{"id":21741,"date":"2025-09-01T15:36:22","date_gmt":"2025-09-01T18:36:22","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=21741"},"modified":"2025-09-01T15:36:22","modified_gmt":"2025-09-01T18:36:22","slug":"a-ia-alcancara-um-nivel-muito-alto-de-maturidade-e-penetracao-social-e-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-ia-alcancara-um-nivel-muito-alto-de-maturidade-e-penetracao-social-e-cultura\/","title":{"rendered":"\u201cA IA alcan\u00e7ar\u00e1 um n\u00edvel muito alto de maturidade e penetra\u00e7\u00e3o social e cultura\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Na edi\u00e7\u00e3o deste m\u00eas da Abrelivros em Pauta, o argentino Daniel Benchimol compartilha sua vis\u00e3o sobre como o setor editorial deve se preparar para os impactos da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da intelig\u00eancia artificial. Autor de Modelos de neg\u00f3cios inovadores na ind\u00fastria editorial latino-americana, ele \u00e9 diretor da Proyecto451, ag\u00eancia que j\u00e1 apoiou mais de 350 editoras e organiza\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina e na Espanha em processos de transforma\u00e7\u00e3o digital. Nesta entrevista, Benchimol destacou os investimentos priorit\u00e1rios para garantir produtividade e qualidade e falou ainda sobre os riscos de vieses e desalinhamentos dos modelos de IA, refor\u00e7ando ainda a import\u00e2ncia da transpar\u00eancia e da responsabilidade editorial neste novo cen\u00e1rio. Benchimol veio ao Brasil a convite da C\u00e2mara Brasileira do Livro (CBL) para participar do 4\u00ba Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gr\u00e1ficos (EELDG).<\/p>\n<p><strong>Na sua palestra no Encontro, voc\u00ea destacou os \u201cpr\u00f3ximos 1.000 dias\u201d. Quais s\u00e3o as tr\u00eas decis\u00f5es de investimento que as editoras devem tomar para elevar a produtividade sem perder qualidade editorial?<\/strong><\/p>\n<p><em>A primeira seria investir em forma\u00e7\u00e3o, tanto no sentido mais tradicional, para que haja uma equipe robusta e bem capacitada nas tarefas do processo de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de livros, quanto no campo da inova\u00e7\u00e3o, incluindo novos formatos, modelos de neg\u00f3cio, expans\u00e3o para outras modalidades e, obviamente, tudo o que envolve intelig\u00eancia artificial. Considero essencial o desenvolvimento de uma pol\u00edtica interna clara sobre quais decis\u00f5es ser\u00e3o tomadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 IA, entendendo que essa tecnologia alcan\u00e7ar\u00e1 um n\u00edvel muito alto de maturidade e penetra\u00e7\u00e3o social e cultural.<\/em><\/p>\n<p><em>A segunda recomenda\u00e7\u00e3o seria investir em automatiza\u00e7\u00f5es. Realizamos muitas tarefas repetitivas e manuais, e j\u00e1 existe uma ampla gama de ferramentas que permitem automatizar tarefas rotineiras, liberando o tempo da equipe para atividades em que podem gerar maior valor. Na minha vis\u00e3o, a maioria dos projetos editoriais ainda opera com muita inefici\u00eancia, e esse \u00e9 um campo crucial de melhoria.<\/em><\/p>\n<p><em>A terceira recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 rever o desequil\u00edbrio que geralmente existe nos projetos editoriais entre o investimento em produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados e o investimento em comunica\u00e7\u00e3o e marketing. A fase de comunica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 cada vez mais relevante. Isso envolve estruturar uma base de dados de leitores, criar comunidades, expandir o alcance para outros mercados e pa\u00edses e desenvolver estrat\u00e9gias digitais. A fase de comunica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 indispens\u00e1vel porque a intelig\u00eancia artificial tende a democratizar a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, tornando cada vez mais f\u00e1cil produzir e consumir materiais satisfat\u00f3rios. Nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o basta apenas oferecer um conte\u00fado de alta qualidade; ser\u00e1 necess\u00e1rio tamb\u00e9m ter recursos e capacidade potentes de comunica\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar o leitor certo, no momento certo, de forma precisa.