{"id":2361,"date":"2008-11-04T16:38:00","date_gmt":"2008-11-04T18:38:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2008\/11\/04\/a-ficcao-nacional-que-cruza-fronteiras\/"},"modified":"2008-11-04T16:38:00","modified_gmt":"2008-11-04T18:38:00","slug":"a-ficcao-nacional-que-cruza-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-ficcao-nacional-que-cruza-fronteiras\/","title":{"rendered":"A fic\u00e7\u00e3o nacional que cruza fronteiras"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto os Estados Unidos assumem o primeiro posto entre os pa\u00edses que mais estudam a literatura brasileira, a Alemanha reserva meros 7% de seu imenso mercado editorial para a tradu\u00e7\u00e3o de livros de escritores do Brasil. As constata\u00e7\u00f5es, entre outras tamb\u00e9m surpreendentes, fazem parte das primeiras conclus\u00f5es obtidas pelo projeto Conex\u00f5es, mapeamento internacional da literatura brasileira promovido pelo Ita\u00fa Cultural. Nos \u00faltimos meses, pesquisadores, tradutores e estudiosos de diversos pa\u00edses foram consultados sobre a percep\u00e7\u00e3o e o conhecimento da escrita liter\u00e1ria nacional. \u201cJ\u00e1 recebemos 72 question\u00e1rios e, at\u00e9 dezembro, aguardamos mais 20\u201c, comenta Claudiney Jos\u00e9 Ferreira, gerente do N\u00facleo de Di\u00e1logos do Ita\u00fa Cultural.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Trata-se de um trabalho in\u00e9dito, que busca clarear a real import\u00e2ncia que a literatura brasileira ocupa no exterior. As primeiras informa\u00e7\u00f5es ser\u00e3o divulgadas em um simp\u00f3sio na Universidade de Salamanca, na Espanha, que acontece no dia 21. E, no ano que vem, provavelmente em agosto, acontece um congresso internacional em Chicago, nos Estados Unidos, a fim de apresentar o projeto para a comunidade acad\u00eamica norte-americana. \u201cE temos planos ainda para realizar o mesmo em Londres e em um pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina\u201c, diz Ferreira.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> As primeiras conclus\u00f5es s\u00e3o animadoras. Segundo apontam os question\u00e1rios, a quantidade de tradu\u00e7\u00f5es vem aumentando, especialmente de autores contempor\u00e2neos e n\u00e3o apenas de cl\u00e1ssicos ou best sellers, como Paulo Coelho. \u201cO conhecimento \u00e9 muito mais amplo e inclui escritores que surgiram mais recentemente, como Milton Hatoum, Jo\u00e3o Gilberto Noll, Luiz Ruffato, al\u00e9m de nomes mais jovens como Adriana Lisboa, Bernardo de Carvalho.\u201c&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Escritores tradicionais, \u00e9 claro, continuam puxando a fila, garantindo a presen\u00e7a permanente da literatura brasileira nos estudos e pesquisas estrangeiros. Mas, entre nomes esperados (como Jorge Amado, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Rubem Fonseca), surgem outros que mesmo no Brasil j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam a mesma repercuss\u00e3o. \u00c9 o caso de Jos\u00e9 Mauro de Vasconcelos, autor de Meu P\u00e9 de Laranja Lima, cl\u00e1ssico juvenil. \u201cEle \u00e9 muito respeitado e traduzido especialmente no Leste Europeu, onde at\u00e9 \u00e9 adotado em escolas\u201c, conta Ferreira, que ensaia algumas explica\u00e7\u00f5es. \u201cTrata-se de uma vis\u00e3o nada ex\u00f3tica do Brasil.\u201c&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> O mapeamento permite tamb\u00e9m rascunhar motivos do sucesso planet\u00e1rio de Paulo Coelho entre os cr\u00edticos estrangeiros, situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o acontece no Brasil. \u201cPara os resenhistas daqui, a obra dele resvala na auto-ajuda enquanto, na Europa, Coelho \u00e9 considerado escritor de fic\u00e7\u00e3o.\u201c&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Os problemas ocupam, no entanto, espa\u00e7o essencial. O relativo interesse pela l\u00edngua portuguesa no mundo \u00e9 um dos principais entraves. Pesquisadores europeus e norte-americanos apontam o espanhol como l\u00edngua latina de ponta, o que acaba ofuscando as demais. \u201cO trabalho feito por institutos culturais como o Cervantes, \u00e9 muito poderoso e faz com que o idioma espanhol ganhe um espa\u00e7o precioso\u201c, comenta Ferreira. \u201cA embaixada espanhola produz uma lista de livros novos publicados em seu pa\u00eds e envia \u00e0s editoriais inglesas, al\u00e9m de divulgar em seu website\u201c, completa Margaret Jull Costa, que faz tradu\u00e7\u00f5es para o ingl\u00eas.