{"id":1402,"date":"2006-03-06T19:10:00","date_gmt":"2006-03-06T22:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2006\/03\/06\/construtivismo-x-metodo-fonico-telma-weisz-e-fernando-capovilla\/"},"modified":"2006-03-06T19:10:00","modified_gmt":"2006-03-06T22:10:00","slug":"construtivismo-x-metodo-fonico-telma-weisz-e-fernando-capovilla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/construtivismo-x-metodo-fonico-telma-weisz-e-fernando-capovilla\/","title":{"rendered":"Construtivismo x M\u00e9todo F\u00f4nico &#8211; Telma Weisz e Fernando Capovilla"},"content":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de rever os m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o propostos nos PCNs (Par\u00e2metros Curriculares Nacionais) reavivou um debate que op\u00f5e, de maneira ferrenha, construtivistas e defensores do m\u00e9todo f\u00f4nico. Os PCNs orientam o trabalho do professor. Os atuais foram feitos em 1997, sob influ\u00eancia do construtivismo.\u00a0<br \/> O m\u00e9todo f\u00f4nico baseia-se no aprendizado da associa\u00e7\u00e3o entre fonemas e grafemas (sons e letras) e usa textos produzidos especificamente para a alfabetiza\u00e7\u00e3o. O construtivismo n\u00e3o prioriza essa associa\u00e7\u00e3o e trabalha com textos que j\u00e1 fa\u00e7am parte do universo infantil.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Veja trechos das entrevistas do professor do Instituto de Psicologia da USP Fernando Capovilla, defensor do m\u00e9todo f\u00f4nico, e da educadora Telma Weisz, adepta do construtivismo, \u00e0 Folha:\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> <B>\u201cModelo \u00e9 eficaz para fortalecer o racioc\u00ednio\u201c <\/b>\u00a0<br \/> DA SUCURSAL DO RIO \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Folha &#8211; Por que o debate entre f\u00f4nicos e construtivistas \u00e9 t\u00e3o acirrado no Brasil?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Fernando Capovilla &#8211; Descobertas revolucion\u00e1rias com novas tecnologias, como a neuroimagem funcional, refutaram os pressupostos construtivistas e levaram \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o f\u00f4nica que mudou a alfabetiza\u00e7\u00e3o mundial nos anos 90.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Baseados em pesquisas de ponta, documentos oficiais franceses, ingleses e americanos defendem a alfabetiza\u00e7\u00e3o f\u00f4nica e condenam as pr\u00e1ticas construtivistas como nocivas \u00e0 aprendizagem. Declaram que seus alunos, sob o construtivismo, amargaram mais de uma d\u00e9cada de mediocridade, e s\u00f3 prosperaram com o f\u00f4nico. Entre 1995 e 1997, quando o mundo civilizado condenava o construtivismo como lesa-juventude, o Brasil, na contram\u00e3o, o entronizava nos PCNs em alfabetiza\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O establishment construtivista dominou com m\u00e3os de ferro as principais publica\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas ao professorado \u00e0 custa do er\u00e1rio para impor a sua doutrina construtivista.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O resultado dessa aposta cega foi imediato, com fracasso crescente documentado bianualmente pelo Saeb [exame do MEC que avalia a qualidade da educa\u00e7\u00e3o] de 1995 a 2003, e com a vergonha internacional, com a pecha de vice-recordista mundial de incompet\u00eancia, segundo teste da Unesco e da OCDE em 2003.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Folha &#8211; O m\u00e9todo f\u00f4nico j\u00e1 foi utilizado no Brasil, e a repet\u00eancia era alt\u00edssima. Por que voltar ao que n\u00e3o deu certo?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Capovilla &#8211; O m\u00e9todo que o Brasil empregava antes dos anos 80 n\u00e3o era o f\u00f4nico, mas o alfab\u00e9tico-sil\u00e1bico, baseado no ensino repetitivo de s\u00edlabas.