{"id":15140,"date":"2021-10-19T14:19:34","date_gmt":"2021-10-19T17:19:34","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=15140"},"modified":"2021-10-19T14:19:34","modified_gmt":"2021-10-19T17:19:34","slug":"como-a-alfabetizacao-sofreu-na-pandemia-crianca-que-ja-deveria-saber-ler-ainda-nao-domina-o-abc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/como-a-alfabetizacao-sofreu-na-pandemia-crianca-que-ja-deveria-saber-ler-ainda-nao-domina-o-abc\/","title":{"rendered":"Como a alfabetiza\u00e7\u00e3o sofreu na pandemia: `crian\u00e7a que j\u00e1 deveria saber ler ainda n\u00e3o domina o abc`"},"content":{"rendered":"<p>Na turma da professora Ana Carolina Guimar\u00e3es h\u00e1, hoje, desde crian\u00e7as que j\u00e1 conseguem ler textos com facilidade at\u00e9 os alunos que, aos 8 ou 9 anos de idade, ainda sequer criaram familiaridade com todas as letras do alfabeto.<!--more--><\/p>\n<p>O cen\u00e1rio da volta \u00e0s aulas preocupou a professora do 3\u00b0 ano do ensino fundamental 1 na Escola Estadual S\u00e3o Bento, em Belo Horizonte (MG) &#8211; que por enquanto est\u00e1 funcionando em modelo h\u00edbrido, em que as crian\u00e7as alternam entre uma semana na escola e uma semana no ensino remoto.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o da professora se deve ao fato de que, em condi\u00e7\u00f5es normais, na 3\u00aa s\u00e9rie, as crian\u00e7as j\u00e1 costumam estar na fase final do aprendizado b\u00e1sico de leitura e escrita.<\/p>\n<p>`Todos os alunos teriam que estar lendo, e n\u00e3o \u00e9 a realidade. Percebemos que h\u00e1 uma car\u00eancia nesse retorno \u00e0s aulas e que a alfabetiza\u00e7\u00e3o foi muito afetada pela pandemia`, diz Guimar\u00e3es \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as vulner\u00e1veis de 5 a 10 anos de idade &#8211; e, portanto, as que cursam o final da educa\u00e7\u00e3o infantil e todo o ensino fundamental 1 &#8211; foram um grupo particularmente sens\u00edvel \u00e0s dificuldades dos mais de 18 meses de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia na pandemia. \u00c9 porque elas est\u00e3o em uma fase crucial de seu desenvolvimento escolar: a da alfabetiza\u00e7\u00e3o e da consolida\u00e7\u00e3o da leitura, da escrita e dos fundamentos matem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m porque, nessa idade, elas t\u00eam pouca autonomia no ensino remoto, e portanto o contato pr\u00f3ximo aos professores fez muita falta.<\/p>\n<p>Em abril, uma pesquisa divulgada pela Unicef (bra\u00e7o da ONU para a inf\u00e2ncia) e a organiza\u00e7\u00e3o Cenpec Educa\u00e7\u00e3o apontou que a faixa et\u00e1ria correspondente ao ensino fundamental 1 foi a mais afetada pela exclus\u00e3o escolar durante a pandemia.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, das mais de 5 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescentes que estavam sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o no Brasil em novembro de 2020, cerca de 40% tinham entre 6 e 10 anos de idade.<\/p>\n<p>`Isso engloba desde crian\u00e7as que n\u00e3o estavam matriculadas nas escolas ou que, no \u00faltimo m\u00eas (antes da pesquisa), n\u00e3o tinham tido nenhum tipo de contato com sua escola, nem por WhatsApp ou por acesso \u00e0s aulas online. E o v\u00ednculo com a escola \u00e9 important\u00edssimo`, explica Anna Helena Altenfelder, presidente do Cenpec.<\/p>\n<p>Um ponto crucial \u00e9 que, at\u00e9 a ruptura causada pela pandemia, essa era uma faixa et\u00e1ria em que o ensino estava praticamente universalizado no Brasil, ou seja, quase todas as crian\u00e7as dessa idade estavam frequentando a escola.