{"id":22222,"date":"2026-04-30T15:40:10","date_gmt":"2026-04-30T18:40:10","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=22222"},"modified":"2026-04-30T15:40:10","modified_gmt":"2026-04-30T18:40:10","slug":"inovacao-consistente-exige-direcao-criterio-e-condicoes-reais-de-implementacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/inovacao-consistente-exige-direcao-criterio-e-condicoes-reais-de-implementacao\/","title":{"rendered":"\u201cInova\u00e7\u00e3o consistente exige dire\u00e7\u00e3o, crit\u00e9rio e condi\u00e7\u00f5es reais de implementa\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<p>A Abrelivros em Pauta de abril conversa com Priscilla Campiolo Manesco, pedagoga, mestre em Hist\u00f3ria e especialista em Doc\u00eancia no Ensino Superior. Atua como Gerente T\u00e9cnica Acad\u00eamica da Escola de Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o na Vitru Educa\u00e7\u00e3o, com mais de 25 anos de experi\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o de professores. \u00c9 avaliadora do Sinaes e integrante da Comiss\u00e3o de Elabora\u00e7\u00e3o e Revis\u00e3o de Itens do Enade. Professora de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, dedica-se \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas docentes e ao desenvolvimento de educadores com vis\u00e3o de futuro.<\/p>\n<p>Na entrevista, Priscilla falou sobre o avan\u00e7o da intelig\u00eancia artificial na educa\u00e7\u00e3o exige menos uma resposta tecnol\u00f3gica e mais uma reorganiza\u00e7\u00e3o institucional, com diretrizes claras, forma\u00e7\u00e3o docente para o discernimento e materiais did\u00e1ticos como eixo de coer\u00eancia pedag\u00f3gica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Diante do avan\u00e7o da intelig\u00eancia artificial tamb\u00e9m na Educa\u00e7\u00e3o, de que forma essas ferramentas podem contribuir para otimizar parte das rotinas pedag\u00f3gicas e dialogar com materiais did\u00e1ticos e conte\u00fados educacionais na promo\u00e7\u00e3o da aprendizagem?<\/strong><\/p>\n<p><em>A contribui\u00e7\u00e3o mais consistente da IA na educa\u00e7\u00e3o, na minha leitura, n\u00e3o est\u00e1 na aula em si, mas antes dela, no planejamento do trabalho pedag\u00f3gico. Hoje, uma parte relevante do tempo dos docentes \u00e9 consumida por tarefas t\u00e9cnicas, repetitivas e burocr\u00e1ticas: elabora\u00e7\u00e3o de rubricas, organiza\u00e7\u00e3o de sequ\u00eancias did\u00e1ticas, adapta\u00e7\u00e3o de atividades por n\u00edvel de complexidade, sistematiza\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios avaliativos, preenchimento de relat\u00f3rios padronizados. N\u00e3o s\u00e3o tarefas simples \u2014 exigem rigor \u2014, mas s\u00e3o operacionais. \u00c9 exatamente nesse ponto que a IA pode atuar como copiloto, oferecendo vers\u00f5es iniciais que o professor analisa, ajusta e contextualiza.<\/em><\/p>\n<p><em>Isso tem um efeito direto: reorganiza a aloca\u00e7\u00e3o do tempo. Ao reduzir o esfor\u00e7o nas etapas operacionais, amplia-se o espa\u00e7o para aquilo que nenhuma tecnologia substitui \u2014 leitura de contexto, interpreta\u00e7\u00e3o das necessidades dos estudantes, constru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo e tomada de decis\u00e3o pedag\u00f3gica qualificada.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando pensamos na rela\u00e7\u00e3o com materiais did\u00e1ticos e conte\u00fados educacionais, a l\u00f3gica \u00e9 a mesma. A IA n\u00e3o substitui o conte\u00fado estruturado \u2014 ao contr\u00e1rio, passa a depender ainda mais dele como refer\u00eancia de qualidade e alinhamento. O que muda \u00e9 a capacidade de desdobrar conte\u00fados em diferentes n\u00edveis de aprofundamento; gerar varia\u00e7\u00f5es de atividades a partir de um mesmo material; apoiar a organiza\u00e7\u00e3o de percursos de aprendizagem mais ajustados aos diferentes ritmos.