{"id":2269,"date":"2008-08-29T16:27:00","date_gmt":"2008-08-29T19:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2008\/08\/29\/em-busca-de-centralidade\/"},"modified":"2008-08-29T16:27:00","modified_gmt":"2008-08-29T19:27:00","slug":"em-busca-de-centralidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/em-busca-de-centralidade\/","title":{"rendered":"Em busca de centralidade"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu afirmo que a biblioteca \u00e9 intermin\u00e1vel\u201c, diz o narrador do conto Biblioteca de Babel, escrito ainda nos anos 40 pelo argentino Jorge Luis Borges. Na obra, o escritor discorre sobre as extens\u00f5es do espa\u00e7o f\u00edsico consagrado ao livro, conectando-as a dimens\u00f5es mais profundas da experi\u00eancia humana. \u201cDesde que ao menos a porta de entrada esteja aberta\u201c, poderia rebater quem quer que tenha acesso ao relato \u201cPrograma Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE): leitura e biblioteca nas escolas p\u00fablicas brasileiras\u201c, resultado da avalia\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica feita pela Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (SEB\/MEC), em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Latino-americana de Pesquisa e A\u00e7\u00e3o Cultural e com o Laborat\u00f3rio de Pol\u00edticas P\u00fablicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A conclus\u00e3o hipot\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 fortuita. Segundo Jane Paiva, professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o Uerj e coordenadora da pesquisa, \u201ca chave \u00e9 o grande s\u00edmbolo da biblioteca na escola\u201c. Isso decorre de um processo de sacraliza\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande do livro que acaba por criar uma rela\u00e7\u00e3o por demais cerimoniosa entre ele e os potenciais leitores, tornando-o muitas vezes mais objeto de guarda do que de usufruto. Por isso, deter a chave da biblioteca escolar, quando ela existe, \u00e9 sinal de poder. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O estudo analisa junto a alunos, professores, gestores, bibliotec\u00e1rios e membros das comunidades escolares a circula\u00e7\u00e3o dos acervos, tipos de uso, identifica\u00e7\u00e3o de origem e outros aspectos ligados \u00e0s diversas cole\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas pelo PNBE desde sua implanta\u00e7\u00e3o. A pesquisa de campo foi feita entre 2005 e 2006 junto a 196 escolas de ensino fundamental, de 19 munic\u00edpios e 8 estados. O tempo que levou para vir a p\u00fablico &#8211; um ano apenas para o processo de confec\u00e7\u00e3o de um livro que servir\u00e1 como devolutiva \u00e0s escolas &#8211; sinaliza a dificuldade de se ajustar o leme das pol\u00edticas p\u00fablicas. Como resultado do diagn\u00f3stico, o MEC lan\u00e7ou, ainda em 2006, um documento intitulado \u201cPor uma pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o de leitores\u201c, em que alinhava, de forma gen\u00e9rica, tr\u00eas grandes eixos de a\u00e7\u00f5es para a finalidade contida no t\u00edtulo: qualifica\u00e7\u00e3o dos recursos humanos, amplia\u00e7\u00e3o das oportunidades de acesso a diferentes materiais de leitura e avalia\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es desenvolvidas para tanto. E sublinha a necessidade de a\u00e7\u00e3o conjunta de todos os entes federados.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> PNBE em foco\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Num momento em que os indicadores educacionais t\u00eam apontado para um cen\u00e1rio de baixa profici\u00eancia no campo da leitura, o PNBE \u00e9 hoje a principal a\u00e7\u00e3o p\u00fablica voltada a fomentar o uso das bibliotecas escolares. Os acervos escolhidos em um ano s\u00e3o distribu\u00eddos no seguinte. De 20 mil acervos distribu\u00eddos em 1999, passou a 96,4 mil acervos e mais de 7,2 milh\u00f5es de livros oferecidos em 2007 (PNBE 2006). No in\u00edcio, as cole\u00e7\u00f5es destinavam-se apenas aos alunos do ensino fundamental. Hoje, h\u00e1 material tamb\u00e9m para o ensino m\u00e9dio e educa\u00e7\u00e3o infantil. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A necessidade de avalia\u00e7\u00e3o foi apontada em 2002 em um questionamento do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) ao MEC. Na \u00e9poca, o TCU identificou a \u201cdescaracteriza\u00e7\u00e3o do programa originalmente concebido\u201c, em fun\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00e3o na sistem\u00e1tica de distribui\u00e7\u00e3o. Isso se deveu ao fato de as cole\u00e7\u00f5es iniciais, voltadas para a constitui\u00e7\u00e3o de acervo escolar e para os professores, terem se transformado na \u201cLiteratura em Minha Casa\u201c, cujo destino era a resid\u00eancia dos estudantes. O Tribunal, que vinha avaliando programas governamentais e sua efic\u00e1cia, cobrou do governo uma mensura\u00e7\u00e3o de resultados de modo a saber se o dinheiro p\u00fablico estava sendo bem investido. Demorou quase seis anos, mas hoje h\u00e1 dados claros para balizar os gestores. Muitos deles, como admitem Jane Paiva e Jane Cristina da Silva, coordenadora geral de Materiais Did\u00e1ticos da SEB\/MEC, apenas corroboram aquilo que j\u00e1 se entrevia h\u00e1 muito tempo. Mas agora com a certeza de que n\u00e3o s\u00e3o apenas infer\u00eancias de alguns.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Diagn\u00f3stico\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Al\u00e9m da dificuldade do acesso, fartamente mencionada pelos pesquisadores que visitaram as escolas, o estudo registra outros problemas. Um deles \u00e9 a necessidade de articula\u00e7\u00e3o entre o acervo distribu\u00eddo, os respons\u00e1veis pelo processo de media\u00e7\u00e3o e a exist\u00eancia de espa\u00e7os adequados (apenas 27, 8 mil unidades de ensino fundamental entre 143,6 mil, 19,3% do total, disp\u00f5em de bibliotecas, segundo o Censo Escolar 2005).\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> No que tange \u00e0 quest\u00e3o f\u00edsica, a exist\u00eancia de muitas salas ou cantinhos de leitura em substitui\u00e7\u00e3o a bibliotecas indica uma tend\u00eancia ao improviso que denota o lugar secund\u00e1rio que \u00e9 destinado a esses espa\u00e7os. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Para Elizabeth Serra, ex-coordenadora e atual membro do Conselho do Programa Nacional de Incentivo \u00e0 Leitura (Proler), que esteve \u00e0 frente do PNBE quando de sua implanta\u00e7\u00e3o, a oferta de espa\u00e7os adequados de leitura n\u00e3o acompanhou a acelera\u00e7\u00e3o do processo de universaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, ocorrido a partir dos anos 70. \u201cO projeto pensado ent\u00e3o n\u00e3o era de educa\u00e7\u00e3o de qualidade\u201c, diz, lembrando que o PNBE retomou o antigo Programa Nacional Sala de Leitura, que nos anos 80 j\u00e1 distribu\u00eda acervos. \u201cAo trocar o nome, reintroduzimos o conceito de biblioteca no lugar de sala de leitura. At\u00e9 ent\u00e3o, praticamente n\u00e3o havia demanda das prefeituras por bibliotecas\u201c, relembra.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A obrigatoriedade da biblioteca escolar j\u00e1 \u00e9 vista como um caminho para a presen\u00e7a do livro e das pr\u00e1ticas letradas nas escolas. Pelo menos no Congresso Nacional. O Projeto de Lei 3044\/08, de autoria do deputado Sandes J\u00fanior (GO), determina que, num prazo de cinco anos, todas as escolas do pa\u00eds devem ter bibliotecas com acervo m\u00ednimo de quatro livros por aluno. O PL teve voto favor\u00e1vel do relator da Comiss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura e ainda tramita na C\u00e2mara dos Deputados. Prev\u00ea tamb\u00e9m que as bibliotecas devem ser supervisionadas por bibliotec\u00e1rios em um prazo m\u00e1ximo de dez anos. