{"id":4054,"date":"2012-06-27T12:37:53","date_gmt":"2012-06-27T15:37:53","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2012\/06\/27\/habito-de-ler-esta-alem-dos-livros-diz-um-dos-maiores-especialistas-em-leitura-do-mundo\/"},"modified":"2012-06-27T12:37:53","modified_gmt":"2012-06-27T15:37:53","slug":"habito-de-ler-esta-alem-dos-livros-diz-um-dos-maiores-especialistas-em-leitura-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/habito-de-ler-esta-alem-dos-livros-diz-um-dos-maiores-especialistas-em-leitura-do-mundo\/","title":{"rendered":"H\u00e1bito de ler est\u00e1 al\u00e9m dos livros, diz um dos maiores especialistas em leitura do mundo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Um dos maiores especialistas em leitura do mundo, o franc\u00eas Roger Chartier destaca que o h\u00e1bito de ler est\u00e1 muito al\u00e9m dos livros impressos e defende que os governos t\u00eam papel importante na promo\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais leitora.<\/span><\/span><\/p>\n<p> <span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\" \/><span style=\"font-size: 10pt;\" \/> <br \/> <\/span><\/span> <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">O historiador esteve no Brasil para participar do 2\u00ba Col\u00f3quio Internacional de Estudos Lingu\u00edsticos e Liter\u00e1rios, realizado pela Universidade Estadual de Maring\u00e1 (UEM). Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, o professor e historiador avaliou que os meios digitais ampliam as possibilidades de leitura, mas ressaltou que parte da sociedade ainda est\u00e1 exclu\u00edda dessa realidade. \u201cO analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital\u201d, disse.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Uma pesquisa divulgada recentemente indicou que o brasileiro l\u00ea em m\u00e9dia quatro livros por ano (a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pr\u00f3-Livro em abril). Podemos considerar essa quantidade grande ou pequena em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Roger Chartier:<\/strong> Em primeiro lugar, me parece que o ato de ler n\u00e3o se trata ne J\/K8P5uT\/Yuwwe ler livros. Essas pesquisas que peguntam \u00e0s pessoas se elas leem livros est\u00e3o sempre ignorando que a leitura \u00e9 muito mais do que ler livros. Basta ver em todos os comportamentos da sociedade que a leitura \u00e9 uma pr\u00e1tica fundamental e disseminada. Isso inclui a leitura dos livros, mas muita gente diz que n\u00e3o l\u00ea livros e de fato est\u00e1 lendo objetos impressos que poderiam ser considerados [jornais, revistas, revistas em quadrinhos, entre outras publica\u00e7\u00f5es]. N\u00e3o devemos ser pessimistas, o que se deve pensar \u00e9 que a pr\u00e1tica da leitura \u00e9 mais frequente, importante e necess\u00e1ria do que poderia indicar uma pesquisa sobre o n\u00famero de livros lidos.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>ABr<\/strong>: Hoje a leitura est\u00e1 em diferentes plataformas?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chartier<\/strong>: Absolutamente, quando h\u00e1 a entrada no mundo digital abre-se uma possibilidade de leitura mais importante que antes. N\u00e3o posso comparar imediatamente, mas nos \u00faltimos anos houve um recuo do n\u00famero de livros lidos, mas n\u00e3o necessariamente porque as pessoas est\u00e3o lendo pouco. \u00c9 mais uma transforma\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas culturais. \u00c9 gente que tinha o costume de comprar e ler muitos livros e agora talvez gaste o mesmo dinheiro com outras formas de divers\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>ABr<\/strong>: A mesma pesquisa que trouxe a m\u00e9dia de livro lidos pelos brasileiros aponta que a popula\u00e7\u00e3o prefere outras atividade \u00e0 leitura, como ver televis\u00e3o ou acessar a internet.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chartier<\/strong>: Isso n\u00e3o seria pr\u00f3prio do brasileiro. Penso que em qualquer sociedade do mundo [a pesquisa] teria o mesmo resultado. Talvez com porcentagens diferentes. Uma pesquisa francesa do Minist\u00e9rio da Cultura mostrou que houve uma redistribui\u00e7\u00e3o dos gastos culturais para o teatro, o turismo, a viagem e o pr\u00f3prio meio digital.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>ABr<\/strong>: Na sua avalia\u00e7\u00e3o, essa evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da leitura do impresso para os meios digitais tem o papel de ampliar ou reduzir o n\u00famero de leitores?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chartier<\/strong>: Representa uma possibilidade de leitura mais forte do que antes. Quantas vezes n\u00f3s somos obrigados a preencher formul\u00e1rios para comprar algo, ler e-mails. Tudo isso est\u00e1 num mundo digital que \u00e9 constru\u00eddo pela leitura e a escrita. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 fronteiras, n\u00e3o se pode pensar que cada um tem um acesso imediato [ao meio digital]. \u00c9 totalmente um mundo que imp\u00f5e mais leitura e escrita. Por outro lado, \u00e9 um mundo onde a leitura tradicional dos textos que s\u00e3o considerados livros, de ver uma obra que tem uma coer\u00eancia, uma singularidade, aqui [nos meios digitais] se confronta com uma pr\u00e1tica de leitura que \u00e9 mais descont\u00ednua. A percep\u00e7\u00e3o da obra intelectual ou est\u00e9tica no mundo digital \u00e9 um processo muito mais complicado porque h\u00e1 fragmentos e trechos de textos aparecendo na tela.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>ABr<\/strong>: Na sua opini\u00e3o, a responsabilidade de promover o h\u00e1bito da leitura em uma sociedade \u00e9 da escola?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chartier<\/strong>: Os soci\u00f3logos mostram que, evidentemente, a escola pode corrigir desigualdades que nascem na sociedade mesmo [para o acesso \u00e0 leitura]. Mas ao mesmo tempo a escola reflete as desigualdades de uma sociedade. Ent\u00e3o me parece que, tamb\u00e9m, \u00e9 um desafio fundamental que as crian\u00e7as possam ter incorporados instrumentos de rela\u00e7\u00e3o com a cultura escrita e que essa desigualdade social deveria ser considerada e corrigida pela escola que normalmente pode dar aos que est\u00e3o desprovidos os instrumento de conhecimento ou de compreens\u00e3o da cultura escrita. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o complexa entre a escola e o mundo social. E \u00e9 claro que a escola n\u00e3o pode fazer tudo.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>ABr<\/strong>: Esse \u00e9 um papel tamb\u00e9m dos governos?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chartier<\/strong>: Os governos t\u00eam um papel m\u00faltiplo. Ele pode ajudar por meio de campanhas de incentivo \u00e0 leitura, de recursos \u00e0s fam\u00edlias mais desprovidas de capital cultural e pode ajudar pela aten\u00e7\u00e3o ao sistema escolar. S\u00e3o tr\u00eas maneira de intera\u00e7\u00e3o que me parecem fundamentais.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>ABr<\/strong>: No Brasil ainda temos quase 14 milh\u00f5es de analfabetos e boa parte da popula\u00e7\u00e3o tem pouco dom\u00ednio da leitura e escrita \u2013 s\u00e3o as pessoas consideradas analfabetas funcionais. Isso n\u00e3o \u00e9 um entrave ao est\u00edmulo da leitura?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chartier<\/strong>: \u00c9 preciso diferenciar o analfabetismo radical, que \u00e9 quando a pessoa est\u00e1 realmente fora da possibilidade de ler e escrever da outra forma que seria uma dificuldade para uma leitura. H\u00e1 ainda uma outra forma de analfabetismo que seria da historialidade no mundo digital, uma nova fronteira entre os que est\u00e3o dentro desse mundo e outros que, por raz\u00f5es econ\u00f4micas e culturais, ficam de fora. O conceito de analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital. Cada um precisa de uma forma de acultura\u00e7\u00e3o, de pedagogia e did\u00e1tica diferente, mas os tr\u00eas tamb\u00e9m s\u00e3o tarefas importantes n\u00e3o s\u00f3 para os governos, mas para a sociedade inteira.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>ABr<\/strong>: Na sua avalia\u00e7\u00e3o, a exclus\u00e3o dos meios digitais poderia ser considerada uma nova forma de analfabetismo?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Chartier<\/strong>: Me parece que isso \u00e9 importante e h\u00e1 uma ilus\u00e3o que vem de quem escreve sobre o mundo digital, porque j\u00e1 est\u00e1 nele e pensa que a sociedade inteira est\u00e1 digitalizada, mas n\u00e3o \u00e9 o caso. Evidente h\u00e1 muitos obst\u00e1culos e fronteiras para entrar nesse mundo. Come\u00e7ando pela pr\u00f3pria compra dos instrumentos e terminando com a capacidade de fazer um bom uso dessas novas t\u00e9cnicas. Essa \u00e9 uma outra tarefa dada \u00e0 escola de permitir a aprendizagem dessa nova t\u00e9cnica, mas n\u00e3o somente de aprender a ler e escrever, mas como fazer isso na tela do computador.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos maiores especialistas em leitura do mundo, o franc\u00eas Roger Chartier destaca que o h\u00e1bito de ler est\u00e1 muito al\u00e9m dos livros impressos e defende que os governos t\u00eam papel importante na promo\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais leitora. \u00a0 O historiador esteve no Brasil para participar do 2\u00ba Col\u00f3quio Internacional de Estudos Lingu\u00edsticos e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-4054","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4054\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}