{"id":1572,"date":"2006-10-11T16:42:00","date_gmt":"2006-10-11T19:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2006\/10\/11\/o-desafio-da-qualidade\/"},"modified":"2006-10-11T16:42:00","modified_gmt":"2006-10-11T19:42:00","slug":"o-desafio-da-qualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/o-desafio-da-qualidade\/","title":{"rendered":"O desafio da qualidade"},"content":{"rendered":"<p><B>Os grandes problemas da educa\u00e7\u00e3o \u00a0<br \/> Exclus\u00e3o \u00a0<br \/><\/B> 97% das crian\u00e7as brasileiras de 7 a 14 anos est\u00e3o na escola. Os 3% que est\u00e3o fora da escola correspondem a 1,5 milh\u00e3o de crian\u00e7as \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Evas\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o \u00a0<br \/><\/B> De cada 100 alunos que entram na 1a s\u00e9rie&#8230; S\u00f3 47 concluem a 8a s\u00e9rie na idade certa, 14 terminam o Ensino M\u00e9dio sem ou evadir e 11 conseguem ingressar no Ensino Superior \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Baixo n\u00edvel de aprendizagem \u00a0<br \/> L\u00edngua Portuguesa \u00a0<br \/><\/B> 4a s\u00e9rie &#8211; 61% dos alunos n\u00e3o conseguem identificar as principais id\u00e9ias de um texto simples \u00a0<br \/> 8a s\u00e9rie &#8211; 60% n\u00e3o sabem interpretar um texto dissertativo \u00a0<br \/><B> Matem\u00e1tica \u00a0<br \/><\/B> 4a s\u00e9rie &#8211; 65% dos alunos n\u00e3o dominam as quatro apera\u00e7\u00f5es \u00a0<br \/> 8a s\u00e9rie &#8211; 60% n\u00e3o sabem porcentagem \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Poucos recursos: <\/B>Brasil investe 4,3% do PIB em Educa\u00e7\u00e3o. O ideal seria 7% \u00a0<br \/> Educa\u00e7\u00e3o Infantil: S\u00f3 11,7% das crian\u00e7as at\u00e9 3 anos est\u00e3o na creche 68,4% das crian\u00e7as de 4 a 6 anos frequentam a pr\u00e9-escola \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> &#8230;e como atac\u00e1-los\u00a0<\/B><br \/> Ter consci\u00eancia da import\u00e2ncia da Educa\u00e7\u00e3o\u00a0<br \/> Investir mais recursos em escolas e professores\u00a0<br \/> Valorizar o trabalho dos professores\u00a0<br \/> Estabelecer politicas de longo prazo \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Infra-estrutura*<\/B>\u00a0<br \/> Das 162 mil escolas do Brasil\u00a0<br \/> 25 mil n\u00e3o t\u00eam luz el\u00e9trica\u00a0<br \/> 129 mil n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 internet\u00a0<br \/> 40 mil n\u00e3o t\u00eam biblioteca\u00a0<br \/> 10 mil n\u00e3o t\u00eam Banheiro \u00a0<br \/> * Em escolas de Ensino Fundamental (fonte: INEP\/MEC) \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Perfil dos professores\u00a0<br \/><\/B> Bol\u00edvia &#8211; Idade m\u00e9dia: 37,8 \/ Anos de Estudo: 14,2\u00a0<br \/> Brasil &#8211; Idade m\u00e9dia: 26,4 \/ Anos de Estudo: 11,4\u00a0<br \/> Chile &#8211; Idade m\u00e9dia: 41,3 \/ Anos de Estudo: 15,9\u00a0<br \/> Col\u00f4mbia &#8211; Idade m\u00e9dia: 38 \/ Anos de Estudo: 13,7\u00a0<br \/> Costa Rica &#8211; Idade m\u00e9dia: 37,7 \/ Anos de Estudo: 14,8\u00a0<br \/> Equador &#8211; Idade m\u00e9dia: 39,2 \/ Anos de Estudo: 15,2\u00a0<br \/> El Salvador &#8211; Idade m\u00e9dia: 37,5 \/ Anos de Estudo: 13,8\u00a0<br \/> Honduras &#8211; Idade m\u00e9dia: 37,6 \/ Anos de Estudo: 12,7 \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Investimento Por Aluno * \u00a0<br \/><\/B> Brasil &#8211; US$ 842\u00a0<br \/> Argentina &#8211; US$ 1241\u00a0<br \/> Chile &#8211; US$ 2110\u00a0<br \/> USA &#8211; US$ 8049 \u00a0<br \/> * No Ensino Fundamental, por ano, em d\u00f3lares