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Mas se em alguns locais &#8211; como uma escola baiana onde, em vez da biblioteca, o que havia era uma \u201carmarioteca\u201c &#8211; essa presen\u00e7a poderia ser auspiciosa, nem sempre ela \u00e9 sin\u00f4nimo de forma\u00e7\u00e3o de leitores. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Como aponta a pesquisa, \u201cuma caracter\u00edstica tristemente representativa desses variados espa\u00e7os e desenhos de ambientes de leitura esteve simbolizada pela chave &#8211; a s\u00edntese do inacess\u00edvel, do inating\u00edvel -, que vedava in\u00fameros espa\u00e7os e acessos: de salas de leitura, de bibliotecas, de arm\u00e1rios, todos eles fechados, com portas escondendo o enigma atr\u00e1s das muralhas instranspon\u00edveis ao acesso e frui\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios &#8211; estudantes, professores, comunidade\u201c.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Essa inacessibilidade, aliada ao que Jane Paiva chama de uma cultura autorit\u00e1ria da escola, que obriga o aluno a ler apenas o que as disciplinas exigem, em hor\u00e1rios agendados e em meio a uma atmosfera de controle, apesar de altamente inibidoras, n\u00e3o retiraram dos estudantes o prazer de ler. Por\u00e9m, aquilo que lhes apraz. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u201cNos grupos focais, os alunos mostraram que gostam de ler, mas n\u00e3o o que a escola quer que eles leiam. Em seu tempo livre, eles l\u00eaem quadrinhos, folhetins, romances do tipo J\u00falia e Sabrina. E gostam de levar livros para casa, para ler com os irm\u00e3os e pais\u201c, relata. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Para Aparecida Paiva, professora do Ceale, da UFMG, e membro do corpo de avalia\u00e7\u00e3o dos acervos do PNBE, o caminho para que um leitor venha a se tornar um leitor liter\u00e1rio \u00e9 grande, e a escola n\u00e3o pode fazer da literatura um simples instrumento did\u00e1tico para melhorar a leitura dos alunos. \u201cEles t\u00eam de usufruir essa leitura liter\u00e1ria sem condicionamentos escolares, sem ter presta\u00e7\u00e3o de contas. Temo que assim eles leiam apenas enquanto est\u00e3o na escola, e deixem de ser leitores quando sa\u00edrem dela\u201c, alerta. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> No\u00e7\u00e3o sist\u00eamica\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Por esses e por outros motivos, a simples distribui\u00e7\u00e3o de acervo, ainda que necess\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 suficiente para, sozinha, constituir uma pol\u00edtica p\u00fablica de forma\u00e7\u00e3o de leitores no \u00e2mbito escolar. \u201c\u00c9 preciso vincular as pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o continuada aos acervos distribu\u00eddos\u201c, defende Jane Paiva, da Uerj, alertando para um problema: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser formador de novos leitores se n\u00e3o se \u00e9 leitor. Numa escola burocratizada e irreflexiva, o professor abandonou o lugar da escrita e passou a habitar o lugar da c\u00f3pia, diz ela.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> J\u00e1 Edmir Perrotti, professor do departamento de Biblioteconomia da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP e coordenador do Colaborat\u00f3rio de Infoeduca\u00e7\u00e3o, da mesma institui\u00e7\u00e3o, defende a introdu\u00e7\u00e3o de uma no\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, dotada de intencionalidade e regida por crit\u00e9rios p\u00fablicos. Para tanto, se deve envolver um arco grande de institui\u00e7\u00f5es e segmentos, e ter como princ\u00edpio o fato de que n\u00e3o se pode querer, compulsoriamente, fazer com que os indiv\u00edduos gostem de ler, ou supervisionar suas pr\u00e1ticas de leitura. