{"id":22081,"date":"2026-02-27T13:26:08","date_gmt":"2026-02-27T16:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=22081"},"modified":"2026-02-27T13:40:21","modified_gmt":"2026-02-27T16:40:21","slug":"a-primeira-estrategia-para-se-fortalecer-a-alfabetizacao-e-a-formacao-de-leitores-esta-na-garantia-do-acesso-ao-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-primeira-estrategia-para-se-fortalecer-a-alfabetizacao-e-a-formacao-de-leitores-esta-na-garantia-do-acesso-ao-livro\/","title":{"rendered":"\u201cA primeira estrat\u00e9gia para se fortalecer a alfabetiza\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de leitores est\u00e1 na garantia do acesso ao livro\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Na Abrelivros em Pauta deste m\u00eas, Fernando Oliveira analisa o papel do livro did\u00e1tico e do livro liter\u00e1rio nos anos iniciais da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e sua relev\u00e2ncia para a garantia do direito \u00e0 aprendizagem. Professor do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Unifesp, \u00e9 coordenador do curso de Pedagogia da institui\u00e7\u00e3o e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Alfabetiza\u00e7\u00e3o (ABAlf). Tamb\u00e9m lidera o NIPELL e coordena o CRELLIJ, centros dedicados aos estudos sobre ensino de l\u00edngua, leitura e literatura infantil e juvenil. Na entrevista, ele discute como materiais estruturados, aliados \u00e0 media\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, contribuem para o desenvolvimento da compreens\u00e3o leitora e do pensamento cr\u00edtico. Destaca ainda a import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas cont\u00ednuas, como os Programas do Livro, para ampliar o acesso a obras de qualidade e reduzir desigualdades educacionais no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor avalia o papel do livro did\u00e1tico e do livro liter\u00e1rio no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o, especialmente nos anos iniciais da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica?<\/strong><\/p>\n<p><em>Apesar de toda a pol\u00eamica e controv\u00e9rsia envolvida no debate sobre o papel do livro did\u00e1tico na escola, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que esse tipo de material, assim como os livros liter\u00e1rios, ocupa um papel expressivo no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o de leitores. A partir da colet\u00e2nea de textos que os LDs apresentam, de suas propostas de organiza\u00e7\u00e3o e sistematiza\u00e7\u00e3o de saberes e dos temas e assuntos que abordam, esses materiais favorecem processos did\u00e1ticos que levam as crian\u00e7as, associadamente \u00e0 a\u00e7\u00e3o docente, a interagir com um universo amplo de significa\u00e7\u00f5es ligadas ao uso da l\u00edngua e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de modos de ver o mundo, o outro e a si mesmo. N\u00e3o h\u00e1 como desconsiderar o papel que o LD desempenha no contexto escolar como indutor de pr\u00e1ticas de alfabetiza\u00e7\u00e3o mais efetivas e significativas, principalmente quando pensamos em realidades em que o acesso aos objetos da cultura escrita n\u00e3o ocorre de maneira ampla, variada e frequente.<\/em><\/p>\n<p><em>O LD \u00e9 historicamente um objeto das culturas escritas. Num pa\u00eds como o Brasil, em que as desigualdades de acesso a essas culturas s\u00e3o profundas e latentes, esse tipo de material corrobora para amenizar alguns aspectos dessas desigualdades. Al\u00e9m disso, quando se apresentam como materiais de qualidade, tamb\u00e9m contribuem para auxiliar na organiza\u00e7\u00e3o dos processos did\u00e1ticos em torno da aprendizagem da leitura e da escrita, o que n\u00e3o significa de maneira alguma a substitui\u00e7\u00e3o do trabalho docente de planejamento de suas aulas e da constru\u00e7\u00e3o de uma rotina alfabetizadora. Destaco tamb\u00e9m o imprescind\u00edvel papel dos livros liter\u00e1rios no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Eles operam diretamente na forma\u00e7\u00e3o de leitores para os diferentes pap\u00e9is que a leitura pode assumir (ler para se divertir, ler para conhecer, ler para aprender, ler para pensar sobre jogo l\u00fadico da linguagem), em especial no entendimento da leitura como instrumento de forma\u00e7\u00e3o humana, forjada na experi\u00eancia coletiva e no contato com modos de ver o mundo pela \u00f3tica e pela viv\u00eancia de outros sujeitos. \u00c9 fundamental destacar as potencialidades que os livros did\u00e1ticos e liter\u00e1rios t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o direta, primeiro, com a pr\u00f3pria qualidade que esses materiais apresentam, do grau de abertura cr\u00edtica e reflexiva que permitem; segundo, como os seus usos