por paridade do porder de compra\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Crian\u00e7as de 5\u00aa s\u00e9rie que n\u00e3o sabem ler nem escrever, sal\u00e1rios baixos para todos os profissionais da escola, equipes desestimuladas, fam\u00edlias desinteressadas pelo que acontece com seus filhos nas salas de aula, qualidade que deixa a desejar, professores que fingem que ensinam e alunos que fingem que aprendem. O quadro da Educa\u00e7\u00e3o brasileira (sobretudo a p\u00fablica) est\u00e1 cada vez mais desanimador. Na mais recente avalia\u00e7\u00e3o nacional, o Prova Brasil, os estudantes de 4\u00aa s\u00e9rie obtiveram em Matem\u00e1tica e L\u00edngua Portuguesa notas que deveriam ser comuns na 1\u00aa. E os de 8\u00aa mal conseguem alcan\u00e7ar os conte\u00fados previstos para a 4\u00aa. Enfrentar esse desafio parece, muitas vezes, uma tarefa imposs\u00edvel. Mas a verdade \u00e9 uma s\u00f3: assim como est\u00e1, n\u00e3o d\u00e1 para continuar! A boa not\u00edcia \u00e9 que cada vez mais gente est\u00e1 percebendo isso &#8211; e se mobilizando para mudar essa situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. No in\u00edcio de setembro, um grupo de empres\u00e1rios e l\u00edderes pol\u00edticos lan\u00e7aram (com grande apoio de jornais e emissoras de r\u00e1dio e TV) o compromisso Todos pela Educa\u00e7\u00e3o. Foram apresentadas cinco metas a ser atingidas at\u00e9 7 de setembro de 2022, o ano do bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia: \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> * Toda crian\u00e7a e jovem de 4 a 17 anos estar\u00e1 na escola;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> * Toda crian\u00e7a de 8 anos saber\u00e1 ler e escrever;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> * Todo aluno aprender\u00e1 o que \u00e9 apropriado para a sua s\u00e9rie;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> * Todos os alunos v\u00e3o concluir o Ensino Fundamental e o M\u00e9dio;\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> * O investimento na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica ser\u00e1 garantido e bem gerido.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A escolha da data \u00e9 simb\u00f3lica e refor\u00e7a a cren\u00e7a de que um pa\u00eds s\u00f3 pode ser considerado independente, de fato, se suas crian\u00e7as e jovens t\u00eam acesso \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o de qualidade, afirma Ana Maria Diniz, presidente do Instituto P\u00e3o de A\u00e7\u00facar e uma das idealizadoras do pacto. Hoje, \u00e9 dif\u00edcil imaginar que todos os objetivos ser\u00e3o atingidos, mas s\u00f3 depende de n\u00f3s. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Ningu\u00e9m mais quer um pa\u00eds com uma taxa t\u00e3o baixa de escolaridade: nossos alunos ficam, em m\u00e9dia, apenas 4,9 anos na escola, contra 12 nos Estados Unidos, 11 na Cor\u00e9ia do Sul e oito na Argentina. E, o que \u00e9 pior, n\u00e3o aprendem as compet\u00eancias b\u00e1sicas. Pesquisa nacional conduzida pelo Instituto Paulo Montenegro mostra que 74% dos brasileiros s\u00e3o analfabetos funcionais, ou seja, n\u00e3o conseguem ler esta reportagem (na verdade, n\u00e3o compreendem nada mais complexo que um bilhete). \u00c9 espantador, mas \u00e9 verdade. De cada quatro pessoas, s\u00f3 uma \u00e9 capaz de entender o que est\u00e1 escrito em qualquer texto minimamente complexo. E o mesmo ocorre com habilidades matem\u00e1ticas, como as quatro opera\u00e7\u00f5es. At\u00e9 algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, esses dados tinham relativamente pouca relev\u00e2ncia. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Hoje, com a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, n\u00e3o d\u00e1 mais para viver sem dominar essas compet\u00eancias b\u00e1sicas. Estudos comprovam que a riqueza de uma na\u00e7\u00e3o depende de sua produtividade e, portanto, da capacita\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3o-de-obra. Em bom econom\u00eas, gente educada produz mais. Do ponto de vista social, a Educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda para reduzir desigualdades. N\u00fameros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que filhos de mulheres com pouca escolaridade (at\u00e9 tr\u00eas anos de estudo) t\u00eam 2,5 vezes mais riscos de morrer antes de completar 5 anos de idade do que as crian\u00e7as cujas m\u00e3es estudaram por oito anos ou mais.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Nos \u00faltimos anos, o Brasil deu um passo importante ao (praticamente) resolver a quest\u00e3o do acesso \u00e0 escola: 97% dos jovens de 7 a 14 anos est\u00e3o matriculados. S\u00f3 que esses m\u00edseros 3% que est\u00e3o longe de livros e cadernos correspondem a 1,5 milh\u00e3o de pessoas (logicamente, das camadas mais pobres). Conseguimos instituir a escola democr\u00e1tica e popular, mas mantivemos o modelo dos anos 1960, que n\u00e3o garante a qualidade, pois \u00e9 pensado para a elite, afirma Maria do Pilar Lacerda, secret\u00e1ria municipal de Educa\u00e7\u00e3o de Belo Horizonte e presidente da Uni\u00e3o Nacional dos Dirigentes Municipais de Educa\u00e7\u00e3o (Undime).\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> No bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia, o cen\u00e1rio educacional pode ser o mesmo de hoje. Ou n\u00e3o. Mudar essa situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica \u00e9 uma decis\u00e3o de todos os cidad\u00e3os &#8211; e n\u00e3o s\u00f3 de empres\u00e1rios e dirigentes pol\u00edticos mas de diretores de escola, pais e professores. Como voc\u00ea j\u00e1 viu no quadro das p\u00e1ginas 40 e 41, os problemas da Educa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds s\u00e3o grandes e diversificados. Por\u00e9m h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es concretas. Veja por onde devemos come\u00e7ar.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Aqui, os alunos aprendem \u00a0<br \/> Notas de 4\u00aa s\u00e9rie no prova Brasil \u00a0<br \/> L\u00edngua Portuguesa \u00a0<br \/><\/B> Nota m\u00e1xima:350 \/ M\u00e9dia no pa\u00eds: 172,09 \/ CIEP 279: 287,26 \u00a0<br \/><B> Matem\u00e1tica \u00a0<br \/><\/B> Nota m\u00e1xima: 375 \/ M\u00e9dia no pa\u00eds: 179,98 \/ CIEP 279: 286,54\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Todas as escolas brasileiras deveriam alcan\u00e7ar a nota m\u00e1xima de desempenho no Prova Brasil &#8211; 350 em L\u00edngua Portuguesa e 375 em Matem\u00e1tica. O Ciep 279 Professora Guiomar Gon\u00e7alves Neves, em Trajano de Moraes, a 185 quil\u00f4metros do Rio de Janeiro, chegou perto. Tirou primeiro lugar em L\u00edngua Portuguesa e segundo em Matem\u00e1tica (veja as notas abaixo) na prova para a 4a s\u00e9rie. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que o Ciep 279 se destaca. Na avalia\u00e7\u00e3o de qualidade do ensino realizada pela rede estadual no ano passado, a escola ficou entre as 35 melhores. O segredo? Ensinar.