\u00a0<\/p>\n<p> N\u00e3o tem nada a ver com o f\u00f4nico, que \u00e9 baseado no ensino din\u00e2mico do c\u00f3digo alfab\u00e9tico, ou seja, das rela\u00e7\u00f5es entre grafemas e fonemas em meio a atividades l\u00fadicas planejadas para levar as crian\u00e7as a aprender a codificar a fala em escrita, e, de volta, a decodificar a escrita no fluxo da fala e do pensamento.\u00a0<\/p>\n<p> O f\u00f4nico \u00e9 inteligente, l\u00fadico e nada mec\u00e2nico. Leva as crian\u00e7as a serem alfabetizadas muito bem em quatro ou seis meses, quando passam a ler textos cada vez mais complexos e variados. Ele \u00e9 t\u00e3o eficaz em produzir compreens\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de textos porque, de modo sistem\u00e1tico e l\u00fadico, fortalece o racioc\u00ednio e a intelig\u00eancia verbal.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O Observat\u00f3rio Nacional da Leitura da Fran\u00e7a e o Painel Nacional de Leitura dos EUA afirmam sua clara superioridade, mas o MEC nunca deu \u00e0 crian\u00e7a brasileira a chance de aprender com o f\u00f4nico e colher seus frutos.\u00a0<\/p>\n<p> Segundo dados de Saeb, OCDE e Unesco, \u00e9 o construtivismo que reinou absoluto e fracassou aqui e no resto do mundo. Ele tem produzido evas\u00e3o e repet\u00eancia escolar anuais de mais de 20%.\u00a0<br \/> No entanto, para mascarar a repet\u00eancia, rebaixou-se os crit\u00e9rios de aprova\u00e7\u00e3o obrigando as escolas a aprovar 60% dos alunos descobertos depois pelo Saeb como absolutamente incompetentes.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Folha &#8211; Cr\u00edticos do m\u00e9todo f\u00f4nico dizem que h\u00e1 o interesse de seus defensores em ganhar dinheiro vendendo cartilhas para governos.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Capovilla &#8211; Sou professor e pesquisador em tempo integral na USP, onde trabalho 16 horas por dia, seis a sete dias por semana. N\u00e3o tenho empresa ou cl\u00ednica particular. Meus livros e palestras em alfabetiza\u00e7\u00e3o t\u00eam renda doada para custear pesquisas. Meu objetivo \u00fanico \u00e9 produzir conhecimento cient\u00edfico relevante em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade e convert\u00ea-lo em tecnologia para melhorar a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Se no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo construtivistas ganharam dinheiro vendendo livros e programas ineficazes de treinamento de professores, e se agora acusam alguns f\u00f4nicos de querer fazer o mesmo, deve ser porque t\u00eam muito medo de largar o \u00fabere governamental.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Folha &#8211; Na maioria das escolas de elite, o m\u00e9todo n\u00e3o \u00e9 o f\u00f4nico. Por que ele seria bom para os alunos da rede p\u00fablica?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Capovilla &#8211; Nas escolas de elite, estudam crian\u00e7as de n\u00edvel socioecon\u00f4mico m\u00e9dio-alto e alto, cujos pais cultos disp\u00f5em dos recursos para estimular os filhos desde tenra inf\u00e2ncia.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> De cada 100 crian\u00e7as do ensino fundamental, 91 s\u00e3o da escola p\u00fablica e vivem num mundo bem diferente. Se sua escola n\u00e3o souber ensinar, n\u00e3o ter\u00e3o outro meio de aprender.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Escolas particulares construtivistas n\u00e3o t\u00eam motivo de emp\u00e1fia, pois, embora posem de imensamente melhores que as construtivistas p\u00fablicas, empalidecem quando comparadas \u00e0s p\u00fablicas n\u00e3o construtivistas do planeta. Afinal, dos 5.000 brasileiros declarados incompetentes pela Unesco e OCDE, parte era dessas particulares. Elas n\u00e3o servem de modelo para a p\u00fablica.\u00a0<\/p>\n<p> A popula\u00e7\u00e3o cuja \u00fanica alternativa \u00e9 a p\u00fablica s\u00f3 estar\u00e1 protegida de um futuro de marginalidade, desemprego e subemprego se a escola for competente em ensinar. Mas, dos 35 milh\u00f5es de crian\u00e7as no ensino fundamental, a cada ano, o construtivismo reprova ou expulsa mais de 7 milh\u00f5es. Contabilizado 25 anos, o tamanho do lesa-humanidade assombra.