{"id":22273,"date":"2026-06-01T17:56:45","date_gmt":"2026-06-01T20:56:45","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=22273"},"modified":"2026-06-01T17:56:45","modified_gmt":"2026-06-01T20:56:45","slug":"entender-matematica-nao-pode-ser-privilegio-de-poucos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/entender-matematica-nao-pode-ser-privilegio-de-poucos\/","title":{"rendered":"\u201cEntender matem\u00e1tica n\u00e3o pode ser privil\u00e9gio de poucos\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Professora da rede p\u00fablica, pesquisadora da USP e ex-secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do MEC, Katia Smole re\u00fane uma trajet\u00f3ria marcada pela atua\u00e7\u00e3o em diferentes frentes da educa\u00e7\u00e3o brasileira. Nesta entrevista \u00e0 Abrelivros em Pauta, ela fala sobre os desafios do ensino de matem\u00e1tica no pa\u00eds, a import\u00e2ncia da forma\u00e7\u00e3o docente, o papel estrat\u00e9gico do PNLD e os caminhos para consolidar pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 aprendizagem matem\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea foi professora de rede p\u00fablica, pesquisadora na USP e Secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do MEC. O que cada uma dessas experi\u00eancias te ensinou sobre o que realmente funciona no ensino de matem\u00e1tica no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><em>Minha trajet\u00f3ria como professora me ensinou o valor que tem um professor de matem\u00e1tica acreditar que todos s\u00e3o capazes de aprender. Como dei aula para turmas de Ensino M\u00e9dio, tive muitos estudantes que n\u00e3o sabiam matem\u00e1tica, tinham medo. Foi sendo professora deles que comecei a pensar como equilibrar a necessidade de ensinar os temas da s\u00e9rie em que estavam e, ao mesmo tempo, retomar conceitos n\u00e3o aprendidos por eles, ajud\u00e1-los a ter autoconfian\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>Lecionei em cursos de magist\u00e9rio e isso me deu outra aprendizagem importante: cada futura professora precisava saber matem\u00e1tica, entender como o estudante aprende e em que fase deveria aprender o que.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando passei a trabalhar no Centro de Aperfei\u00e7oamento do Ensino da Matem\u00e1tica (CAEM), pude ampliar meu conhecimento sobre forma\u00e7\u00e3o continuada de professores, pol\u00edticas p\u00fablicas, curr\u00edculos, materiais did\u00e1ticos e aprendizagem. No Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), como secret\u00e1ria da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, tive mais clareza da import\u00e2ncia das pol\u00edticas p\u00fablicas e da integra\u00e7\u00e3o entre os diferentes segmentos da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica. Tamb\u00e9m entendi o quanto o MEC n\u00e3o consegue atuar sem o pacto interfederativo: o regime de colabora\u00e7\u00e3o com os estados e munic\u00edpios \u00e9 fundamental.<\/em><\/p>\n<p><em>Foi durante esse per\u00edodo tamb\u00e9m que pude entender o imenso valor do PNLD, talvez o \u00fanico programa que, de fato, chega a todas as escolas e aos rinc\u00f5es do Brasil. \u00c9 um exemplo vivo da import\u00e2ncia de continuidade e aprimoramento em pol\u00edticas educacionais.<\/em><\/p>\n<p><strong>Os dados do PISA e do Saeb mostram dificuldades e a import\u00e2ncia da aprendizagem em matem\u00e1tica. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, quais s\u00e3o os desafios e o que a Pol\u00edtica Nacional de Matem\u00e1tica prop\u00f5e para enfrent\u00e1-las?<\/strong><\/p>\n<p><em>Os dados do PISA e do Saeb mostram que o Brasil enfrenta desafios profundos em matem\u00e1tica. O primeiro \u00e9 de aprendizagem, uma vez que muitos estudantes avan\u00e7am na escolariza\u00e7\u00e3o sem dominar conhecimentos essenciais, o que compromete n\u00e3o apenas o desempenho na pr\u00f3pria matem\u00e1tica, mas tamb\u00e9m outras aprendizagens e sua participa\u00e7\u00e3o plena na vida social. Esse primeiro desafio faz com que tenhamos que seguir estruturando pol\u00edticas de recomposi\u00e7\u00e3o de aprendizagens. O segundo desafio \u00e9 pedag\u00f3gico, uma vez que ainda predomina, em muitas salas de aula, um ensino centrado no treino mec\u00e2nico, na memoriza\u00e7\u00e3o de regras e na repeti\u00e7\u00e3o de procedimentos, com pouco espa\u00e7o para racioc\u00ednio, argumenta\u00e7\u00e3o, resolu\u00e7\u00e3o de problemas e constru\u00e7\u00e3o de sentido.