{"id":17463,"date":"2022-08-05T13:38:12","date_gmt":"2022-08-05T16:38:12","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=17463"},"modified":"2022-08-05T14:44:31","modified_gmt":"2022-08-05T17:44:31","slug":"projeto-de-vida-no-novo-ensino-medio-alunos-comemoram-professores-se-queixam-de-falta-de-formacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/projeto-de-vida-no-novo-ensino-medio-alunos-comemoram-professores-se-queixam-de-falta-de-formacao\/","title":{"rendered":"Projeto de vida no novo ensino m\u00e9dio: alunos comemoram; professores se queixam de falta de forma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Uma das inova\u00e7\u00f5es do curr\u00edculo do novo ensino m\u00e9dio, em vigor no pa\u00eds h\u00e1 pouco mais de seis meses, o <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/noticia\/2022\/01\/12\/o-que-e-projeto-de-vida-novo-ensino-medio.ghtml\">projeto de vida<\/a> traz uma mistura de sentimentos. Enquanto alunos comemoram a oportunidade de ter um espa\u00e7o para debater em sala de aula carreira e futuro profissional, professores se queixam da falta de forma\u00e7\u00e3o para dar a mat\u00e9ria, que \u00e9 obrigat\u00f3ria tanto para escolas p\u00fablicas quanto privadas.<!--more--><\/p>\n<p>Esp\u00e9cie de programa para ajudar os jovens a se conhecerem melhor e a tomarem decis\u00f5es pessoais e profissionais, mat\u00e9ria passou a ser obrigat\u00f3ria no curr\u00edculo das redes p\u00fablica e privada.<\/p>\n<p>&#8220;Estar na sala de aula com os colegas e o professor e n\u00e3o precisar decorar f\u00f3rmulas ou estudar teorias que n\u00e3o vou utilizar no meu dia a dia \u00e9 um al\u00edvio. Em vez disso, posso refletir sobre o que quero para a minha vida&#8221;, avalia o goianiense Marcelo Pereira, de 16 anos, sobre os 50 minutos que tem toda quarta-feira entre as aulas de geografia e matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Acontece que a legisla\u00e7\u00e3o que determinou a implementa\u00e7\u00e3o da disciplina n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o detalhada. Ela deixa, por exemplo, a cargo das institui\u00e7\u00f5es de ensino a defini\u00e7\u00e3o de como e quando o projeto de vida ser\u00e1 inclu\u00eddo na grade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o estipula o perfil do profissional que dar\u00e1 a aula. Secretarias estaduais t\u00eam escolhido entre os seus docentes aqueles que tenham caracter\u00edsticas como dinamismo, empatia, habilidade de escuta, resili\u00eancia e abertura ao di\u00e1logo. Algumas redes dizem fornecer capacita\u00e7\u00e3o, mas tem professores que relatam sentir falta desse preparo. &#8220;Me sinto perdido&#8221;, diz um deles.<\/p>\n<p>Nas particulares, a realidade parece ser outra. Entre as escolas ouvidas pelo g1, de estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, elas dizem j\u00e1 oferecer uma disciplina de &#8220;orienta\u00e7\u00e3o socioemocional&#8221; em seu curr\u00edculo desde antes da obrigatoriedade, com treinamento espec\u00edfico para os professores.<\/p>\n<p>Confira abaixo o que prev\u00ea esse componente e as primeiras impress\u00f5es de estudantes e docentes:<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 o projeto de vida?<\/strong><\/p>\n<p>A altera\u00e7\u00e3o na Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional que institui o novo ensino m\u00e9dio n\u00e3o traz muitos detalhes acerca do projeto de vida, apenas a determina\u00e7\u00e3o de que deve ser aplicado no ensino m\u00e9dio, considerando a forma\u00e7\u00e3o do estudante nos &#8220;aspectos f\u00edsicos, cognitivos e socioemocionais&#8221;.<\/p>\n<p>A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, documento que estipula o conte\u00fado e as habilidades que devem ser desenvolvidas pelas escolas) prev\u00ea o projeto de vida como um meio de o estudante exercer sua cidadania e tomar suas decis\u00f5es com \u201cliberdade, autonomia, consci\u00eancia cr\u00edtica e responsabilidade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Carga hor\u00e1ria &#8211;<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 uma carga hor\u00e1ria m\u00ednima exigida para o componente. Al\u00e9m disso, a escola pode escolher se aplica a atividade j\u00e1 no primeiro ano ou se a distribui ao longo dos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p><strong>Avalia\u00e7\u00e3o &#8211;<\/strong> A institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode decidir se o projeto de vida valer\u00e1 nota no boletim ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Professor &#8211;<\/strong> Tampouco h\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o sobre o perfil do profissional que ministrar\u00e1 a mat\u00e9ria. A escola pode designar um professor que j\u00e1 integra a rede de ensino ou contratar algu\u00e9m especificamente para a fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em geral, as secretarias estaduais de educa\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as