Defensor de abstinência como programa de governo, 'Eu Escolhi Esperar' já prepara livros didáticos

O grupo que prega a abstinência sexual de adolescentes, ouvido pelo ministério de Damares Alves na formulação de políticas públicas, já prepara material didático sobre o tema para escolas.

O movimento estava paralisado até o ano passado, quando foi reativado com a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República e a defesa do governo da abstinência como instrumento para prevenção da gravidez na adolescência.

Criado em 2011, o movimento religioso "Eu escolhi esperar" propunha que jovens esperassem o casamento para ter relações sexuais. Da campanha, que chegou a reunir mais de 3 milhões de participantes, surgiu um instituto, o "Escolhi Esperar", que busca se desvincular do discurso essencialmente religioso.

A nova tônica, em sintonia com a ministra Damares, é a defesa de que se espere passar a adolescência – fase que se estende até os 19 anos de idade, segundo classificações oficiais – para o início da vida sexual.

O fundador do movimento, o pastor Nelson Neto Júnior, passou a ser interlocutor pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos na formulação de políticas públicas pró-abstinência sexual. Ele se reuniu uma vez com Damares em Brasília, no segundo semestre do ano passado, e esteve uma segunda vez no ministério em dezembro, com outras autoridades da pasta.

No dia 6 de dezembro, Nelson Júnior, que é pastor em uma igreja evangélica no Espírito Santo, foi um dos palestrantes de um evento promovido pelo ministério, chamado "Gravidez precoce de crianças e adolescentes". Apenas representantes de organizações de cunho religioso foram chamados para palestrar no evento, realizado no principal auditório da Câmara dos Deputados, o Nereu Ramos.

Ao GLOBO, Júnior afirma que tentou, sem êxito, introduzir em governos passados discussões sobre abstinência sexual de adolescentes. A chegada de um presidente conservador ao poder, segundo ele, permitiu o renascimento do instituto.

O pastor diz que a transformação da abstinência em um projeto, um programa, uma recomendação ou até uma diretriz de governo permitirá uma maior entrada do "Escolhi Esperar" nas escolas brasileiras.

— Ficamos otimistas com a mudança de governo. Já tentamos ações com governos passados e não foi possível. E o "Escolhi Esperar" inspira, sim, o ministério — afirma Júnior.

Políticas de abstinência

Reportagem publicada pelo GLOBO no último dia 3 mostrou que o governo Bolsonaro incluiu a abstinência sexual como uma das frentes adotadas para prevenção da gravidez precoce e sexo seguro entre adolescentes.

O GLOBO procurou a ministra Damares, a secretária nacional da Família do ministério, Angela Gandra, e a coordenadora-geral de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Cecília Pita. A resposta dada pela assessoria de imprensa foi a de que nenhuma das três tinha espaço na agenda para falar com a reportagem.

O Ministério da Saúde segue sem responder aos questionamentos da reportagem. A primeira vez em que perguntas foram enviadas foi dia 12 de dezembro.

Em menos de um ano de governo, a gestão conservadora de Bolsonaro adotou políticas públicas – a cargo principalmente dos Ministérios da Mulher, Família e Direitos Humanos e da Saúde – para estimular adolescentes a deixarem de fazer sexo, uma iniciativa considerada controversa e ineficaz por estudiosos do assunto.

A pasta de Damares formula políticas em defesa da abstinência e passou a programar eventos bancados com dinheiro público para defender a "preservação sexual" por adolescentes.

Já o Ministério da Saúde acabou com a caderneta de saúde do adolescente, como consta em ofício da pasta assinado em julho de 2019. A caderneta existia há mais de dez anos e trazia informações sobre puberdade, sexo seguro e prevenção da gravidez precoce, além de dados sobre vacinação e cuidados odontológicos.

O programa já emitiu 32 milhões de cadernetas durante consultas nas unidades básicas de atendimento. Profissionais que atuam com o Programa Saúde na Escola, uma parceria entre os Ministérios da Saúde e da Educação, relatam um enfraquecimento do eixo do programa voltado a infecções sexualmente transmissíveis e reprodução.

 

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