a partir do trabalho estruturado pelos professores. N\u00e3o h\u00e1 obra did\u00e1tica ou liter\u00e1ria que, por si s\u00f3, possa dar conta dos desafios que temos pela frente na garantia do direito \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 preciso reconhecer que esses objetos de nossa cultura escrita contribuem diretamente para pr\u00e1ticas mais significativas e eficazes de ensino da leitura e da escrita. Por isso, negar ou impedir o acesso a eles \u00e9 tamb\u00e9m negar ou impedir o acesso a bens de ineg\u00e1vel valor sociocultural, portanto, de direito das crian\u00e7as, jovens, adultos e idosos em processo de escolariza\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p><strong>De que forma materiais estruturados, aliados \u00e0 media\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, contribuem para o desenvolvimento da compreens\u00e3o leitora e do pensamento cr\u00edtico das crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><em>Em nossa sociedade, em que a escrita regula muitas de nossas a\u00e7\u00f5es cotidianas, saber ler e escrever em sentido amplo se imp\u00f5e como necessidade e direito. Por\u00e9m, quando falamos em aprendizagem da leitura e da escrita, estamos tratando de algo que vai muito al\u00e9m do reconhecimento da natureza fonol\u00f3gica do nosso sistema de escrita, em que um conjunto definido de grafemas (letras) representa fonemas (sons que produzimos na fala). Dizer isso, embora possa parecer \u00f3bvio, \u00e9 fundamental, pois tem um impacto direto no que entendemos por alfabetiza\u00e7\u00e3o e, consequentemente, por materiais de qualidade estruturados para o ensino da l\u00edngua portuguesa para crian\u00e7as em fase inicial de escolariza\u00e7\u00e3o. Uma vez que os materiais ocupam o papel de suporte ou apoio nas pr\u00e1ticas de aprendizagem da leitura e da escrita, eles requerem uma certa abrang\u00eancia e densidade, que permitam, tanto aos estudantes, quanto aos professores, perpassarem as diferentes dimens\u00f5es envolvidas na alfabetiza\u00e7\u00e3o. Claro que os materiais did\u00e1ticos, sozinhos, n\u00e3o d\u00e3o conta de abranger tudo o que \u00e9 preciso ensinar na escola em termos de pr\u00e1ticas de leitura e escrita, mas, especialmente em realidades em que esses materiais s\u00e3o praticamente os \u00fanicos dispon\u00edveis, eles possibilitam o encontro dos estudantes com textos, assuntos e reflex\u00f5es que talvez nunca chegassem at\u00e9 eles sem a a\u00e7\u00e3o mediadora de um material did\u00e1tico. Associadamente a isso, o trabalho mediador docente se coloca no epicentro do processo formativo leitor e do pensamento cr\u00edtico das crian\u00e7as. \u00c9 na intera\u00e7\u00e3o com o professor que as crian\u00e7as podem superar dificuldades, ampliar seu repert\u00f3rio cultural, desenvolver estrat\u00e9gias de interpreta\u00e7\u00e3o e de leitura da realidade, que concorrem diretamente para a sua forma\u00e7\u00e3o. Nessa l\u00f3gica, os professores, amparados em materiais did\u00e1ticos de qualidade, podem exercer um papel facilitador e direcionador da atividade intelectual das crian\u00e7as justamente no intervalo entre o que elas s\u00e3o capazes de fazer sozinhas e o que podem realizar com a ajuda de algu\u00e9m mais experiente. Ainda que a aprendizagem da compet\u00eancia leitora e do pensamento cr\u00edtico tenha, nesse direcionamento, sua base assentada na atividade pr\u00f3pria das crian\u00e7as, \u00e9 a media\u00e7\u00e3o, humana e material, que pode propiciar a sua realiza\u00e7\u00e3o como um tipo de saber na zona de desenvolvimento proximal. O contato com g\u00eaneros textuais diversos, com assuntos\/temas advindos de realidades distintas, a possibilidade de ouvir ou tomar contato com posicionamentos e viv\u00eancias variadas, assim como o de poder pensar, refletir e discutir quest\u00f5es que perpassam m\u00faltiplos interesses \u00e9 o que corrobora para a forma\u00e7\u00e3o efetiva de leitores aut\u00f4nomos e cr\u00edticos. <\/em><\/p>\n<p><strong>Na sua avalia\u00e7\u00e3o, qual \u00e9 a import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas cont\u00ednuas, como os Programas do Livro, para garantir o acesso equitativo a livros de qualidade desde o in\u00edcio da vida escolar?<\/strong><\/p>\n<p><em>As pol\u00edticas voltadas \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de livros s\u00e3o fundamentais e imprescind\u00edveis para a melhoria da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Isso porque elas exercem o papel de democratizar e universalizar o acesso de estudantes e de professores a materiais que nem sempre est\u00e3o dispon\u00edveis nas realidades vividas por eles, mas que se configuram como bens de ineg\u00e1vel valor para a participa\u00e7\u00e3o social cr\u00edtica, reflexiva e consciente em uma sociedade grafoc\u00eantrica. Destacam-se nessa l\u00f3gica, numa amplitude nacional, o PNLD, hoje Programa Nacional do Livro e do Material Did\u00e1tico, e o antigo PNBE \u2013 Programa Nacional Biblioteca na Escola.