{"id":19884,"date":"2024-06-03T15:45:18","date_gmt":"2024-06-03T18:45:18","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=19884"},"modified":"2024-06-03T15:45:18","modified_gmt":"2024-06-03T18:45:18","slug":"formuladores-de-politicas-publicas-precisam-levar-em-conta-as-competencias-socioemocionais-dos-alunos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/formuladores-de-politicas-publicas-precisam-levar-em-conta-as-competencias-socioemocionais-dos-alunos\/","title":{"rendered":"Formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas precisam levar em conta as compet\u00eancias socioemocionais dos alunos"},"content":{"rendered":"<p>Durante a Bett Brasil, maior evento de inova\u00e7\u00e3o e tecnologia para educa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, realizado em maio, em S\u00e3o Paulo, Karen Teixeira, doutora em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, chamou a aten\u00e7\u00e3o pela apresenta\u00e7\u00e3o dos resultados de um ramo de pesquisa promissor, por\u00e9m ainda pouco conhecido por educadores e sistema de ensino no pa\u00eds: as compet\u00eancias socioemocionais e seus impactos na vida dos estudantes. Em meio a tantas exig\u00eancias de desempenho e de uma extensa base curricular a ser aprendida, a li\u00e7\u00e3o que fica do estudo \u201cSocial and Emotional Skills for Better Lives\u201d (Compet\u00eancias socioemocionais para uma vida melhor, em tradu\u00e7\u00e3o livre) \u00e9 a de que, paralelamente ao material did\u00e1tico das disciplinas escolares, o aluno deveria, e precisa, ser alvo de um trabalho de regula\u00e7\u00e3o emocional. Entrevistada do m\u00eas, Karen Teixeira relata os principais achados do estudo, conduzido pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), em colabora\u00e7\u00e3o com o Instituto Ayrton Senna, onde ela \u00e9 gerente de pesquisa e membro do eduLab21 &#8211; Laborat\u00f3rio de Ci\u00eancias para Educa\u00e7\u00e3o. Pela primeira vez, a pesquisa, que abrangeu um total de 17 pa\u00edses, foi realizada com estudantes do Brasil, no interior cearense, na cidade de Sobral. Karen revela as disparidades do desenvolvimento de um conjunto de 15 compet\u00eancias socioemocionais, em recortes de idade, g\u00eanero e diferen\u00e7a socioecon\u00f4mica, e mostra como a atua\u00e7\u00e3o sobre as emo\u00e7\u00f5es dos alunos pode melhorar o desempenho, al\u00e9m de reduzir evas\u00e3o, falta, atraso escolar e at\u00e9 casos de viol\u00eancia como bullying e envolvimento com gangues. \u201cQue se considerem essas evid\u00eancias na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Isso est\u00e1 bastante adiantado em alguns pa\u00edses\u201d, afirma Karen.<\/p>\n<p><strong>Quais os principais recortes e achados do relat\u00f3rio?<\/strong><br \/>\n<em>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 idade, grupos de 10 anos relataram n\u00edveis de desenvolvimento em quase todas as compet\u00eancias socioemocionais, exceto empatia e toler\u00e2ncia. Os estudantes de 15 anos t\u00eam uma queda no desenvolvimento de compet\u00eancias socioemocionais sendo que isso j\u00e1 \u00e9 um pouco esperado por estarem entrando no per\u00edodo da adolesc\u00eancia. H\u00e1 mais demandas escolares, do pr\u00f3prio processo de constru\u00e7\u00e3o de identidade. Ter consci\u00eancia dessas diferen\u00e7as \u00e9 tamb\u00e9m poder apoiar esses estudantes para que eles possam se desenvolver adequadamente e promover pol\u00edticas p\u00fablicas que os ajudem.<\/em><\/p>\n<p><strong>Que compet\u00eancias s\u00e3o mais abaladas na entrada para a adolesc\u00eancia? <\/strong><br \/>\n<em>Todas elas acabam sofrendo uma diminui\u00e7\u00e3o, sobretudo as compet\u00eancias mais sociais, mas tamb\u00e9m a autogest\u00e3o, que trata da organiza\u00e7\u00e3o, responsabilidade, resili\u00eancia emocional.<\/em><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 contraintuitivo um aluno de 10 anos ser mais respons\u00e1vel do que um de 15?<\/strong><br \/>\n<em>Temos que lembrar que essa pesquisa e muitas outras s\u00e3o feitas com base em autorrelato. \u00c9 a percep\u00e7\u00e3o do estudante sobre a sua compet\u00eancia. Como um estudante mais jovem se percebe mais respons\u00e1vel do que um mais velho? Temos que lembrar que as demandas dele tamb\u00e9m s\u00e3o menos complexas. Para aquelas demandas ele se sente respons\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como esse ramo de pesquisa pode ajudar a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica p\u00fablica?<\/strong><br \/>\n<em>Ao priorizar quais compet\u00eancias seriam interessantes de serem trabalhadas, estimuladas, em determinada faixa et\u00e1ria. H\u00e1 um exemplo em Sobral, onde foi aplicada a pesquisa. Ali, eles tiveram um desafio muito grande em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia nos \u00faltimos anos. Partiu deles a ideia de mapear quais compet\u00eancias socioemocionais estavam mais relacionadas a indicadores de viol\u00eancia na regi\u00e3o, que no caso eram as de amabilidade (empatia, confian\u00e7a e respeito). O que eles verificaram, ao avaliar os resultados, foi que os n\u00edveis de desenvolvimento das compet\u00eancias de amabilidade aumentaram e os indicadores de viol\u00eancia tiveram uma queda, em rela\u00e7\u00e3o a gangues, bullying, tanto dentro quanto fora da escola.<\/em><\/p>\n<p><strong>E os resultados por g\u00eanero?