{"id":21186,"date":"2025-04-02T09:05:51","date_gmt":"2025-04-02T12:05:51","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=21186"},"modified":"2025-04-02T11:49:01","modified_gmt":"2025-04-02T14:49:01","slug":"e-preciso-investir-na-valorizacao-da-leitura-literaria-e-em-politicas-publicas-sem-isso-seguiremos-formando-leitores-frageis-e-pouco-engajados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/e-preciso-investir-na-valorizacao-da-leitura-literaria-e-em-politicas-publicas-sem-isso-seguiremos-formando-leitores-frageis-e-pouco-engajados\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 preciso investir na valoriza\u00e7\u00e3o da leitura liter\u00e1ria e em pol\u00edticas p\u00fablicas \u2014 sem isso, seguiremos formando leitores fr\u00e1geis e pouco engajados\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Na entrevista deste m\u00eas \u00e0 Abrelivros em Pauta, o professor Fernando de Oliveira falou sobre a import\u00e2ncia do livro no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o, destacando seu papel no desenvolvimento de compet\u00eancias leitoras e na forma\u00e7\u00e3o cultural dos estudantes. Especialista em alfabetiza\u00e7\u00e3o, leitura, literatura infantil e pol\u00edticas p\u00fablicas do livro, Fernando atua na forma\u00e7\u00e3o de professores, coordena programas como o Leitura e Escrita na Educa\u00e7\u00e3o Infantil (LEEI\/MEC) e integra comiss\u00f5es do PNLD.<\/p>\n<p>Para ele, \u00e9 fundamental compreender a leitura como uma pr\u00e1tica social. \u201cDesde o ingresso da crian\u00e7a na escola, mas especialmente a partir do processo de imers\u00e3o formal na alfabetiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso pensar na leitura e na forma\u00e7\u00e3o dos leitores como um tipo de pr\u00e1tica social e como objeto de ensino que corresponde a um processo de constru\u00e7\u00e3o de sentidos a partir da intera\u00e7\u00e3o com o outro e com o mundo, mediada pela linguagem\u201d.<\/p>\n<p>Fernando tamb\u00e9m abordou os limites da alfabetiza\u00e7\u00e3o funcional, os impactos do mundo digital nas pr\u00e1ticas de leitura, a import\u00e2ncia da forma\u00e7\u00e3o docente e o papel das pol\u00edticas p\u00fablicas na garantia do acesso a materiais de qualidade e na forma\u00e7\u00e3o de leitores cr\u00edticos desde a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel do livro no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e como ele contribui para o desenvolvimento de compet\u00eancias leitoras?<\/strong><\/p>\n<p><em>O livro exerce um papel fundamental na alfabetiza\u00e7\u00e3o ao oferecer \u00e0s crian\u00e7as acesso a uma variedade de textos e discursos, com temas, formatos e vis\u00f5es de mundo distintos. Ele amplia o repert\u00f3rio e proporciona experi\u00eancias significativas de leitura que v\u00e3o al\u00e9m da simples decodifica\u00e7\u00e3o de palavras. Por meio do livro, a crian\u00e7a entra em contato com diferentes formas de linguagem e aprende a interpretar n\u00e3o s\u00f3 o texto, mas tamb\u00e9m a si mesma e o mundo ao seu redor.<\/em><\/p>\n<p><em>Contudo, \u00e9 fundamental superar a ideia de que o livro \u00e9 apenas um instrumento para \u201censinar a ler\u201d. O papel do livro na alfabetiza\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria: ele deve ser compreendido como espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de sentidos e de intera\u00e7\u00e3o entre texto, leitor e autor. Para que isso ocorra, o acesso ao livro precisa estar articulado a pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas intencionais, que incentivem a interpreta\u00e7\u00e3o, a reflex\u00e3o e a troca de ideias. Assim, o livro contribui de forma decisiva para a forma\u00e7\u00e3o de leitores aut\u00f4nomos, cr\u00edticos e socialmente engajados.<\/em><\/p>\n<p><strong>Por que \u00e9 fundamental que o trabalho com leitura v\u00e1 al\u00e9m da alfabetiza\u00e7\u00e3o funcional e envolva tamb\u00e9m pr\u00e1ticas culturais desde os primeiros anos escolares?<\/strong><\/p>\n<p><em>Frequentemente, a alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 vista apenas como o momento em que a crian\u00e7a aprende a decodificar palavras. Essa compreens\u00e3o limitada leva \u00e0 ideia de que primeiro se aprende a \u201cler tecnicamente\u201d para, s\u00f3 depois, passar a compreender e interpretar os textos. Essa separa\u00e7\u00e3o artificial entre decodifica\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o colabora para um cen\u00e1rio de alfabetiza\u00e7\u00e3o funcional, em que muitos alunos sabem ler palavras, mas n\u00e3o desenvolvem habilidades para construir sentidos a partir dos textos.<\/em><\/p>\n<p><em>Por isso, desde o in\u00edcio da vida escolar, \u00e9 fundamental trabalhar a leitura como pr\u00e1tica cultural e social, conectada \u00e0 vida cotidiana das crian\u00e7as. Mesmo sem dominar totalmente o c\u00f3digo escrito, elas j\u00e1 s\u00e3o capazes de participar de experi\u00eancias de leitura significativas, refletindo sobre o conte\u00fado dos textos, ativando conhecimentos pr\u00e9vios e construindo sentidos com a media\u00e7\u00e3o do professor. A leitura precisa ser vista como uma atividade complexa, que envolve m\u00faltiplas opera\u00e7\u00f5es cognitivas \u2014 como infer\u00eancia, interpreta\u00e7\u00e3o, compara\u00e7\u00e3o de textos e reconhecimento de inten\u00e7\u00f5es discursivas.