{"id":2310,"date":"2008-08-07T15:45:00","date_gmt":"2008-08-07T18:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2008\/08\/07\/educacao-nao-pode-ser-melhor-do-que-os-professores-afirma-haddad\/"},"modified":"2008-08-07T15:45:00","modified_gmt":"2008-08-07T18:45:00","slug":"educacao-nao-pode-ser-melhor-do-que-os-professores-afirma-haddad","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/educacao-nao-pode-ser-melhor-do-que-os-professores-afirma-haddad\/","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser melhor do que os professores, afirma Haddad"},"content":{"rendered":"<p>O cientista pol\u00edtico Fernando Haddad \u00e9 um dos ministros mais bem avaliados do governo Lula em todas as pesquisas de opini\u00e3o. N\u00e3o deixa de ser surpreendente, porque sua pasta, a da Educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 um gigante dif\u00edcil de abra\u00e7ar, com desafios igualmente enormes. E, depois, porque, embora com recursos equivalentes a 5% do PIB, volume razo\u00e1vel para qualquer pa\u00eds, educa\u00e7\u00e3o, no Brasil, exceto em algumas ilhas de excel\u00eancia, ainda \u00e9 sin\u00f4nimo de baixa qualidade e, no geral, alguma coisa alguns passos atr\u00e1s dos outros pa\u00edses com os quais devemos nos comparar. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Filho de imigrantes libaneses, paulista, 45 anos, Haddad se declara, sem que se pergunte, de esquerda. Formado em Direito na Universidade de S\u00e3o Paulo, sua tese de doutorado, de meados dos anos 90, na Faculdade de Filosofia tamb\u00e9m da USP, faz uma atualiza\u00e7\u00e3o do materialismo hist\u00f3rico \u00e0 luz das teorias do fil\u00f3sofo alem\u00e3o Juergen Habermas. O mestrado, na Faculdade de Economia, da mesma USP, versou sobre aspectos sociais da economia sovi\u00e9tica. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Haddad deixou a Universidade de S\u00e3o Paulo, onde era professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica, em 2000, para trabalhar com Jo\u00e3o Sayad, na secretaria de Finan\u00e7as da Prefeitura de S\u00e3o Paulo, no governo petista de Marta Suplicy. Com a chegada de Lula \u00e0 presid\u00eancia, foi para Bras\u00edlia, como secret\u00e1rio-executivo do MEC, ent\u00e3o comandado pelo hoje ministro da Justi\u00e7a, Tarso Genro, em 2003. Foi nomeado ministro h\u00e1 exatos tr\u00eas anos, em julho de 2005.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O grande desafio do ministro \u00e9 melhorar a qualidade do ensino no Brasil. Repet\u00eancia, evas\u00e3o, baixa escolaridade, defasagem entre a faixa et\u00e1ria e a s\u00e9rie cursada s\u00e3o os sintomas a serem enfrentados. Para superar esses desafios, Haddad se armou com um diagn\u00f3stico e um instrumento.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Segundo Haddad, pol\u00edticas educacionais bem sucedidas s\u00e3o sist\u00eamicas e integradas, exigindo esfor\u00e7o concomitante em todas as etapas do ciclo educativo \u2013 da creche \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u201cA id\u00e9ia de que focar primeiro na educa\u00e7\u00e3o fundamental, para depois atacar o resto, ainda tem muitos adeptos, mas \u00e9 totalmente equivocada e est\u00e1 na base dos nossos erros\u201d, diz o ministro. \u201cA educa\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser igual ou pior do que os professores, melhor, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel\u201d.  \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A conclus\u00e3o do ministro: \u201c\u00c9 preciso investir, crescentemente, no conjunto\u201d.  Isso significa n\u00e3o s\u00f3 investir nos professores, mas, sem d\u00favida, investir mais forte neles. D\u00e1 para entender, por isso mesmo, onde se insere o recente \u2013 e j\u00e1 pol\u00eamico \u2013 piso nacional de R$ 950 mensais para os professores brasileiros.  \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O sucesso dessa pol\u00edtica integrada, no entanto, depende da aplica\u00e7\u00e3o dos instrumentos da avalia\u00e7\u00e3o. Avaliar bem e com transpar\u00eancia, na vis\u00e3o de Haddad, \u00e9 o eixo organizador da melhoria, necessariamente gradual, da qualidade do ensino. \u201cSem recursos, e recursos crescentes, n\u00e3o se consegue reformar para melhor a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d, afirma Haddad. \u201cMas sem resultados, os recursos nem chegam ou, se chegam, s\u00e3o desperdi\u00e7ados\u201d. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Durante mais de duas horas, numa manh\u00e3 de clima especialmente seco em Bras\u00edlia, Fernando Haddad falou, com exclusividade ao colunista do \u00daltimo Segundo Jos\u00e9 Paulo Kupfer sobre os problemas, os desafios e as perspectivas da educa\u00e7\u00e3o brasileira. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> No final da conversa, ele observou nunca antes ter tido a oportunidade de expor t\u00e3o amplamente suas id\u00e9ias, d\u00favidas, a\u00e7\u00f5es, resultados e perspectivas da \u00e1rea que coordena, uma das mais cr\u00edticas para o desenvolvimento do Pa\u00eds. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A entrevista com Fernando Haddad foi dividida em duas partes. A seguir, os principais trechos da primeira parte.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 O que vem primeiro: crescimento ou educa\u00e7\u00e3o?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Fernando Haddad <\/B>\u2013 Estatisticamente falando, se pode dizer que existe uma forte correla\u00e7\u00e3o entre as duas vari\u00e1veis. Os pa\u00edses que fizeram diferen\u00e7a em duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas \u2013 Irlanda, Cor\u00e9ia, Jap\u00e3o \u2013 n\u00e3o cometeram os erros que n\u00f3s cometemos. No per\u00edodo de alto crescimento, eles aumentaram os recursos em educa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s crescemos nos anos 50, 60 e 70 e n\u00e3o destinamos recursos de uma parte do crescimento em volume suficiente para a forma\u00e7\u00e3o educacional da popula\u00e7\u00e3o. Estamos fazendo isso agora. Estamos conseguindo compatibilizar crescimento com forma\u00e7\u00e3o, aplicando parte do crescimento em educa\u00e7\u00e3o. Por isso, sou otimista. O Brasil est\u00e1 entrando num processo de crescimento sustent\u00e1vel e, aplicando recursos crescentes em educa\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 transformar crescimento em desenvolvimento.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 O problema da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, no Brasil, n\u00e3o \u00e9 mais o da oferta de vagas, mas o da manuten\u00e7\u00e3o das pessoas na escola, o atraso escolar, enfim, a qualidade do ensino. Como resolver o problema? \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Entre 1995 e 2001, quando passou a ser poss\u00edvel medir, comparativamente, a qualidade do ensino, verificou-se uma queda nessa qualidade, medida pela profici\u00eancia em portugu\u00eas e matem\u00e1tica. Na \u00e9poca, atribuiu-se o problema \u00e0 pr\u00f3pria inclus\u00e3o de alunos em massa nas escolas. Mas eu reputo esse diagn\u00f3stico muito equivocado, at\u00e9 porque, quando a medi\u00e7\u00e3o foi feita, a onda inclusiva j\u00e1 havia ocorrido.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Qual seria a explica\u00e7\u00e3o correta?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Em minha opini\u00e3o, n\u00f3s cometemos alguns equ\u00edvocos graves no passado recente e ainda h\u00e1 quem insista no erro. O mais grave deles foi fomentar uma determinada id\u00e9ia de educa\u00e7\u00e3o que opunha educa\u00e7\u00e3o superior \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, como se fosse poss\u00edvel optar por um n\u00edvel de ensino em detrimento do outro. O que a experi\u00eancia internacional demonstra \u00e9 que pa\u00edses bem sucedidos na educa\u00e7\u00e3o adotaram vis\u00f5es sist\u00eamicas e integradas. As reformas educacionais de sucesso, que nunca foram revolu\u00e7\u00f5es, porque nunca aconteceram de um ano para outro, mas se deram no curso de pelo menos uma gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 adotaram essa vis\u00e3o sist\u00eamica como garantiram n\u00edveis crescentes e concomitantes de investimento em todas as etapas do processo de escolariza\u00e7\u00e3o. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 O que se pode entender por vis\u00e3o sist\u00eamica?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 A experi\u00eancia internacional comprova que s\u00f3 investindo, ao mesmo tempo, da creche \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 que se pode ter uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade. Quando um pa\u00eds faz isso para valer, n\u00e3o s\u00f3 na ret\u00f3rica, ou seja, com investimentos consignados em or\u00e7amento para todas as etapas do ciclo educativo, poder\u00e1 conseguir, ao longo de pelo menos uma gera\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ar um est\u00e1gio de educa\u00e7\u00e3o de qualidade.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Quer dizer que a id\u00e9ia t\u00e3o generalizada de que \u00e9 preciso primeiro investir na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para depois cuidar dos outros n\u00edveis \u00e9 equivocada?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>&#8211; Isto \u00e9 um absurdo em termos. Para come\u00e7ar, porque n\u00e3o existe um sistema educacional melhor do que a qualidade dos professores \u2013 ele pode ser igual ou pior, melhor imposs\u00edvel, por defini\u00e7\u00e3o. Se os professores t\u00eam que ser bem formados no n\u00edvel superior, n\u00e3o h\u00e1 como dissociar uma coisa da outra. E o Brasil procurou dissociar com o chamado foco na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em detrimento da educa\u00e7\u00e3o superior.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Por falta de recursos?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Tamb\u00e9m por falta de recursos. N\u00e3o por acaso, a qualidade da educa\u00e7\u00e3o cai, a partir de 1995, com a introdu\u00e7\u00e3o, em 1994, da figura da desvincula\u00e7\u00e3o das receitas da Uni\u00e3o (DRU). Dezenas de bilh\u00f5es de reais foram deslocados do minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo. E, ent\u00e3o, segmentamos e fragmentamos o ciclo educacional. Passamos a s\u00f3 ter olhos para a educa\u00e7\u00e3o fundamental, de um lado, e para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, no outro. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Quando abandonamos essa vis\u00e3o equivocada e passamos a desenvolver programas em todos os n\u00edveis de ensino, o que se verificou, pela primeira vez entre 2005 a 2007, foi uma melhoria consistente de todos os indicadores de qualidade. Melhorou a taxa de aprova\u00e7\u00e3o, houve queda tanto na repet\u00eancia quanto na evas\u00e3o. Melhoraram os n\u00edveis de profici\u00eancia em matem\u00e1tica e em l\u00edngua portuguesa, nas tr\u00eas s\u00e9ries avaliadas \u2013 a quarta, a oitava e a terceira do ensino m\u00e9dio. Quando voc\u00ea passa a considerar a educa\u00e7\u00e3o na sua totalidade voc\u00ea passa a colher os frutos.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Poderia dar exemplos do que significa \u201cinvestir para valer igualmente em todo o ciclo educacional\u201d? \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 O antigo fundo de financiamento da educa\u00e7\u00e3o focava no ensino fundamental e n\u00f3s o substitu\u00edmos por um fundo que foca no ensino b\u00e1sico. Saiu o Fundef e entrou o Fundeb. O que est\u00e1 por tr\u00e1s da troca de letras n\u00e3o \u00e9 pouco. \u00c9 a inclus\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o infantil e do ensino m\u00e9dio no fundo. \u00c9 tamb\u00e9m a complementa\u00e7\u00e3o dos recursos da Uni\u00e3o, que foi decuplicada. \u00c9 ainda a diferencia\u00e7\u00e3o do coeficiente de distribui\u00e7\u00e3o do dinheiro por matr\u00edcula, valorizando a escola que oferece tempo integral. Dependendo do tipo de matr\u00edcula, o munic\u00edpio e o Estado recebem mais ou menos recursos. Quando \u00e9 de tempo integral ele recebe mais. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Esse dinheiro a mais veio de onde?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Veio do or\u00e7amento da Uni\u00e3o. A m\u00e9dia de complementa\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o, durante os dez anos de vig\u00eancia do Fundef, foi de R$ 500 milh\u00f5es anuais. Agora em 1\u00ba de janeiro de 2009 a complementa\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o chegar\u00e1 a R$ 5 bilh\u00f5es ao ano \u2013 dez vezes mais. Os recursos est\u00e3o sendo aplicados tamb\u00e9m para equalizar as oportunidades de educa\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0s regi\u00f5es mais pobres do Pa\u00eds. Veja que por tr\u00e1s dessa letrinha tem uma vis\u00e3o diferenciada de investimento em educa\u00e7\u00e3o. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Mas isso \u00e9 suficiente para resolver o problema da qualidade do ensino no Brasil?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Vou dar outros exemplos. V\u00e1rios programas de apoio estavam restritos ao ensino fundamental. Vou citar alguns: transporte escolar, merenda, Bolsa-Fam\u00edlia e livro did\u00e1tico, que s\u00f3 existiam para o ensino fundamental. Todos estes programas de apoio foram estendidos a toda a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. \u00c9 uma vis\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica que n\u00e3o v\u00ea as etapas compartimentadas \u2013 educa\u00e7\u00e3o infantil, ensino fundamental e ensino m\u00e9dio. A a\u00e7\u00e3o de governo precisa alcan\u00e7ar o conjunto da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. A Uni\u00e3o nunca teve, por exemplo, um programa de financiamento da expans\u00e3o da rede f\u00edsica de creches e pr\u00e9-escolas. Criamos o Pr\u00f3-Inf\u00e2ncia com o objetivo de expandir a rede p\u00fablica de creches e pr\u00e9-escolas. Est\u00e1 provado que a educa\u00e7\u00e3o infantil repercute no desempenho do aluno ao longo das demais etapas do processo educacional.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 A implanta\u00e7\u00e3o do ensino fundamental de nove anos est\u00e1 no ritmo previsto?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 O ensino fundamental de nove anos pode parecer uma coisa lateral. Mas todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, para n\u00e3o citar o mundo desenvolvido, t\u00eam Educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de 12 anos (nove anos mais tr\u00eas ou oito mais quatro). O Brasil era o \u00fanico que tinha uma escolaridade obrigat\u00f3ria de 11 anos. S\u00e3o medidas que v\u00e3o corrigindo as distor\u00e7\u00f5es do sistema. J\u00e1 superamos a marca de 50% dos munic\u00edpios com ensino de nove anos e o prazo para que todos se enquadrem vai at\u00e9 2010.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 E a escola integral ainda \u00e9 muito pequena?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Ainda \u00e9 pequena, mas est\u00e1 evoluindo. N\u00e3o havia est\u00edmulo para que fossem oferecidas matr\u00edculas em tempo integral. O prefeito que matriculava em tempo parcial recebia rigorosamente os mesmos recursos que o prefeito que matriculava em tempo integral. Isso mudou. Quem matricula mais em tempo integral recebe mais. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 O senhor j\u00e1 enumerou uma s\u00e9rie de programas em implanta\u00e7\u00e3o ou j\u00e1 em andamento. Tem dinheiro para tudo isso?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>&#8211; Estamos revertendo uma tend\u00eancia hist\u00f3rica de queda do or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o. O or\u00e7amento em 2009 vai chegar a R$ 40 bilh\u00f5es. Em 2004, era de R$ 20 bilh\u00f5es. Com o apoio do presidente Lula, dobramos o or\u00e7amento do MEC em cinco anos. Temos de ter a clareza que o or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o deve crescer ano ap\u00f3s ano e tamb\u00e9m de que nossa capacidade de gest\u00e3o destes recursos tem que acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento. Queremos resultados, n\u00e3o queremos s\u00f3 mais recursos. Numa palavra, queremos traduzir recursos em resultados. A melhoria dos indicadores de qualidade da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que d\u00e3o seguran\u00e7a \u00e0 \u00e1rea econ\u00f4mica, que coordena o Or\u00e7amento, de que o dinheiro destinado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem investido, vai repercutir, positivamente, no desenvolvimento do Pa\u00eds.