[RM1.1][A1.2][A1.3] Esses programas, pensados e estruturados como pol\u00edticas de estado, garantiram\/garantem h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas a distribui\u00e7\u00e3o equ\u00e2nime de materiais did\u00e1ticos e livros liter\u00e1rios por todas as escolas p\u00fablicas do pa\u00eds, entendendo esses livros como parte do direito fundamental de estudantes de professores. Por essa raz\u00e3o, tamb\u00e9m entendo que as pol\u00edticas do livro precisam assumir um escopo ainda maior, de maneira a garantir o acesso desses sujeitos a uma bibliodiversidade que d\u00ea conta de nossa pluralidade cultural e social. <\/em><\/p>\n<p><strong>A partir de sua experi\u00eancia como pesquisador, quais pr\u00e1ticas, pol\u00edticas ou estrat\u00e9gias t\u00eam se mostrado mais eficazes para fortalecer a alfabetiza\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o leitora nas escolas p\u00fablicas brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p><em>As pol\u00edticas p\u00fablicas de car\u00e1ter universal s\u00e3o imprescind\u00edveis. No entanto, somente o acesso ao livro n\u00e3o resolve a quest\u00e3o. \u00c9 preciso aliar as pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o dos livros com pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o continuada de professores, cujo foco se d\u00ea na forma\u00e7\u00e3o de mediadores de leitura e de professores alfabetizadores comprometidos e bem formados nos aspectos te\u00f3rico-pr\u00e1ticos que perpassam o ensino da leitura e da escrita. Exemplo disso s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es do Programa Leitura e Escrita na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, do Compromisso Nacional Crian\u00e7a Alfabetizada, ofertado \u00e0s redes municipais de ensino de todo o pa\u00eds em regime de colabora\u00e7\u00e3o entre Universidades p\u00fablicas federais e o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Quando os professores t\u00eam a possibilidade de uma forma\u00e7\u00e3o continuada s\u00f3lida, que parte da realidade das escolas, tendo professores e estudantes como protagonistas da a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, vemos um resultado bastante promissor no fortalecimento da alfabetiza\u00e7\u00e3o e da forma\u00e7\u00e3o de leitores. Um excelente acervo de obras liter\u00e1rias ou bons livros did\u00e1ticos n\u00e3o conseguem, sozinhos, garantir o ensino da leitura e da escrita, eles s\u00e3o suportes imprescind\u00edveis, mas n\u00e3o aut\u00f4nomos. \u00c9 a a\u00e7\u00e3o mediadora docente que transforma esses objetos de nossa cultura em dispositivos did\u00e1ticos potentes e que fortalecem as pr\u00e1ticas de alfabetiza\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o de leitores.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como o fortalecimento do livro na escola pode contribuir para a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades educacionais e para a constru\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o mais inclusiva e de qualidade no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><em>O livro precisa ser visto, no contexto escolar, como material que amplia, potencializa e fortalece a pr\u00e1tica docente. Trata-se de um material que precisa ser visto como aliado do professor e n\u00e3o como o seu substituto ou seu vil\u00e3o. Mesmo em contextos \u201cmais abastados\u201d de outros tipos de materiais did\u00e1ticos que d\u00e3o suporte \u00e0s pr\u00e1ticas de ensino da leitura e da escrita, os livros did\u00e1ticos, assim como os liter\u00e1rios, se somam \u00e0s a\u00e7\u00f5es envolvidas nesse processo, podendo ajudar a garantir, inclusive, uma maior organicidade e um olhar mais cr\u00edtico e consciente sobre o que e como ensinar. Os livros, em si, n\u00e3o s\u00e3o os detentores e propagadores dos saberes. Talvez eles guardem chaves, caminhos, que permitam a isso. Portanto, fortalece-los no contexto escolar, na mesma medida em que se fortalece a forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada de professores me parece ser a maneira mais promissora de se reduzir as desigualdades educacionais em nosso pa\u00eds.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Abrelivros em Pauta deste m\u00eas, Fernando Oliveira analisa o papel do livro did\u00e1tico e do livro liter\u00e1rio nos anos iniciais da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e sua relev\u00e2ncia para a garantia do direito \u00e0 aprendizagem. 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