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como o setor deve lidar com os vieses da IA generativa? <\/strong><\/p>\n<p><em>Existem duas grandes frentes. Por um lado, no n\u00edvel setorial, gremial e at\u00e9 nacional ou regional, \u00e9 preciso trabalhar em pol\u00edticas p\u00fablicas, junto com os governos, para que os modelos n\u00e3o repliquem os vieses atuais. Isso acontece porque, em sua maioria, s\u00e3o alimentados por conte\u00fados produzidos nos Estados Unidos, sob uma perspectiva filos\u00f3fica, religiosa e cultural anglo-sax\u00e3. Por isso, \u00e9 fundamental enriquecer esses modelos com nossas pr\u00f3prias culturas e diversidade, mostrando \u00e0 IA que existem outras formas de ver o mundo. Muitos pa\u00edses j\u00e1 est\u00e3o desenvolvendo suas pr\u00f3prias intelig\u00eancias artificiais n\u00e3o para competir com empresas como o Google, mas para criar solu\u00e7\u00f5es com relev\u00e2ncia educativa, cultural e social para a diversidade local e regional. Esse \u00e9 um caminho: pensar o tema a partir de uma perspectiva de pol\u00edticas de Estado, j\u00e1 que hoje a discuss\u00e3o \u00e9 dominada pelas empresas privadas.<\/em><\/p>\n<p><em>Por outro lado, h\u00e1 a dimens\u00e3o de cada projeto editorial e de cada equipe, que precisa estar consciente de que os vieses existem e que a IA tende a reproduzi-los. Esse vi\u00e9s n\u00e3o \u00e9 intencional, mas decorre do aprendizado realizado a partir dos conte\u00fados consumidos. Por isso, ao usar ferramentas de IA, precisamos ser conscientes e cuidar do tipo de perguntas que fazemos, para obter respostas menos enviesadas.<\/em><\/p>\n<p><strong>Que impactos prev\u00ea em receita, pre\u00e7os, descoberta e bibliodiversidade, e que prote\u00e7\u00e3o recomenda contra alucina\u00e7\u00f5es, deepfakes e o desalinhamento das ferramentas?<\/strong><\/p>\n<p><em>Alinhar a IA depende de regras p\u00fablicas. Hoje, cada modelo vem \u201cregulado\u201d pelas pr\u00f3prias empresas (limites morais\/\u00e9ticos), que restringem temas sens\u00edveis, o que interfere no trabalho editorial, inclusive em fic\u00e7\u00e3o. Uma alternativa t\u00e9cnica \u00e9 adotar modelos abertos instalados localmente, ajustando guard-rails e especializa\u00e7\u00f5es conforme a necessidade da casa. Ainda assim, falta um debate pol\u00edtico consistente e transparente sobre como regular essas tecnologias.<\/em><\/p>\n<p><em>Com deepfakes e alucina\u00e7\u00f5es tornando cada vez mais t\u00eanue a fronteira entre real e falso, s\u00e3o essenciais letramento cr\u00edtico da sociedade, forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dos profissionais do livro e responsabilidade sobre o que se publica e distribui. Se um texto vira produto editorial, a responsabilidade \u00e9 de quem o edita e assina, n\u00e3o d\u00e1 para transferi-la \u00e0 IA. O valor do editor cresce justamente a\u00ed: verificar, contextualizar e garantir qualidade e integridade do conte\u00fado.<\/em><\/p>\n<p><strong>Com a queda de custos e a acelera\u00e7\u00e3o de capacidades, quais tarefas (edi\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o, marketing etc.) tendem a migrar para a IA e quais devem permanecer humanas por exigirem intencionalidade e experi\u00eancia criativa?<\/strong><\/p>\n<p><em>O impacto em termos de receitas e pre\u00e7os \u00e9 muito complexo de prever. A realidade \u00e9 que a intelig\u00eancia artificial vai ajudar a otimizar processos, reduzir custos de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o, tornar mais eficiente a cadeia de valor e distribui\u00e7\u00e3o do livro. Com isso, teremos mais estat\u00edsticas, melhores an\u00e1lises e maior confiabilidade sobre distribui\u00e7\u00e3o ao mercado.<\/em><\/p>\n<p><em>Essa efici\u00eancia poderia contribuir para uma economia mais saud\u00e1vel e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, para a redu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos livros. Os modelos de intelig\u00eancia artificial est\u00e3o se tornando mais sofisticados e mais baratos. Desde o lan\u00e7amento do primeiro ChatGPT, em novembro de 2022, at\u00e9 agora, em 2025, houve uma queda exponencial no custo tanto de processar (ler) quanto de gerar conte\u00fados com IA.