Para entender as competências gerais da Base (e as socioemocionais)

“Não tenho nenhum talento especial, apenas uma ardente curiosidade”, escreveu o físico Albert Einstein, autor da Teoria da Relatividade. Embora a citação não esteja diretamente relacionada com as atuais discussões educacionais, Oliver John, pesquisador da Universidade da Califórnia, em Berkeley, acredita que a essência dela pode dizer muito sobre as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

“Não há dúvidas de que ele era muito inteligente, mas o ponto principal é que ele estava fazendo isso por meio de atributos positivos, como ser curioso e apaixonado por aprender e compreender fenômenos”, disse Oliver na palestra “A Educação integral e as competências gerais como norteadoras da (re)elaboração de currículos”, que aconteceu no Ciclo de Debates 2018, realizado pelo Instituto Ayrton Senna e Fundação Itaú Social.

Para Oliver, atributos como curiosidade são importantes não apenas na escola, mas na vida. Em linhas gerais, a ambição da Base em suas competências passa pela mesma premissa: mobilizar atitudes, valores, conhecimentos e habilidades que possam estimular as crianças em soluções criativas e criar uma sociedade socialmente mais justa e humana. Para isso, ela prevê não só competências de ordem cognitiva, mas também socioemocionais, que devem guiar o trabalho dos professores ao longo de toda a Educação Básica para o desenvolvimento integral dos estudantes.

“Mas como ensinar as competências socioemocionais? No que elas se diferem de ensinar Matemática ou Inglês?”, questiona Oliver. Para ser um aprendizado efetivo e replicável, uma aula sobre respeito ou empatia não é suficiente. Ou um dia de atividades na escola anualmente. As crianças precisam colocar em prática em seu dia a dia e na interação com os outros. Nesse contexto, os professores são modelos para as crianças, que observam, vivenciam e copiam essas atitudes. “As competências dos professores importam. Porque se eles estão praticando em sala de aula todos os dias e as crianças podem dizer: 'Ah, é isso que é empatia, eu posso fazer isso também'”.

As situações de bullying, tão frequentes na escola, por exemplo, podem ser mudadas sob essa perspectiva. “A análise de casos de bullying diz que precisamos transformar os espectadores em defensores”, diz Oliver. O exercício das competências socioemocionais pode tirá-los da posição de plateia passiva, e fazê-los se envolver ativamente no combate ao bullying. “Eles podem usar a empatia, serem responsáveis e assertivos, defender o que é certo e confrontar os ‘brigões’”, afirma.

Oliver John sugere uma divisão das competências em cinco eixos: abertura ao novo (que se desdobra em curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico), consciência ou autogestão (determinação, organização, foco, persistência e responsabilidade), extroversão ou engajamento com os outros (iniciativa social, assertividade e entusiasmo), amabilidade (empatia, respeito e confiança) e estabilidade ou resiliência emocional (tolerância ao estresse, autoconfiança e tolerância à frustração). “Essas são competências realmente importantes para fazer mudanças em uma sociedade e em sua assertividade”, considera o pesquisador de Berkeley.

Mas quem já se atreveu a se debruçar sobre a Base sabe: são 472 páginas, de uma leitura com muitos termos, conceitos e conteúdos que nem sempre são tão claros na maneira de serem transpostos para a sala de aula. Oliver, no entanto, se propôs a fazer esse exercício. Algumas competências são facilmente identificáveis, como por exemplo, a competência geral 9:

“Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.”

No texto é possível destacar os termos conectados à amabilidade (empatia, respeito e confiança): “exercitar a empatia”, “diálogo”, “resolução de conflitos”, “cooperação”, “promovendo o respeito ao outro”, “acolhimento”, “valorização da diversidade de indivíduos” e “sem preconceitos”.

Outras competências, exigem um olhar mais atento, como é o caso da 2:

“Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.”

  • Termos conectados à curiosidade: “exercitar a curiosidade”, “investigação”, “reflexão”, “formular”;
  • Termos conectados à imaginação criativa (e, consequentemente, abertura ao novo): “imaginação e criatividade”, “elaborar”, “hipóteses” e “criar soluções”;
  • Termos conectados à solução de problemas: “abordagem própria das ciências”, “análise crítica”, “resolver problemas” e “conhecimentos das diferentes áreas”.

Olhando além do exercício feito pelo pesquisador, é possível consultar materiais que já apontam em detalhes esse desdobramento da BNCC considerando ano a ano da Educação Básica. Um deles é o guia "Dimensões e Desenvolvimento das Competências Gerais da BNCC", produzido pelo Movimento Pela Base em parceria com o Center for Curriculum Redesign (acesse aqui). Outra iniciativa é um portal produzido pelo Porvir em parceria com o Instituto Ayrton Senna e que dedicado exclusivamente às competências socioemocionais (confira neste link).

Mas esse trabalho de prática ativa das competências socioemocionais não se restringe aos professores. Se é por meio da observação e convivência que essas competências são desenvolvidas, essa precisa ser uma atitude de toda uma escola. Só assim as intervenções socioemocionais poderão se fortalecer e encontrar maior suporte. “E para isso precisamos formar os professores porque eles vêm de diferentes trajetórias e talvez possam não estar tão preparados para dar suporte para essas situações. Os adultos também precisam aprender essas competências”.

Oliver acredita que, nesse processo, até mesmo os pais ou responsáveis devem ser atingidos. Ele dá o exemplo de um programa que é desenvolvido em algumas cidades da Califórnia chamado “Caixa de ferramentas socioemocionais”. O projeto consiste no aprendizado de 12 ferramentas, como empatia, e as crianças levam esse material para casa para que os pais possam ajudar com as tarefas. “Parte da ideia é que esses materiais possam ser usados pelas crianças para alcançar as gerações mais velhas e incluí-los nessa iniciativa”, conta Oliver. “A BNCC também é sobre respeito, direitos e responsabilidades. Isso significa que nesse longo documento não se incluem apenas competências específicas, mas também valores e objetivos que queremos para nosso sistema educacional”, conclui o pesquisador.



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