{"id":12858,"date":"2020-12-18T14:52:11","date_gmt":"2020-12-18T17:52:11","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/?p=12858"},"modified":"2020-12-18T14:52:11","modified_gmt":"2020-12-18T17:52:11","slug":"estimular-fala-tato-audicao-e-soneca-na-escola-acelera-alfabetizacao-de-criancas-aponta-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/estimular-fala-tato-audicao-e-soneca-na-escola-acelera-alfabetizacao-de-criancas-aponta-estudo\/","title":{"rendered":"Estimular fala, tato, audi\u00e7\u00e3o e soneca na escola acelera alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, aponta estudo"},"content":{"rendered":"<p>Fechar os olhos das crian\u00e7as e estimular que \u201cenxerguem\u201d as letras com os outros sentidos sensoriais acelera o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. O aprendizado \u00e9 ainda mais eficaz e duradouro se elas dormirem ap\u00f3s as atividades. As descobertas s\u00e3o de um estudo feito por um grupo de pesquisadores ligado ao Laborat\u00f3rio de Mem\u00f3ria, Sono e Sonhos, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e ao Cepid Neuromat (Centro de Pesquisa em Neuromatem\u00e1tica). As conclus\u00f5es est\u00e3o em um artigo publicado nesta quinta (17) na revista cient\u00edfica Current Biology.<!--more--><\/p>\n<p>O estudo, que tem entre seus autores o neurocientista Sidarta Ribeiro, fez um treino multissensorial em crian\u00e7as de 5 a 7 anos de uma escola de Natal, a capital do Rio Grande do Norte, para tentar resolver uma confus\u00e3o visual que o c\u00e9rebro faz na identifica\u00e7\u00e3o das letras e que prejudica o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com apenas tr\u00eas semanas de atividades, o treinamento conseguiu zerar a quantidade de erros que as crian\u00e7as cometem no in\u00edcio da alfabetiza\u00e7\u00e3o e duplicar a velocidade de leitura. Entre os alunos em que foi testado dar um tempo de sono de duas horas ap\u00f3s o treino, o conhecimento adquirido se manteve intacto ap\u00f3s quatro meses.<\/p>\n<p>Pesquisas anteriores j\u00e1 sugeriam que um mecanismo cerebral chamado de invari\u00e2ncia em espelho impede a distin\u00e7\u00e3o entre imagens espelhadas. Apesar de os olhos enxergarem as imagens como diferentes, o c\u00e9rebro as processa como sendo iguais.<\/p>\n<p>Essa confus\u00e3o visual atrapalha a alfabetiza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a crian\u00e7a n\u00e3o consegue distinguir letras espelhadas, como d e b ou p e q. A dificuldade de distin\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m alcan\u00e7a outras letras, por isso \u00e9 comum os alunos nessa idade escreverem algumas delas ao contr\u00e1rio, como s e z.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um comportamento do c\u00e9rebro que est\u00e1 ativo h\u00e1 25 milh\u00f5es de anos e que n\u00e3o atrapalha outras tarefas cotidianas, mas dificulta a alfabetiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 normal que as crian\u00e7as apresentem essa dificuldade em algum momento, mas que vai sendo corrigida conforme aprendem a ler e escrever\u201d, explica Ribeiro, vice-diretor do Instituto do C\u00e9rebro da UFRN.<\/p>\n<p>Segundo o estudo, a distin\u00e7\u00e3o visual melhora conforme a flu\u00eancia na leitura avan\u00e7a. Processo que demora de 2 a 3 anos para ser consolidado. No entanto, os pesquisadores descobriram que o est\u00edmulo com outros sentidos pode acelerar essa capacidade. Com o treino desenvolvido, as crian\u00e7as aprenderam a distinguir as letras com apenas tr\u00eas semanas de atividades.<\/p>\n<p>O estudo foi feito com 102 crian\u00e7as de uma escola de Natal, que foram distribu\u00eddas aleatoriamente em quatro grupos \u2014dois deles de controle, um que fez apenas o treinamento multissensorial e outro que recebeu o treino e depois p\u00f4de dormir.