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> No entanto, n\u00e3o ter\u00e1 sido em v\u00e3o se servir para levar o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o a escolher melhor seus conselheiros e conceder \u00e0 crian\u00e7a o direito de estudar numa escola voltada a compet\u00eancias e capaz de reaprender, com a crian\u00e7a, a arte e a ci\u00eancia de desenvolver compet\u00eancias. Na alfabetiza\u00e7\u00e3o, essa escola \u00e9 a f\u00f4nica.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> <B>\u201cPrograma busca gerar leitores competentes\u201c<\/B> \u00a0<br \/> DA SUCURSAL DO RIO \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Folha &#8211; Por que construtivistas e defensores do m\u00e9todo f\u00f4nico brigam tanto?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Telma Weisz &#8211; A polariza\u00e7\u00e3o que vem sendo estabelecida pelos defensores do m\u00e9todo dito f\u00f4nico n\u00e3o \u00e9 entre estes e os construtivistas. Muit\u00edssimos educadores que n\u00e3o se consideram construtivistas tamb\u00e9m n\u00e3o ap\u00f3iam a id\u00e9ia de que o m\u00e9todo f\u00f4nico seja a solu\u00e7\u00e3o para a alfabetiza\u00e7\u00e3o no Brasil.\u00a0<br \/> Mesmo os que n\u00e3o se v\u00eaem como construtivistas ou que aceitam apenas parcialmente esta teoria reconhecem, ao contr\u00e1rio dos defensores da volta ao m\u00e9todo f\u00f4nico, a import\u00e2ncia das pesquisas e descobertas feitas na \u00e1rea da psicoling\u00fc\u00edstica nos anos 70 sobre o processo atrav\u00e9s do qual as crian\u00e7as se alfabetizam.\u00a0<br \/> Folha &#8211; Estados Unidos, Inglaterra e Fran\u00e7a est\u00e3o priorizando o m\u00e9todo f\u00f4nico. Por que remar contra a mar\u00e9?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Weisz &#8211; O fato de esses pa\u00edses serem mais ricos n\u00e3o significa que devamos importar acriticamente tudo o que l\u00e1 acontece. Estes movimentos de favorecimento do m\u00e9todo f\u00f4nico s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es a movimentos locais anteriores ocorridos nesses pa\u00edses.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Na Fran\u00e7a, onde h\u00e1 uma forte oposi\u00e7\u00e3o ao movimento chamado de leituriza\u00e7\u00e3o, cujo mais importante pensador \u00e9 o professor Jean Foucambert, isso acontece exatamente porque este movimento pregava que a leitura deve ser ensinada sem qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre as correspond\u00eancias entre letra e sons.\u00a0<\/p>\n<p> Nos Estados Unidos, a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 ao movimento conhecido como linguagem total [whole language, em ingl\u00eas], criado pelos ling\u00fcistas Keneth e Yeta Goodman. Este movimento, que se disseminou como um rastilho entre os professores americanos, tamb\u00e9m acreditava que a simples imers\u00e3o no universo dos textos escritos seria suficiente para ensinar a ler e a escrever. N\u00f3s tamb\u00e9m questionamos a falta de import\u00e2ncia que os Goodman davam \u00e0s quest\u00f5es relacionadas \u00e0 compreens\u00e3o da natureza alfab\u00e9tica do nosso sistema de escrita e \u00e0 aprendizagem dos valores sonoros convencionais das letras.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Mas n\u00e3o estamos remando contra a mar\u00e9, apesar do sentimento de inferioridade que faz com que gente que conhece educa\u00e7\u00e3o pelo lado do financiamento, mas nada sabe sobre did\u00e1tica, diga que s\u00f3 somos competentes para jogar futebol e que, para pensar a educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos alternativa a n\u00e3o ser importar. N\u00e3o s\u00f3 id\u00e9ias, mas tamb\u00e9m pr\u00e1ticas, sem considerar seus contextos de origem.