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> N\u00e3o h\u00e1 novidade revolucion\u00e1ria na pr\u00e1tica pedag\u00f3gica da escola. Nenhum dos professores tem doutorado e nem sequer h\u00e1 muita infra-estrutura, como laborat\u00f3rios de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o &#8211; ao contr\u00e1rio, falta uma sala de inform\u00e1tica e a fachada do pr\u00e9dio pede uma reforma. Mas a equipe de nove profissionais de 1a a 4a s\u00e9rie \u00e9 unida e comprometida com a tarefa de ensinar e aproveita bem os recursos dispon\u00edveis.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O sucesso nos testes \u00e9 a prova de que a prioridade deve mesmo ser as pessoas. Nosso primeiro emprego foi aqui. Estamos juntos desde a inaugura\u00e7\u00e3o do Ciep, 12 anos atr\u00e1s, conta Elielson Moreira Riguetti, ex-professor e hoje diretor da escola. Segundo ele, ningu\u00e9m perde tempo com picuinhas. Por isso, fica f\u00e1cil liderar e apontar metas.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Uma delas \u00e9 estudar. Todos os professores cursam Pedagogia e v\u00e3o concluir juntos o Ensino Superior at\u00e9 2007. Al\u00e9m disso, eles gastam duas horas di\u00e1rias em reuni\u00f5es pedag\u00f3gicas. Os encontros servem para discutir planejamentos semanais e mensais, avaliar projetos e ler e discutir teorias educacionais. Aqui o planejamento \u00e9 coisa s\u00e9ria, explica a professora Rosimeri da Silva Flores.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O bom relacionamento se estende aos alunos e funcion\u00e1rios. O clima de amizade e respeito fica claro no tratamento entre as pessoas pelos corredores e na internet &#8211; a escola tem uma comunidade virtual num conhecido site de relacionamentos. Convivemos sem barreiras e fronteiras. Somos todos iguais, afirma Allan Almeida, estudante do Ensino M\u00e9dio, na descri\u00e7\u00e3o que abre a p\u00e1gina.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O Ciep 279 tem turmas de Ensino Fundamental e M\u00e9dio. Os 120 alunos de 1a a 4a s\u00e9rie estudam em per\u00edodo integral no sistema de ciclos. As disciplinas curriculares s\u00e3o dadas no per\u00edodo da manh\u00e3 e \u00e0 tarde h\u00e1 refor\u00e7o. Os professores diagnosticam as dificuldades e planejam atividades com muito material concreto. Assim, as d\u00favidas s\u00e3o resolvidas logo que aparecem e o \u00edndice de reten\u00e7\u00e3o na passagem entre os ciclos n\u00e3o chega a 1%. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O foco do projeto pedag\u00f3gico \u00e9 leitura e escrita. A biblioteca, com mais de mil livros, \u00e9 muito utilizada pela garotada. Cartazes espalhados pelos corredores e salas de aulas lembram que ler \u00e9 um ato de intelig\u00eancia. Uma atividade recorrente \u00e9 a leitura e discuss\u00e3o de not\u00edcias de jornais e revistas. Eu adoro ler em voz alta. No come\u00e7o, d\u00e1 vergonha dos colegas, mas depois me solto e capricho na entona\u00e7\u00e3o, conta Thalia Ouverney Riguetti, 9 anos. As crian\u00e7as ainda fazem um ranking com os melhores leitores da sala de aula. O aluno bem preparado nas s\u00e9ries iniciais tem um desempenho melhor em toda a escolaridade, acredita o diretor, com raz\u00e3o. Ele n\u00e3o tem d\u00favidas de que nas pr\u00f3ximas avalia\u00e7\u00f5es nacionais e estaduais, os alunos de 5a a 8a s\u00e9rie e do Ensino M\u00e9dio tamb\u00e9m ser\u00e3o destaque.