{"id":103,"date":"2009-09-07T15:45:11","date_gmt":"2009-09-07T18:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2009\/09\/07\/acordo-pode-suprir-carencia-de-livros-em-braille-para-estudantes-com-deficiencia-visual\/"},"modified":"2009-09-07T15:45:11","modified_gmt":"2009-09-07T18:45:11","slug":"acordo-pode-suprir-carencia-de-livros-em-braille-para-estudantes-com-deficiencia-visual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/acordo-pode-suprir-carencia-de-livros-em-braille-para-estudantes-com-deficiencia-visual\/","title":{"rendered":"Acordo pode suprir car\u00eancia de livros em Braille para estudantes com defici\u00eancia visual"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-101\" src=\"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/maria_kerr2.jpg\" border=\"0\" hspace=\"8\" align=\"left\" width=\"110\" height=\"120\" \/>Maria L\u00facia Kerr Cavalcante de Queiroz integra a diretoria da Editora do Brasil e da Abrelivros. Parte de seus esfor\u00e7os no mercado editorial \u00e9 aumentar e melhorar o acesso dos deficientes visuais aos livros. Maria L\u00facia \u00e9 a pessoa que representa a Abrelivros no conv\u00eanio entre a associa\u00e7\u00e3o e a Funda\u00e7\u00e3o Dorina Nowill, entidade que h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas se dedica \u00e0 inclus\u00e3o social das pessoas com defici\u00eancia visual por meio da educa\u00e7\u00e3o e cultura. A parceria prev\u00ea o investimento de mais de R$ 1 milh\u00e3o das editoras associadas \u00e0 Abrelivros na capacita\u00e7\u00e3o de profissionais e poss\u00edvel adapta\u00e7\u00e3o de 500 t\u00edtulos escolares at\u00e9 o final de 2011. O acordo poder\u00e1 suprir a car\u00eancia de centenas de estudantes deficientes visuais que hoje n\u00e3o t\u00eam acesso a livros did\u00e1ticos adaptados em Braille no Ensino B\u00e1sico. Em entrevista a essa se\u00e7\u00e3o, Maria L\u00facia explica a origem e objetivos do conv\u00eanio e aponta os rumos da inclus\u00e3o de deficientes visuais no mundo da leitura.<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: Como surgiu o conv\u00eanio da Abrelivros com a Funda\u00e7\u00e3o Dorina?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>Maria L\u00facia Kerr Cavalcante (MLKC) &#8211; O conv\u00eanio entre as entidades foi feito para atender um d\u00e9ficit muito grande na \u00e1rea editorial de livros did\u00e1ticos em Braille, que \u00e9 muito especifica e requer longo treinamento e experi\u00eancia pr\u00e9via de profissionais em algumas etapas da produ\u00e7\u00e3o. Poucos sabem que a adapta\u00e7\u00e3o de um livro escolar mobiliza uma equipe altamente qualificada e numerosa. S\u00e3o estagi\u00e1rios, assistentes, dois editores (j\u00fanior e s\u00eanior), um controlador de p\u00e1gina, dois revisores (um deficiente visual e um \u201cvidente\u201d, isto \u00e9, uma pessoa capaz de enxergar) e um especialista em editora\u00e7\u00e3o Braille. \u00a0<br \/>\u00a0<br \/>Os editores associados \u00e0 Abrelivros, cientes da falta de profissionais para esse tipo de trabalho, e sensibilizados com as dificuldades de acesso dos deficientes aos materiais educativos, resolveram apoiar a Funda\u00e7\u00e3o Dorina Nowill. O Projeto de Capacita\u00e7\u00e3o, desenvolvido pela Funda\u00e7\u00e3o e financiado pelas editoras ligadas \u00e0 Abrelivros, teve in\u00edcio em 2007 com a meta de atender \u00e0 demanda do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o por esse tipo de material. At\u00e9 2008, o governo federal transcrevia e adaptava os cinco t\u00edtulos did\u00e1ticos mais escolhidos pelos professores das escolas p\u00fablicas de ensino b\u00e1sico em cada disciplina. O acordo vem refor\u00e7ar a capacidade de transcri\u00e7\u00e3o para atingir 500 t\u00edtulos\/ano em 2011.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: Como foi determinado o n\u00famero de t\u00edtulos a serem transcritos e adaptados nesse projeto?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; A meta do conv\u00eanio entre Dorina e Abrelivros foi determinada com base no n\u00famero de t\u00edtulos aprovados para cada programa do governo. Seria uma m\u00e9dia de 500 livros.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: Como \u00e9 destinada a verba de financiamento?