{"id":14552,"date":"2021-08-02T14:21:06","date_gmt":"2021-08-02T17:21:06","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=14552"},"modified":"2021-08-02T14:21:06","modified_gmt":"2021-08-02T17:21:06","slug":"novo-ensino-medio-em-sp-divide-especialistas-retrocesso-para-manter-pobre-como-pobre-ou-protagonismo-dos-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/novo-ensino-medio-em-sp-divide-especialistas-retrocesso-para-manter-pobre-como-pobre-ou-protagonismo-dos-jovens\/","title":{"rendered":"Novo Ensino M\u00e9dio em SP divide especialistas: &#8216;retrocesso para manter pobre como pobre&#8217; ou &#8216;protagonismo dos jovens&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O Novo Ensino M\u00e9dio anunciado no \u00faltimo m\u00eas pelo governo de S\u00e3o Paulo para o pr\u00f3ximo ano causou cis\u00e3o entre especialistas em educa\u00e7\u00e3o: &#8220;retrocesso feito para manter pobre como pobre&#8221; ou &#8220;solu\u00e7\u00e3o para jovens nem-nem?&#8221;. Nesta segunda-feira (2), as escolas estaduais retomam as aulas em todo o estado.<!--more--><\/p>\n<p>De um lado, pesquisadores criticam a reforma porque acreditam que, ao retirar do curr\u00edculo horas-aula da chamada forma\u00e7\u00e3o generalista, a reforma cria ainda mais desigualdade entre estudantes de escolas p\u00fablicas e privadas, dificultando o acesso de estudantes pobres \u00e0 universidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os cursos t\u00e9cnicos oferecidos em troca de horas-aula de disciplinas como f\u00edsica e biologia n\u00e3o possuem carga hor\u00e1ria suficiente para ter qualidade e empregar no futuro esses estudantes, de acordo com pesquisadores.<\/p>\n<p>Por outro lado, especialistas ligados ao governo estadual acreditam que os cursos t\u00e9cnicos oferecidos aplicam os conhecimentos da forma\u00e7\u00e3o generalista na pr\u00e1tica, ajudam os alunos a se descobrirem profissionalmente e gerar\u00e3o emprego e renda no futuro.<\/p>\n<p>O Novo Ensino M\u00e9dio foi apresentado pela primeira vez como Medida Provis\u00f3ria em 2016. Em 2017, virou a lei 13.415. Antes disso, em 2013, a ideia de \u201crefor\u00e7ar\u201d o ensino m\u00e9dio foi discutido na C\u00e2mara dos Deputados com o Projeto de Lei 6.840.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, o novo curr\u00edculo do ensino m\u00e9dio teve in\u00edcio no ano letivo de 2021 para 450 mil alunos matriculados no primeiro ano, de acordo a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o (Seduc). Em 2022, o novo modelo ser\u00e1 expandido para alunos do segundo ano, totalizando 900 mil estudantes. O investimento pode chegar a R$ 200 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O Novo Ensino M\u00e9dio come\u00e7a no primeiro ano da rede p\u00fablica estadual por meio de tr\u00eas componentes ofertados pelo programa Inova Educa\u00e7\u00e3o \u2013 Projeto de Vida, Eletivas e Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que o pr\u00f3prio aluno escolha uma ou duas \u00e1reas para se aprofundar em conhecimentos espec\u00edficos dentre tr\u00eas itiner\u00e1rios formativos:<\/p>\n<p>No primeiro, s\u00e3o dez op\u00e7\u00f5es de aprofundamento curricular. Quatro delas nas \u00e1reas de conhecimento (Linguagens, Matem\u00e1tica, Ci\u00eancias Humanas e Ci\u00eancias da Natureza) e seis op\u00e7\u00f5es integradas, que apresentam combina\u00e7\u00f5es (Linguagens e Matem\u00e1tica, Linguagens e Ci\u00eancias Humanas, Linguagens e Ci\u00eancias da Natureza, Matem\u00e1tica e Ci\u00eancias Humanas, Matem\u00e1tica e Ci\u00eancias da Natureza, al\u00e9m de Ci\u00eancias Humanas e Ci\u00eancias da Natureza).<\/p>\n<p>O segundo deles mescla as \u00e1reas do conhecimento com a qualifica\u00e7\u00e3o profissional, via Novotec Expresso, e permite aprofundamento curricular em uma das \u00e1reas do conhecimento e dois certificados profissionalizantes durante o ano. S\u00e3o cursos de 150 horas relacionados a programa\u00e7\u00e3o, design, dados, tecnologia, ci\u00eancias sociais e comunica\u00e7\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n<p>O terceiro grupo, alinhado ao programa Novotec Integrado, oferece a oportunidade do estudante sair com um diploma de curso t\u00e9cnico de 1.200 horas e com o do ensino m\u00e9dio. S\u00e3o 21 op\u00e7\u00f5es de cursos t\u00e9cnicos: Administra\u00e7\u00e3o, Marketing, Log\u00edstica, Recursos Humanos, Com\u00e9rcio, Finan\u00e7as, Contabilidade, Desenvolvimento de Sistemas, Inform\u00e1tica para Internet, Servi\u00e7os Jur\u00eddicos, Servi\u00e7os P\u00fablicos, Guia de Turismo, Design Gr\u00e1fico, Design de Interiores, Eventos, Nutri\u00e7\u00e3o e Diet\u00e9tica, Eletr\u00f4nica, Eletrot\u00e9cnica, Qu\u00edmica, An\u00e1lises Cl\u00ednicas e Farm\u00e1cia.