{"id":21631,"date":"2025-07-25T15:03:54","date_gmt":"2025-07-25T18:03:54","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=21631"},"modified":"2025-07-25T15:03:54","modified_gmt":"2025-07-25T18:03:54","slug":"sem-ler-nem-contar-o-brasil-que-ficou-a-margem-da-educacao-basica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/sem-ler-nem-contar-o-brasil-que-ficou-a-margem-da-educacao-basica\/","title":{"rendered":"Sem ler nem contar: o Brasil que ficou \u00e0 margem da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica"},"content":{"rendered":"<p>Apesar de avan\u00e7os importantes na educa\u00e7\u00e3o, o Brasil chega \u00e0 segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI sem vencer um desafio b\u00e1sico: cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o entre 15 e 64 anos n\u00e3o conseguem compreender plenamente o que leem ou realizar opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas simples. O n\u00famero, preocupante, \u00e9 do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), que mostra ainda: o percentual \u00e9 o mesmo desde 2018, e a taxa de analfabetismo \u00e9 maior entre pessoas com 40 anos ou mais, o que tem forte impacto em produtividade, cidadania e no exerc\u00edcio da democracia no pa\u00eds.<!--more--><\/p>\n<p>\u2014 Essa dimens\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e9 bem importante. Cada uma dessas pessoas teve seu direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o negado de alguma maneira em sua hist\u00f3ria. Do ponto de vista dos direitos humanos, este talvez seja o marco zero. Do ponto de vista social, isso tem um impacto negativo sobre a renda e, consequentemente, sobre o acesso a sa\u00fade, moradia, a uma vida melhor, em resumo. S\u00e3o pessoas que est\u00e3o sempre \u00e0 margem do mercado de trabalho \u2014 analisa Roberto Catelli Jr., coordenador da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o da ONG A\u00e7\u00e3o Educativa, respons\u00e1vel pelo Inaf.<\/p>\n<p>O Inaf acompanha os \u00edndices de alfabetiza\u00e7\u00e3o no Brasil em uma s\u00e9rie hist\u00f3rica que come\u00e7ou em 2001, e identifica cinco n\u00edveis de profici\u00eancia: analfabeto (7%), rudimentar (22%), elementar (34%), intermedi\u00e1rio (25%) e proficiente (12%). Pela primeira vez, o instituto trouxe informa\u00e7\u00f5es da vida digital.<\/p>\n<p>\u2014 O que a gente viu \u00e9 uma tend\u00eancia de reprodu\u00e7\u00e3o da desigualdade no universo digital, porque o analfabeto funcional tem muita limita\u00e7\u00e3o para dominar esse mundo. N\u00e3o \u00e9 uma coisa simples \u2014 diz Catelli.<\/p>\n<p><strong>EJA como caminho<\/strong><\/p>\n<p>Entre as estrat\u00e9gias para reverter este quadro de analfabetismo funcional, o especialista aponta o caminho da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino para pessoas a partir de 15 anos que n\u00e3o tiveram acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o na idade considerada pr\u00f3pria. Segundo a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1998 e a Emenda Constitucional 59, de 2009, a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica deve ser cumprida, obrigatoriamente, dos 4 aos 17 anos de idade.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 uma parcela muito grande da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o consegue retomar essa escolaridade ou avan\u00e7ar nela. E ainda tem um grupo grande de jovens que abandona a escola no fim da inf\u00e2ncia ou na adolesc\u00eancia. E onde isso poderia reverberar com for\u00e7a? No avan\u00e7o da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos, que vai responder por uma grande demanda desse p\u00fablico.<\/p>\n<p>Catelli diz que o governo vem buscando uma alian\u00e7a, um pacto com essa finalidade. Mas aponta um problema complexo: como fazer esse sujeito que de alguma maneira abandonou a escola retomar os estudos com condi\u00e7\u00e3o de vida pra isso?