{"id":1936,"date":"2008-03-25T11:21:00","date_gmt":"2008-03-25T14:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2008\/03\/25\/desafios-do-mercado-editorial\/"},"modified":"2008-03-25T11:21:00","modified_gmt":"2008-03-25T14:21:00","slug":"desafios-do-mercado-editorial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/desafios-do-mercado-editorial\/","title":{"rendered":"Desafios do mercado editorial"},"content":{"rendered":"<p>Envolvido com o mundo dos livros h\u00e1 mais de trinta anos, que pondera\u00e7\u00f5es trazer aqui para contribuir com o debate sobre os rumos da ind\u00fastria editorial em nosso pa\u00eds? O bom senso manda que a primeira delas seja a mod\u00e9stia de n\u00e3o ter respostas para as quest\u00f5es levantadas. Estamos no in\u00edcio de um novo s\u00e9culo, com tanta coisa mudando \u00e0 nossa volta, que \u00e9 melhor ter clareza das d\u00favidas e desafios atuais do que alimentar a cren\u00e7a das certezas. O que trago s\u00e3o alguns pontos de reflex\u00e3o.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Quando penso que, nos anos 1970, ainda eram utilizadas as linotipos, em que cada barra de chumbo correspondia a uma linha de texto (comprometendo a sa\u00fado dos linotipistas), fica vis\u00edvel a transforma\u00e7\u00e3o ocorrida nas \u00faltimas d\u00e9cadas. N\u00e3o apenas quanto aos recursos t\u00e9cnicos, como tamb\u00e9m nos aspectos culturais. Afinal, j\u00e1 faz algum tempo que a transmiss\u00e3o do saber deixou de ser exclusividade do meio impresso.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> No caso do Brasil, esse abismo \u00e9 ainda maior porque tivemos um per\u00edodo sombrio durante a ditadura militar, vigilante quanto a tudo o que se publicava por aqui. A censura n\u00e3o chegava a controlar ostensivamente a publica\u00e7\u00e3o de livros (como fazia com os jornais), mas acompanhava de perto a produ\u00e7\u00e3o editorial e volta e meia intimidava os editores mais ousados \u2013 como foi o caso de Enio Silveira, respons\u00e1vel pela antiga editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Mesmo assim, contamos com uma ao tradi\u00e7\u00e3o de editores talentosos e empreendedores de uma cultura editorial pautada na pluralidade de id\u00e9ias, com a dif\u00edcil miss\u00e3o de divulgar escritores em \u00e2mbito nacional. Dentre eles, podem ser citados Alfredo Machado, S\u00e9rgio e Sebasti\u00e3o Lacerda, Caio Graco e Jorge Zahar. &nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> S\u00e3o nomes que merecem ser lembrados como os \u00faltimos representantes de um certo \u201cidealismo editorial\u201d, herdeiros da linhagem de Jos\u00e9 Olympio, em oposi\u00e7\u00e3o ao \u201crealismo de mercado\u201d, defendido pelos que privilegiam o retorno financeiro como crit\u00e9rio central nas decis\u00f5es cotidianas de uma editora. J\u00e1 se sabe hoje que a disputa entre as duas vertentes acabou sendo vencida pelo pragmatismo, n\u00e3o por acaso em conson\u00e2ncia com o cen\u00e1rio econ\u00f4mico internacional.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Tal como sucedeu nos EUA e na Europa, vem ocorrendo no Brasil uma tend\u00eancia para a centraliza\u00e7\u00e3o na m\u00e3o de poucas empresas \u2013 seja tanto no campo da publica\u00e7\u00e3o, quanto na ponta das grandes redes de livrarias. Algumas s\u00e3o de origem nacional (como Record, Ediouro, Livrarias Siciliano e Saraiva), e outras v\u00eam do estrangeiro na condi\u00e7\u00e3o de players globais, interessados em difundir os seus t\u00edtulos e know-how mundo afora (Larousse, Pearson, Planeta, Fnac, etc). Claro que as editoras e as livrarias pequenas continuar\u00e3o a existir, mas representam cada vez menos no contexto geral.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> O fen\u00f4meno j\u00e1 existia antes, por\u00e9m agora alcan\u00e7a uma vitalidade sem precedentes e conta com a agilidade das novas tecnologias. Por decorr\u00eancia, podemos ver nas livrarias tupiniquins os mesmos t\u00edtulos que aparecem nas vitrines de Paris, Berlim ou Nova York \u2013 boa parte deles impressos na China. &nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Tudo isso tem o seu lado bom e estimulante, mas somente a m\u00e9dio prazo ser\u00e1 poss\u00edvel avaliar at\u00e9 que ponto as mudan\u00e7as favorecem uma real expans\u00e3o dos neg\u00f3cios e o fortalecimento da produ\u00e7\u00e3o intelectual e liter\u00e1ria produzida nos tr\u00f3picos.