{"id":21586,"date":"2025-07-18T16:05:09","date_gmt":"2025-07-18T19:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=21586"},"modified":"2025-07-18T16:05:09","modified_gmt":"2025-07-18T19:05:09","slug":"alfabetizacao-no-meio-do-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/alfabetizacao-no-meio-do-caminho\/","title":{"rendered":"Alfabetiza\u00e7\u00e3o no meio do caminho"},"content":{"rendered":"<p>Terreno f\u00e9rtil para uma hist\u00f3ria de avan\u00e7os seguidos de retrocessos e avan\u00e7os t\u00edmidos ante desafios profundos, a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira \u00e9 daqueles casos eloquentes em que o Brasil convive eternamente com o dilema do copo meio cheio ou meio vazio, conforme o olhar de quem a observa. Os n\u00fameros da alfabetiza\u00e7\u00e3o, divulgados recentemente pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), confirmam tal certeza.<!--more--><\/p>\n<p>Com eles se constata que o resultado da leitura e da escrita melhorou em 2024, com 59,2% de crian\u00e7as alfabetizadas na m\u00e9dia nacional, contra 56% no ano anterior. S\u00e3o alunos do 2.\u00ba ano do ensino fundamental que conseguem escrever bilhetes e convites, relacionar sons e letras na l\u00edngua portuguesa, ler textos simples, tirinhas e hist\u00f3rias em quadrinhos.<\/p>\n<p>Entretanto, descobre-se que o Pa\u00eds n\u00e3o conseguiu atingir a meta de 60% das crian\u00e7as de 7 anos que deveriam estar alfabetizadas, estabelecida pelo pr\u00f3prio governo de Lula da Silva ao lan\u00e7ar, em 2023, o chamado Compromisso Nacional Crian\u00e7a Alfabetizada. Foi por pouco e, conforme explicou o ministro Camilo Santana, a meta n\u00e3o foi atingida em raz\u00e3o das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul no ano passado. A trag\u00e9dia deixou as escolas do Estado sem aulas por muitos dias, afetando de forma dr\u00e1stica a alfabetiza\u00e7\u00e3o de suas crian\u00e7as \u2013 o indicador ga\u00facho desabou de 63,4% para 44,6%. Se repetisse o resultado do ano anterior, o Rio Grande do Sul teria contribu\u00eddo para o atingimento da meta, sublinhou Santana. Mas, no fim das contas, o resultado \u00e9 inexor\u00e1vel: meta n\u00e3o alcan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Para quem preferir observar o copo meio cheio, h\u00e1 boas not\u00edcias a comemorar: 18 Estados melhoraram seu desempenho entre 2023 e 2024, um dado relevante quando se sabe que ganhos consistentes ano a ano fazem a diferen\u00e7a, sendo \u201cmais importantes do que saltos mete\u00f3ricos que n\u00e3o se sustentam no tempo\u201d, como argumentou a este jornal a vice-presidente de Educa\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Lemann, Daniela Caldeirinha. Onze Estados atingiram suas respectivas metas, que variam conforme cada unidade federativa, entre os quais Cear\u00e1, Goi\u00e1s, Minas Gerais, Esp\u00edrito Santo e S\u00e3o Paulo. H\u00e1 exemplos not\u00e1veis, como o Cear\u00e1, que encabe\u00e7a o ranking dos Estados, com 85% das crian\u00e7as alfabetizadas (os cearenses tinham como meta chegar a 80% em 2024). Outro dado positivo \u00e9 que quase 60% dos munic\u00edpios melhoraram seus indicadores, um patamar a ser aplaudido.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, evid\u00eancias desabonadoras. A primeira delas \u00e9 o fato de 13 Estados ficarem aqu\u00e9m de suas metas. A segunda \u00e9 reafirmar o tamanho das desigualdades de desempenho. Enquanto cearenses est\u00e3o no topo, Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte n\u00e3o atingiram sequer 40%. Al\u00e9m disso, 14 Estados e o Distrito Federal permaneceram abaixo da m\u00e9dia nacional, de 59,2%. \u00c9 o caso de S\u00e3o Paulo, que chegou a 58,13%, ainda que tenha superado a meta estabelecida para o Estado (57%). Na esfera municipal, a capital paulista viu crescer dez pontos porcentuais, superando a meta estabelecida pelo MEC, e se tornou a terceira capital que mais cresceu no indicador. Novamente, por\u00e9m, vale a conjun\u00e7\u00e3o adversativa: a capital e o Estado de S\u00e3o Paulo evolu\u00edram, mas a cidade ainda \u00e9 a 17.\u00aa entre as capitais, e o Estado, o 13.\u00ba. S\u00e3o posi\u00e7\u00f5es modestas frente \u00e0 robustez que se espera de ambos.<\/p>\n<p>Olhando um arco maior de tempo, observa-se que o analfabetismo recuou 15% em oito anos, mas \u2013 de novo a conjun\u00e7\u00e3o adversativa \u00e9 necess\u00e1ria \u2013 o risco \u00e9 o Brasil se acostumar com pouco onde deveria haver indigna\u00e7\u00e3o ao lidar com as diferen\u00e7as e aud\u00e1cia para corrigi-las. Temos um compromisso nacional firmado entre os tr\u00eas n\u00edveis de governo, um MEC com capacidade de formula\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o e cada vez mais lideran\u00e7as pol\u00edticas que enxergam na educa\u00e7\u00e3o, mais do que uma agenda ou um verniz ret\u00f3rico, um imperativo moral, \u00e9tico e econ\u00f4mico. Mas a defasagem \u2013 de aprendizagem, de gest\u00e3o, de monitoramento, de avan\u00e7os, enfim \u2013 continua sendo a regra, como se enfrent\u00e1ssemos uma esp\u00e9cie de pandemia permanente.<\/p>\n<p>Ano ap\u00f3s ano, governo ap\u00f3s governo, a hist\u00f3ria se repete: o que deveria resultar em prioridade nacional e em boas pr\u00e1ticas generalizadas se resume a ilhas de exce\u00e7\u00e3o. No discurso, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma agenda priorit\u00e1ria do Pa\u00eds. Na pr\u00e1tica, o entusiasmo da obsess\u00e3o educacional se transforma numa inc\u00f4moda calmaria, s\u00f3 compensada pelo avan\u00e7o de algumas poucas redes de ensino. Inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terreno f\u00e9rtil para uma hist\u00f3ria de avan\u00e7os seguidos de retrocessos e avan\u00e7os t\u00edmidos ante desafios profundos, a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira \u00e9 daqueles casos eloquentes em que o Brasil convive eternamente com o dilema do copo meio cheio ou meio vazio, conforme o olhar de quem a observa. 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