<\/p>\n<p>Os cursos t\u00e9cnicos s\u00e3o oferecidos desde 2020 em uma parceria da pasta de Educa\u00e7\u00e3o com a Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico (SDE), que \u00e9 respons\u00e1vel pela verba, de acordo com Daniel Barros, subsecret\u00e1rio de ensino t\u00e9cnico e profissionalizante da SDE.<\/p>\n<p>\u201cA grande novidade \u00e9 que partir do ano que vem essas vagas ser\u00e3o ampliadas e os cursos v\u00e3o contar na carga hor\u00e1ria dos estudantes como parte do seu itiner\u00e1rio formativo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O coordenador do ensino m\u00e9dio na Secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o, Gustavo Mendon\u00e7a, \u00e9 um entusiasta da reforma porque acredita que ela ser\u00e1 ben\u00e9fica para alunos e professores.<\/p>\n<p>\u201cPela primeira vez na hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds na educa\u00e7\u00e3o os alunos v\u00e3o poder definir a trajet\u00f3ria deles no ensino m\u00e9dio. O protagonismo dos jovens vai acontecer na sala de aula, com eles decidindo o que v\u00e3o estudar em mais de 40% da carga hor\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE isso tamb\u00e9m vai trazer mais oportunidades para os professores de dar aulas para alunos que t\u00eam mais interesse na \u00e1rea deles e est\u00e3o mais engajados. Isso \u00e9 extremamente positivo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Entenda em t\u00f3picos as principais mudan\u00e7as no Novo Ensino M\u00e9dio e as cr\u00edticas de especialistas em educa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>At\u00e9 o ano passado, os alunos do ensino m\u00e9dio tinham as mesmas aulas durante os tr\u00eas anos. Agora, os alunos v\u00e3o ter o primeiro ano com 1.800 horas de uma base comum, com aulas iguais da forma\u00e7\u00e3o generalista de f\u00edsica, biologia, matem\u00e1tica, sociologia etc. A partir do segundo ano, o aluno passar\u00e1 a ter mais aulas da \u00e1rea de interesse escolhida por ele, o que o governo estadual chama de &#8220;protagonismo estudantil&#8221;;<\/p>\n<p>Dentre as \u00e1reas de interesse que os alunos podem escolher est\u00e3o cursos profissionalizantes de curta dura\u00e7\u00e3o escolhidos pelos pr\u00f3prios alunos com o objetivo de que eles ingressem no mercado de trabalho ao terminar o ensino m\u00e9dio;<\/p>\n<p>O problema, de acordo com especialistas em educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 que ao abrir m\u00e3o de carga hor\u00e1ria da forma\u00e7\u00e3o generalista, os estudantes pobres est\u00e3o deixando de ter uma forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica b\u00e1sica que os ajudar\u00e3o a escolher uma profiss\u00e3o no futuro e n\u00e3o ter\u00e3o aulas suficientes do conte\u00fado que \u00e9 cobrado em vestibulares, diminuindo suas chances de acesso \u00e0 universidade;<\/p>\n<p>Outros especialistas acreditam que pela nova regra, os estudantes ter\u00e3o mais aulas de conhecimentos espec\u00edficos e que isso os ajudar\u00e1, por exemplo, na segunda fase do vestibular da Fuvest, em que tem mais peso as quest\u00f5es da \u00e1rea da carreira escolhida pelo estudante;<\/p>\n<p>Pesquisadores criticam os cursos profissionalizantes de at\u00e9 150 horas que passar\u00e3o a ser oferecidos porque acreditam que eles n\u00e3o t\u00eam carga hor\u00e1ria suficiente para ter qualidade e empregar os jovens no futuro;<\/p>\n<p>Est\u00e3o sendo oferecidos apenas cursos profissionalizantes simples que n\u00e3o exigem estruturas complexas, como laborat\u00f3rios, nas pr\u00f3prias escolas, nos Centro Paula Souza, Escola T\u00e9cnica Estadual (ETEC) e escolas privadas contratadas por licita\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>Para especialistas ligados ao governo, os cursos t\u00e9cnicos ajudam os alunos a se descobrirem profissionalmente e contribuem para o desenvolvimento da autoestima desses jovens, al\u00e9m de atra\u00edrem os jovens de volta para a escola em uma \u00e9poca em que os \u00edndices de defasagem escolar crescem;<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, os estudantes estar\u00e3o trocando uma forma\u00e7\u00e3o generalista por uma promessa de emprego, mas isso n\u00e3o acontecer\u00e1 porque o mercado de trabalho n\u00e3o vai absorver esses profissionais com esse tipo de qualifica\u00e7\u00e3o de curta dura\u00e7\u00e3o e baixa qualidade;<\/p>\n<p>Os alunos de escolas particulares, por outro lado, n\u00e3o deixar\u00e3o de ter aulas dos conte\u00fados cobrados nos vestibulares e toda a forma\u00e7\u00e3o al\u00e9m da escolar generalista costuma ser dada de forma extracurricular, como aulas de l\u00ednguas estrangeiras, inform\u00e1tica etc.<\/p>\n<p>Alunos de escolas estaduais do Programa de Ensino Integral (PEI) que t\u00eam aulas o dia todo tamb\u00e9m estar\u00e3o em vantagem, mas essas unidades atendem a uma parcela pequena da rede, o que refor\u00e7a a ideia de desigualdade em rela\u00e7\u00e3o aos alunos de escolas tradicionais.