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Em princ\u00edpio, nada contra a internacionaliza\u00e7\u00e3o ou concentra\u00e7\u00e3o, que pode at\u00e9 se tornar um est\u00edmulo saud\u00e1vel; desde que haja a contrapartida na ampla difus\u00e3o do conhecimento produzido por nossos autores e cientistas.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Curiosamente, a transforma\u00e7\u00e3o do panorama editorial est\u00e1 ocorrendo sem que o setor livreiro tenha resolvido os seus problemas mais agudos, respons\u00e1veis pelo marasmo observado ao longo dos \u00faltimos 15 anos (conforme estudo dos economistas F\u00e1bio S\u00e1 Earp e George Kornis, acess\u00edvel no site da C\u00e2mara Brasileira de Livros). Mesmo que os n\u00fameros recentes acenem com uma melhoria dos \u00edndices, chega-se \u00e0 conclus\u00e3o de que essa ind\u00fastria n\u00e3o tem conseguido acompanhar o desenvolvimento geral do pa\u00eds. &nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Para que isso venha de fato a ocorrer, ser\u00e1 necess\u00e1rio antes encarar de frente alguns embara\u00e7os que continuam a emperrar o crescimento do setor. Quest\u00f5es como a distribui\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, poucas livrarias, pre\u00e7o elevado, divulga\u00e7\u00e3o restrita e vendas insignificantes para bibliotecas permanecem como entraves estruturais que dificultam a efetiva populariza\u00e7\u00e3o do acesso ao livro, ainda restrito a uma elite de leitores. &nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> A rigor, falta uma pol\u00edtica consistente para o incremento da ind\u00fastria editorial no Brasil. Da parte do governo \u2013 ainda que seja comprador de mais da metade dos livros produzidos -, n\u00e3o se observa continuidade na pol\u00edtica de incentivos para o segmento. A cada troca de governante ocorrem altera\u00e7\u00f5es nos programas de aquisi\u00e7\u00e3o e nas regras do jogo.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> O Estado igualmente tem se omitido quanto \u00e0 arbitragem e \u00e0 discuss\u00e3o de t\u00f3picos importantes que poderiam fortalecer a cadeia do livro, como no que se refere \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o \u00fanico, incentivos para autores nacionais, fortalecimento das livrarias especializadas e de pequeno porte. \u00c9 quase imposs\u00edvel encaminhar estes assuntos sem que alguns interesses sejam contrariados.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> A iniciativa privada, por sua vez, fica restrita a uma vis\u00e3o de curto prazo e deixa a desejar no cumprimento do papel cultural que seria de se esperar. Chega a ser lament\u00e1vel o fato de as associa\u00e7\u00f5es de classe das editoras n\u00e3o terem cumprido a promessa de contribui\u00e7\u00e3o para o Fundo da Leitura, logo ap\u00f3s a desonera\u00e7\u00e3o de impostos promulgada pelo Minist\u00e9rio da Fazenda. As boas inten\u00e7\u00f5es, uma vez mais, se limitaram aos discursos.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas um pequeno segmento da economia, mas uma parcela do imagin\u00e1rio brasileiro que repousa e sobreviva nas p\u00e1ginas impressas. E a vida dessas obras completa-se quando chegam \u00e0s m\u00e3os dos leitores, pois somente dessa maneira encerram o ciclo que teve origem na intui\u00e7\u00e3o e sabedoria dos escritores.&nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Ou ser\u00e1 que continuaremos a repetir no vazio o bord\u00e3o criado por Monteiro Lobato h\u00e1 quase um s\u00e9culo? J\u00e1 n\u00e3o se pode mais dizer que um pa\u00eds se faz com homens e livros, mas a leitura continua a ser uma forte aliada no desenvolvimento das mentalidades  e aptid\u00f5es. Quanto mais democr\u00e1tica e criativa for a produ\u00e7\u00e3o editorial, tanto melhor ser\u00e1 o pa\u00eds. &nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/>  &nbsp;<br \/> &nbsp;<br \/> Fernando Paix\u00e3o foi editor da \u00c1tica durante 35 anos, at\u00e9 o fim do ano passado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Envolvido com o mundo dos livros h\u00e1 mais de trinta anos, que pondera\u00e7\u00f5es trazer aqui para contribuir com o debate sobre os rumos da ind\u00fastria editorial em nosso pa\u00eds? O bom senso manda que a primeira delas seja a mod\u00e9stia de n\u00e3o ter respostas para as quest\u00f5es levantadas. 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