<\/em><\/p>\n<p><em>Tratar a leitura apenas como uma habilidade t\u00e9cnica \u00e9 reduzir seu potencial. Formar leitores exige reconhecer a leitura como um direito e como uma pr\u00e1tica essencial para a forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e cr\u00edtica dos estudantes.<\/em><\/p>\n<p><strong>Segundo a Unicef, 617 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescentes no mundo n\u00e3o sabem ler. Na sua opini\u00e3o, quais caminhos o Brasil pode seguir para avan\u00e7ar na forma\u00e7\u00e3o leitora e transformar a leitura em uma pr\u00e1tica cont\u00ednua na vida dos estudantes?<\/strong><\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que envolve m\u00faltiplas dimens\u00f5es \u2014 n\u00e3o apenas pedag\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m pol\u00edticas, sociais e estruturais. No Brasil, ainda h\u00e1 uma lacuna importante na forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada de professores para o trabalho com leitura, al\u00e9m da aus\u00eancia de pol\u00edticas curriculares que enfrentem a complexidade da forma\u00e7\u00e3o leitora com seriedade. Tamb\u00e9m faltam a\u00e7\u00f5es efetivas para a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao livro, \u00e0 leitura e \u00e0 media\u00e7\u00e3o qualificada.<\/em><\/p>\n<p><em>Outro ponto preocupante \u00e9 que, conforme mostram pesquisas como \u201cRetratos da Leitura no Brasil\u201d, o interesse dos estudantes pela leitura tende a diminuir com o avan\u00e7o da escolaridade. Isso revela falhas no modo como a leitura \u00e9 tratada ao longo dos anos escolares \u2014 muitas vezes de forma desestimulante, mec\u00e2nica ou desconectada das pr\u00e1ticas culturais dos alunos.<\/em><\/p>\n<p><em>Embora a escola n\u00e3o seja o \u00fanico espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o leitora, ela tem um papel central: \u00e9 nela que o direito \u00e0 leitura pode ser garantido como parte da forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3. Por isso, \u00e9 preciso repensar as condi\u00e7\u00f5es materiais e simb\u00f3licas oferecidas pelas institui\u00e7\u00f5es de ensino, investir na valoriza\u00e7\u00e3o da leitura liter\u00e1ria e fortalecer pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam acesso a bibliotecas, livros de qualidade e forma\u00e7\u00e3o de mediadores. Sem isso, continuaremos a formar leitores fr\u00e1geis e pouco engajados.<\/em><\/p>\n<p><strong>Em um mundo cada vez mais impactado pela internet e pelas redes sociais, quais s\u00e3o os principais desafios para manter vivas e eficazes as pr\u00e1ticas culturais de leitura no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><em>O avan\u00e7o das tecnologias digitais n\u00e3o representa uma amea\u00e7a \u00e0 leitura, mas imp\u00f5e novos desafios. Hoje, lemos em m\u00faltiplos suportes \u2014 telas de celulares, computadores, tablets \u2014 e interagimos com textos que misturam linguagem verbal, visual e sonora. Esses novos formatos exigem habilidades espec\u00edficas, que nem sempre s\u00e3o contempladas nos processos tradicionais de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 fundamental que a escola compreenda essa nova realidade e amplie seu conceito de leitura. Alfabetizar hoje significa tamb\u00e9m preparar os estudantes para lidar com os textos digitais, com sua interatividade, velocidade e multiplicidade de sentidos. Isso inclui ensinar a ler criticamente memes, mensagens de WhatsApp, publica\u00e7\u00f5es em redes sociais e outros formatos que circulam no cotidiano dos alunos.<\/em><\/p>\n<p><em>Ao mesmo tempo, \u00e9 importante preservar e atualizar as pr\u00e1ticas culturais de leitura que v\u00eam sendo constru\u00eddas h\u00e1 s\u00e9culos, como o contato com a literatura. O desafio est\u00e1 em integrar o novo sem abandonar o essencial, reconhecendo que diferentes textos cumprem fun\u00e7\u00f5es distintas e exigem leituras igualmente relevantes.<\/em><\/p>\n<p><em>A leitura continua sendo uma pr\u00e1tica fundamental para a forma\u00e7\u00e3o de sujeitos cr\u00edticos, mas precisa ser pensada a partir das condi\u00e7\u00f5es sociot\u00e9cnicas do nosso tempo. Isso exige um olhar mais atento \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es do mundo e \u00e0 necessidade de formar leitores capazes de navegar entre linguagens, plataformas e realidades diversas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na entrevista deste m\u00eas \u00e0 Abrelivros em Pauta, o professor Fernando de Oliveira falou sobre a import\u00e2ncia do livro no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o, destacando seu papel no desenvolvimento de compet\u00eancias leitoras e na forma\u00e7\u00e3o cultural dos estudantes. 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