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; O valor total do financiamento \u00e9 dividido em valores iguais nos cinco anos do projeto, sendo destinado a gastos com sal\u00e1rios, materiais de consumo e suporte, curso de capacita\u00e7\u00e3o de revisores Braille e administra\u00e7\u00e3o. Devido aos pr\u00e9-requisitos para preencher algumas vagas, a procura n\u00e3o \u00e9 grande. Tanto \u00e9 que no primeiro ano (2007), houve um gasto menor que o esperado.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: Quais os principais desafios encontrados na produ\u00e7\u00e3o de livros escolares adaptados em Braille?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; O maior desafio \u00e9 encontrar os profissionais adequados para o trabalho. Existe uma defici\u00eancia muito grande na quantidade de profissionais com essa capacita\u00e7\u00e3o. O editor j\u00fanior, por exemplo, precisa ter forma\u00e7\u00e3o superior na \u00e1rea de Artes, Biologia, Exatas ou Humanas; conhecimento avan\u00e7ado do Sistema e da Simbologia Braille na disciplina em que \u00e9 especializado, e experi\u00eancia m\u00ednima de 12 meses como assistente editorial. Para um dos cargos de revisor \u00e9 necess\u00e1rio que a pessoa tenha todos os pr\u00e9-requisitos e seja deficiente visual, o que dificulta mais ainda a busca. O editor n\u00e3o precisa ser deficiente visual, mas o revisor sim. As exig\u00eancias devem-se \u00e0 necessidade de alta qualifica\u00e7\u00e3o para a adapta\u00e7\u00e3o de obras escolares, que \u00e9 mais complexa que a transcri\u00e7\u00e3o de outros tipos de livros, pois inclui atividades como a reprodu\u00e7\u00e3o de mapas t\u00e1teis, ilustra\u00e7\u00f5es explicativas (f\u00f3rmulas de matem\u00e1tica, qu\u00edmica etc) e outras indica\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0 acessibilidade da pessoa cega.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: As ilustra\u00e7\u00f5es em Braille recebem tratamento especial nesse processo de adapta\u00e7\u00e3o? Como s\u00e3o feitas?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; Os livros de texto corrido requerem um processo simples de transcri\u00e7\u00e3o. Mas no livro did\u00e1tico \u00e9 necess\u00e1rio dar aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s figuras, como os mapas, por exemplo. Elas s\u00e3o feitas em relevo, com perfura\u00e7\u00f5es sobre os tra\u00e7os, para que as pessoas que n\u00e3o enxergam consigam identificar as imagens com o tato. Al\u00e9m de ter uma figura, que em si j\u00e1 \u00e9 complexa de transcrever devido ao grande detalhamento, \u00e9 necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de um conte\u00fado explicativo para essa imagem, que n\u00e3o existe no livro. N\u00e3o adianta apenas tornar acess\u00edvel a imagem do mapa, \u00e9 preciso explic\u00e1-lo ao aluno. Nas primeiras transcri\u00e7\u00f5es de livros did\u00e1ticos para o Braille, era comum encontrar uma observa\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima ao mapa para que o aluno procurasse o aux\u00edlio do professor. A Funda\u00e7\u00e3o Dorina, entretanto, considera importante que o livro seja o mais completo poss\u00edvel em sua adapta\u00e7\u00e3o. Um livro adaptado \u00e9 diferente de um transcrito, pois se adequa \u00e0 realidade do deficiente visual e n\u00e3o se limita aos conte\u00fados produzidos para os \u201cvidentes\u201d, isto \u00e9, pessoas que n\u00e3o s\u00e3o cegas.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: Os livros escolares s\u00e3o adaptados somente ao Braille?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; N\u00e3o. At\u00e9 2007, os livros did\u00e1ticos encomendados pelo governo eram produzidos em Braille ou eram falados. Nos livros falados, uma pessoa l\u00ea o conte\u00fado e descreve as imagens. Mas quando nos referimos aos did\u00e1ticos, h\u00e1 s\u00e9rias limita\u00e7\u00f5es em apenas descrever uma imagem. O entendimento \u00e9 prejudicado. Ent\u00e3o, em 2008 o governo solicitou tamb\u00e9m livros mistos, textos falados com anexos em Braille, para que houvesse justamente maior compreens\u00e3o das figuras, imagens, mapas. A maior restri\u00e7\u00e3o do livro em Braille \u00e9 o seu tamanho, pois eles s\u00e3o muito volumosos. \u00a0<br \/>\u00a0<br \/>Para outros tipos de livros existem alternativas ao Braille, como os digitais acess\u00edveis, que permitem acesso a textos por meio de softwares que realizam leitura de telas no computador. Eles servem n\u00e3o s\u00f3 para os cegos, mas tamb\u00e9m para idosos com dificuldade de leitura e pessoas com baixa vis\u00e3o. No entanto, para uma crian\u00e7a \u00e9 fundamental o acesso a livros em Braille. Assim como uma crian\u00e7a sem defici\u00eancia deve ser alfabetizada, \u00e9 essencial que uma crian\u00e7a cega aprenda o Braille. Passada a fase de forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante que a leitura seja mais r\u00e1pida e pr\u00e1tica, e j\u00e1 existem v\u00e1rias tecnologias e formatos que cumprem esse papel.