\u00e3o ficou chocado com essa hist\u00f3ria tristemente ver\u00eddica e confer\u00edvel nos intervalos do telejornal preferido pode parar de ler este artigo aqui mesmo, para n\u00e3o perder tempo. Pois vamos falar sobre coisas que est\u00e3o fora de moda, como o livro, a julgar pela indig\u00eancia intelectual que inspira essa pe\u00e7a que a empresa de telecomunica\u00e7\u00f5es anunciante teve a irresponsabilidade de aprovar.<\/span><\/p>\n<p> <\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">N\u00e3o tenho muitas d\u00favidas a respeito de que todo o conte\u00fado do tal comercial, inclusive a &#8220;brincadeirinha&#8221; com os livros, \u00e9 perfeitamente compat\u00edvel com, digamos assim, a &#8220;\u00e9tica empresarial&#8221; que vale para todo o mundo dos neg\u00f3cios em que, acima de qualquer valor humano, predomina a implac\u00e1vel &#8220;raz\u00e3o de mercado&#8221;. Este \u00e9 o mundo em que vivemos. Existem at\u00e9 algumas corpora\u00e7\u00f5es que conseguem disfar\u00e7ar a obsess\u00e3o cega por metas de faturamento sob o manto da preocupa\u00e7\u00e3o com sua &#8220;responsabilidade social&#8221;, \u00e0 qual reservam alguns trocados das verbas de marketing e vendas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00c9 por todos os motivos imperdo\u00e1vel, por\u00e9m, a tentativa irrespons\u00e1vel de desqualificar o maior s\u00edmbolo universal do saber e do conhecimento, o livro, inten\u00e7\u00e3o \u00f3bvia por tr\u00e1s de um truque publicit\u00e1rio que pode parecer apenas bem-humorado. Queimar livros publicamente por motivos pol\u00edticos sempre foi considerado crime hediondo pelo senso comum das sociedades democr\u00e1ticas. Desqualificar a imagem do livro por quest\u00f5es mercadol\u00f3gicas n\u00e3o \u00e9 menos grave. Na verdade, convenhamos, \u00e9 at\u00e9 pior, considerando o alcance e a efic\u00e1cia da m\u00eddia usada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Sou cr\u00edtico contumaz da mentalidade argent\u00e1ria que domina hoje o mercado editorial no Brasil e no mundo, at\u00e9 porque entendo que livro \u00e9, acima de tudo, conte\u00fado. \u00c9 claro, portanto, que as conquistas tecnol\u00f3gicas das \u00faltimas d\u00e9cadas oferecem novas formas, novas plataformas para desenvolver e publicar os conte\u00fados de toda natureza indispens\u00e1veis \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e ao desenvolvimento humanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Mas as novas tecnologias digitais s\u00e3o t\u00e3o recentes, de uma perspectiva hist\u00f3rica, que ainda \u00e9 muito cedo para preconizar o advento &#8220;definitivo&#8221; de um suced\u00e2neo para o livro impresso. Algu\u00e9m se lembra do finado CD-ROM? Na segunda metade dos anos 1990 n\u00e3o faltaram novidadeiros que o apresentassem como &#8220;a nova e moderna forma do livro&#8221;. Atualmente os e-books podem ser considerados fortes candidatos a conquistar os consumidores de livros impressos. E o bom senso recomenda supor que, de fato, exista uma forte tend\u00eancia a que isso ocorra num prazo que parece cada vez mais curto. Mas quem pode garantir que n\u00e3o surja amanh\u00e3 um novo e revolucion\u00e1rio gadget que rapidamente transformar\u00e1 o e-book em pe\u00e7a de museu?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00c9 Umberto Eco quem assegura: &#8220;Das duas, uma: ou o livro permanecer\u00e1 o suporte da leitura, ou existir\u00e1 alguma coisa similar ao que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da inven\u00e7\u00e3o da tipografia. As varia\u00e7\u00f5es em torno do objeto livro n\u00e3o modificaram sua fun\u00e7\u00e3o, nem sua sintaxe, em mais de quinhentos anos. O livro \u00e9 como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, n\u00e3o podem ser aprimorados. Voc\u00ea n\u00e3o pode fazer uma colher melhor do que uma colher&#8221; (N\u00e3o Contem com o Fim do Livro, Record &#8211; 2010, p\u00e1gina 16, tradu\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 Telles).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Em artigo para esta p\u00e1gina em que fiz a cita\u00e7\u00e3o acima do escritor, linguista e bibli\u00f3filo italiano (\u00c9 o fim do livro? Rir para n\u00e3o chorar, 16\/7\/2010), manifestei a opini\u00e3o agora reiterada de que, apesar de sua imagem idealizada &#8211; \u00e0s vezes, sacralizada &#8211; de fonte de lazer, informa\u00e7\u00e3o, conhecimento, frui\u00e7\u00e3o intelectual, o livro, enquanto objeto, \u00e9 apenas &#8220;o suporte da leitura&#8221;, o meio pelo qual o escritor chega ao leitor. E assim permanecer\u00e1 at\u00e9 que &#8220;alguma coisa similar&#8221; o substitua. Por tudo isso, o livro, na forma como o mundo o conhece pelo menos desde o s\u00e9culo 15, \u00e9 e continuar\u00e1 sendo, at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7a, o maior s\u00edmbolo universal do saber e do conhecimento. Merece, portanto, no m\u00ednimo, respeito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Cabe ao livro de hoje, como caber\u00e1 ao do futuro, a transmiss\u00e3o desde a informa\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria indispens\u00e1vel \u00e0 boa forma\u00e7\u00e3o profissional at\u00e9 as indaga\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es sobre o sentido da vida que passam, por exemplo, pelas experi\u00eancias emocionais de quem compartilha conosco a condi\u00e7\u00e3o de ser humano. Tudo isso faz parte daquilo que precisamos saber, conhecer, para entender quem somos e o mundo em que vivemos e, assim, nos realizarmos como seres humanos. \u00c9, digamos, um pouco mais do que o ideal de possuir uma casa &#8220;com um carro na garagem&#8221;, que os fundamentalistas do mercado imaginam como o suprassumo da ambi\u00e7\u00e3o dos viventes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">Essa vis\u00e3o human\u00edstica do mundo pode parecer um tanto fora de moda, mas s\u00f3 estar\u00e1 realmente sepultada &#8211; sob sete palmos de ignor\u00e2ncia &#8211; no momento em que a estultice dos homens lograr o intento de destruir a imagem do livro como maior s\u00edmbolo universal do saber e do conhecimento. Muita gente dentro do pr\u00f3prio mercado livreiro, mais propriamente dentro do big business editorial, aqui como l\u00e1 fora, j\u00e1 est\u00e1 fazendo um bom trabalho nessa dire\u00e7\u00e3o ao mediocrizar impiedosamente os conte\u00fados que publica em nome do mandamento supremo de que livro bom \u00e9 livro que vende bem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: small;\">A continuar assim, em breve o publicit\u00e1rio e seu cliente para quem os livros s\u00f3 s\u00e3o \u00fateis quando empilhados poder\u00e3o proclamar, orgulhosos, a confirma\u00e7\u00e3o de seus poderes prof\u00e9ticos. E estaremos ent\u00e3o penetrando as trevas, depois de percorrer v\u00e1rios tons de cinza.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai empenhado na educa\u00e7\u00e3o do filho pequeno chega trazendo tr\u00eas grossos livros. 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