{"id":2595,"date":"2009-04-16T16:55:00","date_gmt":"2009-04-16T19:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2009\/04\/16\/quem-vai-ensinar-e-o-que-aos-alunos-do-seculo-xxi\/"},"modified":"2009-04-16T16:55:00","modified_gmt":"2009-04-16T19:55:00","slug":"quem-vai-ensinar-e-o-que-aos-alunos-do-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/quem-vai-ensinar-e-o-que-aos-alunos-do-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Quem vai ensinar &#8211; e o qu\u00ea &#8211; aos alunos do s\u00e9culo XXI?"},"content":{"rendered":"<p>Uma sala de aula com carteiras enfileiradas diante de um quadro negro. Os alunos, calados, prestam aten\u00e7\u00e3o no professor. Memorize esta cena: ela est\u00e1 com os dias contados. A entrada das novas tecnologias digitais na sala de aula criou um paradigma na educa\u00e7\u00e3o: como tais ferramentas, que os alunos, n\u00e3o raro, j\u00e1 dominam, podem ser aproveitadas por professores que, frequentemente, mal as conhecem? As escolas t\u00eam, pela frente, um desafio e uma oportunidade. O desafio: formular um projeto pedag\u00f3gico que contemple as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e promova a interatividade dos alunos. A oportunidade: deixar para tr\u00e1s um modelo de ensino que se tornou obsoleto no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p> O novo aluno \u00e9 o respons\u00e1vel por esta mudan\u00e7a. Por ter nascido em um mundo transformado pelas novas tecnologias, ele exige um professor e uma escola que dialoguem com ele, e n\u00e3o apenas depositem informa\u00e7\u00f5es em sua cabe\u00e7a. E mais: ele quer ser surpreendido. Tarefa dif\u00edcil, pois o jovem estudante de hoje encontrou, na internet, uma fonte de informa\u00e7\u00f5es nunca antes existente. Livros, almanaques e enciclop\u00e9dias eram as principais ferramentas de pesquisa at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, quando os computadores come\u00e7aram a chegar \u00e0s resid\u00eancias do pa\u00eds. Agora, com um clique, ele pode acessar todas as enciclop\u00e9dias do mundo. O que muda com isso \u00e9, em primeiro lugar, o papel do professor.<\/p>\n<p> \u201c\u00c9 um momento dif\u00edcil para o educador, pois o modelo de ensino que ele aprendeu era baseado no poder que ele representava na sala de aula, t\u00edpico de uma sociedade mais passiva que a de hoje\u201c, diz Andrea Ramal, doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela PUC-Rio e diretora executiva da Instructional Design Projetos Educacionais. Mas o novo aluno, segunda Andrea, \u00e9 diferente: \u201cEle quer participar, quer fazer suas pr\u00f3prias escolhas. Os professores t\u00eam que se reinventar\u201c. Para ela, o professor n\u00e3o pode mais ser uma figura autorit\u00e1ria: ele precisa ser capaz de aprender com os educandos e de admitir que n\u00e3o tem todas as respostas.<\/p>\n<p> As palavras de Andrea encontram eco fora do Brasil. O americano Marc Prensky, um dos principais consultores educacionais dos Estados Unidos e designer de jogos educativos, afirma ser necess\u00e1ria uma nova rela\u00e7\u00e3o entre professor e aluno, baseada em uma parceria: \u201cO estudante faz aquilo que tem de melhor (como buscar informa\u00e7\u00f5es e usar as tecnologias para criar algo novo), e o professor, por sua vez, tamb\u00e9m faz o seu melhor, que \u00e9 orientar reflex\u00f5es, avaliar o comprometimento dos alunos e criar um contexto favor\u00e1vel\u201c. Por \u201ccontexto favor\u00e1vel\u201c entenda-se uma nova pedagogia: algo como deixar que os alunos aprendam por seus pr\u00f3prios caminhos, mas com a orienta\u00e7\u00e3o do professor.