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: Quais s\u00e3o os outros formatos para livros acess\u00edveis ao p\u00fablico com defici\u00eancia visual?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; Al\u00e9m do Braille existe o livro falado e o digital acess\u00edvel. Os falados podem usar voz humana ou sintetizada. Embora o processo com voz humana seja mais lento, para o uso da voz sintetizada \u00e9 necess\u00e1rio editar primeiramente o texto para corrigir termos em l\u00edngua estrangeira, abreviaturas, s\u00edmbolos, entre outros. Os livros digitais acess\u00edveis podem estar no formato LIDA ou no formato DAISY. A Funda\u00e7\u00e3o tem todas essas op\u00e7\u00f5es e est\u00e1 sempre buscando otimizar os processos e melhor\u00e1-los para que fiquem mais r\u00e1pidos e baratos.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: Quais os rumos da discuss\u00e3o sobre acessibilidade no Brasil?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; A quest\u00e3o da acessibilidade \u00e9 um assunto que est\u00e1 cada vez mais preocupando o governo, a iniciativa privada e as ONGs, justamente porque de alguns anos para c\u00e1, o governo decretou que os deficientes deveriam estudar em salas de aula regulares. De repente, os professores come\u00e7aram a encarar salas com 30 alunos regulares e dois deficientes, por exemplo. Nessa realidade \u00e9 preciso que esses profissionais estejam preparados e tenham o apoio de material did\u00e1tico adequado.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/>H\u00e1 alguns anos, o governo quis passar a responsabilidade da produ\u00e7\u00e3o de livros em Braille para as editoras. Entretanto, para elas, essa medida n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel devido ao alto custo e \u00e0 demanda relativamente pequena se comparada \u00e0 capacidade de produ\u00e7\u00e3o regular. Um livro de texto leva em m\u00e9dia tr\u00eas dias para ser transcrito, mas se \u00e9 um livro com adapta\u00e7\u00f5es, o tempo aumenta dependendo do grau de dificuldade. A Abrelivros fez as contas em v\u00e1rios encontros com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e o Minist\u00e9rio da Cultura, e mostrou a inviabilidade da produ\u00e7\u00e3o. Houve constata\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre editoras e governo e, como colabora\u00e7\u00e3o, a Abrelivros realizou esse conv\u00eanio com a Funda\u00e7\u00e3o Dorina Nowill.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/><strong>Abrelivros: E quanto \u00e0 Lei do Livro? Como avan\u00e7ar nessa discuss\u00e3o?\u00a0<\/strong><br \/>\u00a0<br \/>MLKC &#8211; Nessa lei, a acessibilidade \u00e9 a quest\u00e3o mais pol\u00eamica. A regulamenta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de livros em formatos universais n\u00e3o est\u00e1 resolvida na Lei do Livro (Lei Federal 10.753\/03), pois h\u00e1 muito a ser esclarecido sobre sua aplica\u00e7\u00e3o concreta. De um lado, h\u00e1 os deficientes que reinvidicam seus direitos. Do outro lado, h\u00e1 a realidade das editoras que n\u00e3o t\u00eam como viabilizar esses conte\u00fados da forma como \u00e9 proposto. A discuss\u00e3o \u00e9 longa e \u00e9 preciso que resulte em uma lei que seja pr\u00f3xima da realidade e tenha condi\u00e7\u00f5es de ser cumprida.\u00a0<br \/>\u00a0<br \/>A quest\u00e3o da acessibilidade evoluiu muito de dez anos para c\u00e1, incluindo o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. A tend\u00eancia \u00e9 que o cen\u00e1rio continue melhorando, mas para isso, \u00e9 preciso empenho de todos para que os deficientes visuais sejam cada vez mais independentes.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria L\u00facia Kerr Cavalcante de Queiroz integra a diretoria da Editora do Brasil e da Abrelivros. Parte de seus esfor\u00e7os no mercado editorial \u00e9 aumentar e melhorar o acesso dos deficientes visuais aos livros. 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