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas esse uso s\u00f3 \u00e9 consistente quando h\u00e1 intencionalidade pedag\u00f3gica e diretrizes claras. Sem isso, a IA tende a reproduzir respostas gen\u00e9ricas, descoladas do contexto, e pode at\u00e9 fragilizar a coer\u00eancia do processo educativo. Por isso, a discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre substituir materiais ou automatizar o ensino. \u00c9 sobre usar a intelig\u00eancia artificial para potencializar o uso qualificado dos conte\u00fados educacionais e liberar tempo para o que, de fato, impacta a aprendizagem.<\/em><\/p>\n<p><strong>No campo das pol\u00edticas p\u00fablicas, o Programa Nacional do Livro e do Material Did\u00e1tico (PNLD) evidencia a relev\u00e2ncia do livro did\u00e1tico na garantia de acesso a conte\u00fados de qualidade no Brasil. Como voc\u00ea avalia a perman\u00eancia e a import\u00e2ncia desse recurso em um ambiente escolar cada vez mais digital?<\/strong><\/p>\n<p><em>A perman\u00eancia do livro did\u00e1tico se torna ainda mais estrat\u00e9gica em um ambiente educacional atravessado pela digitaliza\u00e7\u00e3o e pela IA. Quanto maior a disponibilidade de informa\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de conte\u00fado, maior a necessidade de refer\u00eancia estruturada, validada e alinhada curricularmente. O livro did\u00e1tico cumpre exatamente esse papel. Ele \u00e9 um organizador do percurso de aprendizagem, com intencionalidade pedag\u00f3gica, progress\u00e3o de complexidade e curadoria qualificada.<\/em><\/p>\n<p><em>Em um cen\u00e1rio de expans\u00e3o de ferramentas digitais, o risco n\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do livro, mas a sua desvaloriza\u00e7\u00e3o diante de conte\u00fados fragmentados, muitas vezes descontextualizados ou sem rigor. E isso tem impacto direto na qualidade da aprendizagem. O livro (f\u00edsico ou digital) continua sendo um eixo de estabilidade pedag\u00f3gica.<\/em><\/p>\n<p><em>A IA, nesse contexto, n\u00e3o concorre com o material did\u00e1tico \u2014 ela passa a operar sobre ele. Quanto melhor o conte\u00fado de base, mais qualificado tende a ser o uso da IA. \u00c9 a partir desse referencial estruturado que se torna poss\u00edvel: adaptar atividades com coer\u00eancia; desdobrar conte\u00fados em diferentes n\u00edveis; organizar percursos mais ajustados aos ritmos de aprendizagem. Sem essa base, a IA tende a produzir respostas gen\u00e9ricas, com risco de inconsist\u00eancia conceitual.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 ainda um segundo ponto, de natureza p\u00fablica e estrutural: o PNLD garante equidade de acesso. Em um pa\u00eds marcado por desigualdades, a digitaliza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a, mas n\u00e3o elimina diferen\u00e7as de infraestrutura, conectividade e condi\u00e7\u00f5es de uso. Na minha avalia\u00e7\u00e3o, o material did\u00e1tico continua sendo uma das poucas garantias de acesso universal a conte\u00fados de qualidade. Portanto, a discuss\u00e3o n\u00e3o deve ser colocada como substitui\u00e7\u00e3o entre livro e tecnologia. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o qualificada entre conte\u00fado estruturado e novas ferramentas, preservando o papel do material did\u00e1tico como refer\u00eancia e utilizando a IA como apoio para ampliar suas possibilidades de uso.<\/em><\/p>\n<p><strong>Na sua vis\u00e3o, quais condi\u00e7\u00f5es institucionais e de forma\u00e7\u00e3o podem favorecer a ado\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es de forma consistente e alinhada \u00e0s necessidades das escolas?<\/strong><\/p>\n<p><em>A ado\u00e7\u00e3o consistente de inova\u00e7\u00e3o, especialmente quando falamos de IA come\u00e7a na pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um erro recorrente nesse debate: tratar inova\u00e7\u00e3o como iniciativa individual, quando, na pr\u00e1tica, ela depende de condi\u00e7\u00f5es estruturais claras. Sem isso, o que se tem \u00e9 uso pontual, heterog\u00eaneo e, muitas vezes, inconsistente por parte de algumas iniciativas isoladas.