<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o Continuada, Alfabetiza\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclus\u00e3o (Secadi) do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), Zara Figueiredo, vem trabalhando muito pelo fortalecimento da EJA, que, segundo ela, n\u00e3o est\u00e1 no centro da pol\u00edtica educacional.<\/p>\n<p>\u2014 A EJA \u00e9 uma modalidade, mas as redes t\u00eam compreendido de modo equivocado que ela n\u00e3o \u00e9 uma oferta obrigat\u00f3ria. Os dados do \u00faltimo Censo nos mostram que temos 1.092 munic\u00edpios que n\u00e3o ofertam nenhuma vaga de EJA, ou 20% dos munic\u00edpios brasileiros. Isso n\u00e3o acontece no Fundamental I, no Fundamental II, no Ensino M\u00e9dio em termos de oferta, mas acontece com a EJA.<\/p>\n<p>Zara aponta esse problema como central e estruturante, porque leva a outros: aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o, de pol\u00edticas de incentivo para professores permanecerem na EJA e um outro problema de natureza pedag\u00f3gica que \u00e9 uma \u201cjuveniliza\u00e7\u00e3o da EJA\u201d \u2014 porque muitos estudantes de 15 anos com problemas de indisciplina s\u00e3o encaminhados para a modalidade.<\/p>\n<p><strong>Demanda pela EJA<\/strong><\/p>\n<p>Esses problemas se somam a um curr\u00edculo defasado, que n\u00e3o envolve profissionaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 falta de forma\u00e7\u00e3o continuada para professores e \u00e0 aus\u00eancia de busca ativa por parte das redes. S\u00e3o motivos que levam a EJA atual a n\u00e3o conseguir atrair e manter esses jovens nas escolas.<\/p>\n<p>\u2014 O p\u00fablico da EJA \u00e9 composto por indiv\u00edduos muito empobrecidos, negros, de renda per capita baix\u00edssima. A maioria est\u00e1 no Nordeste e sequer sabem que a EJA \u00e9 um direito. Sem busca ativa, dificilmente esse indiv\u00edduo vai procurar a escola. E quando voc\u00ea fala com a rede que n\u00e3o tem EJA, a rede diz que n\u00e3o tem demanda, o que n\u00e3o \u00e9 verdade \u2014 diz a secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>No ano passado, o MEC lan\u00e7ou o Pacto de Supera\u00e7\u00e3o do Analfabetismo. Este ano, a EJA teve ajustes de financiamento. A Secadi aposta ainda na forma\u00e7\u00e3o de professores e na constru\u00e7\u00e3o de uma rede de governan\u00e7a com 2.300 profissionais para atuar nos territ\u00f3rios, ajudando na busca ativa, na articula\u00e7\u00e3o para montar turmas e tamb\u00e9m como uma ponte entre o MEC e as redes de ensino para que os professores participem das forma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Zara Figueiredo enfatiza que \u00e9 preciso ter um curr\u00edculo mais flex\u00edvel para atrair os jovens e reconhecer os saberes dessas pessoas.<\/p>\n<p>\u2014Todo saber informal que permitiu a essas pessoas viverem ao longo da vida em uma sociedade letrada sem que fossem letradas precisa ser reconhecido. Eles n\u00e3o podem chegar na escola e ter a percep\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o uma x\u00edcara vazia. N\u00e3o s\u00e3o. Reconhecer e valorizar esses saberes como estrat\u00e9gia pedag\u00f3gica para reduzir o curr\u00edculo de forma\u00e7\u00e3o tem impacto na autoestima e na perman\u00eancia do aluno na escola \u2014 acredita a secret\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Gargalo educacional<\/strong><\/p>\n<p>A partir do diagn\u00f3stico do Inaf, o professor de matem\u00e1tica Vitor Fontes, pesquisador dos novos ambientes educativos e especialista de conte\u00fado e inova\u00e7\u00e3o na Casa Firjan, tem a percep\u00e7\u00e3o de que as articula\u00e7\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os e sociedade para tentar sanar as quest\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o