{"id":2569,"date":"2009-05-12T15:25:00","date_gmt":"2009-05-12T18:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2009\/05\/12\/por-que-vamos-mal-no-enem\/"},"modified":"2009-05-12T15:25:00","modified_gmt":"2009-05-12T18:25:00","slug":"por-que-vamos-mal-no-enem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/por-que-vamos-mal-no-enem\/","title":{"rendered":"Por que vamos mal no Enem"},"content":{"rendered":"<p>Cidade mais rica do pa\u00eds, S\u00e3o Paulo acostumou-se a figurar no topo de qualquer lista, seja de museus, restaurantes, salas de espet\u00e1culo, com\u00e9rcio ou hospitais. Causa espanto, portanto, o fraco desempenho dos col\u00e9gios paulistanos no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem), do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Apenas uma escola aparece entre as dez melhores do pa\u00eds: o V\u00e9rtice, do Campo Belo, em nono lugar. L\u00e1, os pouco mais de 200 alunos s\u00e3o conhecidos pelo nome e pela carreira que pretendem seguir \u2013 j\u00e1 que essa \u00e9 levada em conta na elabora\u00e7\u00e3o de um plano de estudos com metas individuais. Duas posi\u00e7\u00f5es para baixo est\u00e1 o col\u00e9gio Bandeirantes, do Para\u00edso, que conseguiu uma nota excepcional considerando-se a totalidade de 545 formandos da turma de 2008. \u201cSer\u00edamos os primeiros se apenas a nota dos 300 melhores contasse na m\u00e9dia\u201c, calcula o diretor Mauro Aguiar. As salas de aula do Bandeirantes s\u00e3o divididas de acordo com o desempenho dos alunos. Nas mais fracas, h\u00e1 um monitor ajudando o professor. \u201cOs alunos sem base recebem aux\u00edlio extra para vencer.\u201c<\/p>\n<p> \u00c0 parte esses dois casos, inscritos no grupo das vinte melhores, onde \u00e9 que foram parar as demais escolas da cidade, sobretudo as que t\u00eam maior renome e, como o V\u00e9rtice e o Bandeirantes, cobram mensalidades altas? \u201cTive de correr os olhos lista abaixo para encontr\u00e1-las\u201c, afirma o economista Gustavo Ioschpe, colunista de VEJA e especialista em educa\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um mist\u00e9rio que os col\u00e9gios da elite paulistana n\u00e3o se saiam bem no Enem.\u201c A unidade Morumbi do Col\u00e9gio Visconde de Porto Seguro, por exemplo, ficou em 435\u00ba lugar no ranking nacional, incluindo escolas p\u00fablicas e privadas.  O resultado caiu como uma bomba. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a institui\u00e7\u00e3o colhia os louros por ter sido eleita a melhor da cidade, em 2001, numa pesquisa do instituto Ipsos Marplan encomendada por Veja S\u00e3o Paulo. Naquela sondagem, foram avaliados os col\u00e9gios que ofereciam ensino b\u00e1sico completo em cerca de 100 aspectos, desde o n\u00famero de idiomas lecionados at\u00e9 o n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o do corpo docente. \u201cSabemos que o Enem s\u00f3 analisa uma faceta do ensino das escolas, mas ainda assim estamos nos perguntando: como \u00e9 que fomos t\u00e3o mal?\u201c, diz a diretora Mariana Battaglia. A aprova\u00e7\u00e3o dos alunos em faculdades, segundo ela, supera 70%. Entre os enigmas a ser esclarecidos est\u00e1, tamb\u00e9m, a grande diferen\u00e7a no resultado das  tr\u00eas unidades do Porto \u2013 Morumbi, Panamby (452\u00ba) e Valinhos (81\u00ba). \u201cA proposta educacional \u00e9 a mesma, assim como o investimento na forma\u00e7\u00e3o dos professores\u201c, conta a diretora pedag\u00f3gica Sonia Bittencourt. A dire\u00e7\u00e3o da escola distribuiu 7&#8201;000 cartinhas compartilhando com os pais a decep\u00e7\u00e3o e refor\u00e7ando o empenho na supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> Em outras institui\u00e7\u00f5es de boa reputa\u00e7\u00e3o, como Santo Am\u00e9rico (103\u00ba), Dante Alighieri (228\u00ba) e Nossa Senhora das Gra\u00e7as, o Gracinha (287\u00ba), o descontentamento n\u00e3o saiu do controle \u2013 at\u00e9 porque os jornais costumam dar destaque aos rankings estaduais, fato que mascara a defici\u00eancia de S\u00e3o Paulo. \u201cRecebi apenas tr\u00eas e-mails de contesta\u00e7\u00e3o\u201c, diz Lauro Spaggiari, diretor do Dante. \u201cFiquei com a pulga atr\u00e1s da orelha e solicitei uma reuni\u00e3o com a coordenadora pedag\u00f3gica\u201c, afirma Fadua de San Juan, m\u00e3e de Marcela, aluna do 9\u00ba ano do Gracinha. Segundo ela, sua filha \u201cvai