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu organizo essas condi\u00e7\u00f5es em tr\u00eas eixos.<\/em><\/p>\n<p><em>O primeiro \u00e9 governan\u00e7a. A institui\u00e7\u00e3o precisa definir, com clareza para quais finalidades a tecnologia pode ser utilizada; o que pode ou n\u00e3o ser delegado; quais s\u00e3o os crit\u00e9rios de qualidade esperados; e como se d\u00e1 a supervis\u00e3o humana.<\/em><\/p>\n<p><em>Sem esse direcionamento, o uso tende ao improviso. E improviso, em educa\u00e7\u00e3o, compromete coer\u00eancia e equidade. Esse ponto dialoga diretamente com diretrizes recentes do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e com a agenda de prote\u00e7\u00e3o de dados da Autoridade Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados, especialmente quando envolve informa\u00e7\u00f5es de estudantes.<\/em><\/p>\n<p><em>O segundo eixo \u00e9 forma\u00e7\u00e3o. Mas, forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser treinamento de ferramenta. Precisa ser forma\u00e7\u00e3o para discernimento profissional. Isso implica desenvolver a capacidade de avaliar quando usar e quando n\u00e3o usar; interpretar criticamente as respostas geradas; ajustar o material ao contexto real; e manter o julgamento pedag\u00f3gico como inst\u00e2ncia final. Sem esse n\u00edvel de maturidade, a tecnologia vira atalho \u2014 n\u00e3o solu\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>O terceiro eixo \u00e9 organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Se a estrutura de tempo permanece a mesma, a inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta. \u00c9 preciso garantir espa\u00e7o para planejamento, troca entre pares e uso intencional das ferramentas. Caso contr\u00e1rio, adiciona-se mais uma demanda sobre uma rotina j\u00e1 sobrecarregada e o efeito tende a ser rejei\u00e7\u00e3o ou uso superficial.<\/em><\/p>\n<p><em>No fundo, a quest\u00e3o \u00e9 menos tecnol\u00f3gica e mais institucional. Inova\u00e7\u00e3o consistente exige dire\u00e7\u00e3o, crit\u00e9rio e condi\u00e7\u00f5es reais de implementa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Em meio \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, cresce tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o em preservar dimens\u00f5es essencialmente humanas do processo de ensinar e aprender. Nesse cen\u00e1rio, como voc\u00ea percebe o papel de professores, livros e pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas ao acesso educacional?<\/strong><\/p>\n<p><em>A incorpora\u00e7\u00e3o de tecnologias tende a deslocar o debate para efici\u00eancia e escala. Mas, em educa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um limite claro: o que \u00e9 essencialmente humano n\u00e3o pode ser terceirizado. E \u00e9 justamente nesse ponto que o papel dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o, dos materiais estruturados e das pol\u00edticas p\u00fablicas se torna ainda mais cr\u00edtico.<\/em><\/p>\n<p><em>O papel dos docentes n\u00e3o diminui com a tecnologia \u2014 se redefine com mais exig\u00eancia. Quando a IA assume parte das etapas operacionais, o que permanece (e se intensifica) \u00e9 o que exige julgamento: leitura de contexto, media\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, constru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo com estudantes, desenvolvimento de habilidades socioemocionais, interpreta\u00e7\u00e3o das dificuldades e tomada de decis\u00e3o pedag\u00f3gica. N\u00e3o se trata de \u201cpreservar o humano\u201d como um valor abstrato, mas de reposicionar o humano onde ele \u00e9 e sempre ser\u00e1 insubstitu\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p><em>Os materiais did\u00e1ticos, por sua vez, ganham uma fun\u00e7\u00e3o ainda mais estrat\u00e9gica. Em um ambiente com abund\u00e2ncia de conte\u00fado e gera\u00e7\u00e3o automatizada, eles deixam de ser apenas suporte e passam a ser refer\u00eancia de qualidade, coer\u00eancia e progress\u00e3o de aprendizagem. S\u00e3o eles que sustentam a intencionalidade pedag\u00f3gica e evitam a fragmenta\u00e7\u00e3o do processo educativo. A tecnologia pode ampliar o uso desses materiais, mas n\u00e3o substitui a curadoria e o rigor que eles carregam sob supervis\u00e3o humana.