<\/strong><br \/>\n<em>As meninas de 15 anos de idade relatam maior n\u00edvel de desenvolvimento de empatia, determina\u00e7\u00e3o e toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos meninos. Em todas as demais 12 compet\u00eancias os meninos se veem mais desenvolvidos. Outros estudos j\u00e1 apontaram que as meninas tendem a ter um n\u00edvel de desenvolvimento das compet\u00eancias de resili\u00eancia emocional mais baixo que o dos meninos. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 toler\u00e2ncia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o, toler\u00e2ncia ao estresse e \u00e0 autoconfian\u00e7a, elas se veem menos desenvolvidas que os meninos. A press\u00e3o sobre a imagem corporal nas meninas, por exemplo, \u00e9 muito grande e essas cobran\u00e7as e compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o trazidas ainda mais para perto com as redes sociais.<\/em><\/p>\n<p><strong>O terceiro grande recorte \u00e9 a diferen\u00e7a socioecon\u00f4mica. Qual foi o resultado?<\/strong><br \/>\n<em>Estudantes de 15 anos de idade em desvantagem socioecon\u00f4mica relataram menores n\u00edveis de desenvolvimento em compet\u00eancias de abertura ao novo (curiosidade, criatividade e toler\u00e2ncia) e de engajamento com os outros, que \u00e9 assertividade e iniciativa social. J\u00e1 os estudantes de 10 anos, em desvantagem socioecon\u00f4mica, relataram menores n\u00edveis em quase todas as compet\u00eancias, em rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o t\u00eam desvantagem.<\/em><\/p>\n<p><strong>Os formuladores de pol\u00edticas, diretores de escolas, professores e pedagogos, tanto no Brasil quanto no exterior, priorizam essas compet\u00eancias ou ainda h\u00e1 um campo significativo para reformas e sugest\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas?<\/strong><br \/>\n<em>Esse estudo vem muito como uma ferramenta de advocacy, de podermos advogar pelo tema, e mostrar aos formuladores de pol\u00edtica p\u00fablica. Para al\u00e9m dos recortes que a gente falou e da sa\u00fade mental, temos tamb\u00e9m as quest\u00f5es que relacionam as compet\u00eancias tanto ao desempenho escolar &#8211; em matem\u00e1tica, leitura e arte, por exemplo &#8211; quanto \u00e0 preven\u00e7\u00e3o ao absente\u00edsmo, \u00e0s faltas e aos atrasos escolares, problemas que s\u00e3o muito importantes para as redes de ensino. Que os formuladores considerem essas evid\u00eancias na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Isso est\u00e1 bastante adiantado em alguns pa\u00edses.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como o conte\u00fado dos livros escolares poderia contribuir para aprimorar essas habilidades?<\/strong><br \/>\n<em>Os livros did\u00e1ticos podem auxiliar tanto o processo de letramento, quanto de autorreflex\u00e3o sobre como os estudantes v\u00eam mobilizando suas compet\u00eancias socioemocionais, de forma articulada ao conte\u00fado curricular, muitas vezes se valendo de exemplos, eventos hist\u00f3ricos, entre outros, para realizar essa articula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, os livros paradid\u00e1ticos podem ser escolhidos de forma a propiciar discuss\u00f5es e debates sobre as compet\u00eancias socioemocionais em sala de aula, servindo muitas vezes como \u201cganchos\u201d para que a tem\u00e1tica seja trabalhada de forma intencional.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como cat\u00e1strofes naturais, como a que est\u00e1 acontecendo no Rio Grande do Sul, e outras crises impactam as compet\u00eancias socioemocionais dos estudantes? Que medidas podem ser tomadas para mitigar esses efeitos?<\/strong><br \/>\n<em>Situa\u00e7\u00f5es de crise como essa geram um grande sentimento de inseguran\u00e7a, instabilidade e receio em rela\u00e7\u00e3o ao futuro &#8211; tudo isso em meio ao luto, perdas de diferentes naturezas e incertezas. Resultados de uma pesquisa feita pelo Instituto Ayrton Senna com dados anteriores e posteriores \u00e0 pandemia de COVID-19 mostraram quedas acentuadas nas compet\u00eancias de engajamento com os outros e abertura ao novo para todos os estudantes, independentemente de suas caracter\u00edsticas socioecon\u00f4micas, ressalta-se. Nesses momentos os estudantes precisam de muito acolhimento, espa\u00e7os de discuss\u00e3o e escuta, para que possam dar vaz\u00e3o aos seus sentimentos, d\u00favidas, anseios e encontrar apoio. A proximidade entre fam\u00edlia e escola tamb\u00e9m \u00e9 indispens\u00e1vel para que os estudantes possam ir aos poucos se readaptando, sendo cuidados e apoiados.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a Bett Brasil, maior evento de inova\u00e7\u00e3o e tecnologia para educa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, realizado em maio, em S\u00e3o Paulo, Karen Teixeira, doutora em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, chamou a aten\u00e7\u00e3o pela apresenta\u00e7\u00e3o dos resultados de um ramo de pesquisa promissor, por\u00e9m ainda pouco conhecido por educadores e sistema de ensino [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[58],"tags":[],"class_list":["post-19884","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-abrelivros-em-pauta"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19884"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19886,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19884\/revisions\/19886"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}