sempre muito institucionais. Ficam na dimens\u00e3o dos gestores, dos l\u00edderes, de quem concebe os projetos. N\u00e3o v\u00e3o para o cotidiano. Mas cita projetos como o Mais Educa\u00e7\u00e3o (2007-2016), iniciativa do governo federal que integrava diferentes \u00e1reas do conhecimento, com o objetivo de ampliar a jornada escolar. Atualmente, ele cita como iniciativas positivas o programa Sesi Matem\u00e1tica, da Firjan, o data_labe e diversas outras a\u00e7\u00f5es que acontecem no Complexo da Mar\u00e9, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio.<\/p>\n<p>\u2014 Se voc\u00ea olhar as iniciativas da Redes da Mar\u00e9, parece que eles funcionam como uma secretaria de cultura, educa\u00e7\u00e3o, atendimento \u00e0 mulher, tamanha a pot\u00eancia \u2014 elogia. \u2014 Assim como fazem essa migra\u00e7\u00e3o do Ensino Fundamental para o M\u00e9dio, eles fazem preparat\u00f3rio para o 6\u00ba ano, que \u00e9 uma fase cr\u00edtica de evas\u00e3o escolar. S\u00e3o projetos que criam frestas e possibilidades para os jovens daquele territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Nenhum a menos<\/strong><\/p>\n<p>Um dos objetivos do eixo de educa\u00e7\u00e3o da Redes da Mar\u00e9, segundo Andreia Martins, integrante da dire\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e t\u00e9cnica em assuntos educacionais da UFRJ, \u00e9 contribuir para ampliar o tempo de escolariza\u00e7\u00e3o dos moradores da regi\u00e3o, tendo uma rela\u00e7\u00e3o direta com o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Redes foi ampliando a atua\u00e7\u00e3o em educa\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou com o Curso Pr\u00e9-Vestibular no fim dos anos 1990. Depois vieram os cursos preparat\u00f3rios para as escolas de excel\u00eancia do Ensino M\u00e9dio e para o 6\u00ba ano (que ainda era chamado de 5\u00aa s\u00e9rie). Por fim, em 2007, foi lan\u00e7ado o Nenhum a Menos, para crian\u00e7as com hist\u00f3rico de escolariza\u00e7\u00e3o irregular e muitas reprova\u00e7\u00f5es e evas\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 seis anos come\u00e7amos com alfabetiza\u00e7\u00e3o de mulheres e, este ano, temos turmas mistas, al\u00e9m da EJA em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho \u2014 comemora Andreia. \u2014 Ampliamos porque percebemos que era importante trabalhar com aqueles estudantes que queriam passar em algum concurso, mas tamb\u00e9m da alfabetiza\u00e7\u00e3o e da EJA, que \u00e9 uma modalidade sucateada e atende a um p\u00fablico que est\u00e1 fora da escola.O Brasil chega \u00e0 segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI com 30% da popula\u00e7\u00e3o entre 15 e 64 anos sem compreender plenamente o que l\u00ea ou realizar opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas simples, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). O percentual \u00e9 o mesmo desde 2018. A taxa de analfabetismo \u00e9 maior entre pessoas com 40 anos ou mais.<\/p>\n<p>\u2014 Cada uma dessas pessoas teve seu direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o negado de alguma maneira. Do ponto de vista dos direitos humanos, este talvez seja o marco zero \u2014 avalia Roberto Catelli Jr., coordenador da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o da ONG A\u00e7\u00e3o Educativa, respons\u00e1vel pelo Inaf.<\/p>\n<p>Para reverter este quadro, Catelli Jr. aponta a import\u00e2ncia da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA), voltada a pessoas a partir de 15 anos.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 um grupo grande de jovens que abandona a escola no fim da inf\u00e2ncia ou na adolesc\u00eancia. Onde isso poderia reverberar com for\u00e7a? No avan\u00e7o da EJA.