respons\u00e1veis pela oferta do ensino m\u00e9dio na rede p\u00fablica, t\u00eam escolhido professores que j\u00e1 fazem parte do seu corpo docente. \u00c9 o caso de ao menos 17 estados, segundo levantamento do g1 feito junto \u00e0s 27 unidades da federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria encaixa a disciplina na grade do primeiro ano do <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/educacao\/noticia\/2022\/01\/12\/novo-ensino-medio-saiba-quais-mudancas-passam-a-valer-em-2022.ghtml\">ensino m\u00e9dio<\/a>, mas tem lugares, como o Distrito Federal, em que \u00e9 oferecida ao longo dos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, das 17 secretarias que responderam aos questionamentos da reportagem, 14 disseram que a mat\u00e9ria j\u00e1 foi implementada em todas as suas escolas. Nos outros tr\u00eas estados, ainda precisa implantar em parte da rede &#8211; e isso ocorre por diferentes raz\u00f5es. Em Pernambuco, por exemplo, falta adotar em 24 escolas ind\u00edgenas, onde, segundo o governo local, est\u00e1 em andamento um processo de negocia\u00e7\u00e3o com os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&#8216;Aula \u00e9 sobre o que quero para meu futuro&#8217;<\/p>\n<p>Novidade principalmente na rede p\u00fablica, a mat\u00e9ria tem tido boa receptividade entre os estudantes. Na escola em que Kathielly Moura, de 15 anos, estuda na cidade de Serrinha, na Bahia, foi o professor de filosofia que assumiu o projeto de vida. Para ela, a decis\u00e3o foi acertada.<\/p>\n<p>&#8220;As aulas de filosofia s\u00e3o mais reflexivas e o projeto de vida, tamb\u00e9m. Meu professor tem essa [caracter\u00edstica] e os alunos gostam muito das aulas dele&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Kathielly Moura \u00e9 estudante de 1\u00ba ano do ensino m\u00e9dio em Serrinha, na Bahia. \u2014 Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>Kathielly \u00e9 representante de sua turma e conta que o retorno que os colegas d\u00e3o da nova disciplina \u00e9 positivo. Ela ainda atribui ao projeto de vida a mudan\u00e7a de pensamento que teve sobre o pr\u00f3ximo passo ap\u00f3s concluir o ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu mesma estava em d\u00favida do [curso] que queria fazer na faculdade e essa disciplina me ajudou bastante porque comecei a me encontrar. Essa mat\u00e9ria faz algumas perguntas que nos ajudam muito a diferenciar o que a gente quer do que \u00e9 uma d\u00favida [sobre \u00e1reas e projetos de vida]&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m elogia o novo componente \u00e9 Alessandra Santos, de 15 anos, de Quer\u00eancia, no Mato Grosso.<\/p>\n<p>&#8220;Essa aula \u00e9 sobre o que eu quero para o meu futuro, o que quero da vida, e tem me ajudado muito a pensar no que quero para mim. Tenho refletido bastante&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Ela conta que desde a inf\u00e2ncia sonhava em seguir carreira em per\u00edcia criminal, mas, depois das reflex\u00f5es da disciplina, pode mudar totalmente de rumo. &#8220;Agora estou pensando em ser professora de filosofia&#8221;.<\/p>\n<p>No col\u00e9gio particular Qi Metropolitano, do Rio de Janeiro, onde Isabelle Gamb\u00f4a cursa o 1\u00ba ano, a disciplina equivalente ao projeto de vida \u00e9 chamada de socioemocional. Segundo ela, a orienta\u00e7\u00e3o foi fundamental para encarar a nova etapa de ensino.<\/p>\n<p>&#8220;A proposta do novo ensino m\u00e9dio me deu medo, ainda mais depois desse per\u00edodo de pandemia. Ficou tudo muito complicado na minha cabe\u00e7a, as quest\u00f5es de mat\u00e9ria ficaram meio emboladas, mas o socioemocional me ajudou no autoconhecimento e na organiza\u00e7\u00e3o [dos conte\u00fados das aulas]&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Na escola, a respons\u00e1vel pela disciplina \u00e9 uma orientadora pedag\u00f3gica com forma\u00e7\u00e3o em psicopedagoga &#8211; outro ponto positivo para a aluna. &#8220;Conseguimos ter uma abertura maior justamente por ela ser nossa orientadora. Temos a liberdade de conversar sobre nossas experi\u00eancias, sobre o que n\u00f3s queremos e sempre podemos ir \u00e0 sala dela para tirar qualquer d\u00favida&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8216;Como professor, me sinto perdido&#8217;<\/p>\n<p>Apesar da boa impress\u00e3o que o projeto de vida tem deixado nos alunos, o mesmo n\u00e3o acontece entre alguns professores da rede p\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;Os alunos se envolvem porque \u00e9 uma aula mais aberta, n\u00e3o \u00e9 conteudista [com foco em conte\u00fado]. Mas, enquanto eles se encontram, eu, como professor, me sinto perdido. N\u00e3o h\u00e1 uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para lecionar projeto de vida e a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o deixa tudo nas nossas costas&#8221;, queixa-se um professor da rede estadual do Rio de Janeiro que prefere n\u00e3o se identificar.