{"id":20866,"date":"2024-12-02T11:32:08","date_gmt":"2024-12-02T14:32:08","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=20866"},"modified":"2024-12-02T11:32:08","modified_gmt":"2024-12-02T14:32:08","slug":"a-formacao-de-leitores-no-brasil-depende-de-estrategias-robustas-que-enfrentem-desafios-estruturais-e-culturais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/a-formacao-de-leitores-no-brasil-depende-de-estrategias-robustas-que-enfrentem-desafios-estruturais-e-culturais\/","title":{"rendered":"&#8220;A forma\u00e7\u00e3o de leitores no Brasil depende de estrat\u00e9gias robustas que enfrentem desafios estruturais e culturais.&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A entrevistada da Abrelivros em Pauta deste m\u00eas, Zoara Failla, soci\u00f3loga e coordenadora da 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa &#8220;Retratos da Leitura no Brasil&#8221;, conduzida pelo Instituto Pr\u00f3-Livro, compartilha as principais conclus\u00f5es do estudo. A pesquisa, que \u00e9 a mais ampla sobre os h\u00e1bitos de leitura dos brasileiros, traz reflex\u00f5es sobre tend\u00eancias e desafios na promo\u00e7\u00e3o do livro e da leitura no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de dados preocupantes sobre a diminui\u00e7\u00e3o de leitores em v\u00e1rias faixas et\u00e1rias, Zoara ressalta a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas integradas que valorizem a leitura, o acesso ao livro e a forma\u00e7\u00e3o de mediadores competentes para promover uma verdadeira transforma\u00e7\u00e3o cultural. Para Zoara \u201c\u00e9 fundamental promover campanhas nacionais de valoriza\u00e7\u00e3o da leitura e dos livros. \u00c9 preciso resgatar representa\u00e7\u00f5es positivas sobre a import\u00e2ncia da leitura de livros e da literatura para o desenvolvimento social, a forma\u00e7\u00e3o humana, a consolida\u00e7\u00e3o de ideais democr\u00e1ticos e o est\u00edmulo \u00e0 empatia\u201d.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Quais s\u00e3o os principais avan\u00e7os e tend\u00eancias apresentados na 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa Retratos da Leitura em rela\u00e7\u00e3o aos h\u00e1bitos de leitura dos brasileiros?<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00c9 dif\u00edcil apontar avan\u00e7os quando os principais indicadores de leitura mostram queda. Observamos redu\u00e7\u00e3o em quase todas as faixas et\u00e1rias e segmentos analisados pela pesquisa.<\/em><\/p>\n<p><em>Apesar de termos constatado que apenas 43% da popula\u00e7\u00e3o brasileira se declara leitora, esse n\u00famero \u00e9 ainda menor quando consideramos apenas livros inteiros lidos: o percentual cai para 27%. Quando o foco s\u00e3o livros de literatura, apenas 25% da popula\u00e7\u00e3o afirma l\u00ea-los, o que corresponde a 50,4 milh\u00f5es de brasileiros.<\/em><\/p>\n<p><em>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tend\u00eancias de comportamento, infelizmente, a leitura est\u00e1 perdendo espa\u00e7o para outras atividades. Quando perguntados sobre o que fazem no tempo livre, os brasileiros apontaram a internet e as redes sociais como principais ocupa\u00e7\u00f5es, revelando um aumento de 31 pontos percentuais no uso da internet e de 28 pontos no uso de aplicativos como WhatsApp e Telegram desde 2015. Nesse mesmo per\u00edodo, o percentual de pessoas que leem livros caiu de 24% para 20%.<\/em><\/p>\n<p><em>Ao analisarmos por faixa et\u00e1ria, 43% das crian\u00e7as de 5 a 10 anos e 39% das de 11 a 13 anos preferem o videogame como atividade de entretenimento. Apenas 25% delas relataram ler livros em seu tempo livre.<\/em><\/p>\n<p><em>A pesquisa destaca o papel essencial da fam\u00edlia na valoriza\u00e7\u00e3o da leitura e no incentivo ao h\u00e1bito de ler livros. No entanto, a substitui\u00e7\u00e3o desse tempo pelos celulares reflete um distanciamento preocupante, mesmo entre as crian\u00e7as de 5 a 10 anos, faixa em que o gosto pela leitura \u00e9 mais frequentemente mencionado. Esse cen\u00e1rio evidencia que estamos desperdi\u00e7ando a oportunidade de nutrir o interesse pela leitura em vez de promov\u00ea-lo.<\/em><\/p>\n<p><em>Infelizmente, esse \u00e9 um dos \u201cretratos\u201d que explicam por que estamos \u201cperdendo leitores pelo caminho\u201d.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; Quais os maiores desafios identificados pela pesquisa para ampliar o acesso ao livro e formar novos leitores?