bem, mas podia estudar mais e passar menos tempo navegando na internet\u201c. A coordenadora pedag\u00f3gica Maria Stella Scavazza n\u00e3o gostou de ver que a escola perdeu algumas posi\u00e7\u00f5es, mas garante que confia em sua proposta. \u201cSimula\u00e7\u00e3o de reuni\u00f5es da ONU, projetos de voluntariado e atua\u00e7\u00e3o em miniempresas preparam o aluno para a vida\u201c, diz. <\/p>\n<p> Talvez esteja a\u00ed uma das explica\u00e7\u00f5es para o desempenho decepcionante no \u00faltimo exame. \u201cS\u00e3o Paulo foi a primeira cidade do Brasil a entrar na onda das escolas liberais e construtivistas\u201c, lembra a psic\u00f3loga Ceres Alves de Araujo, especialista no atendimento de crian\u00e7as e adolescentes. \u201cO professor perdeu autoridade e os caminhos individuais para a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento forjaram alunos aut\u00f4nomos, por\u00e9m indisciplinados.\u201c Isso \u00e9 ruim? Em provas ou vestibulares, sim. A cobran\u00e7a de resultados \u2013 n\u00e3o necessariamente rigidez na disciplina \u2013 caracteriza boa parte dos col\u00e9gios campe\u00f5es. \u201cO importante \u00e9 que as fam\u00edlias se sintam confort\u00e1veis com as regras e os objetivos das escolas\u201c, opina Ilona Becskeh\u00e1zy, diretora executiva da Funda\u00e7\u00e3o Lemann, ONG que mant\u00e9m um programa de oferta de bolsas a alunos da escola p\u00fablica. Ela conhece bem o clima no melhor col\u00e9gio do Enem 2008, o S\u00e3o Bento, do Rio de Janeiro, por ser um de seus parceiros. \u201cNenhum pai questiona por que l\u00e1 s\u00f3 s\u00e3o aceitos meninos e h\u00e1 aulas aos s\u00e1bados\u201c, diz. \u201cPara que os filhos perten\u00e7am \u00e0quele grupo tradicional e bem-sucedido, os pais est\u00e3o  dispostos a sacrif\u00edcios, como deixar de viajar ou de ir \u00e0 praia.<\/p>\n<p> \u201c Desde que o Enem passou a divulgar as m\u00e9dias das escolas, em 2005, educadores puderam olhar para as institui\u00e7\u00f5es mais bem colocadas, examinar suas pr\u00e1ticas e, por que n\u00e3o?, copi\u00e1-las. Especialmente em col\u00e9gios como o Pent\u00e1gono (156\u00ba), que custam mais de 1&#8201;600 reais por m\u00eas. \u201cInstitu\u00edmos o per\u00edodo integral j\u00e1 no ensino fundamental, pelo menos duas vezes por semana\u201c, explica Nancy Izzo, dona da rede. \u201cCriamos uma sala especial, com livros, lousa eletr\u00f4nica, computadores, um pequeno anfiteatro e espa\u00e7o para as artes.\u201c A ideia \u00e9 trazer prazer \u00e0 leitura e \u00e0 escrita, integrando-as em projetos de outras disciplinas.<\/p>\n<p> Na semana passada, o MEC convocou seus conselheiros para uma reuni\u00e3o da qual sa\u00edram cinco sugest\u00f5es de mudan\u00e7a para melhorar o ensino m\u00e9dio. A primeira pede o m\u00ednimo: a expans\u00e3o da carga hor\u00e1ria de quatro para cinco horas di\u00e1rias. A segunda prop\u00f5e que 20% da grade seja reservada para disciplinas eletivas. A terceira e a quarta incentivam mais projetos interdisciplinares de leitura e de arte e cultura.Por fim, os educadores acreditam que laborat\u00f3rios poderiam ser mais explorados, n\u00e3o s\u00f3 nas ci\u00eancias. Em suma: as escolas precisam distribuir o conte\u00fado das atuais doze mat\u00e9rias em quatro grupos mais amplos (l\u00ednguas, matem\u00e1tica, humanas e biol\u00f3gicas\/exatas). Exatamente a forma como a prova do Enem at\u00e9 hoje foi dividida \u2013 neste ano, ela ter\u00e1 200 quest\u00f5es (n\u00e3o 63) e poder\u00e1 sofrer outras altera\u00e7\u00f5es para substituir os vestibulares das universidades federais. \u201cN\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil promover as mudan\u00e7as, pois o professor aprendeu a ensinar por disciplinas\u201c, acredita Silvio Freire, orientador pedag\u00f3gico do Santa Maria, no Jardim Marajoara (117\u00ba colocado no ranking nacional). \u201cMas o caminho da melhora \u00e9 exatamente esse.