<\/p>\n<p><strong>O jovem \u201cnem-nem\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O Novo Ensino M\u00e9dio parte do pressuposto que existe um contingente grande de estudantes que n\u00e3o segue com os estudos na universidade e tamb\u00e9m n\u00e3o consegue coloca\u00e7\u00e3o no mercado do trabalho, de acordo com o professor de pol\u00edticas educacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC) e membro do grupo Rede Escola P\u00fablica e Universidade (Repu) Fernando C\u00e1ssio.<\/p>\n<p>\u201cIsso \u00e9 um fato, mas n\u00e3o decorre da forma\u00e7\u00e3o do Ensino M\u00e9dio, mas de outras coisas, como a de que n\u00e3o h\u00e1 vagas suficientes no ensino superior e n\u00e3o h\u00e1 uma din\u00e2mica econ\u00f4mica que absorva toda a m\u00e3o de obra de egressos do Ensino M\u00e9dio. O desemprego no Brasil \u00e9 estrutural\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Na coletiva de imprensa em que anunciou a expans\u00e3o no dia 20 de julho, o secret\u00e1rio estadual da Educa\u00e7\u00e3o, Rossieli Soares, confirmou que o novo Ensino M\u00e9dio \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica para atender os jovens \u201cnem-nem\u201d, ou seja, aqueles que nem estudam nem trabalham.<\/p>\n<p>Segundo o secret\u00e1rio, com a implementa\u00e7\u00e3o do novo curr\u00edculo, o jovem poder\u00e1 escolher se quer seguir os estudos ou trabalhar.<\/p>\n<p>Para Fernando C\u00e1ssio, por\u00e9m, a reforma vai tirar aulas de conte\u00fado da forma\u00e7\u00e3o generalista que \u00e9 cobrada nos vestibulares ao colocar aos estudantes mais pobres o dilema de escolher uma profiss\u00e3o aos 15 anos.<\/p>\n<p>\u201cO estado abandonou a gera\u00e7\u00e3o \u2018nem-nem\u2019. Para eles, essa gera\u00e7\u00e3o merece uma forma\u00e7\u00e3o pior. Mas essa suposta liberdade de escolha do curso profissionalizante implica em o que voc\u00ea quer abrir m\u00e3o de sua forma\u00e7\u00e3o para fazer um cursinho de inform\u00e1tica, coisas que outros alunos que t\u00eam condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica melhor n\u00e3o v\u00e3o ter de abrir m\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, os estudantes da educa\u00e7\u00e3o privada j\u00e1 t\u00eam acesso a atividades extracurriculares sem ter de abrir m\u00e3o de sua forma\u00e7\u00e3o generalista.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 faz parte do capital cultural das fam\u00edlias ter computador de boa qualidade em casa, fazer aula de m\u00fasica no conservat\u00f3rio, fazer aula de idiomas. Isso faz parte da classe m\u00e9dia e das elites\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para Fernando, a reforma vai passar longe de diminuir o tamanho do contingente de popula\u00e7\u00e3o de jovens \u201cnem-nem\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA ideia n\u00e3o \u00e9 que os jovens possam sonhar e realizar as suas aspira\u00e7\u00f5es? Se a gente quer uma escola mais conectada com o mundo contempor\u00e2neo e que todos tenham acesso, como fazer isso com condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o diferentes?\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cAlunos de particulares e PEIs ter\u00e3o vantagem\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Como a reforma \u00e9 para todo o Ensino M\u00e9dio, as escolas privadas e as escolas estaduais do Programa de Ensino Integral (PEI) tamb\u00e9m ter\u00e3o de se adaptar, de acordo com o governo estadual.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para os especialistas, essas escolas n\u00e3o devem retirar aulas da forma\u00e7\u00e3o generalista dos seus curr\u00edculos e passar\u00e3o a oferecer as demais atividades de forma extracurricular, no caso das particulares, e no contra turno, no caso das PEIs.<\/p>\n<p>\u201cChegamos a uma situa\u00e7\u00e3o evidente: a escola privada vai continuar dando uma forma\u00e7\u00e3o generalista, ela n\u00e3o vai tirar aula de f\u00edsica, qu\u00edmica e matem\u00e1tica para colocar cursinho de Excel para assistente administrativo. A escola privada j\u00e1 est\u00e1 em vantagem, sempre esteve\u201d, afirma Fernando.<\/p>\n<p>Para o especialista, a reforma do Ensino M\u00e9dio vai erguer uma barreira entre aqueles da rede p\u00fablica que ter\u00e3o acesso a uma forma\u00e7\u00e3o generalista um pouco mais pr\u00f3xima da escola privada e a maioria que vai ter acesso a uma forma\u00e7\u00e3o simplificada.