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Folha &#8211; O MEC, ao abra\u00e7ar teorias construtivistas nos PCNs, n\u00e3o beneficia autores dessa proposta com a compra de livros e prejudica os do m\u00e9todo f\u00f4nico?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Weisz &#8211; Os PCNs n\u00e3o s\u00e3o obrigat\u00f3rios. S\u00f3 as diretrizes definidas pelo Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que s\u00e3o. Tanto quanto me lembro, elas n\u00e3o assumem o construtivismo nem se referem a cartilhas ou m\u00e9todos. As compras do Programa Nacional do Livro Did\u00e1tico s\u00e3o orientadas pela avalia\u00e7\u00e3o de qualidade produzida por um grupo de professores de diferentes \u00e1reas. Se as cartilhas do m\u00e9todo f\u00f4nico estivessem sendo pedidas pelos professores, elas seriam compradas, mesmo que mal avaliadas.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Quanto a benef\u00edcios auferidos pelos defensores da teoria construtivista, do ponto de vista financeiro, s\u00e3o nulos. Os recursos did\u00e1ticos produzidos para apoiar a forma\u00e7\u00e3o dos professores como o Profa (Programa de Forma\u00e7\u00e3o de Professores Alfabetizadores), entre outros, s\u00e3o gratuitos pois os autores cederam os direitos autorais.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Quando se trata de livros did\u00e1ticos, as cartilhas, algumas compostas de v\u00e1rias brochuras, s\u00e3o muito lucrativas, chegando a custar centenas de reais por aluno por ano. As discuss\u00f5es sobre m\u00e9todos milagrosos costumam ter significativos interesses financeiros por tr\u00e1s.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Folha &#8211; O construtivismo parece funcionar muito bem em escolas particulares, mas, nas p\u00fablicas, n\u00e3o seria melhor adotar o m\u00e9todo f\u00f4nico?\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Weisz &#8211; Eu diria que \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. Para os alunos das escolas particulares, que me desculpem suas esfor\u00e7adas professoras, qualquer forma de ensinar funciona. Eles v\u00eam de ambientes onde a escrita \u00e9 muito presente tanto do ponto de vista da exist\u00eancia de material impresso como das pr\u00e1ticas sociais que a envolvam. S\u00e3o os alunos das classes populares, que estudam na escola p\u00fablica, que sempre fracassaram, e s\u00e3o eles que precisam de um atendimento mais dial\u00f3gico.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Hoje sabemos que nenhuma crian\u00e7a chega \u00e0 escola sem saber nada sobre a escrita. Mas os saberes das crian\u00e7as que v\u00eam de fam\u00edlias usu\u00e1rias da leitura e da escrita s\u00e3o muito mais avan\u00e7ados do que os saberes das que v\u00eam de comunidades pouco escolarizadas. Elas precisam ser introduzidas no mundo da cultura escrita para entender do que o professor est\u00e1 falando quando informa sobre letras e sons. Para estas crian\u00e7as, a escrita \u00e9 um encadeamento de sinais gr\u00e1ficos aleat\u00f3rios e elas precisam trabalhar e pensar bastante sobre este objeto sociocultural para chegar a compreender a rela\u00e7\u00e3o entre letras e sons dentro de um sistema alfab\u00e9tico.\u00a0<br \/> Fazer os alunos compreenderem o beab\u00e1 sempre foi f\u00e1cil para as escolas da elite, mas isso n\u00e3o basta. \u00c9 preciso produzir leitores competentes. \u00c9 isso que as escolas particulares buscam na metodologia construtivista. E \u00e9 isso que queremos para todos, e n\u00e3o apenas para a classe dominante.\u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A decis\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de rever os m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o propostos nos PCNs (Par\u00e2metros Curriculares Nacionais) reavivou um debate que op\u00f5e, de maneira ferrenha, construtivistas e defensores do m\u00e9todo f\u00f4nico. Os PCNs orientam o trabalho do professor. 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