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Ter consci\u00eancia da import\u00e2ncia da Educa\u00e7\u00e3o\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Em junho passado, o Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o (MEC) divulgou os resultados do Prova Brasil, mas o tema mereceu relativamente pouco destaque na m\u00eddia. A baixa qualidade da Educa\u00e7\u00e3o nacional parece n\u00e3o chocar mais ningu\u00e9m. \u00c9 grave constatar que os estudantes concluem a 8\u00aa s\u00e9rie dominando apenas os conte\u00fados da 4\u00aa. Na avalia\u00e7\u00e3o de L\u00edngua Portuguesa, isso significa que eles n\u00e3o conseguem interpretar uma not\u00edcia de jornal, identificar a id\u00e9ia principal de um texto ou reconhecer o sentido de uma met\u00e1fora. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dram\u00e1tica tamb\u00e9m em Matem\u00e1tica: na m\u00e9dia, os adolescentes t\u00eam dificuldade em entender conceitos b\u00e1sicos, como porcentagem, leitura de gr\u00e1ficos, \u00e2ngulos e fra\u00e7\u00f5es. H\u00e1 not\u00edcia mais importante do que essa? \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Pesquisa realizada em 2005 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas An\u00edsio Teixeira, o Inep, revelou que 78% das fam\u00edlias est\u00e3o satisfeitas com o ensino que as escolas p\u00fablicas oferecem a seus filhos. Boa parte desses pais e m\u00e3es n\u00e3o concluiu o Ensino Fundamental e se satisfaz em conseguir uma vaga para seus filhos em uma escola perto de casa. As fam\u00edlias n\u00e3o acordaram para a \u00fanica maneira de ascens\u00e3o social, que \u00e9 o estudo eficiente, afirma Carlos Henrique Ara\u00fajo, ex-diretor do Inep e atual secret\u00e1rio-executivo da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Miss\u00e3o Crian\u00e7a. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A falta de consci\u00eancia sobre o que \u00e9 qualidade de ensino e sobre a import\u00e2ncia de ser bem educado nos dias de hoje est\u00e1 na raiz do nosso subdesenvolvimento. Do ponto de vista econ\u00f4mico, o Brasil n\u00e3o consegue competir com os pa\u00edses asi\u00e1ticos nem com vizinhos, como o Chile. \u00c9 como se aos olhos do mundo o pa\u00eds tivesse uma grande massa de trabalhadores que n\u00e3o \u00e9 capaz de pensar, apenas executar tarefas &#8211; o que deveria ser feito exclusivamente por m\u00e1quinas. Al\u00e9m disso, trabalhador com baixa escolaridade ganha menos e corre mais risco de ficar desempregado. Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) mostra que cada ano a mais de estudo representa, em m\u00e9dia, o acr\u00e9scimo de 16% ao sal\u00e1rio (veja o quadro acima).\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Como almejar um crescimento econ\u00f4mico mais significativo se o Brasil de hoje ainda luta contra o analfabetismo, enquanto pa\u00edses como Fran\u00e7a, Inglaterra, Finl\u00e2ndia e China discutem a universaliza\u00e7\u00e3o dos estudos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o? Na d\u00e9cada de 1980, a Mal\u00e1sia aumentou o n\u00famero de matr\u00edculas no Ensino Superior em 539%, a Cor\u00e9ia, em 429%, e n\u00f3s, em rid\u00edculos 45%.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Muitos empres\u00e1rios est\u00e3o assumindo sua parte na luta por uma Educa\u00e7\u00e3o de qualidade ao desencadear discuss\u00f5es e pactos. As editoras \u00c1tica e Scipione, com o apoio da Funda\u00e7\u00e3o Victor Civita, lan\u00e7aram o projeto Reescrevendo a Educa\u00e7\u00e3o: Propostas para um Brasil Melhor. Professores, diretores e dirigentes municipais e estaduais, por sua vez, precisam dar satisfa\u00e7\u00f5es \u00e0 sociedade sobre por que os alunos n\u00e3o est\u00e3o aprendendo. As notas do Prova Brasil, por escola, est\u00e3o dispon\u00edveis na internet. \u00c9 poss\u00edvel comparar os resultados dentro de um mesmo munic\u00edpio e checar onde est\u00e3o as dificuldades dos estudantes. Um m\u00e9dico \u00e9 obrigado a justificar a morte de seus pacientes. A mesma l\u00f3gica deve ser aplicada \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o, afirma Maria do Pilar, da Undime.