<\/p>\n<p>\u201cAs escolas PEI j\u00e1 excluem os estudantes mais vulner\u00e1veis porque atendem uma parcela pequena de alunos e possuem uma infraestrutura melhor, menos alunos por sala, t\u00eam mais aula. O novo Ensino M\u00e9dio \u00e9 feito para pobre, para pessoas vulner\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p><strong>O Enem e os vestibulares<\/strong><\/p>\n<p>Por lei, o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem) e os vestibulares das universidades estaduais de S\u00e3o Paulo t\u00eam de cobrar na prova o conte\u00fado dado na rede estadual de ensino, de acordo com Gustavo Mendon\u00e7a, coordenador do Ensino M\u00e9dio na Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDesde o ano passado a Unicamp, por exemplo, tem uma nova estrutura de prova que d\u00e1 mais peso para a \u00e1rea da carreira que o aluno escolheu. Por exemplo, se ele presta Direito, a \u00e1rea de humanas ter\u00e1 mais peso, se presta Medicina, ci\u00eancias da natureza ter\u00e1 mais peso. A segunda fase da Fuvest tamb\u00e9m \u00e9 uma prova espec\u00edfica. Ent\u00e3o o aluno se aprofunda mais na sua \u00e1rea de interesse e ter\u00e1 mais conhecimento e condi\u00e7\u00f5es de fazer a prova.\u201d<\/p>\n<p>Por\u00e9m, especialistas acreditam que os alunos ficar\u00e3o em desvantagem com menos aulas dos conte\u00fados das \u00e1reas n\u00e3o espec\u00edficas, que tamb\u00e9m s\u00e3o cobradas nos vestibulares, como na primeira fase da Fuvest, por exemplo.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sumiu da base curricular o ensino de f\u00edsica e qu\u00edmica, por exemplo, ent\u00e3o os vestibulares cobrar\u00e3o isso. Mas voc\u00ea vai ter uma massa de estudantes que vai ter uma aula de f\u00edsica por semana e outra que vai ter tr\u00eas aulas por semana ou mais. O vestibular vai continuar selecionando os estudantes que se saem melhor naquele tipo de prova\u201d, afirma Fernando.<\/p>\n<p>Para os alunos de escolas p\u00fablicas que escolherem fazer um curso t\u00e9cnico, a dificuldade de fazer um vestibular ser\u00e1 ainda maior porque eles deixar\u00e3o de ter aulas da forma\u00e7\u00e3o generalista de Ensino M\u00e9dio, de acordo com Fernando.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 ruim fazer um curso t\u00e9cnico de hotelaria, por exemplo, mas se voc\u00ea abrir m\u00e3o de sua forma\u00e7\u00e3o escolar para ter o curso de hotelaria, voc\u00ea n\u00e3o vai ter sua forma\u00e7\u00e3o escolar, voc\u00ea trocou pela outra.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO ideal a fazer \u00e9 que a forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de hotelaria seja complementar, esteja junto. Voc\u00ea n\u00e3o pode abrir m\u00e3o de uma pela outra\u201d, afirma Fernando.<\/p>\n<p>Gustavo, coordenador da Seduc, lembra que o primeiro ano do Ensino M\u00e9dio seguir\u00e1 tendo uma base comum com todas as disciplinas.<\/p>\n<p>\u201cDando mais profundidade na \u00e1rea de conhecimento que o aluno tem mais interesse e garantindo o conhecimento b\u00e1sico em todas as \u00e1reas, ele estar\u00e1 mais preparado para entrar no ensino superior\u201d, afirma.<\/p>\n<p>J\u00e1 Daniel, da SDE, acredita que mesmo nos cursos t\u00e9cnicos r\u00e1pidos os alunos n\u00e3o deixar\u00e3o de ter o conte\u00fado da forma\u00e7\u00e3o generalista, e melhor do que isso, aprender\u00e3o os conte\u00fados de maneira aplicada na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cQuando o aluno faz um curso de 150 horas de Excel, ele desenvolve o conhecimento pr\u00e1tico de matem\u00e1tica que vai ajud\u00e1-lo a entrar no mercado de trabalho. Ele vai aprender juros simples e compostos e matem\u00e1tica financeira. Isso ele tamb\u00e9m aprende na aula de matem\u00e1tica, mas no curso profissionalizante ele contextualiza e aplica na pr\u00e1tica.\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muitas evid\u00eancias na ci\u00eancia cognitiva que quando se coloca o conhecimento em pr\u00e1tica, se fixa melhor esse conte\u00fado. Quando se fala em um curso de marketing digital, ele aprende uma ferramenta que vai ajudar a gerar renda, que \u00e9 fundamental para ele, mas tamb\u00e9m usa conte\u00fado de l\u00edngua portuguesa, aplicando reda\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o textual na pr\u00e1tica, com finalidade e intencionalidade pedag\u00f3gica. Isso tem um impacto muito grande no aprendizado dos estudantes.&#8221;<\/p>\n<p>Para Daniel, o fato de possibilitar ao aluno enxergar aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do conte\u00fado pode ajudar a atrair os estudantes de volta para a escola.<\/p>\n<p>\u201cEstou muito convencido de que a contextualiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, colocando na pr\u00e1tica o conte\u00fado, faz toda a diferen\u00e7a para o estudante se motivar para a escola. E nesse momento em que estamos perdendo alunos do Ensino M\u00e9dio, esses cursos profissionalizantes integrados v\u00e3o servir para atra\u00ed-los de volta para a escola.