<\/em><\/p>\n<p><em>No Brasil, o debate p\u00fablico sobre a educa\u00e7\u00e3o elegeu um protagonista claro: a capacidade de ler e escrever em l\u00edngua materna. Compreens\u00edvel, visto que o analfabetismo funcional em portugu\u00eas \u00e9 uma barreira evidente para o exerc\u00edcio da cidadania. No entanto, isso trouxe duas consequ\u00eancias, uma foi exatamente a aus\u00eancia de uma pol\u00edtica com foco em matem\u00e1tica, ou mais clareza de como a aprendizagem da matem\u00e1tica deveria estar inclu\u00edda nas a\u00e7\u00f5es de alfabetiza\u00e7\u00e3o &#8211; algo que o Compromisso Nacional Toda Matem\u00e1tica visa corrigir. A outra consequ\u00eancia \u00e9 que estimulamos pouco o pensamento matem\u00e1tico na Educa\u00e7\u00e3o Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental, apesar de as habilidades matem\u00e1ticas iniciais serem preditoras importantes do desempenho futuro em matem\u00e1tica, leitura e linguagem.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando a crian\u00e7a aprende a lidar com no\u00e7\u00f5es de quantidade, espa\u00e7o, ordem, compara\u00e7\u00e3o e medida, ela amplia sua capacidade de organizar o pensamento e compreender o mundo. \u00c9 importante que isso seja profundamente revisto. Outro desafio central \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o inicial de professores. Saber matem\u00e1tica e saber ensinar matem\u00e1tica s\u00e3o coisas diferentes, mas que precisam estar interligadas.<\/em><\/p>\n<p><em>Muitos estudantes, especialmente adolescentes e jovens, dizem n\u00e3o gostar de matem\u00e1tica, sentem medo ou ansiedade diante das avalia\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se veem capazes de aprender ou n\u00e3o enxergam utilidade no que estudam. Isso tem rela\u00e7\u00e3o com o mito, naturalizado por d\u00e9cadas, de que matem\u00e1tica \u00e9 dif\u00edcil, inacess\u00edvel ou \u201cpara poucos\u201d. Essa cren\u00e7a produz baixas expectativas e penaliza, sobretudo, os estudantes mais vulner\u00e1veis.<\/em><\/p>\n<p><em>O Compromisso Nacional Toda Matem\u00e1tica (CNTM), lan\u00e7ado pelo MEC, \u00e9 uma resposta importante, mas tamb\u00e9m tem seus desafios. O primeiro \u00e9 garantir continuidade, porque, uma pol\u00edtica seja ela qual for, precisa ser perene, atravessar gest\u00f5es, ter recursos e n\u00e3o se limitar a uma a\u00e7\u00e3o pontual. O segundo \u00e9 assegurar coer\u00eancia entre curr\u00edculo, avalia\u00e7\u00e3o, materiais did\u00e1ticos e forma\u00e7\u00e3o de professores, para que todos esses elementos apontem na mesma dire\u00e7\u00e3o. O terceiro \u00e9 apoiar efetivamente as redes na implementa\u00e7\u00e3o, respeitando suas diferentes capacidades t\u00e9cnicas, desigualdades regionais e condi\u00e7\u00f5es reais de trabalho nas escolas. O quarto \u00e9 acompanhar resultados sem reduzir a pol\u00edtica a metas num\u00e9ricas: \u00e9 preciso medir avan\u00e7os, mas tamb\u00e9m observar se a experi\u00eancia de aprendizagem est\u00e1 mudando em sala de aula. Creio que um apoio importante para o CNTM foi a inclus\u00e3o de metas espec\u00edficas para matem\u00e1tica no novo Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o 2026-2036. Entender matem\u00e1tica n\u00e3o pode ser privil\u00e9gio de poucos. \u00c9 um direito de todos os estudantes.