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Escolaridade X sal\u00e1rio \u00a0<br \/><\/B> * Um ano de estudo eleva em 16% o sal\u00e1rio \u00a0<br \/> * Tr\u00eas anos representam 50% de aumento \u00a0<br \/> * Seis anos representam 100% a mais \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Investir mais recursos em escolas e professores \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Falta dinheiro na Educa\u00e7\u00e3o brasileira. Cada aluno de ensino b\u00e1sico da rede p\u00fablica custa ao governo cerca de 12% da renda per capita nacional. Nos Estados Unidos, esse valor salta para 25%, mais que o dobro (sem contar que a renda per capita deles \u00e9 muito maior que a nossa). Os dados se refletem na realidade que todos conhecemos: sal\u00e1rios baixos para os professores, falta de material did\u00e1tico e infra-estrutura prec\u00e1ria nas escolas.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Para mudar essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso o aumento substancial de recursos. Hoje, cerca de 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) vai para a Educa\u00e7\u00e3o, mas o ideal seria investir pelo menos 6%, diz Mozart Neves Ramos, presidente do Conselho Nacional de Secret\u00e1rios de Educa\u00e7\u00e3o (Consed). Esse aumento chegou a ser previsto pelo Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o de 2000, mas foi vetado pelo presidente da Rep\u00fablica.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Nos \u00faltimos dez anos, a maior conquista foi a aprova\u00e7\u00e3o (em 1996) do Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valoriza\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio, o Fundef, que, entre outras a\u00e7\u00f5es, garantiu ao Ensino Fundamental pelo menos 15% da arrecada\u00e7\u00e3o global de estados e munic\u00edpios. Cada aluno recebe um investimento m\u00ednimo por ano, calculado com base na divis\u00e3o do valor total pelo n\u00famero de matr\u00edculas. Alguns problemas foram apontados na utiliza\u00e7\u00e3o do fundo, como desvio de verbas e falta de compromisso da Uni\u00e3o em auxiliar os estados que n\u00e3o atingem o valor m\u00ednimo estabelecido. O Fundef acaba neste ano (conforme estipula a lei) e, em seu lugar, deve entrar o Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Fundeb), que amplia a vincula\u00e7\u00e3o de verbas tamb\u00e9m para Educa\u00e7\u00e3o Infantil e Ensino M\u00e9dio. Outra vantagem do novo fundo \u00e9 que 20% dos recursos arrecadados por estados e munic\u00edpios ser\u00e3o vinculados \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Ainda que esteja na dire\u00e7\u00e3o certa, essa iniciativa est\u00e1 longe de solucionar a falta de recursos. Para os especialistas, \u00e9 preciso aumentar com mais vigor os investimentos at\u00e9 alavancarmos a qualidade. Trata-se de priorizar a Educa\u00e7\u00e3o, o que significa transferir verbas destinadas a outros setores e mobilizar o setor privado em torno desse objetivo. No Chile, a escola boa foi uma das bases para garantir o crescimento econ\u00f4mico de 6% ao ano. Na Cor\u00e9ia do Sul &#8211; o pa\u00eds com maior acesso ao Ensino Superior no mundo -, a mis\u00e9ria do p\u00f3s-guerra reverteu-se num dos mercados que mais crescem.