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o ensino fundamental 1 p\u00fablico vinha melhorando constantemente seus indicadores de ensino &#8211; e embora estivesse aqu\u00e9m do ideal, repetidamente superava as metas oficiais de desempenho na grande maioria dos Estados brasileiros. Segundo os dados mais recentes, de 2019, o Brasil tinha em m\u00e9dia 57% dos alunos do 5\u00b0 ano do fundamental 1 com conhecimentos adequados em l\u00edngua portuguesa, aumento de 7 pontos percentuais em rela\u00e7\u00e3o a 2015.<\/p>\n<p>Agora, a pandemia reverteu, pelo menos temporariamente, essa universaliza\u00e7\u00e3o e corre o risco de trazer retrocessos conquistados ao longo de d\u00e9cadas, aponta o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social e especialista em mensura\u00e7\u00e3o de desigualdades.<\/p>\n<p>Neri identificou que a taxa de evas\u00e3o escolar (ou seja, de crian\u00e7as fora da escola) nas idades de 5 a 9 anos era de apenas 1,39% em 2019, mas subiu para 5,5% no final de 2020 &#8211; o maior aumento percentual entre todas as faixas et\u00e1rias.<\/p>\n<p>`Era a faixa et\u00e1ria onde a gente havia tido grandes avan\u00e7os n\u00e3o apenas na universaliza\u00e7\u00e3o, a partir dos anos 1990, mas tamb\u00e9m na aprendizagem`, diz Neri \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>O economista explica que, para al\u00e9m do fato de muitas crian\u00e7as dessa idade estarem na delicada fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o, elas tamb\u00e9m s\u00e3o desproporcionalmente mais afetadas pela desconectividade e pela pobreza no Brasil.<\/p>\n<p>`A crian\u00e7a de 5 a 9 anos tem menos intimidade com a internet que um adolescente e ela \u00e9, em geral, mais pobre &#8211; o \u00e1pice da pobreza no Brasil \u00e9 nessa faixa et\u00e1ria`, particularmente em fam\u00edlias mais numerosas e sem renda suficiente ou ainda sem aposentadoria, pontua.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa a evas\u00e3o observada por Neri foi mais aguda nas regi\u00f5es mais remotas e carentes do pa\u00eds (principalmente na regi\u00e3o Norte), e entre a popula\u00e7\u00e3o negra, tamb\u00e9m desproporcionalmente afetada pela desigualdade social e de renda.<\/p>\n<p><strong>Desafio urgente<\/strong><\/p>\n<p>Agora, uma preocupa\u00e7\u00e3o de especialistas e educadores \u00e9 que as lacunas na alfabetiza\u00e7\u00e3o durante a pandemia, caso n\u00e3o sejam enfrentadas, virem uma bola de neve que prejudique o desempenho das crian\u00e7as nas etapas seguintes de ensino.<\/p>\n<p>`A urg\u00eancia \u00e9 que essa fase do aprendizado \u00e9 fundamental: as compet\u00eancias de leitura e escrita que a crian\u00e7a desenvolve ali s\u00e3o cruciais para seguir com a aprendizagem`, diz Anna Helena Altenfelder.<\/p>\n<p>`E para aprender a ler e escrever elas precisam de experi\u00eancias pedag\u00f3gicas intencionais e de intera\u00e7\u00f5es (com adultos e entre si) que n\u00e3o aconteceram na quantidade necess\u00e1ria durante a pandemia.`<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o significa que essas crian\u00e7as estejam `fadadas a arrastar esse fracasso` ao longo de sua vida, prossegue a educadora, sobretudo porque elas ainda t\u00eam bastante tempo de anos escolares pela frente.<\/p>\n<p>`Um trabalho consistente certamente \u00e9 capaz de resgatar essas compet\u00eancias de leitura e escrita. (&#8230;) \u00c9 algo poss\u00edvel e que sabemos fazer no Brasil &#8211; temos experi\u00eancia com classes de acelera\u00e7\u00e3o de aprendizagem e corre\u00e7\u00e3o de fluxo escolar (ou seja, de adequar a idade da crian\u00e7a \u00e0 s\u00e9rie que ela deve cursar). Mas as escolas n\u00e3o far\u00e3o isso sozinhas, os professores v\u00e3o precisar de apoio.