<\/p>\n<p> \u201c Das dez campe\u00e3s nacionais, extrai-se uma cartilha comum: oito instituem jornada esticada, de at\u00e9 dez horas por dia; oito incutem no jovem o h\u00e1bito de estudar por meio de uma rotina frequente de provas e simulados; e todas incluem op\u00e7\u00f5es de aulas diferentes, como rob\u00f3tica, canto gregoriano, sustentabilidade e aprofundamento em matem\u00e1tica. Nove delas selecionam os alunos por meio de vestibulinhos, cuja concorr\u00eancia atinge 25 candidatos por vaga. A seguir, especialistas apontam algumas hip\u00f3teses que podem ter levado as escolas paulistanas a uma posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<p> <B>A rede do ensino m\u00e9dio \u00e9 enorme e desproporcional \u00e0 de outras cidades<\/B><\/p>\n<p> Neste ano, 423 escolas privadas paulistanas entraram para o ranking do Enem e obtiveram m\u00e9dia de 61,81 pontos, em uma escala de zero a 100. Sua quantidade \u2013 que equivale \u00e0 soma dos col\u00e9gios de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Bras\u00edlia e Porto Alegre \u2013 interfere negativamente na nota. \u201cAqui, escola particular n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de atendimento \u00e0 elite\u201c, comenta Mauro Aguiar, diretor do Bandeirantes. \u201cPela diversidade do alunado, as escolas tamb\u00e9m variam em pre\u00e7os, propostas pedag\u00f3gicas e, \u00e9 claro, nos resultados.\u201c<\/p>\n<p> <B>H\u00e1 um n\u00famero expressivo de escolas baratas com resultados med\u00edocres<\/B><\/p>\n<p> A classe C representa 55% da popula\u00e7\u00e3o da capital paulista. Para atra\u00ed-la, h\u00e1 um nicho de escolas mais baratas, cujo resultado no ranking do Enem oscila na casa dos 50 pontos. De acordo com levantamento do Guia do Estudante \u2014 \u201cCol\u00e9gios da Grande S\u00e3o Paulo\u201c, da Editora Abril, que publica Veja S\u00e3o Paulo, 182 dos 493 col\u00e9gios da cidade cobram menos de 500 reais por m\u00eas. \u201cMensalidade \u00e9 um indicador de qualidade\u201c, diz o professor Arthur Fonseca Filho, do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o. \u201cCentros de excel\u00eancia n\u00e3o dependem de milagre, mas de boa estrutura, empenho e investimento no recrutamento dos professores.\u201c<\/p>\n<p> <B>Poucas escolas alcan\u00e7am n\u00edvel de excel\u00eancia<\/B><\/p>\n<p> Apenas quinze col\u00e9gios particulares de S\u00e3o Paulo obtiveram m\u00e9dia superior a 70 pontos. Nessa mesma faixa, h\u00e1 24 escolas cariocas e treze de Belo Horizonte. \u201cS\u00e3o elas que puxam a m\u00e9dia para cima\u201c, explica Adilson Garcia, diretor adjunto do Col\u00e9gio V\u00e9rtice.<\/p>\n<p> <B>Longas dist\u00e2ncias e o tr\u00e2nsito n\u00e3o favorecem o recrutamento dos melhores alunos<\/B><\/p>\n<p> Os col\u00e9gios mais bem posicionados no ranking nacional do Enem, p\u00fablicos ou privados, realizam provas de ingresso. Assim, podem escolher os alunos mais bem preparados e impor um curr\u00edculo puxado. Em S\u00e3o Paulo, a dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o muitas vezes faz com que os pais optem por um col\u00e9gio pr\u00f3ximo, ainda que ele n\u00e3o seja a primeira op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> <B>Falta compromisso com a prova do Enem<\/B><\/p>\n<p> Normalmente, o ranking do Enem \u00e9 feito pelo crit\u00e9rio mais completo, que considera as notas da reda\u00e7\u00e3o e da prova de m\u00faltipla escolha. Por\u00e9m, quando a classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 refeita s\u00f3 com a nota do teste, as escolas de S\u00e3o Paulo sobem v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es. Aparecem tr\u00eas, e n\u00e3o uma, entre as dez melhores. Quem explica o que ocorre \u00e9 o ex-aluno do Santo Am\u00e9rico V\u00edtor Camargo. \u201cDei prioridade \u00e0s quest\u00f5es objetivas e acabei fazendo uma reda\u00e7\u00e3o \u2018meia boca\u2019, j\u00e1 que ela n\u00e3o vale para a Fuvest.\u201c Seu orientador, contudo, pediu para que os alunos se empenhassem por igual em toda a prova, pois assim n\u00e3o prejudicariam a m\u00e9dia do col\u00e9gio. \u201cPassei na Poli gra\u00e7as aos 2 pontos que trouxe do Enem\u201c, conta o rapaz. Sem a nota da reda\u00e7\u00e3o, o Santo Am\u00e9rico ficaria em 34\u00ba lugar no ranking nacional. Com ela, amargou a 103\u00aa posi\u00e7\u00e3o. Colaborou Jo\u00e3o Batista Jr.<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade mais rica do pa\u00eds, S\u00e3o Paulo acostumou-se a figurar no topo de qualquer lista, seja de museus, restaurantes, salas de espet\u00e1culo, com\u00e9rcio ou hospitais. Causa espanto, portanto, o fraco desempenho dos col\u00e9gios paulistanos no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem), do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. 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