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Mas n\u00e3o basta s\u00f3 destinar mais verbas. \u00c9 fundamental empregar e fiscalizar os recursos. Temos de definir metas e prazos. E estados e munic\u00edpios precisam trabalhar juntos, num regime de colabora\u00e7\u00e3o com pap\u00e9is bem definidos, aponta C\u00e9lio da Cunha, assessor da Unesco para Pol\u00edticas Educacionais.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Valorizar o trabalho dos professores \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Voc\u00ea, professor, escolheu uma profiss\u00e3o crucial para o desenvolvimento do seu pa\u00eds, mas ao mesmo tempo n\u00e3o recebe um reconhecimento compat\u00edvel. Segundo dados do Programa de Promo\u00e7\u00e3o das Reformas Educacionais na Am\u00e9rica Latina (Preal), um educador brasileiro estuda em m\u00e9dia cinco anos a menos que um chileno e tr\u00eas a menos que um colombiano (veja a tabela na p\u00e1gina ao lado).\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Os professores precisam de qualifica\u00e7\u00e3o, tanto na \u00e1rea pedag\u00f3gica como nos campos espec\u00edficos do conhecimento, como Matem\u00e1tica e Geografia. A forma\u00e7\u00e3o inicial deve passar por reformula\u00e7\u00f5es profundas, afirma Maria Jos\u00e9 Feres, coordenadora do programa Pr\u00f3-Jovem e ex-secret\u00e1ria do Ensino Infantil e Fundamental do MEC. Isso implica garantir ao profissional um conhecimento m\u00ednimo b\u00e1sico &#8211; que seja o mesmo de norte a sul do pa\u00eds. E mais: \u00e9 preciso desenvolver a habilidade de pesquisar, refletir e unir teoria e pr\u00e1tica de maneira satisfat\u00f3ria. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel aplicar, de fato, o que prescrevem os Par\u00e2metros Curriculares Nacionais, que foram criados com o objetivo de estabelecer um m\u00ednimo denominador comum para os conte\u00fados oferecidos em sala de aula.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A obrigatoriedade do curso superior, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 garantia de qualidade. Um grande n\u00famero de institui\u00e7\u00f5es &#8211; sobretudo privadas &#8211; n\u00e3o oferece o m\u00ednimo necess\u00e1rio para formar novos educadores. Precisamos criar uma pol\u00edtica de certifica\u00e7\u00e3o nacional, que n\u00e3o precisa ser obrigat\u00f3ria, mas que ofere\u00e7a algum benef\u00edcio aos participantes, diferenciando o profissional que estuda e investe na qualidade de seu trabalho, como em qualquer outra profiss\u00e3o, sugere Maria Jos\u00e9.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A forma\u00e7\u00e3o docente \u00e9 assunto nacional. N\u00e3o pode se restringir a a\u00e7\u00f5es dispersas e pontuais. \u00c9 essencial prever tanto o aprendizado inicial para exercer a profiss\u00e3o como a atualiza\u00e7\u00e3o constante. No que se refere aos sal\u00e1rios, o pa\u00eds (acredite se quiser) se sai melhor que boa parte dos vizinhos da Am\u00e9rica Latina, mas perde feio para outras na\u00e7\u00f5es com porte econ\u00f4mico parecido. Confira: em in\u00edcio de carreira, nossos professores de 1a a 4a s\u00e9rie recebem 30% menos que um chileno e 43% menos que um mexicano. A remunera\u00e7\u00e3o tem de ser condizente com a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica da Educa\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds. Um sal\u00e1rio melhor e um plano de carreira razo\u00e1vel s\u00e3o os est\u00edmulos necess\u00e1rios para evoluir na profiss\u00e3o. Hoje os cursos Normal e de Pedagogia n\u00e3o atraem mais os jovens, completa C\u00e9lio da Cunha, da Unesco.