<\/p>\n<p> Se o papel do educador est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o, as escolas tamb\u00e9m vivem um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. Elas precisam se adequar n\u00e3o s\u00f3 ao novo aluno, mas tamb\u00e9m \u00e0 nova forma\u00e7\u00e3o de seu corpo docente. \u201cA internet tornou o aluno mais livre. Ele pode aprender em qualquer lugar, a qualquer hora. A escola j\u00e1 sabe disso, mas ainda \u00e9 muito tradicional, pois resiste \u00e0 mudan\u00e7a inevit\u00e1vel\u201c, acredita o espanhol Jos\u00e9 Manuel Moran, professor da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da USP. Mas para mudar n\u00e3o basta trocar o quadro negro pela lousa digital: \u00e9 preciso ir al\u00e9m e inovar na forma de ensino, pois, como acredita Moran, a internet e as novas tecnologias s\u00e3o um ponto de partida. Nunca de chegada. <\/p>\n<p> <B>O novo aluno: dom\u00ednio tecnol\u00f3gico desafia a pedagogia<\/B><\/p>\n<p> Imersos num universo rico em equipamentos e ferramentas como Google, iPod, MSN, celular, YouTube, Orkut, Facebook, estudantes reinventam a forma de se informar e gerar conhecimento. Hoje, crian\u00e7as e jovens t\u00eam amigos, em todas as partes do mundo, que encontram a qualquer hora do dia ou da noite na tela do computador. Eles conversam com colegas da classe ao lado por meio de SMS, conhecem pessoas e estudam em comunidades virtuais. Por parecer incr\u00edvel para os mais velhos, mas n\u00e3o \u00e9 rara a crian\u00e7a que navega na internet com destreza antes mesmo de saber ler ou escrever. Esse novo mundo permite exemplos que desafiam a pedagogia atual. \u00c9 o caso das irm\u00e3s Alice Godinho, de 5 anos, e sua irm\u00e3 Isadora, de 7. Juntas, elas formam uma esp\u00e9cie de coopera\u00e7\u00e3o digital. Este ano, Alice pediu um notebook de anivers\u00e1rio. \u201cEscolheu um rosa, porque \u00e9 a cor preferida dela\u201c, conta Carla, m\u00e3e das meninas. Alice, que cursa a primeira s\u00e9rie em um col\u00e9gio particular de S\u00e3o Paulo, ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente alfabetizada. \u201cIsso n\u00e3o impede que ela navegue no YouTube, ou entre em sites do col\u00e9gio para fazer tarefas\u201c, garante Carla, que revela um detalhe curioso: \u201cJ\u00e1 percebi que toda vez que a Isadora pede o notebook emprestado, Alice concorda. Mas ela sempre senta ao lado da irm\u00e3, porque j\u00e1 entendeu que observando ela aprende\u201c.<\/p>\n<p> A discuss\u00e3o sobre o \u201cbem e o mal\u201c em passar horas na frente de um computador n\u00e3o existe para esse novo estudante. A maioria j\u00e1 concilia vida virtual e real com equil\u00edbrio. Vitor Marellitut, de 14 anos, garante que n\u00e3o deixa de sair ou ver os amigos pessoalmente em troca do MSN, ou sites de relacionamento. Admite que fica pelo menos quatro horas sentado em frente ao computador todos os dias, mas garante que sabe discernir entre tempo de divers\u00e3o e aprendizado. \u201cMinha m\u00e3e n\u00e3o reclama. Ela sabe que eu jogo, mas tamb\u00e9m fa\u00e7o pesquisas e estudo\u201c, explica.<\/p>\n<p> <B>Crescimento exponencial do uso da Internet<\/B><br \/> Resposta estimulada e m\u00falitpla<br \/> Perfil: Jovens de 12 a 30 anos, classes ABC. Margem de erro 2%<\/p>\n<p> 2005<br \/> Orkut &#8211; 14%<br \/> Compras\/compara\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o &#8211; 14%<br \/> Mensagens instant\u00e2neas &#8211; 43%<br \/> Download de m\u00fasicas &#8211; 50%<br \/> Ouvir m\u00fasicas &#8211; 69%<br \/> Blogs pessoais &#8211; 12%<br \/> Fonte: dossi\u00ea universo jovem MTV 2008<br \/>  2008<br \/> Orkut &#8211; 83%<br \/> Compras\/compara\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o &#8211; 40%<br \/> Mensagens instant\u00e2neas &#8211; 81%<br \/> Download de m\u00fasicas &#8211; 69%<br \/> Ouvir m\u00fasicas &#8211; 73%<br \/> Blogs pessoais &#8211; 21%<\/p>\n<p> <B>Internet para comunicar, conhecer e se divertir<\/B><\/p>\n<p> Resposta estimulada e m\u00faltipla<br \/> Perfil: Jovem de 12 a 30 anos, classe ABC. Margem de erro 2%<\/p>\n<p> Enviar e receber e-mail &#8211; 84%<br \/> Visitar p\u00e1gina de Orkut e amigos &#8211; 83%<br \/> Troca de mensagem instant\u00e2nea &#8211; 81%<br \/> Fazer pesquisa para escola ou trabalho &#8211; 75%<br \/> Ouvir m\u00fasica em geral &#8211; 73%<br \/> Fazer download de m\u00fasicas &#8211; 69%<br \/> Fonte: dossi\u00ea universo jovem MTV 2008<\/p>\n<p> \u00c9 comum, que adolescentes como Vitor, tenham a rotina abarrotada de novidades tecnol\u00f3gicas. Assim como \u00e9 comum tamb\u00e9m que eles saibam usar essas novidades com habilidade &#8211; quase sempre, v\u00e1rias ao mesmo tempo. Navegam na internet, baixam programas de games, enquanto conversam no MSN, ouvem m\u00fasica no iPod ou usam o celular. E, \u00e9 claro, a capacidade que esses jovens adquiriram de dividir a aten\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias fontes simult\u00e2neas de informa\u00e7\u00e3o exige uma nova estrat\u00e9gia do professor. O americano Marc Prensky, consultor educacional e designer de jogos educativos, diz que a aparente dispers\u00e3o do jovem de hoje frente \u00e0s diversas ferramentas tecnol\u00f3gicas \u00e9 uma ilus\u00e3o. \u201cO aluno aprende quando est\u00e1 engajado em determinadas atividades &#8211; seja explorando possibilidades de resultado para um problema; em um joguinho de computador; ou simplesmente explorando algo desconhecido.\u201c  Na sala de aula, a hist\u00f3ria pode ser outra. Com oito anos de experi\u00eancia em lecionar e ciente desse novo aluno, o professor de geografia Gilberto Soares, do col\u00e9gio Miguel Cervantes em S\u00e3o Paulo, constata: \u201cS\u00e3o talentosos em fazer v\u00e1rias atividades simult\u00e2neas, mas n\u00e3o conseguem ficar focados muito tempo em um determinado assunto\u201c. O acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m torna o estudante mais cr\u00edtico. \u201cH\u00e1 casos em que a gente passa um dado na classe e o aluno checa em casa, para ver se \u00e9 verdade. \u00c9 uma esp\u00e9cie de disputa pelo poder\u201c, ressalta Gilberto. Nem tudo, por\u00e9m, a tecnologia consegue mudar para melhor. A cola &#8211; um artif\u00edcio t\u00e3o antigo quanto o aprendizado &#8211; n\u00e3o deixou de existir. S\u00f3 adquiriu contornos inusitados. Segundo o professor Soares, j\u00e1 houve casos em que alunos terminaram provas e mandaram mensagem de textos (pelo celular) para os amigos que ainda est\u00e3o sendo avaliados. \u201cEles s\u00e3o criativos, j\u00e1 encontrei uma cola inteira digitada dentro de um iPod\u201c. \u00a0<\/p>\n<p> A maioria dos professores e especialistas concorda que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel distanciar o novo aluno dessas modernidades tecnol\u00f3gicas. O desafio \u00e9 justamente tirar o melhor proveito desses recursos. A lousa digital, por exemplo, j\u00e1 \u00e9 comum em muitas escolas do pa\u00eds, \u00e9 uma das coisas mais apreciadas por crian\u00e7as e jovens. \u201cEsses novos quadros s\u00e3o extremamente visuais\u201c, reconhece Juana Ordonez, professora de ci\u00eancia naturais do col\u00e9gio Miguel Cervantes, em S\u00e3o Paulo. \u201cAntes de come\u00e7ar a aula, \u00e9 necess\u00e1rio calibrar a imagem e fazer alguns testes com o computador. Em geral, os alunos adoram fazer essa calibragem\u201c, diz. \u201cA gente deixa. Afinal, eles entendem disso melhor que n\u00f3s\u201c. (Caio Barretto Briso, Kleyson Barbosa, Lu\u00eds Guilherme Barrucho e Sofia Krause).