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Como o MEC pensa em eliminar a defasagem entre a faixa et\u00e1ria e a s\u00e9rie cursada, que \u00e9 um sintoma s\u00edntese dos maiores problemas da educa\u00e7\u00e3o no Brasil? \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Isso est\u00e1 sendo resolvido. Vou dar um dado que, para mim, \u00e9 muito eloq\u00fcente. Em 1999, portanto, n\u00e3o faz muito tempo quando se trata do processo de evolu\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, apenas 50% dos brasileiros com 25 anos de idade tinham conclu\u00eddo o ensino fundamental. Em 2006, j\u00e1 s\u00e3o 70%. Os 30% que ainda faltam est\u00e3o em geral no campo. Por isso, estamos fazendo um esfor\u00e7o enorme para levar ao campo todos os benef\u00edcios que as cidades j\u00e1 t\u00eam. Enfim, se o ritmo prosseguir, podemos j\u00e1 vislumbrar que, em prazo relativamente curto, todos os brasileiros com 25 anos ter\u00e3o conclu\u00eddo o ensino fundamental. \u00c9 claro que deveriam concluir essa etapa com 15 anos, mas o avan\u00e7o \u00e9 vis\u00edvel. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 E a faixa de 7 a 14, que tem tamb\u00e9m um atraso que gera depois evas\u00e3o?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 O novo \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Ideb), que combina profici\u00eancia em matem\u00e1tica e portugu\u00eas com taxa de aprova\u00e7\u00e3o, revelou um progresso bem razo\u00e1vel nesse aspecto. Fizemos um paralelo com Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos (Pisa). Numa escala de zero a 10, o Brasil tinha, em 2005, m\u00e9dia 3,8, enquanto a m\u00e9dia dos pa\u00edses da OCDE, os pa\u00edses ricos, \u00e9 de 6. Na medi\u00e7\u00e3o de 2007, apenas dois anos depois, chegamos a uma nota m\u00e9dia de 4,2. Se mantivermos o passo, podemos cumprir as metas e chegar \u00e0 nota 6 em 2021. No ritmo atual, em 13 anos, o Brasil ter\u00e1 uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade compar\u00e1vel \u00e0 dos 30 pa\u00edses mais ricos do mundo. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Esse ritmo n\u00e3o pode ser acelerado?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Acho que \u00e9 poss\u00edvel, mas, para isso, temos de aprofundar a trajet\u00f3ria. Para chegar a esse resultado, v\u00e1rias medidas foram tomadas, mas se eu fosse apontar em um \u00fanico aspecto principal, diria que foi a avalia\u00e7\u00e3o por escola do Ideb. A avalia\u00e7\u00e3o por escola organiza a escola. O gestor da escola sabe exatamente o m\u00ednimo que o MEC espera dele. Isso organiza o curr\u00edculo, a sala de aula, o plano de trabalho, tudo \u00e0 luz da avalia\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 feita permanentemente. A escola pode, assim, estabelecer metas realistas e correr atr\u00e1s das pr\u00f3prias metas. Os estudos internacionais demonstram que, quando se tem uma avalia\u00e7\u00e3o combinada com responsabiliza\u00e7\u00e3o, o sistema reage de forma sustent\u00e1vel.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Tem pr\u00eamio para a escola que cumpre suas metas? \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>&#8211; A vari\u00e1vel de ajuste \u00e9 a autonomia. A escola ganha autonomia ou perde, de acordo com o cumprimento das metas. Ou seja, o repasse de recursos se torna t\u00e3o mais autom\u00e1tico quanto mais ela demonstra merec\u00ea-lo.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 O repasse \u00e9 para escola?  Vai direto do MEC, do governo federal, para a escola estadual ou municipal?