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u201cO Estado tem de criar a condi\u00e7\u00e3o para a leitura de dimens\u00e3o p\u00fablica, concebida a partir da vincula\u00e7\u00e3o de um sujeito com outros sujeitos, e n\u00e3o estimular a forma\u00e7\u00e3o de leitores  desgarrados do mundo, \u00e0 moda de Ema Bovary ou Dom Quixote. Gostar ou n\u00e3o de ler \u00e9 uma quest\u00e3o individual. Ao Estado, cabe se preocupar com o direito do cidad\u00e3o\u201c, argumenta. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Perrotti, que chegou a participar de reuni\u00f5es no MEC quando a id\u00e9ia de avaliar o PNBE ainda era embrion\u00e1ria, defende que as bibliotecas devem incorporar um novo conceito de espa\u00e7o de leitura, que resulte numa rede de \u201cesta\u00e7\u00f5es do conhecimento\u201c, com v\u00e1rias unidades interligadas que propiciem aos usu\u00e1rios aprender como buscar informa\u00e7\u00f5es para al\u00e9m de seu local de acesso e a navegar pelos mais diversos suportes de leitura. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Sua proposta foi desenvolvida a partir de um projeto financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), que mant\u00e9m uma linha de estudos para interven\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o escolar. Depois disso, a experi\u00eancia virou objeto de um conv\u00eanio entre a USP e a Prefeitura de S\u00e3o Bernardo do Campo\/SP, que a partir de 1999 come\u00e7ou a montar sua rede de \u201cesta\u00e7\u00f5es\u201c. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u201cPartimos da cr\u00edtica da biblioteca convencional, de preserva\u00e7\u00e3o ou difus\u00e3o, adjetivando-a at\u00e9 construir um substantivo\u201c, explica Perrotti. O ponto central na busca do modelo foi a constata\u00e7\u00e3o de que havia dois problemas e que era preciso desfazer o n\u00f3 resultante de sua converg\u00eancia: a falta de acesso e o excesso de informa\u00e7\u00e3o. Ou seja, achar uma solu\u00e7\u00e3o que desse conta do acesso num quadro de excesso. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u201cO jovem est\u00e1 estressado com tantas informa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o adianta s\u00f3 oferec\u00ea-las, \u00e9 preciso garantir a apropria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mais uma \u00fanica biblioteca que consiga suprir as necessidades do sujeito. \u00c9 preciso form\u00e1-lo para uma rede. A informa\u00e7\u00e3o, como tal, \u00e9 um conte\u00fado a ser aprendido\u201c, conceitua.  \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O racioc\u00ednio constru\u00eddo por Perrotti traz pontos de converg\u00eancia e diverg\u00eancia com a vis\u00e3o de Elizabeth Serra. Defensora da distribui\u00e7\u00e3o dos acervos diretamente para os alunos, consubstanciada na cole\u00e7\u00e3o Literatura em Minha Casa, contestada pela TCU em 2002\/03, ela defende a op\u00e7\u00e3o feita \u00e0 \u00e9poca. \u201cA compra dos livros para levar para casa \u00e9 simb\u00f3lica, mas o s\u00edmbolo \u00e9 muito importante. At\u00e9 hoje, h\u00e1 relatos de pessoas que falam sobre esses livros. H\u00e1 dinheiro para fazer isso e para as bibliotecas\u201c, diz. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> De fato, a pesquisa encomendada pelo MEC mostra que as cole\u00e7\u00f5es do \u201cLiteratura em Minha Casa\u201c, distribu\u00eddas tanto para escolas quanto para fam\u00edlias de alunos foram bem recebidas por muitas delas e at\u00e9 provocaram iniciativas de refor\u00e7o ao trabalho escolar para incrementar a aprendizagem de leitura. No Cear\u00e1, por exemplo, o acervo foi considerado excelente por todos os entrevistados. Mas tamb\u00e9m houve problemas. No Par\u00e1, em 40% das escolas os livros n\u00e3o foram suficientes para todos e as cole\u00e7\u00f5es foram repartidas para que atendessem o conjunto dos alunos.