<\/p>\n<p>A falta de uma capacita\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um dos problemas apontados pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo (Apeoesp).<\/p>\n<p>&#8220;Pretender que os jovens elaborem projetos de vida nesse contexto de falta de estrutura nas escolas estaduais, aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o continuada para os professores e di\u00e1logo verdadeiro no ambiente escolar nos parece apenas uma forma de transferir aos alunos o \u00f4nus por todas essas defici\u00eancias, com base em um falso protagonismo e um &#8216;direito de escolha&#8217; que n\u00e3o \u00e9 cab\u00edvel nesse contexto&#8221;, diz a entidade em nota enviada ao g1.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o parecida \u00e9 vivida pelo professor Paulo Mendes, que d\u00e1 aulas na rede estadual de Divin\u00f3polis (MG). Ele relata n\u00e3o se sentir t\u00e3o preparado em rela\u00e7\u00e3o ao projeto de vida quanto est\u00e1 em geografia, \u00e1rea de sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Para dar aulas de geografia, eu estudei por quatro anos, fiz p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es e, agora, estou fazendo meu mestrado. Mas, para ensinar o projeto de vida, a \u00fanica coisa que disseram foi &#8216;vai l\u00e1 e completa sua carga hor\u00e1ria&#8217;. N\u00e3o recebi nenhum tipo material de apoio, nenhuma forma\u00e7\u00e3o continuada, nada&#8221;.<\/p>\n<p>Ele conta que ficar respons\u00e1vel pelo projeto de vida n\u00e3o foi uma escolha, mas uma necessidade. &#8220;Eu leciono uma das disciplinas do novo ensino m\u00e9dio, mas tamb\u00e9m precisei assumir o projeto de vida para completar minha carga hor\u00e1ria m\u00ednima. Como professor concursado, preciso cumprir um m\u00ednimo de horas e s\u00f3 a disciplina pela qual sou respons\u00e1vel n\u00e3o preenche o requisito&#8221;, explica.<\/p>\n<p><strong>O que dizem as secretarias<\/strong><\/p>\n<p>A Secretaria de Estado de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro informou que oferece aos professores forma\u00e7\u00e3o para o novo ensino m\u00e9dio com um m\u00f3dulo voltado para o projeto de vida, apesar de o apoio da secretaria aos profissionais n\u00e3o ser espec\u00edfico para o projeto de vida ou outros componentes curriculares.<\/p>\n<p>Sobre as cr\u00edticas da Apeoesp, a Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo disse que &#8220;os docentes contam com forma\u00e7\u00f5es eventuais em Aulas de Trabalho Pedag\u00f3gico Coletivo (ATPCs), transmitidas via Centro de M\u00eddias SP, pela Escola de Forma\u00e7\u00e3o e Aperfei\u00e7oamento dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo (EFAPE)&#8221;.<\/p>\n<p>Acrescentou ainda que a &#8220;disciplina e as compet\u00eancias socioemocionais no ensino m\u00e9dio s\u00e3o contempladas por meio de a\u00e7\u00f5es formativas direcionadas a docentes, diretores, professores coordenadores do n\u00facleo pedag\u00f3gico e supervisores&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Secretaria de Estado de Educa\u00e7\u00e3o de Minas Gerais disse que &#8220;os profissionais respons\u00e1veis pela aplica\u00e7\u00e3o do projeto de vida t\u00eam a sua disposi\u00e7\u00e3o forma\u00e7\u00e3o continuada e webin\u00e1rios oferecidos pela SEE\/MG sobre o referencial te\u00f3rico e operacionaliza\u00e7\u00e3o do componente curricular&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Impacto do projeto de vida<\/strong><\/p>\n<p>Para o psicopedagogo Carlos Alberto Gon\u00e7alves, o novo componente pode ser o maior diferencial do novo ensino m\u00e9dio se for devidamente aplicado.<\/p>\n<p>&#8220;A ideia de oferecer aos alunos um espa\u00e7o em que eles possam apenas refletir sobre o que querem, quem s\u00e3o e quem podem ser \u00e9 sensacional, especialmente nessa etapa escolar em que h\u00e1 muita tens\u00e3o sobre notas, conte\u00fados e vestibulares&#8221;.<br \/>\nNo entanto, ele ressalta que \u00e9 preciso ser dado apoio aos docentes.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o vejo problema em oferecer a atividade para um professor que j\u00e1 atua com a turma, mas, para isso, \u00e9 preciso que seja ofertada tamb\u00e9m uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para este profissional. Afinal, mais do que nunca, a responsabilidade de ajudar o aluno a decidir sobre seu futuro recai sobre ele e n\u00e3o \u00e9 uma responsabilidade qualquer&#8221;, observa.<\/p>\n<p>&#8220;Se a proposta \u00e9 tornar o ensino m\u00e9dio mais atrativo e eficiente, isso deve ser feito desde o come\u00e7o e desde a base, que \u00e9 onde est\u00e1 o professor&#8221;, completa Gon\u00e7alves.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das inova\u00e7\u00f5es do curr\u00edculo do novo ensino m\u00e9dio, em vigor no pa\u00eds h\u00e1 pouco mais de seis meses, o projeto de vida traz uma mistura de sentimentos. 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