<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o Continuada, Alfabetiza\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclus\u00e3o (Secadi) do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Zara Figueiredo, reconhece que a EJA n\u00e3o est\u00e1 no centro da pol\u00edtica educacional.<\/p>\n<p>\u2014 As redes t\u00eam compreendido de modo equivocado que ela n\u00e3o \u00e9 uma oferta obrigat\u00f3ria. Os dados do \u00faltimo Censo nos mostram que temos 1.092 munic\u00edpios sem nenhuma vaga de EJA, ou 20% dos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Zara aponta que o problema leva \u00e0 aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o, de pol\u00edticas de incentivo para professores e a uma \u201cjuveniliza\u00e7\u00e3o da EJA\u201d: estudantes de 15 anos com problemas de disciplina s\u00e3o enviados para a modalidade.<\/p>\n<p>\u2014 O p\u00fablico da EJA \u00e9 composto por indiv\u00edduos muito empobrecidos, negros, de renda per capita baix\u00edssima. A maioria est\u00e1 no Nordeste e sequer sabe que a EJA \u00e9 um direito. Quando voc\u00ea fala com a rede que n\u00e3o tem EJA, a rede diz que n\u00e3o tem demanda, o que n\u00e3o \u00e9 verdade \u2014 queixa-se Zara, enfatizando que \u00e9 preciso um curr\u00edculo mais flex\u00edvel para atrair os jovens e reconhecer os saberes dessas pessoas. \u2014 Eles n\u00e3o podem, na escola, ter a percep\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o uma x\u00edcara vazia.<\/p>\n<p><strong>Redes da Mar\u00e9 aponta caminho<\/strong><\/p>\n<p>Para o professor de matem\u00e1tica Vitor Fontes, pesquisador dos novos ambientes educativos e especialista de conte\u00fado e inova\u00e7\u00e3o na Casa Firjan, as articula\u00e7\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os e sociedade para tentar melhorar a educa\u00e7\u00e3o ficam na dimens\u00e3o dos gestores, dos l\u00edderes e de quem concebe os projetos, mas n\u00e3o v\u00e3o para o cotidiano. Fontes cita cita como iniciativas positivas o programa Sesi Matem\u00e1tica, da Firjan, o data_labe e diversas outras a\u00e7\u00f5es que acontecem no Complexo da Mar\u00e9, na Zona Norte do Rio.<\/p>\n<p>\u2014 Se voc\u00ea olhar as iniciativas da Redes da Mar\u00e9, parece que eles funcionam como uma secretaria de cultura, educa\u00e7\u00e3o, atendimento \u00e0 mulher \u2014 elogia. \u2014 Assim como fazem essa migra\u00e7\u00e3o do Ensino Fundamental para o M\u00e9dio, eles fazem preparat\u00f3rio para o 6\u00ba ano, uma fase cr\u00edtica de evas\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>Um dos objetivos do eixo de educa\u00e7\u00e3o da Redes da Mar\u00e9, segundo Andreia Martins, da dire\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e t\u00e9cnica em assuntos educacionais da UFRJ, \u00e9 ampliar o tempo de escolariza\u00e7\u00e3o dos moradores. A Redes come\u00e7ou com o Curso Pr\u00e9-Vestibular no fim dos anos 1990. Depois vieram os cursos preparat\u00f3rios para as escolas de excel\u00eancia do Ensino M\u00e9dio e para o 6\u00ba ano (que ainda era chamado de 5\u00aa s\u00e9rie). Em 2007, foi lan\u00e7ado o Nenhum a Menos, para crian\u00e7as com hist\u00f3rico de escolariza\u00e7\u00e3o irregular e muitas reprova\u00e7\u00f5es e evas\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 seis anos come\u00e7amos com alfabetiza\u00e7\u00e3o de mulheres e, este ano, temos turmas mistas, al\u00e9m da EJA em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho \u2014 comemora Andreia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de avan\u00e7os importantes na educa\u00e7\u00e3o, o Brasil chega \u00e0 segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI sem vencer um desafio b\u00e1sico: cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o entre 15 e 64 anos n\u00e3o conseguem compreender plenamente o que leem ou realizar opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas simples. 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