\u201d<\/p>\n<p><strong>&#8220;Cursos s\u00e3o insuficientes para empregar&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Faz parte do curr\u00edculo do Novo Ensino M\u00e9dio o NovoTec expresso, programa que oferece cursos de 150 horas de Excel, Design de games e de aplicativos, por exemplo. A cr\u00edtica dos especialistas \u00e9 que esses cursos dificilmente ajudar\u00e3o os alunos a conseguir emprego no futuro.<\/p>\n<p>\u201cEssas coisas s\u00e3o vendidas para os estudantes como supostamente aquilo que o mundo do trabalho demanda das pessoas, quando sabemos muito bem que isso n\u00e3o faz o menor sentido. N\u00e3o existe mercado de absor\u00e7\u00e3o dessa m\u00e3o de obra. Ou voc\u00ea acha que o Google na Faria Lima vai contratar algu\u00e9m que tenha feito um cursinho desses?&#8221;, diz Fernando.<\/p>\n<p>.A outra possibilidade \u00e9 abrir m\u00e3o de metade da forma\u00e7\u00e3o para fazer um curso t\u00e9cnico integrado. Mas, de acordo com especialistas, ela tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 profissionalizante \u00e0 medida que o n\u00famero de horas-aula, que s\u00e3o 1.200, est\u00e1 muito abaixo do que \u00e9 um curso t\u00e9cnico regular conceituado.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o vai poder assinar um card\u00e1pio como nutricionista em um restaurante empresarial e n\u00e3o vai ter um registro profissional no conselho regional\u201d, diz Fernando.<\/p>\n<p>Para Daniel, por\u00e9m, os cursos t\u00e9cnicos de curta dura\u00e7\u00e3o ajudam os alunos a se descobrir profissionalmente e \u201campliam os horizontes\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs relatos s\u00e3o bacanas. A gente teve uma aluna est\u00e1 fazendo o curso de jogos digitais e fez um jogo em 4 meses com uma personagem menina. Ela falou que jamais imaginaria que poderia fazer um jogo em t\u00e3o pouco tempo. Isso tem um papel de melhorar a autoestima desses estudantes, de faz\u00ea-los acreditar que podem fazer algo motivador do ponto de vista profissional\u201d, afirma.<\/p>\n<p>De acordo com a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o, as escolas em que os alunos est\u00e3o matriculados oferecer\u00e3o parte dos cursos t\u00e9cnicos, mas a infraestrutura pode comprometer a oferta de op\u00e7\u00f5es para os estudantes.<\/p>\n<p>Para Fernando, as escolas n\u00e3o ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de se adequar para oferecer cursos mais complexos.<\/p>\n<p>\u201cDada a infraestrutura real, o que vai ser oferecido \u00e9 s\u00f3 o que n\u00e3o depende de laborat\u00f3rio. T\u00e9cnico em radiologia, em edifica\u00e7\u00e3o, em eletrot\u00e9cnica, qu\u00edmica, s\u00e3o v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que exigem laborat\u00f3rio, que t\u00eam alguma complexidade. O que essa forma\u00e7\u00e3o pseudot\u00e9cnica vai ofertar \u00e9 a parte te\u00f3rica do curso t\u00e9cnico e os alunos ter\u00e3o de estudar mais um ano depois da escola se quiserem um diploma t\u00e9cnico. N\u00e3o \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o profissionalizante. Mas acreditando que \u00e9, os estudantes v\u00e3o abrir m\u00e3o do conte\u00fado escolar\u201d, diz Fernando.<\/p>\n<p>Segundo a Seduc, mais de 376 mil estudantes do primeiro ano do ensino m\u00e9dio &#8211; 89% do total potencial de respondentes &#8211; da rede p\u00fablica estadual manifestaram interesse no aprofundamento do curr\u00edculo do Novo Ensino M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Com os dados obtidos via Secretaria Escolar Digital (SED), as escolas v\u00e3o definir os aprofundamentos curriculares a serem ofertados a partir de agosto, durante o processo de rematr\u00edcula.<\/p>\n<p>Os recursos ser\u00e3o repassados para as 3,6 mil escolas estaduais de Ensino M\u00e9dio, via Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE-SP). Pelo programa, cada escola recebe a verba e pode direcion\u00e1-la de acordo com a necessidade local.<\/p>\n<p>Desta verba, R$ 150 milh\u00f5es poder\u00e3o ser usados para equipar as escolas em diferentes \u00e1reas do conhecimento. O valor m\u00ednimo para escolas pequenas \u00e9 de R$ 10 mil, mas ele pode chegar a R$ 200 mil para escolas maiores. Cada escola pode dizer no Plano de Aplica\u00e7\u00e3o Financeira (PAF) em que pretende aplicar a verba.<\/p>\n<p>Outros R$ 100 milh\u00f5es ser\u00e3o destinados Laborat\u00f3rio de Ci\u00eancias e os demais R$ 50 milh\u00f5es ser\u00e3o aplicados na aquisi\u00e7\u00e3o de materiais e componentes eletr\u00f4nicos para o trabalho de Programa\u00e7\u00e3o e Rob\u00f3tica, bem como de ferramentas e insumos, como alicates, chave de fenda e equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (EPIs) para que os estudantes possam utilizar esses materiais enquanto constroem os seus prot\u00f3tipos.