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Al\u00e9m de bons sal\u00e1rios e de forma\u00e7\u00e3o adequada, \u00e9 preciso garantir uma gest\u00e3o escolar competente. O diretor bem preparado \u00e9 aquele que sabe mediar os interesses de todas as partes, inclusive os pais e a comunidade. Precisa atuar democraticamente, dar satisfa\u00e7\u00e3o a todos e ser cobrado por sua atua\u00e7\u00e3o, diz Mozart Ramos Neves, do Consed. Tamb\u00e9m deve estar atento \u00e0s demandas dos professores. Acabar com o isolamento na sala de aula \u00e9 extremamente importante. N\u00e3o me parece poss\u00edvel resolver os problemas que a Educa\u00e7\u00e3o brasileira vem acumulando h\u00e1 d\u00e9cadas sem que se ou\u00e7a o docente, que \u00e9 o respons\u00e1vel por executar na pr\u00e1tica as decis\u00f5es dos pol\u00edticos, diz a fil\u00f3sofa e educadora Tania Zagury.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/><B> Estabelecer pol\u00edticas de longo prazo \u00a0<br \/> \u00a0<br \/><\/B> Os desafios da Educa\u00e7\u00e3o demandam tempo maior para ser resolvidos do que os quatro anos de mandato de prefeitos, governadores e do presidente da Rep\u00fablica. Todos os pa\u00edses que conseguiram vencer os problemas de acesso \u00e0s escolas e de qualidade do ensino mantiveram uma agenda de continuidade de longo prazo.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O que foi feito do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o de 2000? O instrumento, aprovado pelo Congresso Nacional, estabelece diretrizes, objetivos e metas para todos os n\u00edveis e modalidades de ensino e tamb\u00e9m no que se refere \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio, ao financiamento e \u00e0 gest\u00e3o, por um per\u00edodo de dez anos. O documento anda esquecido e a maioria de suas metas est\u00e1 longe de ser cumprida, como a redu\u00e7\u00e3o da repet\u00eancia e evas\u00e3o.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O Plano Nacional estabelecido em 1971 previa 100% de matr\u00edcula de crian\u00e7as e jovens at\u00e9 14 anos e inclus\u00e3o da metade dos alunos que terminavam o ent\u00e3o Colegial no Ensino Superior &#8211; e isso h\u00e1 35 anos! Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica de Estado, n\u00e3o de governo, afirma Maria Jos\u00e9, do Pr\u00f3-Jovem.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Entre 1995 e 2002, o pa\u00eds passou por uma reforma que privilegiou a universaliza\u00e7\u00e3o do ensino. Alguns programas, como o de financiamento do Ensino Fundamental, os Par\u00e2metros Curriculares Nacionais e a avalia\u00e7\u00e3o da qualidade do ensino &#8211; todos importantes instrumentos de avan\u00e7o -, foram mantidos pelo atual governo e precisam continuar a existir de maneira definitiva e est\u00e1vel. O mesmo aconteceu com o Bolsa-Escola, de distribui\u00e7\u00e3o de renda vinculada \u00e0 freq\u00fc\u00eancia escolar. O aux\u00edlio fez o n\u00famero de faltas cair 37% na m\u00e9dia nacional. Nenhum outro programa social \u00e9 capaz de, sozinho, erradicar a pobreza. A Educa\u00e7\u00e3o, sim, afirma Carlos Henrique Ara\u00fajo, da Miss\u00e3o Crian\u00e7a. Estamos diante de grandes desafios. Atingi-los significa mudar a hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds &#8211; e garantir, de fato, um salto de qualidade para toda a popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os grandes problemas da educa\u00e7\u00e3o \u00a0 Exclus\u00e3o \u00a0 97% das crian\u00e7as brasileiras de 7 a 14 anos est\u00e3o na escola. 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