`<\/p>\n<p><strong>Falar com cada fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Na turma da professora Ana Carolina Guimar\u00e3es, em Belo Horizonte, citada no in\u00edcio desta reportagem, a combina\u00e7\u00e3o de pobreza e desconex\u00e3o marcou a trajet\u00f3ria escolar de muitos alunos durante os meses de escola fechada.<\/p>\n<p>`Trabalhamos com crian\u00e7as carentes. Algumas n\u00e3o tinham nem condi\u00e7\u00f5es de ir buscar na escola a cesta b\u00e1sica que foi oferecida. Imagina ent\u00e3o ter internet para fazer aula online`, explica.<\/p>\n<p>Agora, ela est\u00e1 avaliando as crian\u00e7as uma a uma, e `conversando de fam\u00edlia em fam\u00edlia, para identificar quais s\u00e3o as maiores dificuldades. Quando os pais n\u00e3o s\u00e3o alfabetizados, por exemplo, a gente tem que ficar muito mais pr\u00f3ximo aos alunos`.<\/p>\n<p>Uma vez por m\u00eas, Guimar\u00e3es tem ligado para cada aluno para ouvi-lo ler um texto para ela e, assim, medir sua capacidade de leitura. `E cada vez que eles evoluem, me mandam um \u00e1udio (de WhatsApp), comemorando`, conta.<\/p>\n<p>Os alunos tamb\u00e9m s\u00e3o convidados a fazer um podcast explicando as atividades para os colegas que tenham mais dificuldades, prossegue a professora.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es e suas colegas professoras da Escola Estadual S\u00e3o Bento transformaram esse desafio pedag\u00f3gico em um projeto de trabalho no curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Aprendizagem Criativa, que cursam na PUC Minas em parceira com o instituto educacional Iungo e o governo mineiro.<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 que o projeto, focado na recupera\u00e7\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, possa ajudar n\u00e3o apenas as turmas individuais de cada professora envolvida, mas toda a escola.<\/p>\n<p>`Isso porque a demanda n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 minha: se aluno n\u00e3o se alfabetizar at\u00e9 o terceiro ano, isso vai virar um problema para o professor do quarto ano`, aponta.<\/p>\n<p>Agora que os alunos come\u00e7am a voltar a frequentar a escola com mais regularidade, desafios como o enfrentado por Guimar\u00e3es est\u00e3o frequentes na p\u00f3s de Aprendizagem Criativa, explica Paulo Emilio Andrade, diretor do Instituto Iungo.<\/p>\n<p>`Mas os professores est\u00e3o vendo que, em vez de empurrar o problema para a frente, conseguem construir solu\u00e7\u00f5es para seus alunos avan\u00e7arem`, diz Andrade. No curso, a ideia \u00e9, a partir dos problemas identificados em sala de aula, seja poss\u00edvel elaborar atividades e estrat\u00e9gias que ajudem a engajar as fam\u00edlias e as crian\u00e7as na recupera\u00e7\u00e3o da aprendizagem.<\/p>\n<p>Para Anna Helena Altenfelder, do Cenpec, de fato ser\u00e1 necess\u00e1rio agir de modo amplo para evitar que as defasagens de alfabetiza\u00e7\u00e3o escalonem em diversas partes do Brasil.<\/p>\n<p>`As redes e secretarias de ensino v\u00e3o ter que se organizar de forma diferente. E seria necess\u00e1rio haver a coordena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e financeira do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o em projetos de apoio aos munic\u00edpios (que concentram a maior parte das escolas de fundamental 1 no pa\u00eds)`, diz ela &#8211; criticando o que v\u00ea como ina\u00e7\u00e3o federal nas a\u00e7\u00f5es de enfrentamento \u00e0 pandemia e a \u00eanfase da pasta em projetos pol\u00eamicos e de baixo alcance, como o de ensino domiciliar e o de escolas c\u00edvico-militares.<\/p>\n<p>O minist\u00e9rio, por sua vez, diz \u00e0 reportagem que fez destina\u00e7\u00e3o emergencial de recursos por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE); criou uma plataforma para apoiar professores e trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o no planejamento e execu\u00e7\u00e3o de atividades e planos de aula para alunos que est\u00e3o aprendendo a ler e escrever; e tem oferecido, para fam\u00edlias, um aplicativo gratuito e o programa de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias Conta pra Mim de forma a apoiar o letramento dentro de casa.