<\/p>\n<p><strong>Implementa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o censo escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep), de 645 munic\u00edpios do estado de S\u00e3o Paulo, 325 possuem apenas uma escola estadual de Ensino M\u00e9dio. O n\u00famero representa 50,4% do total.<\/p>\n<p>Isso significa que, nessas cidades, a oferta do Novo Ensino M\u00e9dio vai estar restrita \u00e0quela unidade, ou seja, os alunos n\u00e3o ter\u00e3o outras op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cTodos os sonhos, desejos e vontades daquelas meninas e meninos t\u00eam de caber naquela escola daquele munic\u00edpio. Os alunos n\u00e3o v\u00e3o mudar de cidade porque desejam estudar um itiner\u00e1rio espec\u00edfico com determinada forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que n\u00e3o \u00e9 oferecido na escola em que estudam\u201d, afirma Fernando.<\/p>\n<p>As escolas ter\u00e3o de ofertar os cursos de acordo com os crit\u00e9rios que v\u00e3o ser definidos pelo governo do estado, como a capacidade da escola de ofertar com a sua estrutura: sala, laborat\u00f3rio, computador, equipamento, \u00e1rea externa e at\u00e9 o perfil do corpo docente que tenha condi\u00e7\u00f5es de assumir o que os alunos escolherem.<\/p>\n<p>A regra no estado de S\u00e3o Paulo \u00e9 a de que todas as escolas ofere\u00e7am pelo menos os itiner\u00e1rios de todas as \u00e1reas.<\/p>\n<p>\u201cNo fim das contas, a liberdade de escolher com seu protagonismo est\u00e1 limitado a duas coisas: ou fazer o que voc\u00ea n\u00e3o gosta e n\u00e3o escolheu, ou mudar de escola. Em um munic\u00edpio que tem s\u00f3 uma escola, voc\u00ea n\u00e3o tem nem a escolha de mudar de escola\u201d, opina Fernando.<\/p>\n<p>No Brasil, h\u00e1 2.879 mil munic\u00edpios que s\u00f3 possuem uma escola, incluindo todas as etapas, de acordo com o Inep. \u00c9 mais da metade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cEm 2017 quando critic\u00e1vamos a reforma do Ensino M\u00e9dio, a gente usava o exemplo super extremo do Amazonas, em que a dist\u00e2ncia entre duas escolas era de um dia inteiro de barco. Mas voc\u00ea nem precisa ir para o Amazonas. Em S\u00e3o Paulo, mais da metade dos munic\u00edpios s\u00f3 tem uma escola de Ensino M\u00e9dio. Voc\u00ea acha que os estudantes v\u00e3o atravessar as fronteiras do munic\u00edpio para estudar o que querem?\u201d<\/p>\n<p><strong>An\u00e1lise sociol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p>A expans\u00e3o das escolas no Brasil coincidiu com o aumento da urbaniza\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 50 e depois nas d\u00e9cadas de 70 e 80, de acordo com Deborah Cristina Goulart, professora de Ci\u00eancias Sociais do campus de Guarulhos da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp).<\/p>\n<p>\u201cEm todo esse processo, o que aconteceu \u00e9 o que os autores chamam de dualismo, uma parte dessa escola vai sendo ampliada para que os trabalhadores sejam trabalhadores e outra parte vai sendo criada para que uma classe dirigente seja dirigente. A escola quando chega para os pobres \u00e9 para pobres e para que eles continuem sendo pobres. \u00c9 uma reprodu\u00e7\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo D\u00e9bora, esse processo come\u00e7ou a mudar com a Constitui\u00e7\u00e3o de 88, que determinou que a escola precisava ser ampliada e igual para todos. A partir da\u00ed a escola se desenvolveu com a ajuda de pol\u00edticas como o Fundeb e Fundef, que s\u00e3o fundos formado por recursos dos tr\u00eas n\u00edveis da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Brasil para promover o financiamento da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas como essas, segundo a especialista, culminaram com uma mudan\u00e7a no perfil das classes que passaram a entrar nas universidades p\u00fablicas. Em 2021, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a USP teve a maioria de suas matr\u00edculas de alunos vindos da escola p\u00fablica.<\/p>\n<p>Nesse sentido, para D\u00e9bora, o Novo Ensino M\u00e9dio seria um retrocesso.<\/p>\n<p>\u201cNessa reforma voc\u00ea direciona uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o, os mais pobres, para um encurtamento para o mercado de trabalho. Ela n\u00e3o possibilita que esse jovem chegue \u00e0 universidade, seja porque o curr\u00edculo vai ser encurtado em conhecimentos cient\u00edficos seja porque voc\u00ea antecipa que ele v\u00e1 para um caminho do mercado\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cO que n\u00e3o significa que ele v\u00e1 ter trabalho decente. Ele vai ter certificados de 30, 50 horas, dependendo do curso que escolher. Isso \u00e9 um empobrecimento e direcionamento absurdo. Se isso fosse obrigat\u00f3rio para escolas privadas, o mundo j\u00e1 estaria pegando fogo.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com Deborah, h\u00e1 v\u00e1rias pesquisas que mostram como a escola direciona a vida dos alunos.