\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> <B>O papel do professor: guiar o aprendizado<\/B><br \/> \u00a0<br \/> A facilidade com que os alunos interagem com a tecnologia tamb\u00e9m imp\u00f4s uma mudan\u00e7a de comportamento em sala de aula. Hoje, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 exclusividade dos mais jovens manter blogs, atualizar perfis em redes sociais ou bater papo com amigos na internet. A gera\u00e7\u00e3o digital passou a exigir que o professor fizesse o mesmo &#8211; e ele est\u00e1 mudando pouco a pouco. Os motivos s\u00e3o claros. Em um mundo onde todos recorrem \u00e0 rapidez do computador, nenhuma crian\u00e7a aguenta mais ouvir horas de explica\u00e7\u00f5es enfadonhas transcritas em uma lousa monocrom\u00e1tica. \u201cA tecnologia faz parte do cotidiano de todos os jovens. Os alunos esperam que o professor se utilize disso em sala de aula. Seu papel mudou completamente, mas continua essencial. Ele guia o processo de aprendizagem, sendo o elo entre o aluno e a comunidade cient\u00edfica\u201c, afirma Linda Harasim, professora da Universidade Simon Fraser, em Vancouver, no Canad\u00e1. \u00a0<\/p>\n<p> O problema \u00e9, justamente, adaptar a tecnologia ao conte\u00fado pedag\u00f3gico. \u00c9 consenso entre os especialistas que n\u00e3o basta apenas investir em laborat\u00f3rios, salas multim\u00eddia e projetores de luz. Muitas escolas, mesmo aquelas que gastam rios de dinheiro em equipamentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, deixam de lado o treinamento dos professores. Sem mudan\u00e7a na metodologia, as novas ferramentas s\u00e3o subtilizadas. \u201cPassamos praticamente uma d\u00e9cada do novo mil\u00eanio e nosso modelo educacional ainda reflete a pr\u00e1tica dos s\u00e9culos XIX e XX. A internet ainda \u00e9 usada, geralmente, como tampa-buraco ou enfeite nas salas de aula tradicionais\u201c, acrescenta Harasim. O professor de inform\u00e1tica Jean Marconi, de Bras\u00edlia, acompanhou de perto a dificuldade imposta pelos novos recursos tecnol\u00f3gicos. Quando o col\u00e9gio onde trabalha investiu pela primeira vez em equipamentos digitais, a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o se preocupou em desenvolver um novo m\u00e9todo de ensino nem capacitar os professores. Marconi aproveitou a forma\u00e7\u00e3o em tecnologia da educa\u00e7\u00e3o e prop\u00f4s \u00e0 escola treinar seus colegas. Hoje, segundo ele, todos j\u00e1 t\u00eam contato com as novidades e criam projetos para suas pr\u00f3prias disciplinas. \u201cO col\u00e9gio tinha a proposta, mas andava a passos lentos. Fui, ent\u00e3o, de professor em professor despertando a curiosidade. Consegui que houvesse uma integra\u00e7\u00e3o entre o conhecimento do educador e a tecnologia. Mas h\u00e1 alguns que ainda t\u00eam medo de mexer com essas ferramentas\u201c.<\/p>\n<p> Para a pedagoga S\u00edlvia Fichmann, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Investiga\u00e7\u00e3o de Novos Cen\u00e1rios de Aprendizagem (LINCA) na Escola do Futuro da USP, um dos motivos pelos quais os professores ainda resistem em utilizar a tecnologia \u00e9 o receio de perder o posto de detentor \u00fanico de conhecimento. \u201cA internet rompeu com uma s\u00e9rie de paradigmas. O professor, hoje, tem de se conscientizar de que n\u00e3o sabe tudo e precisa ser muito mais parceiro do aluno na busca pelo saber\u201c, afirma. S\u00edlvia diz que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil lidar com as novas ferramentas, mas cabe ao educador coordenar e orientar as tarefas. \u201cO problema \u00e9 que existem tr\u00eas tipos de professor: os que preferem o m\u00e9todo tradicional, aqueles que n\u00e3o sabem utilizar a tecnologia e, finalmente, os que se adaptaram ao novo contexto. Eles convivem em uma mesma sala de aula, o que impede a ado\u00e7\u00e3o completa da tecnologia\u201c, completa. Lousa interativa &#8211; As novas ferramentas nunca preocuparam a professora de Ensino Fundamental \u00c9ride Rosseti (na foto ao lado), de S\u00e3o Paulo. Com 32 anos de magist\u00e9rio, a educadora assistiu a passagem do quadro-negro para o magn\u00e9tico e maneja, agora,  sem problemas a lousa interativa, que permite salvar as tarefas feitas pelos alunos, al\u00e9m de exibir imagens, m\u00fasicas e v\u00eddeos. Incentivada pelo col\u00e9gio, ela participa de cursos de capacita\u00e7\u00e3o e \u00e9 usu\u00e1ria da comunidade virtual da escola, na qual posta coment\u00e1rios sobre as aulas e exerc\u00edcios de fixa\u00e7\u00e3o. \u201cCom a tecnologia, posso interagir com os alunos em tempo real. \u00c9 uma forma de eles n\u00e3o se sentirem sozinhos quando est\u00e3o fazendo a li\u00e7\u00e3o em casa. As crian\u00e7as adoram e o professor tem de cumprir o papel social de abra\u00e7as as novas tecnologias\u201c, diz.<\/p>\n<p> Criar um blog foi a alternativa encontrada pela professora de ci\u00eancias carioca Andrea Barreto para incentivar o h\u00e1bito da leitura entre seus alunos da rede p\u00fablica. Sem recursos, ela criou um espa\u00e7o virtual, no qual os jovens podem tirar d\u00favidas e participar das discuss\u00f5es feitas em sala de aula. \u201cPercebi a necessidade de ensinar dentro desse novo contexto depois que vi o desinteresse dos alunos. Mesmo os alunos mais carentes acessam a internet das lan houses e isso aumentou o rendimento\u201c, observa. Mas a educa\u00e7\u00e3o high-tech tamb\u00e9m oferece riscos, sobretudo devido \u00e0 variedade de informa\u00e7\u00e3o presente na web. Com a experi\u00eancia de quem mant\u00e9m um blog, tem conta no Orkut e usa diariamente o MSN, o professor de qu\u00edmica Paulo Marcelo Pontes, de Recife, diz que n\u00e3o h\u00e1 como evitar que um aluno deixe de acessar bate-papo ou qualquer outra ferramenta dispon\u00edvel na rede. \u201cCompetir com isso traz mais desest\u00edmulo do que satisfa\u00e7\u00e3o. O professor tem de produzir materiais e conte\u00fados que fa\u00e7am os estudantes participarem ou se interessarem pelo que est\u00e1 sendo divulgado\u201c, conclui. (Caio Barretto Briso, Kleyson Barbosa, Lu\u00eds Guilherme Barrucho e Sofia Krause).<\/p>\n<p> <B>O desafio da escola: manter-se indispens\u00e1vel<\/B><\/p>\n<p> Diante de um novo aluno e da necessidade de um novo tipo de professor, as escolas atuais encontram um desafio que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o se desenhava: manter-se indispens\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, considerando que a escola atual deve n\u00e3o s\u00f3 atender \u00e0s demandas que surgiram nos \u00faltimos anos &#8211; e s\u00e3o muitas &#8211; como tamb\u00e9m preparar-se para um futuro pr\u00f3ximo de mudan\u00e7as t\u00e3o r\u00e1pidas e intensas quanto as que ocorrem com o comportamento de seus alunos. J\u00e1 \u00e9 rotina em centros urbanos do pa\u00eds, estabelecimentos equipados com internet, que utilizam recursos como di\u00e1rios virtuais e promovem avalia\u00e7\u00f5es on-line para atender aos estudantes. Laborat\u00f3rios est\u00e3o cada vez mais sofisticados e as ferramentas tecnol\u00f3gicas se multiplicam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos estudantes. \u201cAs institui\u00e7\u00f5es precisam estar atentas. Existem alunos com diferentes estilos de aprendizagem, alguns aprendem ouvindo, outros vendo e ainda h\u00e1 aqueles que aprendem fazendo e interagindo\u201c, analisa Silvia Fichmann. \u201cO uso da tecnologia permite \u00e0 escola atender a esses diferentes estilos de aprendizagem\u201c. Os especialistas, no entanto, insistem que investir em tecnologia n\u00e3o basta. Para Silvia, a maior dificuldade das escolas n\u00e3o \u00e9 ampliar o uso dos aparatos, mas saber aproveit\u00e1-los na metodologia do ensino. \u201cSe a escola investe em tecnologia \u00e9 preciso pensar na forma\u00e7\u00e3o dos professores, para que esse investimento beneficie os alunos. N\u00e3o adianta o professor dar aulas com toda aquela parafern\u00e1lia se a escola n\u00e3o os preparar para o uso efetivo das ferramentas\u201c.<\/p>\n<p> A aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a esse aspecto j\u00e1 existe em col\u00e9gios particulares como o Bandeirantes, em S\u00e3o Paulo. H\u00e1 seis anos alguns professores organizaram um grupo com o objetivo de testar a usabilidade e os resultados de toda tecnologia nova que a escola concordasse em colocar dentro das salas de aula. Foi o que eles fizeram com um controle remoto &#8211; o chamado CPS (Classroom Perfomance System) -, que ajuda nas vota\u00e7\u00f5es feitas pelos alunos em classe. Inicialmente, o controle foi usado para pequenas avalia\u00e7\u00f5es, com perguntas relacionadas ao conte\u00fado ensinado. \u201cQual o resultado da soma 13 x 7?\u201c, por exemplo. Os professores, no entanto, deduziram que poderiam ampliar o uso do equipamento para tra\u00e7ar o perfil dos estudantes. Atualmente, o col\u00e9gio promove enquetes para avaliar comportamento, prefer\u00eancias e opini\u00f5es dos jovens.<\/p>\n<p> A coordenadora do departamento de tecnologia educacional do col\u00e9gio Dante Alighieri, Valdenice Minatel, constata que por necessidade nos \u00faltimos anos, o m\u00e9todo de sua escola tamb\u00e9m mudou. \u201cN\u00e3o trabalhamos com formatos prontos. N\u00f3s acompanhamos o professor na sala de aula e ajudamos na transi\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o focarmos nas pessoas, n\u00e3o h\u00e1 qualidade de ensino\u201c, explica. Todo ano, o col\u00e9gio promove webconfer\u00eancias com cientistas brasileiros a mais de 12 espalhados pelo mundo. Batizado de \u2019Conex\u00e3o Ant\u00e1rtica\u201c, os alunos conversam em tempo real com os pesquisadores utilizando o comunicador instant\u00e2neo Skype. Segundo Valdenice, \u201ca escola tem de executar projetos ligados a uma necessidade pedag\u00f3gica e utilizar a inform\u00e1tica para solucionar problemas\u201c.<\/p>\n<p> Os col\u00e9gios particulares sa\u00edram na frente, mas a tecnologia tamb\u00e9m est\u00e1 mudando o ensino das escolas p\u00fablicas. A escola municipal Joaquim Mendon\u00e7a, em Orindi\u00fava, pequena cidade de 6.000 habitantes na regi\u00e3o norte de S\u00e3o Paulo \u00e9 um exemplo. Refer\u00eancia de vanguarda no ensino p\u00fablico, o col\u00e9gio atende 936 alunos e possui todas as salas de aula com lousas interativas e internet &#8211; coisa antes s\u00f3 vista nas escolas particulares. O investimento foi feito h\u00e1 tr\u00eas anos. \u201cN\u00e3o foi t\u00e3o dif\u00edcil se adaptar \u00e0s lousas interativas. Mas alguns professores estranharam um pouco. A prefeitura pagou um curso de especializa\u00e7\u00e3o para todos. Atualmente, temos aulas \u00e0s ter\u00e7as e quintas-feiras via sat\u00e9lite. \u00c9 um curso com professores universit\u00e1rios de Ribeir\u00e3o Preto para melhorar nosso rendimento\u201c, conta Ana Maria Borges Barbosa, diretora da escola.