<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 as pol\u00edticas p\u00fablicas cumprem um papel estruturante: garantir equidade e estabelecer limites de uso. Em um pa\u00eds marcado por desigualdades, assegurar acesso a conte\u00fado de qualidade continua sendo central \u2014 e programas como o Programa Nacional do Livro e do Material Did\u00e1tico seguem fundamentais nesse sentido. Ao mesmo tempo, o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico exige diretrizes claras sobre uso de dados, crit\u00e9rios de ado\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o de direitos, agenda que vem sendo tensionada por \u00f3rg\u00e3os como a Autoridade Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados.<\/em><\/p>\n<p><em>Portanto, n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o entre tecnologia e dimens\u00e3o humana. O que h\u00e1 \u00e9 uma necessidade de reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema: profissionais mais focados no que exige julgamento e media\u00e7\u00e3o; materiais como eixo de coer\u00eancia e qualidade; pol\u00edticas p\u00fablicas garantindo acesso, regula\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Para concluir, gostaria de acrescentar alguma reflex\u00e3o final sobre esse tema e os caminhos da educa\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos?<\/strong><\/p>\n<p><em>Se h\u00e1 uma reflex\u00e3o final que considero central, \u00e9 esta: a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 diante de uma escolha entre adotar ou n\u00e3o a intelig\u00eancia artificial \u2014 est\u00e1 diante de uma escolha sobre como ir\u00e1 se reorganizar diante dela nos pr\u00f3ximos anos.<\/em><\/p>\n<p><em>Nos pr\u00f3ximos anos, o principal movimento n\u00e3o ser\u00e1 tecnol\u00f3gico, ser\u00e1 institucional. Organiza\u00e7\u00f5es que conseguirem estruturar uso com intencionalidade \u2014 combinando conte\u00fado de qualidade, diretrizes claras, forma\u00e7\u00e3o consistente e prote\u00e7\u00e3o de dados \u2014 tendem a ampliar sua capacidade pedag\u00f3gica. As que tratarem a IA como solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida ou a simplesmente ignorarem correm o risco de gerar dois problemas: uso superficial ou atraso estrutural.<\/em><\/p>\n<p><em>Esse cen\u00e1rio exige um deslocamento importante. A discuss\u00e3o deixa de ser \u201cquais ferramentas usar\u201d e passa a ser: quais decis\u00f5es podem ser apoiadas por tecnologia e quais n\u00e3o podem; como garantir coer\u00eancia pedag\u00f3gica; como proteger estudantes em ambientes cada vez mais mediados por dados; como formar novos profissionais para atuar com discernimento, e n\u00e3o apenas com habilidades t\u00e9cnicas.<\/em><\/p>\n<p><em>Por isso, talvez a pergunta mais relevante n\u00e3o seja sobre o futuro da tecnologia na educa\u00e7\u00e3o, mas sobre o futuro da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o diante de novas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e organiza\u00e7\u00e3o do ensino. E essa \u00e9 uma decis\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 em curso.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Abrelivros em Pauta de abril conversa com Priscilla Campiolo Manesco, pedagoga, mestre em Hist\u00f3ria e especialista em Doc\u00eancia no Ensino Superior. 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