<\/p>\n<p>\u201cEm geral filhos das fam\u00edlias mais pobres s\u00e3o encaminhados para trajet\u00f3rias profissionais. E a escola direciona de uma maneira at\u00e9 cruel. O estudante que tem notas piores n\u00e3o vai para a universidade mesmo, ent\u00e3o assim pelo menos ele arruma trabalho. Como se essa forma\u00e7\u00e3o garantisse trabalho. A diploma\u00e7\u00e3o n\u00e3o cria emprego. Sem pol\u00edtica de trabalho decente, ele vai cair no mercado de trabalho prec\u00e1rio e essa reforma est\u00e1 direcionando o jovem para um mercado de trabalho prec\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Deborah, pesquisas mostram que aumentos significativos de sal\u00e1rio est\u00e3o condicionados a diploma de ensino superior.<\/p>\n<p>\u201cNessa reforma, o estudante fica sem o instrumento da escolariza\u00e7\u00e3o para superar a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho porque ele n\u00e3o teve uma forma\u00e7\u00e3o para que pudesse continuar os estudos. Ele est\u00e1 sendo limitado. As pessoas pensam \u2018ah, pelo menos voc\u00ea abriu possibilidade de trabalhar\u2019. Na verdade voc\u00ea impediu que ele fizesse outro tipo de trabalho quando voc\u00ea o direciona para esse tipo de forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 o contr\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p><strong>Escolas esvaziadas durante mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Para a doutora em educa\u00e7\u00e3o Ana Paula Conti, o fato de estar sendo implementado nesse momento de pandemia com escolas esvaziadas e funcionando parcialmente, \u00e9 o primeiro problema do Novo Ensino M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Segundo ela, as mudan\u00e7as t\u00eam chegado aos estudantes por meio das redes sociais do governo estadual e propagandas de TV, sem abrir o debate para que as fam\u00edlias ajudem os estudantes a tomarem a decis\u00e3o de qual forma\u00e7\u00e3o escolher.<\/p>\n<p>\u201cQualquer reforma educacional precisa ter ades\u00e3o, compreens\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o dos professores, fam\u00edlia e principalmente dos estudantes, porque isso vai afetar diretamente a vida e o futuro deles na forma de ingresso ao mercado de trabalho\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Em nota, a Seduc informou que divulgou os itiner\u00e1rios formativos por diversos canais, sendo pela diretoria de ensino para as escolas, por meio das redes sociais, na m\u00eddia e na secretaria escolar digital para todos os interessados, lives para equipe escolar e professores, por meio dos gr\u00eamios estudantis, inclusive com um canal criado para eles no Centro de M\u00eddias, pela imprensa.<\/p>\n<p>Ana Paula \u00e9 professora do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo (IFSP), que \u00e9 modelo no ensino integrado de forma\u00e7\u00e3o generalista e profissionalizante. Para ela, a forma\u00e7\u00e3o geral \u00e9 absolutamente essencial para qualquer trabalhador porque desenvolve leitura, interpreta\u00e7\u00e3o, escrita e tomada de decis\u00f5es, entre outras habilidades.<\/p>\n<p>\u201cA forma\u00e7\u00e3o geral \u00e9 uma forma de organizar o conhecimento cient\u00edfico de uma maneira que voc\u00ea torna o conhecimento mais acess\u00edvel para as novas gera\u00e7\u00f5es. O mercado de trabalho precisa de um profissional que saiba ler, interpretar um sinal, operar tecnologias. \u00c9 uma forma\u00e7\u00e3o mais complexa.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Ana Paula, o Brasil tem no Programa Nacional de Acesso ao Ensino T\u00e9cnico e Emprego (Pronatec) um exemplo de curso t\u00e9cnico de baixa dura\u00e7\u00e3o. Institu\u00eddo pelo governo federal em 2011, o programa oferece cursos de educa\u00e7\u00e3o profissional e tecnol\u00f3gica para estudantes do ensino m\u00e9dio, trabalhadores e benefici\u00e1rios dos programas federais de transfer\u00eancia de renda.<\/p>\n<p>\u201cO Pronatec em termos de empregabilidade \u00e9 um fiasco. O pouco que o mercado absorve s\u00e3o pessoas com forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida. Por isso que a gente defende que essa forma\u00e7\u00e3o para os jovens tem de ser uma forma\u00e7\u00e3o que articula uma boa base de forma\u00e7\u00e3o geral com uma educa\u00e7\u00e3o profissional consistente de qualidade com carga hor\u00e1rio m\u00ednima\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo n\u00e3o \u00e9 dar esse curso e melhorar a vida dessas pessoas com oportunidades de trabalho? O n\u00edvel de empregabilidade de egressos do Pronatec \u00e9 muito baixo. Um curso de qualidade tem de ter tempo. \u00c9 imposs\u00edvel dar uma boa forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida em tempo recorde, uma coisa est\u00e1 conectada a outra.