<\/em><\/p>\n<p><strong>Para muitos professores da rede p\u00fablica, o livro did\u00e1tico \u00e9 o principal recurso pedag\u00f3gico dispon\u00edvel. Como um material de qualidade, e bem usado, pode mudar o resultado do aluno em matem\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p><em>Para muitos professores da rede p\u00fablica, o livro did\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 apenas o principal recurso pedag\u00f3gico dispon\u00edvel; em muitos casos, \u00e9 o principal organizador do trabalho em sala de aula. Por isso, um material de qualidade, bem escolhido e bem usado, pode fazer muita diferen\u00e7a no resultado dos estudantes em matem\u00e1tica. <\/em><em>Bons materiais n\u00e3o se limitam a uma sequ\u00eancia de exerc\u00edcios. Eles organizam situa\u00e7\u00f5es em que os alunos precisam raciocinar, argumentar, resolver problemas, desenvolver flu\u00eancia e flexibilidade de pensamento matem\u00e1tico, com compreens\u00e3o e sentido para os conceitos matem\u00e1ticos. Outro ponto fundamental \u00e9 o uso pedag\u00f3gico do erro. Em matem\u00e1tica, o erro n\u00e3o pode ser tratado apenas como falha. Quando o material ajuda o professor a analisar os erros dos estudantes, discutir diferentes estrat\u00e9gias e compreender os caminhos de pensamento da turma, ele transforma o erro em motor de aprendizagem.<\/em><\/p>\n<p><em>O PNLD tem enorme import\u00e2ncia para o pa\u00eds e precisa estar cada vez mais articulado aos pressupostos do Compromisso Nacional Toda Matem\u00e1tica. Isso significa que as obras devem apoiar uma matem\u00e1tica mais voltada \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de problemas, ao racioc\u00ednio, \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de sentido e \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o das aprendizagens \u2014 especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental, etapa em que muitos estudantes acumulam lacunas importantes e passam a se afastar da matem\u00e1tica.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o basta selecionar bons materiais, \u00e9 preciso garantir que todos os estudantes recebam, usem e tenham continuidade no trabalho com esses recursos. A qualidade da obra, a escolha feita pelas redes e escolas, a forma\u00e7\u00e3o dos professores para o uso do material e a chegada efetiva do livro ao aluno precisam ser vistas como partes de uma mesma pol\u00edtica p\u00fablica para que sua relev\u00e2ncia se traduza em aprendizagem.<\/em><\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea espera ver acontecer no ensino de matem\u00e1tica no Brasil nos pr\u00f3ximos anos, e qual \u00e9 a mensagem que voc\u00ea deixa para professores, gestores e todos que trabalham com livros e materiais educativos?<\/strong><\/p>\n<p><em>Demos, recentemente, passos important\u00edssimos colocando a matem\u00e1tica no PNE e com o lan\u00e7amento do Toda Matem\u00e1tica. Mas \u00e9 preciso fazer muito mais e logo. Espero que alcancemos a consolida\u00e7\u00e3o de uma cultura de implementa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e firme do ensino de matem\u00e1tica. Pa\u00edses que melhoraram nessa \u00e1rea revolucionaram o ensino combinando continuidade das pol\u00edticas de Estado, consist\u00eancia das metodologias de ensino e investimentos de longo prazo.<\/em><\/p>\n<p><em>Precisamos investir em Coer\u00eancia Pedag\u00f3gica Sist\u00eamica (CPS) &#8211; conceito desenvolvido pelo Instituto Re\u00fana que concretiza nossa premissa sobre a import\u00e2ncia de um sistema que tem o curr\u00edculo no centro e, ao redor dele, o material did\u00e1tico, a avalia\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o docente.<\/em><\/p>\n<p><em>Todos temos de acreditar firmemente no potencial de aprendizagem de cada crian\u00e7a, adolescente e jovem, combatendo as baixas expectativas. Matem\u00e1tica tem que ser acess\u00edvel a todos: isso n\u00e3o pode ser tratado somente como uma meta. \u00c9 um imperativo de justi\u00e7a social e cidadania.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora da rede p\u00fablica, pesquisadora da USP e ex-secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do MEC, Katia Smole re\u00fane uma trajet\u00f3ria marcada pela atua\u00e7\u00e3o em diferentes frentes da educa\u00e7\u00e3o brasileira. 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