<\/strong><\/p>\n<p><em>S\u00e3o muitos os desafios, mas acredito que o principal est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o de leitores. Cerca de 38% dos brasileiros afirmam que n\u00e3o leem porque n\u00e3o compreendem o que leem, ou seja, n\u00e3o dominam as habilidades de compreens\u00e3o leitora. Trata-se dos analfabetos funcionais. Este \u00e9 o primeiro desafio: garantir a profici\u00eancia leitora e o letramento para todos os brasileiros.<\/em><\/p>\n<p><em>Entretanto, h\u00e1 outros desafios: despertar o interesse pela leitura de livros e incentivar o gosto pela leitura de literatura. Nesse aspecto, apesar do papel fundamental das fam\u00edlias, sabemos das limita\u00e7\u00f5es enfrentadas pela maior parte delas. Muitas n\u00e3o s\u00e3o leitoras e enfrentam condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais que dificultam exercer essa influ\u00eancia. Diante dessa realidade, a escola se torna o espa\u00e7o privilegiado para a forma\u00e7\u00e3o de leitores, e dependemos, sobretudo, do professor.<\/em><\/p>\n<p><em>Aqui surge outro desafio: de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura, o perfil leitor dos professores entrevistados \u00e9 muito semelhante ao da m\u00e9dia dos brasileiros. A prefer\u00eancia por B\u00edblia, livros religiosos e de autoajuda domina suas listas de leitura. Esse repert\u00f3rio, no entanto, n\u00e3o colabora para que os professores desenvolvam pr\u00e1ticas leitoras atrativas e significativas para seus alunos.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 urgente formar professores que sejam leitores ass\u00edduos, capazes de atuar como mediadores de leitura. Eles precisam desenvolver pr\u00e1ticas cativantes e promover trocas e compartilhamento de experi\u00eancias de leitura. Al\u00e9m disso, \u00e9 fundamental que sejam remunerados de forma adequada, permitindo que evitem jornadas duplas de trabalho, que muitas vezes inviabilizam tempo para a leitura ou a prepara\u00e7\u00e3o de aulas de qualidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Outro desafio \u00e9 garantir o acesso a livros de literatura indicados pelos professores, tanto para os alunos quanto para os pr\u00f3prios educadores. Atualmente, quase 60% dos alunos do ensino b\u00e1sico em escolas p\u00fablicas dependem das bibliotecas escolares para acessar os livros recomendados. Contudo, segundo o Censo Escolar do MEC, cerca de 60% dessas escolas n\u00e3o possuem biblioteca. Al\u00e9m disso, 29% dos estudantes relatam que n\u00e3o encontram os livros indicados ou que os professores sequer fazem essas recomenda\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; A tecnologia digital e os formatos digitais de leitura foram abordados nesta edi\u00e7\u00e3o? Que impacto eles t\u00eam nos h\u00e1bitos dos leitores brasileiros?<\/strong><\/p>\n<p><em>Houve aumento no percentual de pessoas que informam usar o tempo livre na internet ou em redes sociais. Desde 2015, observou-se aumento significativo de 31 pontos percentuais no uso do tempo na internet e de 28 pontos no uso de aplicativos como WhatsApp e Telegram.<\/em><\/p>\n<p><em>O consumo de livros, por outro lado, apresentou queda de 24% para 20%. Analisando esses dados por faixa et\u00e1ria, percebe-se que 43% das crian\u00e7as de 5 a 10 anos e 39% das de 11 a 13 anos est\u00e3o entretidas com videogames. Apenas 25% dessas crian\u00e7as mencionaram a leitura de livros como uma atividade de lazer.<\/em><\/p>\n<p><em>Ao perguntar sobre o que fazem na internet, a maioria relatou trocar mensagens pelo WhatsApp ou participar de chats. O percentual de uso do tempo livre em redes sociais \u00e9 ainda mais elevado em segmentos que historicamente apresentavam maior propor\u00e7\u00e3o de leitores, como pessoas com ensino superior completo e pertencentes \u00e0s classes A e B. O uso da internet cresce significativamente a partir dos 14 anos, mas come\u00e7a a diminuir ap\u00f3s os 49 anos.<\/em><\/p>\n<p>Entre os leitores, apenas na faixa et\u00e1ria de 11 a 13 anos n\u00e3o foi identificada redu\u00e7\u00e3o, permanecendo em 81%. Este grupo concentra o maior percentual de leitores, embora a pesquisa considere livros did\u00e1ticos como parte do \u00edndice de leitura.<\/p>\n<p><em>Al\u00e9m disso, quando comparamos as atividades realizadas por leitores e n\u00e3o leitores no tempo livre, fica evidente que os leitores possuem um repert\u00f3rio mais diversificado e engajado de pr\u00e1ticas culturais, sociais, esportivas e de lazer. Entre essas atividades, destacam-se a participa\u00e7\u00e3o em Slams e Saraus, especialmente entre os leitores de literatura.