{"id":2206,"date":"2008-05-06T10:45:00","date_gmt":"2008-05-06T13:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2008\/05\/06\/libertem-a-lingua\/"},"modified":"2008-05-06T10:45:00","modified_gmt":"2008-05-06T13:45:00","slug":"libertem-a-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/libertem-a-lingua\/","title":{"rendered":"Libertem a l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p>SENDO A ortografia uma pequena dimens\u00e3o da vida da l\u00edngua, seria leg\u00edtimo esperar que n\u00e3o fosse necess\u00e1rio o acordo ortogr\u00e1fico ou que, sendo-o, pudesse ser celebrado sem dificuldade nem drama. No caso da l\u00edngua portuguesa, assim n\u00e3o \u00e9, e h\u00e1 que refletir por qu\u00ea. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A raz\u00e3o fundamental reside no fantasma do colonialismo inverso que desde h\u00e1 s\u00e9culos assombra as rela\u00e7\u00f5es entre Portugal e Brasil. Por s\u00e9culos, a \u00fanica col\u00f4nia com prop\u00f3sitos de ocupa\u00e7\u00e3o efetiva no imp\u00e9rio portugu\u00eas, o Brasil, foi sempre e simultaneamente um tesouro e uma amea\u00e7a grandes demais para Portugal. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Ap\u00f3s um curto apogeu no s\u00e9culo 16, Portugal foi durante toda a modernidade ocidental capitalista um pa\u00eds semiperif\u00e9rico, isto \u00e9, um pa\u00eds de desenvolvimento interm\u00e9dio, desprovido dos recursos pol\u00edticos, financeiros e militares que lhe permitissem controlar eficazmente o seu imp\u00e9rio e us\u00e1-lo para seu exclusivo benef\u00edcio. Teve, pois, de o partilhar desde cedo com as outras pot\u00eancias imperiais europ\u00e9ias, e foi por conveni\u00eancia destas que ele se manteve at\u00e9 t\u00e3o tarde. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A partir do s\u00e9culo 18, Portugal foi simultaneamente o centro de um imp\u00e9rio e uma col\u00f4nia informal da Inglaterra. \u00c0 semiperifericidade de Portugal correspondeu a semicolonialidade do Brasil, t\u00e3o bem analisada por Antonio Candido, a id\u00e9ia contradit\u00f3ria de um pa\u00eds mal colonizado e superior ao colonizador, um pa\u00eds que resgatou a independ\u00eancia de Portugal e que, logo ap\u00f3s sua pr\u00f3pria independ\u00eancia, foi visto como uma amea\u00e7a aos interesses de Portugal na \u00c1frica. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A rela\u00e7\u00e3o colonizador-colonizado entre Brasil e Portugal foi sempre uma rela\u00e7\u00e3o \u00e0 beira do colapso ou \u00e0 beira da invers\u00e3o. At\u00e9 hoje. \u00c9 essa indefini\u00e7\u00e3o que torna t\u00e3o necess\u00e1rio quanto dif\u00edcil o acordo ortogr\u00e1fico. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Do lado portugu\u00eas, a posi\u00e7\u00e3o ante o acordo assenta sempre na id\u00e9ia de \u201crendi\u00e7\u00e3o ao Brasil\u201c, tanto para o aceitar como para o recusar. Em ambos os casos, o fantasma do colonialismo do inverso, em vez da id\u00e9ia libertadora do inverso do colonialismo. Acontece que hoje a inconseq\u00fc\u00eancia do acordo tem conseq\u00fc\u00eancias que n\u00e3o tinha, por exemplo, em 1911. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Em 1911, o acordo teve lugar entre dois pa\u00edses em que a l\u00edngua portuguesa era a l\u00edngua natural. No caso portugu\u00eas, o colonialismo proibia que as l\u00ednguas nacionais faladas nas col\u00f4nias fossem um problema ling\u00fc\u00edstico. No brasileiro, o colonialismo interno impedia que as l\u00ednguas ind\u00edgenas existissem. Portugal considerava-se o dono da l\u00edngua portuguesa, mas, porque n\u00e3o o era de fato, o acordo s\u00f3 come\u00e7ou a ser implementado em 1931. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Hoje s\u00e3o oito os pa\u00edses de l\u00edngua oficial portuguesa, e em seis deles a l\u00edngua portuguesa coexiste com outras l\u00ednguas nacionais, algumas delas mais faladas que o portugu\u00eas. Nesses pa\u00edses, o contexto da pol\u00edtica da l\u00edngua \u00e9 muito mais complexo. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Mexer no portugu\u00eas s\u00f3 faz sentido se se mexer nas l\u00ednguas nacionais, e mexer nestas, em pa\u00edses que h\u00e1 pouco sa\u00edram de uma guerra civil, pode ter conseq\u00fc\u00eancias bem mais graves que as do drama bufo luso-brasileiro. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Por essas raz\u00f5es, deviam ser esses pa\u00edses a decidir o desacordo, mas pelas mesmas raz\u00f5es \u00e9 pouco prov\u00e1vel que aceitassem tal magnanimidade. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Nesse contexto, a l\u00edngua portuguesa deve ser deixada em paz, entregue \u00e0 turbul\u00eancia da diversidade que torna poss\u00edvel que nos entendamos todos em portugu\u00eas. Revejo-me, pois, no coment\u00e1rio ir\u00f4nico e contradit\u00f3rio de Fernando Pessoa aos acordos ortogr\u00e1ficos, escrito em 1931, ano em que se implementava o acordo de 1911: \u201cOdeio&#8230; n\u00e3o quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escrita, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como o escarro directo que me eno- ja independentemente de quem o cuspisse. \u00a0<br \/> Sim, porque a orthographia tamb\u00e9m \u00e9 gente. A palavra \u00e9 completa vista e ouvida. E a gala da translittera\u00e7\u00e3o greco-romana veste-m\u2019a do seu vero manto regio, pelo qual \u00e9 senhora e rainha\u201c. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Apesar de transcrito na ortografia de Pessoa, foi dif\u00edcil entender esse passo? \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><em> BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS , 67, soci\u00f3logo portugu\u00eas, \u00e9 professor catedr\u00e1tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). \u00c9 autor, entre outros livros, de \u201cPara uma Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica da Justi\u00e7a\u201c (Cortez, 2007).\u00a0<br \/> <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SENDO A ortografia uma pequena dimens\u00e3o da vida da l\u00edngua, seria leg\u00edtimo esperar que n\u00e3o fosse necess\u00e1rio o acordo ortogr\u00e1fico ou que, sendo-o, pudesse ser celebrado sem dificuldade nem drama. 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