<\/em><\/p>\n<p><em>E aqui surge uma quest\u00e3o: se hoje uma biblioteca que atende estudantes investe recursos para adquirir livros, at\u00e9 que ponto n\u00e3o passar\u00e1 a ser mais rent\u00e1vel adquirir licen\u00e7as de intelig\u00eancia artificial que ofere\u00e7am acesso a esse conhecimento de forma, muitas vezes, mais precisa e infinitamente mais barata? Esse ser\u00e1 um grande desafio para o modelo econ\u00f4mico de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de livros, especialmente no campo da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, onde o conhecimento tende a ser cada vez mais barato e acess\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como proteger direitos e preservar o valor percebido da obra quando o p\u00fablico muitas vezes n\u00e3o distingue o que \u00e9 produzido por IA?<\/strong><\/p>\n<p><em>No mundo, praticamente n\u00e3o existem regula\u00e7\u00f5es espec\u00edficas sobre intelig\u00eancia artificial. A \u00fanica regi\u00e3o que se atreveu a estabelecer uma regula\u00e7\u00e3o foi a Uni\u00e3o Europeia, cuja lei j\u00e1 est\u00e1 em vigor e impacta diversos setores. No que diz respeito ao mundo editorial, entre outras coisas, a exig\u00eancia central \u00e9 a transpar\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando produzimos total ou parcialmente um conte\u00fado utilizando intelig\u00eancia artificial, devemos ser transparentes diante dos leitores e compradores. Isso implica tamb\u00e9m em uma transpar\u00eancia interna nos projetos editoriais: se um autor entrega um conte\u00fado, \u00e9 importante que seja claro se utilizou ou n\u00e3o IA; se um designer entrega um trabalho, tamb\u00e9m deve ser transparente sobre at\u00e9 que ponto fez uso dessas ferramentas. O mesmo vale para as editoras, que precisam estar conscientes desse processo.<\/em><\/p>\n<p><em>No que diz respeito ao p\u00fablico final, a lei europeia exige que qualquer conte\u00fado comercializado ou distribu\u00eddo traga a informa\u00e7\u00e3o de que foi produzido com intelig\u00eancia artificial. Eu tenho d\u00favidas se, mesmo dentro dessa normativa, muitas editoras de fato cumprem a regra, j\u00e1 que existe ainda uma percep\u00e7\u00e3o bastante negativa, tanto por parte do consumidor final quanto de profissionais da pr\u00f3pria ind\u00fastria, sobre as editoras que utilizam IA na produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados.<\/em><\/p>\n<p><em>No restante do mundo, incluindo Estados Unidos, China e, ainda mais, a Am\u00e9rica do Sul, n\u00e3o h\u00e1 regula\u00e7\u00e3o alguma. Assim, a transpar\u00eancia (ou n\u00e3o) passa a ser uma quest\u00e3o \u00e9tica e moral de cada projeto editorial, de como se posiciona diante de seus leitores. Ao mesmo tempo, come\u00e7am a surgir iniciativas em que o valor est\u00e1 justamente em destacar que um conte\u00fado foi produzido com IA; e tamb\u00e9m outras em sentido oposto, com selos que certificam conte\u00fados \u201cproduzidos por humanos\u201d. Esse selo, j\u00e1 difundido em pa\u00edses como Estados Unidos e Inglaterra, pode ser adotado livremente e busca refor\u00e7ar esse diferencial.<\/em><\/p>\n<p><em>Minha preocupa\u00e7\u00e3o principal \u00e9 que estamos diante de uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural. O que est\u00e1 em desenvolvimento hoje \u00e9 a infraestrutura para que a IA esteja presente em praticamente todos os dispositivos e aplica\u00e7\u00f5es que utilizamos. Uma busca na internet j\u00e1 \u00e9 mediada por IA; processadores de texto como o Word j\u00e1 incorporam IA; softwares de design, como o Photoshop, tamb\u00e9m. E quando distribu\u00edmos conte\u00fados em redes sociais, eles passam inevitavelmente por filtros e algoritmos de intelig\u00eancia artificial.<\/em><\/p>\n<p><em>Portanto, ser\u00e1 muito dif\u00edcil imaginar que um conte\u00fado possa ser produzido e publicado hoje sem qualquer interven\u00e7\u00e3o de IA. O dilema passa a ser outro: entender qual foi o grau de interven\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina, qual o valor humano agregado e em que momento estamos apenas publicando algo gerado automaticamente.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na edi\u00e7\u00e3o deste m\u00eas da Abrelivros em Pauta, o argentino Daniel Benchimol compartilha sua vis\u00e3o sobre como o setor editorial deve se preparar para os impactos da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da intelig\u00eancia artificial. 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