{"id":22035,"date":"2026-01-30T13:34:37","date_gmt":"2026-01-30T16:34:37","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=22035"},"modified":"2026-01-30T13:34:37","modified_gmt":"2026-01-30T16:34:37","slug":"a-leitura-e-direito-dos-sujeitos-e-dever-dos-estados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-leitura-e-direito-dos-sujeitos-e-dever-dos-estados\/","title":{"rendered":"\u201cA leitura \u00e9 direito dos sujeitos e dever dos Estados\u201d"},"content":{"rendered":"<p>A Abrelivros em Pauta abre o ano de 2026 trazendo uma entrevista com Eliana Yunes, especialista refer\u00eancia no campo da leitura, da forma\u00e7\u00e3o de leitores e das pol\u00edticas p\u00fablicas do livro.<\/p>\n<p>Professora universit\u00e1ria no Brasil entre 1970 e 2017 e professora visitante no exterior, Eliana tem forma\u00e7\u00e3o em Filosofia e Letras, doutorados em Lingu\u00edstica e Literatura, e trajet\u00f3ria marcada pela atua\u00e7\u00e3o como pesquisadora, cr\u00edtica e intelectual p\u00fablica. \u00c9 autora de importantes publica\u00e7\u00f5es nas \u00e1reas de interpreta\u00e7\u00e3o, teorias da leitura e forma\u00e7\u00e3o de leitores, com estudos inter e transdisciplinares que dialogam com Hermen\u00eautica, Educa\u00e7\u00e3o, Artes, Teologia e Pol\u00edticas P\u00fablicas.<\/p>\n<p>Ao longo de sua carreira, foi orientadora na UFRJ, na UERJ e na PUC-Rio, onde tamb\u00e9m dirigiu o Instituto Interdisciplinar de Leitura. Atuou como organizadora do Proler, da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, foi cocriadora da C\u00e1tedra Unesco de Leitura no Brasil e da RELER (Rede de Estudos Avan\u00e7ados em Leitura), al\u00e9m de ter participado como conselheira da Pol\u00edtica Nacional de Leitura.<\/p>\n<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o, Eliana reflete sobre a experi\u00eancia da leitura e sobre como o ato de ler interfere positivamente na vida das pessoas, seja na condi\u00e7\u00e3o de estudantes, seja na forma\u00e7\u00e3o mais ampla de cidad\u00e3s e cidad\u00e3os de uma sociedade que se escreve e se l\u00ea. A entrevista dialoga com temas centrais de sua obra, como o livro A experi\u00eancia da leitura, coorganizado por ela e por Maria Luiza Oswald, e reafirma a leitura como base da educa\u00e7\u00e3o, da vida democr\u00e1tica e da redu\u00e7\u00e3o das desigualdades.<\/p>\n<p><strong>A senhora costuma defender o livro como um direito. O que significa, na pr\u00e1tica, reconhecer a leitura como um direito fundamental na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><em>A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo pelo qual a pot\u00eancia de cada ser humano \u00e9 provocada e potencializada pela cultura, isto \u00e9, pelo acervo de saberes e conhecimentos partilhados por um povo, por uma coletividade. Esta participa\u00e7\u00e3o enriquece a vida comum, valoriza e melhora a forma de vida de todos e de cada um, tornando a capacidade criativa uma for\u00e7a de qualifica\u00e7\u00e3o e bem-estar em sua comunidade. Para sentir-se inserido como cidad\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio interpretar os jogos de linguagem que presidem os relacionamentos; a habilidade que preside todo o processo \u00e9 a da leitura, do mundo e das letras num primeiro momento e depois, das letras e do mundo. \u00c9 verdade que a grafia alfab\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica, mas entre as m\u00faltiplas linguagens ela hoje rege a interpreta\u00e7\u00e3o do que acontece e do que lhe acontece a cada um, desde a oralidade expressa em registros diversos at\u00e9 a digitalidade. Ler \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para sobreviver em qualquer ambiente, e de inser\u00e7\u00e3o social justa.<\/em><\/p>\n<p><strong>Na opini\u00e3o da senhora, qual \u00e9 o papel do PNLD na garantia do acesso democr\u00e1tico \u00e0 leitura, especialmente para crian\u00e7as e jovens que dependem da escola como principal espa\u00e7o de contato com o livro?