<\/p>\n<p>Com o treino, de atividades di\u00e1rias de 30 minutos durante tr\u00eas semanas, foi verificado que era poss\u00edvel consertar a confus\u00e3o visual. O treinamento consistia em vendar as crian\u00e7as e apresentar as letras espelhadas a elas com outros est\u00edmulos.<\/p>\n<p>Exemplos incluem desenhar na palma das m\u00e3os dos alunos as letras e falar em voz alta os sons que t\u00eam. Dessa forma, outras \u00e1reas do c\u00e9rebro foram estimuladas a entender a diferen\u00e7a entre letras que antes eram processadas pelo sistema visual como iguais.<\/p>\n<p>\u201cO treino que desenvolvemos multiplicou os mapas entres os sistemas cerebrais para assimilar essas diferen\u00e7as. A crian\u00e7a para de depender apenas do sistema visual, que \u00e9 exatamente onde h\u00e1 a confus\u00e3o. Com diferentes est\u00edmulos, ela ganha novas percep\u00e7\u00f5es sobre as letras\u201d, diz o psiquiatra Felipe Pegado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as tr\u00eas semanas, as crian\u00e7as que receberam o treinamento zeraram os erros de confus\u00e3o de letra que cometiam antes, enquanto seus colegas que estavam no grupo sem interven\u00e7\u00e3o continuaram com o mesmo erro e na mesma propor\u00e7\u00e3o inicial, em 75% das vezes que tinham de fazer a distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do treino multissensorial, os pesquisadores tamb\u00e9m separaram um grupo de crian\u00e7as para que pudessem dormir logo ap\u00f3s o treinamento. Outras pesquisas do laborat\u00f3rio j\u00e1 haviam indicado que a soneca na escola ajuda a consolidar o aprendizado.<\/p>\n<p>\u201cNo sono acontecem processos que ajudam o c\u00e9rebro a lembrar melhor, esquecer o que n\u00e3o importa e a reestruturar mem\u00f3rias. Se o sono for logo depois de um aprendizado significativo, h\u00e1 menos interfer\u00eancia e o c\u00e9rebro consegue selecionar melhor o que guardar\u201d, diz Ribeiro.<\/p>\n<p>A pesquisa identificou que, quatro meses ap\u00f3s o fim do treinamento, as crian\u00e7as que tiveram o tempo de sono mantiveram o aprendizado, com \u00edndice praticamente zero de erros na distin\u00e7\u00e3o de letras. No entanto, as que s\u00f3 receberam o treino sem ter tirado uma soneca depois voltaram a apresentar erros, em cerca de 20% das vezes \u2014ainda abaixo dos que n\u00e3o foram treinados.<\/p>\n<p>\u201cDescobrimos que o treinamento funciona porque a discrimina\u00e7\u00e3o visual das crian\u00e7as ficou perfeita e em muito pouco tempo. S\u00f3 que, sem dormir, elas desaprendem depois. Sem o sono, o aprendizado tem curta dura\u00e7\u00e3o\u201d, diz Ribeiro.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, as descobertas trazem contribui\u00e7\u00f5es importantes para o processo da alfabetiza\u00e7\u00e3o, etapa considerada crucial para a trajet\u00f3ria escolar das crian\u00e7as. Al\u00e9m dos resultados r\u00e1pidos e eficazes, as interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o simples e poderiam ser aplicadas em qualquer escola.<\/p>\n<p>\u201cEssa troca que a crian\u00e7a faz atrapalha o aprendizado e pode, j\u00e1 no come\u00e7o da vida escolar, criar uma resist\u00eancia. O aluno tem dificuldade, l\u00ea mais devagar, n\u00e3o compreende o que est\u00e1 lendo e perde o interesse. A interven\u00e7\u00e3o pode ajudar a resolver mais rapidamente essa confus\u00e3o do c\u00e9rebro\u201d, diz Ana Raquel Torres, pesquisadora e primeira autora do trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fechar os olhos das crian\u00e7as e estimular que \u201cenxerguem\u201d as letras com os outros sentidos sensoriais acelera o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. O aprendizado \u00e9 ainda mais eficaz e duradouro se elas dormirem ap\u00f3s as atividades. 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