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Claudiney Ferreira n\u00e3o confirma, mas h\u00e1 um outro entrave, provocado pelos portugueses. De acordo com alguns pesquisadores, que comentam informalmente, a divulga\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da literatura brasileira, reconhecidamente vibrante e conectada aos problemas atuais, poderia atropelar a portuguesa que, embora viva um momento de renova\u00e7\u00e3o, talvez tenha chances mais reduzidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 da antiga col\u00f4nia.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> A t\u00edmida a\u00e7\u00e3o governamental tamb\u00e9m \u00e9 lembrada pelos pesquisadores consultados. Todos s\u00e3o un\u00e2nimes em apontar a necessidade de se implantar um plano que facilite a tradu\u00e7\u00e3o de obras nacionais para diversas l\u00ednguas. E a divulga\u00e7\u00e3o dos livros exige um projeto mais elaborado &#8211; para eles, o Brasil deveria considerar o Instituto do Livro e o Instituto Cam\u00f5es em Portugal como modelos a serem seguidos.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> \u201cApenas alguns escritores brasileiros de destaque s\u00e3o traduzidos para o ingl\u00eas, enquanto v\u00e1rios autores excelentes n\u00e3o t\u00eam nem chance de serem considerados\u201c, observa Alison Entrekin, respons\u00e1vel por vers\u00f5es em ingl\u00eas. \u201cAs editoras investem no marketing de escritores cujos livros tiveram boas vendas no Brasil. A ironia \u00e9 que alguns dos menos conhecidos t\u00eam muito mais a ver com o de l\u00edngua inglesa do que aqueles que as editoras promovem.\u201c&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Al\u00e9m do foco, as escassas ferramentas de trabalho s\u00e3o outra fonte de queixas. Os profissionais que trabalham com literatura brasileira no exterior s\u00e3o un\u00e2nimes em elogiar dicion\u00e1rios como o Aur\u00e9lio e o Houaiss, mas reclamam de n\u00e3o dispor de bons exemplares bil\u00edng\u00fces. \u201cEles sentem falta, por exemplo, de um dicion\u00e1rio ingl\u00eas-portugu\u00eas do Brasil, capaz de dirimir d\u00favidas sobre a l\u00edngua falada em nosso Pa\u00eds e n\u00e3o em Portugal\u201c, observa Ferreira.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> F\u00f3rmulas de sucesso s\u00e3o outro caminho a ser evitado. Pesquisadores e tradutores comentam que a literatura brasileira precisa manter sua autenticidade e jamais adotar esquemas que fazem sucesso l\u00e1 fora. \u201cN\u00e3o adianta tentar copiar Borges nem Cem Anos de Solid\u00e3o\u201c, acredita Regina Machado, que vive na Fran\u00e7a. \u201cReceitas j\u00e1 provadas n\u00e3o voltam a atuar, mas talvez possam nos ajudar a estender \u00e0 nossa vasta paisagem humana e liter\u00e1ria o olhar que alguns escritores souberam lan\u00e7ar sobre sua pr\u00f3pria realidade.\u201c&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> A grande diversidade ling\u00fc\u00edstica, o uso incr\u00edvel da coloquialidade, al\u00e9m de uma interessante e fluida liberdade de express\u00e3o s\u00e3o, no entender do tradutor Alex Levitin, as principais qualidades da escrita brasileira que a distingue das demais literaturas.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Virtudes tamb\u00e9m encontradas em outros meios de express\u00e3o, como o cinema, que conquista terreno com mais sucesso e velocidade que a literatura. Assim, a fama dos filmes brasileiros deveria ser utilizada como plataforma para espalhar a obra de autores nacionais, no entender do americano Ross G. Forman, que vive em Cingapura, onde divulga, com dificuldade, autores do Brasil.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Apesar de tantos empecilhos, os primeiros resultados do Conex\u00f5es s\u00e3o animadores. \u201cA presen\u00e7a da literatura brasileira no exterior \u00e9 superior ao que usualmente imaginamos\u201c, comenta Ferreira. \u201cE h\u00e1 um grande interesse pela escrita contempor\u00e2nea &#8211; os cl\u00e1ssicos decerto s\u00e3o estudados, mas os brasilianistas demonstram cada vez mais preocupa\u00e7\u00e3o com o aqui e agora da literatura brasileira.\u201c&nbsp;<br \/> &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto os Estados Unidos assumem o primeiro posto entre os pa\u00edses que mais estudam a literatura brasileira, a Alemanha reserva meros 7% de seu imenso mercado editorial para a tradu\u00e7\u00e3o de livros de escritores do Brasil. 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