<\/strong><\/p>\n<p><em>A desigualdade econ\u00f4mica e social entre diferentes camadas da popula\u00e7\u00e3o arrasta qualquer povo \u00e0 indig\u00eancia n\u00e3o apenas material, com \u00edndices graves de pobreza, mas tamb\u00e9m inviabiliza a dinamiza\u00e7\u00e3o cognitiva capaz de gerar novos horizontes \u00e0 vida no pa\u00eds. Ent\u00e3o, os estados democr\u00e1ticos que priorizam a riqueza humana frente ao ac\u00famulo de fortunas imorais, na maioria das vezes oriundas de oportunismos corruptos, precisam mobilizar-se e oferecer oportunidades mais equ\u00e2nimes, sobretudo para o acesso \u00e0s condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de direito: sa\u00fade, justi\u00e7a, seguran\u00e7a, que dependem da qualidade da educa\u00e7\u00e3o; esta, por sua vez, depende da leitura \u2013 do livro, das artes, das manifesta\u00e7\u00f5es populares e dos sistemas de governan\u00e7a pol\u00edtica. A porta de entrada mais generosa, seguramente \u00e9 a da literatura.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como o livro liter\u00e1rio contribui para a forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, a amplia\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rios culturais e o desenvolvimento da sensibilidade e do pensamento cr\u00edtico dos estudantes?<\/strong><\/p>\n<p><em>Nada h\u00e1 na vida humana, disse Jos\u00e9 Lu\u00eds Borges, que n\u00e3o esteja de mil e uma formas, relatada sob a forma expansiva da literatura, que sugere e alarga a compreens\u00e3o da realidade atrav\u00e9s do imagin\u00e1rio, com concis\u00e3o mobilizadora dos afetos e da intelig\u00eancia. Por isso, Ant\u00f4nio C\u00e2ndido insistia no direito \u00e0 literatura com sua dupla face art\u00edstica e social, capaz de provocar insights luminosos sobre estar no mundo entre outros, abrindo a subjetividade \u00e0 alteridade. A falta de conv\u00edvio com narrativas, com poesia, com imagens, estreita a vis\u00e3o que poderia fazer de cada sujeito, cidad\u00e3o do mundo e gente em sua casa. A literatura obriga o leitor a levantar os olhos da p\u00e1gina, no dizer de R Barthes, para enfim, entender a terra dos homens. No cotidiano, raras vezes enxergamos o que os olhos veem.<\/em><\/p>\n<p><strong>Na sua avalia\u00e7\u00e3o, de que forma pol\u00edticas p\u00fablicas cont\u00ednuas de leitura impactam a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades educacionais e fortalecem o pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><em>Uma palavrinha chave est\u00e1 na pergunta: cont\u00ednua. No Brasil, programas e projetos promissores para alcan\u00e7ar o fortalecimento de pol\u00edticas de leitura, ainda que de gabinete, por mais honestas e razo\u00e1veis que sejam, foram abortados por raz\u00f5es mesquinhas ou ardilosas, para manter a popula\u00e7\u00e3o distante do exerc\u00edcio do pensamento &#8211; que leva \u00e0 liberdade e \u00e0 criatividade, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social participativa e eficiente para atender \u00e0s realidades da vida ordin\u00e1ria. Acima tentei expor o impacto que nas vidas pessoais e da coletividade tem a leitura, como direito dos sujeitos e dever dos estados. A capacidade de pensar com as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, e buscar as que faltam, nasce da pr\u00e1tica de ouvir e dialogar, ler e expressar diferen\u00e7as para acordos inevit\u00e1veis na vida comum. Tornar-se pessoa, lembra Paul Ricoeur \u00e9 poder nomear e nomear-se entre seus pares.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Abrelivros em Pauta abre o ano de 2026 trazendo uma entrevista com Eliana Yunes, especialista refer\u00eancia no campo da leitura, da forma\u00e7\u00e3o de leitores e das pol\u00edticas p\u00fablicas do livro. 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