<\/p>\n<p>E afirmou \u00e0 reportagem que seus cursos online rec\u00e9m-lan\u00e7ados sobre pr\u00e1ticas de alfabetiza\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre os mais frequentados (e bem avaliados) pelos professores.<\/p>\n<p>`Ciente da gravidades dos impactos desse evento (pandemia) sobre a educa\u00e7\u00e3o, a Secretaria de Alfabetiza\u00e7\u00e3o do MEC estive ativa em elaborar a\u00e7\u00f5es e projetos para dirimir (o problema), n\u00e3o apenas voltados \u00e0s crian\u00e7as, mas tamb\u00e9m aos profissionais da educa\u00e7\u00e3o`, diz a pasta, por e-mail.<\/p>\n<p><strong>Acolhimento<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Altenfelder, agora ser\u00e1 necess\u00e1rio buscar ativamente os estudantes desvinculados da escola neste per\u00edodo pand\u00eamico, olhar individualmente para a realidade de cada escola e criar uma esp\u00e9cie de `acolhimento em cascata`, que responda \u00e0s dificuldades emocionais e de aprendizado vividas na pandemia &#8211; com a ajuda dos setores de assist\u00eancia social e sa\u00fade.<\/p>\n<p>`Os alunos v\u00e3o precisar de acolhimento por parte dos professores, que precisar\u00e3o ser acolhidos por seus diretores de escola, e estes, pelos seus secret\u00e1rios e assim por diante`, diz.<\/p>\n<p>Esse olhar individualizado, seguido de interven\u00e7\u00f5es concretas, diz ela, pode ajudar a amenizar os enormes abismos que ficaram latentes durante a pandemia.<\/p>\n<p>Um exemplo desse abismo, explica o economista Marcelo Neri, \u00e9 exposto na quantidade de horas-aula que crian\u00e7as de diferentes extratos sociais tiveram. Ele calcula que, em m\u00e9dia, alunos de 6 a 15 anos das classes A e B tiveram, na pr\u00e1tica, mais de 50% de tempo a mais de aulas online em compara\u00e7\u00e3o com os alunos da classe E durante a pandemia.<\/p>\n<p>Esses alunos pobres tamb\u00e9m tiveram menos acesso a atividades escolares e, quando as receberam, dedicaram menos tempo a elas.<\/p>\n<p>Particularmente na faixa et\u00e1ria das crian\u00e7as em fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o, o risco \u00e9 o Brasil `regredir duas d\u00e9cadas no acesso e meninos e meninas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o`, na vis\u00e3o do Unicef.<\/p>\n<p>`Crian\u00e7as de 6 a 10 anos sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o eram exce\u00e7\u00e3o no Brasil, antes da pandemia. Essa mudan\u00e7a observada em 2020 pode ter impactos em toda uma gera\u00e7\u00e3o`, afirmou, em abril, Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil.<\/p>\n<p>`\u00c9 essencial agir agora para reverter a exclus\u00e3o, indo atr\u00e1s de cada crian\u00e7a e cada adolescente que est\u00e1 com seu direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o negado, e tomando todas as medidas para que possam estar na escola, aprendendo.`<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na turma da professora Ana Carolina Guimar\u00e3es h\u00e1, hoje, desde crian\u00e7as que j\u00e1 conseguem ler textos com facilidade at\u00e9 os alunos que, aos 8 ou 9 anos de idade, ainda sequer criaram familiaridade com todas as letras do alfabeto.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-15140","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-da-imprensa"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Como a alfabetiza\u00e7\u00e3o sofreu na pandemia: `crian\u00e7a que j\u00e1 deveria saber ler ainda n\u00e3o domina o abc` &raquo; 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