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Uma parte do repasse do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o vai para a escola, na conta corrente da escola, direto do MEC. Este \u00e9 o programa \u201cDinheiro direto para escola\u201d, que n\u00e3o passa pelos cofres municipais nem estaduais. Isso \u00e9 muito importante porque a vari\u00e1vel de controle n\u00e3o \u00e9 mais ou menos recursos, e, sim, o grau de autonomia que a escola vai ter na gest\u00e3o desses recursos. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Qual o volume de recursos destinado a esse programa? \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Do or\u00e7amento global de R$ 40 bilh\u00f5es para 2009, o \u201cDinheiro direto na escola\u201d tem quase R$ 1 bilh\u00e3o. Quando chegamos, era menos de um ter\u00e7o disso. Quanto mais a escola cumprir metas, mais autonomia ela ter\u00e1. Isso n\u00e3o significa, contudo, que a escola que n\u00e3o cumprir suas metas ser\u00e1 punida com perda de recursos. Significa que o grau de liberdade dela diminui, que n\u00e3o receber\u00e1 dinheiro suplementar e que ter\u00e1 de apresentar um plano de trabalho para justificar os recursos que recebe.  \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 A avalia\u00e7\u00e3o por escola tem um \u00f3bvio efeito no curto prazo. Mas \u00e9 sustent\u00e1vel no m\u00e9dio e no longo prazos?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 A minha resposta \u00e9 n\u00e3o, se outras medidas n\u00e3o forem tomadas para garantir a consist\u00eancia deste ciclo de melhorias. A gente morreria na praia do ensino m\u00e9dio. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Quais s\u00e3o essas medidas?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Em primeiro lugar, em rela\u00e7\u00e3o ao ensino m\u00e9dio, \u00e9 investir forte na forma\u00e7\u00e3o profissional, porque o aluno do ensino m\u00e9dio n\u00e3o est\u00e1 interessado na escola tradicional. Ele esta interessado na escola que amplia os seus horizontes e possibilidades intelectuais direcionadas ao trabalho. Por isso que tr\u00eas medidas, que j\u00e1 foram tomadas, s\u00e3o essenciais para melhoria do ensino m\u00e9dio. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Quais s\u00e3o?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Primeiro, expans\u00e3o da rede federal de educa\u00e7\u00e3o profissional. Eram 140 escolas federais em 2003, vamos pular para 354. Quero destacar esse fato: em quase um s\u00e9culo foram feitas 140 escolas t\u00e9cnicas federais. O governo Lula vai entregar 214 novas. Segundo, programa \u201cBrasil Profissionalizado\u201d, R$ 1 bilh\u00e3o da Uni\u00e3o, em quatro anos, para reestruturar a rede estadual de ensino m\u00e9dio. Terceiro, reforma do Sistema S, com a amplia\u00e7\u00e3o gradual e progressiva das vagas gratuitas no ensino profissionalizante do Senai, Senac etc. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Dobrar ou triplicar o n\u00famero de escolas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas n\u00e3o \u00e9 o mais dif\u00edcil. Mais dif\u00edcil \u00e9 mant\u00ea-las funcionando e bem. Tem dinheiro para isso?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Essa mudan\u00e7a de R$ 20 bilh\u00f5es para R$ 40 bilh\u00f5es no or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 para dar sustenta\u00e7\u00e3o a isso. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> iG \u2013 Ser\u00e1 suficiente?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> FH <\/B>\u2013 Meu sucessor vai receber um or\u00e7amento consistente para manter e sustentar esses avan\u00e7os.  \u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cientista pol\u00edtico Fernando Haddad \u00e9 um dos ministros mais bem avaliados do governo Lula em todas as pesquisas de opini\u00e3o. N\u00e3o deixa de ser surpreendente, porque sua pasta, a da Educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 um gigante dif\u00edcil de abra\u00e7ar, com desafios igualmente enormes. 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