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; Quais p\u00fablicos espec\u00edficos (crian\u00e7as, jovens, adultos) apresentaram as mudan\u00e7as mais significativas em seus h\u00e1bitos de leitura?<\/strong><\/p>\n<p><em>Identificamos mudan\u00e7as significativas no comportamento dos jovens, especialmente na faixa de 18 a 39 anos. Nessa faixa et\u00e1ria, h\u00e1 aumento no percentual de influ\u00eancia de influenciadores digitais na decis\u00e3o de leitura ou compra do \u00faltimo livro lido, especialmente entre leitores de literatura. Tamb\u00e9m observamos crescimento no percentual de jovens que afirmam &#8220;ouvir podcasts&#8221;. Entre a popula\u00e7\u00e3o acima dos 50 anos, destacam-se os maiores percentuais de leitores de B\u00edblia e livros religiosos. Nesse grupo, a influ\u00eancia de padres, pastores e l\u00edderes religiosos \u00e9 uma das principais refer\u00eancias na indica\u00e7\u00e3o de livros.<\/em><\/p>\n<p><em>Por outro lado, precisamos ressaltar um dado preocupante: a redu\u00e7\u00e3o no percentual de leitores na faixa et\u00e1ria de 5 a 10 anos, o que impacta diretamente o desempenho no Ensino Fundamental I. Esse per\u00edodo \u00e9 crucial para a alfabetiza\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de leitores, e os dados levantam alertas importantes. Houve queda na pr\u00e1tica de leitura em sala de aula, e 29% dos estudantes do Fundamental I relataram que seus professores n\u00e3o indicam livros. Outros 22% afirmaram que n\u00e3o encontram ou encontram apenas parte dos livros indicados.<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; Na sua opini\u00e3o, como os resultados da pesquisa podem auxiliar na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e estrat\u00e9gias de incentivo \u00e0 leitura?<\/strong><\/p>\n<p><em>As a\u00e7\u00f5es e a amplia\u00e7\u00e3o das Pol\u00edticas do Livro e Leitura, assim como as iniciativas recentes do PNLD, s\u00e3o passos importantes para enfrentar os desafios da forma\u00e7\u00e3o de leitores no Brasil. Entre as medidas anunciadas est\u00e3o o PNLD Educa\u00e7\u00e3o Infantil: distribui\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias para bibliotecas p\u00fablicas e comunit\u00e1rias; Vans com exemplares do PNLD: circula\u00e7\u00e3o em locais sem bibliotecas; e Instala\u00e7\u00e3o de bibliotecas comunit\u00e1rias: em unidades do programa Minha Casa Minha Vida.<\/em><\/p>\n<p><em>Essas a\u00e7\u00f5es devem ser acompanhadas de programas robustos de forma\u00e7\u00e3o para professores, bibliotec\u00e1rios e mediadores de leitura, agentes essenciais para transformar espa\u00e7os de leitura.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 urgente retomar o programa de universaliza\u00e7\u00e3o das bibliotecas escolares, cujo prazo terminou em 2020. Todas as escolas devem contar com bibliotecas com acervos atualizados, internet e atividades pedag\u00f3gicas que envolvam a comunidade escolar, tornando esses espa\u00e7os locais de acolhimento e produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/em><\/p>\n<p><em>Para escolas sem infraestrutura, solu\u00e7\u00f5es como as Vans Bibliotecas, orientadas por bibliotec\u00e1rios, s\u00e3o alternativas vi\u00e1veis. Em 2018, participei de um grupo no FNDE que elaborou recomenda\u00e7\u00f5es para instala\u00e7\u00e3o de bibliotecas escolares, dispon\u00edveis nos arquivos da Funda\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Outra proposta \u00e9 criar espa\u00e7os l\u00fadicos em creches e escolas infantis, com acervos de literatura infantil conduzidos por mediadores capacitados, despertando o interesse pela leitura de forma l\u00fadica e afetiva.<\/em><\/p>\n<p><em>No Semin\u00e1rio da Bienal de S\u00e3o Paulo, o Ministro da Cultura da Col\u00f4mbia, Juan David Correa, destacou que bibliotecas podem transformar realidades ao empoderar comunidades locais, mesmo em \u00e1reas remotas, oferecendo li\u00e7\u00f5es importantes para pol\u00edticas p\u00fablicas. Por fim, \u00e9 essencial promover campanhas nacionais que valorizem a leitura e os livros, refor\u00e7ando sua import\u00e2ncia para o desenvolvimento social, humano e democr\u00e1tico.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A entrevistada da Abrelivros em Pauta deste m\u00eas, Zoara Failla, soci\u00f3loga e coordenadora da 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa &#8220;Retratos da Leitura no Brasil&#8221;, conduzida pelo Instituto Pr\u00f3-Livro, compartilha as principais conclus\u00f5es do estudo. 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