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Outro aspecto dissonante na vis\u00e3o de Elizabeth, que tamb\u00e9m \u00e9 a secret\u00e1ria geral da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do Livro Infantil e Juvenil, \u00e9 a quest\u00e3o de a biblioteca ter de abarcar outras linguagens, incluindo aquelas que n\u00e3o comportam a palavra escrita. Para ela, a falta de concentra\u00e7\u00e3o na leitura resulta na m\u00e1 leitura. Ou seja, quando outros interesses como o teatro, por exemplo, s\u00e3o decorr\u00eancia de pr\u00e1ticas de leitura, h\u00e1 mais consist\u00eancia no processo do que quando s\u00e3o usados como chamarizes para atrair leitores. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A converg\u00eancia fica por conta da necessidade de se criar redes de bibliotecas p\u00fablicas. \u201c\u00c9 preciso criar uma biblioteconomia voltada ao atendimento da biblioteca p\u00fablica. E isso tem de come\u00e7ar na escola, com uma rede competente de bibliotecas. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Aprende-se a ir \u00e0 biblioteca na escola, pois a maioria das crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e1 acostumada a ver livros em casa\u201c, conclui.\u00a0<br \/>  \u00a0<br \/> De fato, a cria\u00e7\u00e3o de redes, se bem articulada, pode constituir-se num aspecto central de uma boa pol\u00edtica de leitura, estejam as redes funcionando no \u00e2mbito das escolas ou n\u00e3o (ali\u00e1s, uma reivindica\u00e7\u00e3o recorrente nos munic\u00edpios pesquisados pelo MEC \u00e9 a de que a biblioteca da escola possa ser utilizada pela comunidade). Um exemplo disso \u00e9 a Biblioteca Luis \u00c1ngel Arango, de Bogot\u00e1, Col\u00f4mbia, centro de uma rede de 17 bibliotecas regionais acopladas a centros culturais que funcionam em todos os estados do pa\u00eds. Com 50 anos de exist\u00eancia, a Luis Arango \u00e9 uma biblioteca de dimens\u00f5es antigas, com um acervo de 2 milh\u00f5es de livros e quase 10 mil visitantes di\u00e1rios. Mas soube informatizar os dados sobre o acervo e interconectar todas as outras unidades. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Outro exemplo \u00e9 a Dire\u00e7\u00e3o de Bibliotecas, Arquivos e Museus do Chile, vinculada ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o local, que come\u00e7ou em 2006 um processo de informatiza\u00e7\u00e3o em rede de todas as bibliotecas do pa\u00eds. At\u00e9 o momento, 260 unidades j\u00e1 aderiram ao plano, que prev\u00ea a integra\u00e7\u00e3o total at\u00e9 2010, ano do bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia do pa\u00eds. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Na avalia\u00e7\u00e3o, a biblioteca s\u00f3 aparece como esfera nuclear dos projetos pedag\u00f3gicos em poucos discursos, o que n\u00e3o se verifica na pr\u00e1tica. No caso dos mediadores, \u00e9 not\u00f3ria a necessidade de forma\u00e7\u00e3o para atividades de leitura, ainda muito ligadas a uma utiliza\u00e7\u00e3o disciplinar dos acervos, com atividades como c\u00f3pias e leitura condicionada a avalia\u00e7\u00f5es, afugentando a iniciativa de leitura do aluno. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Trip\u00e9 essencial\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Como diz o educador Edson Gabriel Garcia, autor de Biblioteca escolar, estrutura e funcionamento (Loyola, 1998), h\u00e1 um trip\u00e9 essencial a ser pensado. Al\u00e9m do acervo e do espa\u00e7o f\u00edsico, h\u00e1 a quest\u00e3o central, que \u00e9 a do mediador de leitura. Esse encargo pode ser levado a diante tanto por um professor como por um bibliotec\u00e1rio, advoga Garcia, mas \u00e9 preciso que ele seja \u201csenhor do processo de media\u00e7\u00e3o\u201c, assim como o professor deve ser senhor \u201cdo seu processo pedag\u00f3gico\u201c. \u201cE precisa estar ancorado em um projeto concebido com o envolvimento de toda a escola ou comunidade\u201c, diz. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Articulador do projeto de salas de leitura da rede municipal paulista levado a cabo nos anos 80 e consultor das salas de leitura comunit\u00e1rias do Instituto C&#038;A, Garcia alerta que a falta de um processo org\u00e2nico nos leva a valorizar demais os grandes empreendedores que fogem \u00e0 curva da a\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e da pasmaceira. \u201cNada contra o protagonismo. Mas isso n\u00e3o resolve o problema estrutural\u201c, diz. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A pesquisa sobre o PNBE comprova esse fator. Mostra muitas iniciativas levadas adiante por abnegados que obt\u00eam bons resultados. Elas n\u00e3o resolvem o todo. Mas indicam que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias grandes pirotecnias para se chegar a algum lugar. Bastam seriedade, criatividade, disposi\u00e7\u00e3o, di\u00e1logo, forma\u00e7\u00e3o e infra-estrutura. Condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que fazem a diferen\u00e7a.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> PNBE amplia\u00e7\u00e3o\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Sucessor de outros projetos na \u00e1rea de leitura e bibliotecas, o Programa Nacional de Biblioteca da Escola foi implantado em 1998, com a primeira sele\u00e7\u00e3o de livros distribu\u00edda no ano seguinte para estimular a constitui\u00e7\u00e3o de bibliotecas escolares. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Entre 2001 e 2003, houve tamb\u00e9m distribui\u00e7\u00e3o diretamente para os alunos, com as cole\u00e7\u00f5es \u201cLiteratura em Minha Casa\u201c. A pr\u00e1tica foi contestada pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o, que em 2002 apontou um desvio de finalidade no projeto. A partir de 2005, o governo resolveu ampliar o leque de etapas da educa\u00e7\u00e3o contempladas, antes restrito ao ensino fundamental e hoje estendido ao ensino m\u00e9dio e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o infantil. O volume de recursos tamb\u00e9m cresceu, devendo atingir R$ 71 milh\u00f5es na vers\u00e3o 2008 (distribui\u00e7\u00e3o em 2009).\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Tamb\u00e9m a partir de 2005, o MEC passou a eleger uma institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela sele\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos, alterando a forma anterior, em que especialistas de diversas universidades faziam um processo de imers\u00e3o em Bras\u00edlia.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u201cHoje temos um sistema melhor, pois o v\u00ednculo com a academia n\u00e3o fica assentado em pessoas, mas em grupos acad\u00eamicos de pesquisa\u201c, diz Aparecida Paiva, do Ceale, da UFMG, institui\u00e7\u00e3o hoje respons\u00e1vel pelo processo seletivo. A professora, coordenadora geral do PNBE 2007, ressalva que a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o assume a tarefa sozinha: avaliadores de 13 estados trabalham sob a coordena\u00e7\u00e3o do Ceale. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Neste ano, ser\u00e3o distribu\u00eddos tr\u00eas acervos de 20 livros cada para a educa\u00e7\u00e3o infantil e cinco acervos de 20 livros cada para o ensino fundamental 1. Cada escola recebe de um a tr\u00eas acervos, de acordo com o n\u00famero de alunos. Foram inscritas 1.873 obras.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A an\u00e1lise leva em conta tr\u00eas linhas mestras: a qualidade textual (aspectos \u00e9ticos e est\u00e9ticos da narrativa); qualidade tem\u00e1tica (diversidade, pluralidade de contextos, adequa\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico); projeto gr\u00e1fico (qualidade das ilustra\u00e7\u00f5es, articula\u00e7\u00e3o destas com o texto). \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Quanto a uma reclama\u00e7\u00e3o recorrente, a de que o acervo deveria contemplar mais t\u00edtulos ou obras regionais, a ex-coordenadora pessoalmente, a considera justa, mas aponta dois aspectos que inviabilizam sua sele\u00e7\u00e3o: a circula\u00e7\u00e3o nacional dos livros, que t\u00eam de ter apelo universal, e a concentra\u00e7\u00e3o de editoras no Sudeste do pa\u00eds. \u201cNo PNBE 2009, tivemos 61% de editoras paulistas, 23% do Rio de Janeiro, 9% de Minas Gerais, 3% do Rio Grande do Sul, al\u00e9m de Distrito Federal, Cear\u00e1, Paran\u00e1, Bahia e Esp\u00edrito Santo, com 1% cada. O que tentamos \u00e9 diversificar a partir do g\u00eanero\u201c, diz.