\u201d<\/p>\n<p>Para Ana Paula, o Novo Ensino M\u00e9dio \u00e9 uma reedi\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o em que uma parte de jovens vai para o mercado de trabalho e vai permanecer em posi\u00e7\u00f5es de baixa qualifica\u00e7\u00e3o e remunera\u00e7\u00e3o, e outra parte vai para a universidade.<\/p>\n<p>\u201cNo fundo o que n\u00e3o est\u00e1 sendo dito? Que n\u00e3o vai ter universidade para todo mundo. O neg\u00f3cio \u00e9 cada um ser empreendedor de si mesmo. Ent\u00e3o a gente vai dar projeto de vida, ensinar resili\u00eancia e inovar, como se fosse poss\u00edvel inovar a partir do vazio.\u201d<\/p>\n<p><strong>O Ensino M\u00e9dio ideal, segundo especialistas<\/strong><\/p>\n<p>Para Fernando, a reforma apresentada pelo governo estadual \u00e9 baseada na ideia de que \u201ca escola \u00e9 muito chata, ultrapassada, e que n\u00e3o tem sentido estudar qu\u00edmica, sociologia\u201d, da\u00ed a necessidade de profissionaliza\u00e7\u00e3o durante o Ensino M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Para o especialista, por\u00e9m, nada vai mudar com o novo curr\u00edculo. Para ele, a mudan\u00e7a teria de ser em dire\u00e7\u00e3o a uma forma\u00e7\u00e3o generalista de qualidade para todos.<\/p>\n<p>\u201cQuem sempre entrou na universidade vai continuar entrando, m\u00e3o vai mudar nada. S\u00f3 muda a superf\u00edcie. Vai continuar sendo uma escola conteudista e proped\u00eautica.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o estou dizendo que \u00e9 bom que seja conteudista, mas com essa reforma, e escola vai continuar sendo igual e diferenciando ainda mais quem tem acesso e quem n\u00e3o tem acesso de jeito nenhum \u00e0 universidade. Esse \u00e9 o ponto. Eu n\u00e3o defendo escola enciclop\u00e9dica, eu defendo escola de qualidade para todo mundo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para Fernando, uma reforma no Ensino M\u00e9dio teria de estimular o jovem \u201cnem-nem\u201d a voltar a acreditar nos seus sonhos.<\/p>\n<p>\u201cPor que existe o jovem &#8216;nem nem&#8217;, que n\u00e3o sonha, que n\u00e3o passa na cabe\u00e7a que ele pode ir para uma universidade? Aquele jovem j\u00e1 \u00e9 mais ou menos convencido ao longo da vida que n\u00e3o tem muito para onde ir. Isso \u00e9 um problema que a escola tem de lidar, mas isso n\u00e3o quer dizer que tem de acabar a escola, tem de ter outros jeitos de induzir, estimular, o jovem a ter planos, sonhar, pensar no futuro\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cA capacidade de sonhar, de projetar o futuro, de prefigurar o que voc\u00ea quer para voc\u00ea, depende de voc\u00ea ter uma forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica boa, criativa, com est\u00edmulo, com leitura. Nenhuma dessas coisas clich\u00eas que t\u00eam esses nomes bonitos de inova\u00e7\u00e3o, protagonismo nada disso \u00e9 sin\u00f4nimo de abrir m\u00e3o de uma forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida.\u201d<\/p>\n<p>Para Ana Paula, a reforma est\u00e1 indo na contram\u00e3o do projeto de colocar mais jovens no Ensino M\u00e9dio.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um retrocesso porque fomos caminhando para ir superando a dualidade hist\u00f3rica ao longo do s\u00e9culo 20 no sentido de ter um Ensino M\u00e9dio de forma\u00e7\u00e3o geral para todos e de prefer\u00eancia que incorporasse a educa\u00e7\u00e3o profissional em uma forma\u00e7\u00e3o integral.\u201d<\/p>\n<p>Ana Paula estudou a expans\u00e3o do Ensino M\u00e9dio de 1991 at\u00e9 2003 em seu doutorado defendido em 2015.<\/p>\n<p>&#8220;A gente foi caminhando para ter um Ensino M\u00e9dio \u00fanico e democr\u00e1tico, com um \u00fanico modelo para todos os jovens. Agora o retrocesso \u00e9 que est\u00e3o voltando a dividir o Ensino M\u00e9dio em uma parte que faz educa\u00e7\u00e3o profissional rebaixada de curta dura\u00e7\u00e3o e provavelmente a boa forma\u00e7\u00e3o de n\u00edvel M\u00e9dio vai ficar para grupos minorit\u00e1rios que ter\u00e3o acesso \u00e0 universidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a reedi\u00e7\u00e3o de uma realidade social que a gente j\u00e1 estava superando. Porque para a gente construir uma sociedade democr\u00e1tica e menos desigual, voc\u00ea precisa construir uma escola mais democr\u00e1tica e menos desigual. Um ensino m\u00e9dio democr\u00e1tico contribui para um Brasil mais democr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Novo Ensino M\u00e9dio anunciado no \u00faltimo m\u00eas pelo governo de S\u00e3o Paulo para o pr\u00f3ximo ano causou cis\u00e3o entre especialistas em educa\u00e7\u00e3o: &#8220;retrocesso feito para manter pobre como pobre&#8221; ou &#8220;solu\u00e7\u00e3o para jovens nem-nem?&#8221;. 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