<\/p>\n<p> Mesmo com tantos investimentos, a pesquisadora da UFRGS L\u00e9a Fagundes considera que a escola ainda n\u00e3o entrou na cultura digital. \u201cHoje, esses estabelecimentos querem trazer as ferramentas digitais para continuar ensinando como no modelo industrial. A tecnologia digital n\u00e3o \u00e9 uma varinha m\u00e1gica, nem um sistema multiuso e polivalente que serve para tudo. N\u00e3o depende do professor dizer se \u00e9 bom ou n\u00e3o, porque hoje ningu\u00e9m tem a resposta certa. Estamos todos em busca da verdade\u201c, acredita. \u201cAs condi\u00e7\u00f5es culturais para a mudan\u00e7a pedag\u00f3gica j\u00e1 est\u00e3o dadas. A quest\u00e3o agora \u00e9 apropriar-se delas e acreditar que se pode faz\u00ea-las. A resist\u00eancia muito grande parte das concep\u00e7\u00f5es dos educadores de que sua miss\u00e3o \u00e9 ensinar\u201c. (Por Caio Barretto Briso, Kleyson Barbosa, Lu\u00eds Guilherme Barrucho e Sofia Krause).<\/p>\n<p> <B>\u201cSem-terrinha em a\u00e7\u00e3o, para fazer a revolu\u00e7\u00e3o\u201d<\/B><\/p>\n<p> Esse \u00e9 um coro entoado por crian\u00e7as de ensino fundamental nas escolas comandadas pelo MST. Detalhe espantoso: as escolas, fincadas em assentamentos, s\u00e3o estaduais. Tamb\u00e9m \u00e9 o dinheiro p\u00fablico que patrocina as aulas que se passam nos acampamentos do movimento. Essas, particularmente, est\u00e3o na mira do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul, onde o MST \u00e9 mais esparramado. Recentemente, o governo de l\u00e1 decidiu fechar tais escolas, a pedido do procurador Gilberto Thums, que orientou o estado a faz\u00ea-lo por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta. Mas \u2013 depois que, com a medida, 140 crian\u00e7as acabaram fora da sala de aula \u2013 o procurador, muito pressionado, admitiu a possibilidade de voltar atr\u00e1s. Da\u00ed a medida ter sido submetida a uma comiss\u00e3o de promotores da \u00e1rea da inf\u00e2ncia, que, nesse momento, faz nova avalia\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m diz publicamente, ao menos ainda, mas sabe-se que h\u00e1 certa unanimidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas do MST (que, \u00e9 bom que se lembre, s\u00e3o do estado). Elas n\u00e3o deviam existir.<\/p>\n<p> Por uma raz\u00e3o simples. Essas escolas est\u00e3o longe de cumprir com sua fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, de preparar os jovens para viverem numa sociedade moderna. Ensinam o preconceito, fomentam o  \u00f3dio, passam \u00e0s crian\u00e7as velhos estere\u00f3tipos que s\u00f3 levam ao obscuratismo intelectual \u2013 e de nada servem. Nada mesmo. Fala-se, enfim, de algo muit\u00edssimo atrasado e pouqu\u00edssimo democr\u00e1tico. P\u00e9ssimo para as crian\u00e7as, que precisam de muito mais do que \u00e9 oferecido ali, e para o pa\u00eds, cujo dinheiro p\u00fablico escoa pelo ralo. Claro que essas crian\u00e7as devem estar numa sala de aula, direito que \u00e9 garantido a todas por lei. Mas numa escola que ensine qu\u00edmica, f\u00edsica, matem\u00e1tica, portugu\u00eas, geografia. E que esteja voltada para as quest\u00f5es da atualidade \u2013 e n\u00e3o para um ide\u00e1rio in\u00fatil e cheirando a mofo. Isso \u00e9 o m\u00ednimo. Blog Monica Weinberg.<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma sala de aula com carteiras enfileiradas diante de um quadro negro. Os alunos, calados, prestam aten\u00e7\u00e3o no professor. Memorize esta cena: ela est\u00e1 com os dias contados. 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