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> A pesquisa\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Coordenada pelas professoras Jane Paiva e Andr\u00e9a Berenblum, da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a pesquisa \u201cPrograma Nacional Biblioteca da Escola (PNBE): leitura e biblioteca nas escolas p\u00fablicas brasileiras\u201c foi realizada entre 2005 e 2006. Um grupo de 22 pesquisadores visitou, durante 11 dias, 196 escolas, localizadas em 8 estados e 19 munic\u00edpios, amostra representativa do total de escolas que receberam os livros do PNBE de 1999 at\u00e9 hoje.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Nos estados selecionados, abarcando todas as regi\u00f5es do Brasil, foram escolhidas sempre a capital e mais um ou dois munic\u00edpios que estivessem em um raio de at\u00e9 100 km desta. A amostra teve 102 escolas de capitais e 94 de outros munic\u00edpios; 100 escolas estaduais e 96 municipais. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A coleta de dados envolveu quatro procedimentos: observa\u00e7\u00e3o de campo; entrevistas com diretores, coordenadores pedag\u00f3gicos e respons\u00e1veis por bibliotecas; grupos focais com estudantes e professores; entrevistas com pais e comunidade. Foram realizados 86 grupos focais, 46 com alunos e 40 com professores e membros de equipes pedag\u00f3gicas. J\u00e1 a pesquisa quantitativa ouviu 359 estudantes, 303 professores, 200 diretores, 5 bibliotec\u00e1rios, 152 respons\u00e1veis por bibliotecas, 31 pais e 37 profissionais da educa\u00e7\u00e3o que desempenham fun\u00e7\u00f5es diversas. Chama a aten\u00e7\u00e3o o baixo n\u00famero de bibliotec\u00e1rios com forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, categoria em extin\u00e7\u00e3o nas escolas. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> As recomenda\u00e7\u00f5es do estudo\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> &#8211; Aperfei\u00e7oar canais de comunica\u00e7\u00e3o entre o MEC e as escolas, fomentando maior participa\u00e7\u00e3o da comunidade escolar nas defini\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> &#8211; Investir na forma\u00e7\u00e3o dos profissionais respons\u00e1veis por bibliotecas e em todos os professores &#8211; n\u00e3o s\u00f3 nos de l\u00edngua portuguesa &#8211; para potencializar a efetiva\u00e7\u00e3o do trabalho de literatura na escola;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> &#8211; Incentivar o concurso p\u00fablico para profissionais com forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na \u00e1rea para o trabalho em bibliotecas escolares;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> &#8211; Ampliar a distribui\u00e7\u00e3o de livros para escolas, considerando as especificidades dos estudantes da educa\u00e7\u00e3o infantil, de jovens e adultos (principalmente em processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o) e do ensino m\u00e9dio;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> &#8211; Destinar recursos espec\u00edficos para a aquisi\u00e7\u00e3o de livros e obras de refer\u00eancia em conson\u00e2ncia com a demanda da pr\u00f3pria escola, al\u00e9m da continuidade da distribui\u00e7\u00e3o de acervos coletivos.\u00a0<br \/>  \u00a0<br \/>  \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu afirmo que a biblioteca \u00e9 intermin\u00e1vel\u201c, diz o narrador do conto Biblioteca de Babel, escrito ainda nos anos 40 pelo argentino Jorge Luis Borges. 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